
Um dos figurinos femininos despertou a curiosidade da observadora: era uma jovem passante, segurando um sombrinha preta de bolinhas brancas, combinando com um elegante vestido estampado em Petit pois, e luvas pretas e curtas. A encantadora jovem caminhava com bastante desenvoltura pelas calçadas de Copacabana, apesar dos saltos altíssimos de seus sapatos, o chamado salto Luiz XV, observou a curiosa. Este sapato fora criado na França, por encomenda do próprio rei Luiz XV, que devia ser baixinho. Séculos depois, o tal sapato foi ressuscitado, repaginado, virou febre no mundo da moda, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. E no Brasil?
Bem, estamos nos reportando a um cenário dos anos de 1950-1960 Como à época, esse tipo de coisa só se via nos cinemas e não havia cinema em grande parte das cidades brasileiras, novidades como esta chegavam através das revistas oriundas das grandes cidades, como Rio de Janeiro, capital do país, e São Paulo, por exemplo.
Com o rosto colado na vidraça da janela, a moradora do apto 201 estava deslumbrada! Pensou em vestir-se adequadamente, para enfrentar a chuva fina e persistente, e descer, para ver melhor aquele cenário maravilhoso; assim, da calçada de seu prédio, poderia interagir com aquelas pessoas que pareciam saídas das telas do cinema.
E assim o fez Protegida por uma sombrinha, põe-se a olhar mais de perto os transeuntes; notou que o penteado dos homens parecia unanimidade: um topete alto e cabelos muito curtos.
Tão entretida estava a observar a elegância dos homens, com seus ternos e sobretudos impecáveis, que por pouco não esbarrou no que acreditou ser uma miragem: uma loura platinada com cabelos curtos penteados em forma de bobs, com saltos muito altos, e um deslumbrante vestido de veludo colado ao corpo perfeito, passou por ela e sorriu: Marylin Monroe teria saído de Hollywood, para transitar pelo Rio de Janeiro? E a outra mulher que a acompanhava? Cabelos escuros, muito alta e magra, belíssima, com um coque perfeito no alto da cabeça: seria Andrey Hepburn, a famosa “bonequinha de luxo?”
Assim, ainda perplexa, contemplou um clássico Mercedes Benz que passava pela rua transversal, seguido por um modelo incrível, de cor vermelha, sem capota; reconheceu de pronto: era um Cadillac Rabo-de- Peixe!
Não conhecia os nomes dos carros preferidos dos ricos – pensou que precisava ler sobre isto, afinal, gostava de estar sempre atualizada.
Naquele momento sentiu a mão do zelador do prédio onde morava, em seu braço, conduzindo-a ao interior do edifício, para a mesmice de sempre: a chata da cuidadora, a chata da cozinheira, a chata da enfermeira; esta última já estava apreensiva, porque ela descera sozinha do apartamento, sem que ninguém percebesse.
De volta ao seu quarto, um sentimento de acolhimento invadiu –lhe a alma; tão bom! Vestiu o pijama e deitou-se na cama confortável, limpinha e arrumada; então veio-lhe à mente a cena que presenciara há pouco: um fusquinha verde passando em alta velocidade pela rua principal; seria verde, seria amarelo, ou azul? Não conseguia se lembrar. Que pena. Queria ter visto mesmo era um cadillac vermelho rabo-de-peixe.
Cansada, resolveu que não pensaria mais nisto. Puxou o cobertor de lã e aconchegou-se sob ele; amanhã voltaria à janela para ver as novidades.
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Sandra Castiel: professora, escritora, membro efetivo da Academia de Letras de Rondônia
