Sandra Castiel
Era um menino igual a tantos outros da pequena cidade onde vivia com os pais e irmãos, às margens dos caudalosos rios amazônicos. As brincadeiras, como era comum no Brasil dos anos sessenta e setenta, giravam quase sempre em torno de uma bola. Porém, mesmo em uma partida de futebol, no campinho da escola, o menino parava no meio do drible, quando ouvia o som de um avião que passava pelos céus da cidade.
— Omar! Ei, Omarzito, acorda! — Gritavam os colegas, em vão… As vozes se perdiam carregadas pelo vento; a atenção e os olhos castanhos de Omarzito estavam longe, fixos no céu, acompanhando cada movimento do pequeno avião que sobrevoava a cidade. Inebriado, imaginava-se sentado no lugar do piloto, no controle do manche, fazendo piruetas, provocando rasantes sobre o campinho de futebol e acenando para todos. Voar era o seu sonho!
O tempo, um dos encantados da grande Amazônia, vive deitado ao pé das cachoeiras do maior rio do mundo e de seus afluentes. Tal como a força das águas, sua força é demolidora, incessante, turbulenta, irreversível: passa por tudo que existe, passa para todos os seres viventes; seu legado é a efemeridade de tudo o que há. Assim, o tempo passou para o menino Omar, que então já era um homem casado, pai de família e eficiente bancário na cidade onde nascera e crescera.
A rotina de um funcionário de banco, no passado, era igual, dia após dia, mês após mês, ano após ano… Para Omar, passar a vida a percorrer os mesmos caminhos até a aposentadoria, significava caminhar no interior de um túnel sombrio, para um lugar distante, onde o sol não brilhava, onde o céu não era azul, e a vida era nada. E o sonho?
O sonho não havia morrido, só estava à espera do momento mágico que inesperadamente chegou: um avião monomotor, o avião de seus sonhos de menino!
“Todas as pessoas grandes foram um dia crianças — mas poucas se lembram disso.” Foi assim, com a curiosidade de uma criança, que o aviador montou o quebra-cabeça de mil pequenas peças que completavam a bela imagem de um avião e toda a sua engrenagem. E um dia, quando o azul da calmaria cobria o cėu iluminado pelos raios dourados do sol, o piloto finalmente pôde abrir as asas sobre o verde exuberante da mata amazônica. Deixou para trás a monotonia da vida estável e lançou-se em direção ao desconhecido infinito.
O aviador, então, ganhava o pão, voando sobre a Amazônia, deleitando a alma com a visão familiar daquele oceano verde, quase sem fim, dos rios que serpenteiam como veias pulsantes no coração da floresta, no coração de um homem sonhador. Até que a dura realidade da vida, tal como águas insanas, fez com que o sonho resvalasse no precipício da desesperança; sem floresta, sem cores de aquarela, sem o mavioso canto das aves… seus encantos de criança! Foi assim que o aviador chegou à maturidade: doente, tristonho, exausto… E, um dia, partiu deste mundo.
Dizem que, de vez em quando, o som de um avião monomotor voando baixo pode ser ouvido pelas crianças que jogam futebol no campinho da escola, onde jogava o menino cujo sonho era ser aviador.
“Eu sou …
a grama molhada,
sou as botas sujas do barro de todas as pistas da Amazônia,
sou a glissada do final da tarde,
sou o cheiro do blusão de couro,
com as costas gastas e as golas puídas,
do chapéu molhado dos pousos nas cercanias das matas,
sou a face da morte nas cabeceiras de pistas de garimpo.”
Omar Morhy Neto
(1952 -2008)
* Antoine de Saint -Exupéry -O Pequeno Príncipe
