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E agora o que qu’eu faço doutô?

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  Ele era mau e batia nela. Tinha dado graças a Deus o dia que se enrabichou por uma piriguete e foi embora morar com ela na cidade. Não tinha filhos. Vivia sozinha naquele sítio distante, cuidando da roça. Trabalhava de sol a sol, tinha as mãos calejadas. Mas, com o passar do tempo, a solidão doendo, começou a sentir falta do companheiro, do aconchego, e dos carinhos da cama que não tinha mais. As insônias eram frequentes, ficava rolando na cama com o travesseiro entre as coxas. Via o dia clarear. Ainda era jovem, apesar de maltratada. Os dias se passaram, meses e anos. Já estava até conformada, aceitando a solidão. Afinal, pensava, estava bem melhor assim, pois não tinha que aturar os desaforos e as surras que deixavam seu corpo cheio de dor e hematomas. Nesse dia, tinha chegado da roça e se preparava para o jantar quando, ao olhar pela janela, viu entrando na porteira do seu sítio, montado a cavalo, aquela fi gura que muito conhecia. Sim, não tinha dúvida, era ele, o Valadão. Aproximou-se, desceu da montaria e amarrou a corda do cabresto na arvore mais próxima. Estava sujo, com a barba por fazer a dias, e usava um chapéu amarrotado, de abas grandes. Entrou e foi logo pedindo desculpas, estava arrependido. Aquela vagabunda da piriguete não era a mulher que ele pensava. Maria ficou assustada e desconfiada com aquela mudança e arrependimento. Disse a Maria que agora ele seria outra pessoa. Iria ajudá-la na roça e até nos serviços da casa. E afinal, carente e cheia de tanta solidão, acabou aceitando de volta o Valadão. No início até que cumpriu sua palavra, ajudando-a na roça. Mas, aos poucos, voltou a beber e passava os dias deitado na rede armada na varanda e bebendo cachaça. Maria já estava amargamente arrependida de ter aceito de volta aquele traste, principalmente porque tudo voltou a ser como antes. Voltou também a bater nela. Quando não queria ou não podia ir para cama com ele era mais um estupro e mais uma surra que levava. Às vezes ficava tão machucada que não conseguia levantar-se no dia seguinte para ir trabalhar na roça. Não sabia mais o que fazer!… Nesse dia estava bem machucada e cheia de hematomas, mas mesmo assim conseguiu levantar-se para trabalhar na roça, de sol a sol. Já era quase noite quando voltou para casa. Mal chegou e o Valadão foi logo gritando:

— Ô infeliz, vê se apressa logo esse jantar que estou morrendo de fome!         Ou quer levar outra surra? —Já vou preparar tudo, Valadão! Tenha um pouco de paciência, home! Ele estava visivelmente bêbado. E quando fi cava assim, tornava-se mais agressivo e violento. Calada e tremendo de medo, foi para a cozinha. Esquentou rapidamente uma sopa de carne com legumes que já estava pronta.

— Maria, filha d’uma égua! Cadê a porra dessa comida? Acho que tu tá querendo levar outra peia, né?

— Doutô Delegado, eu juro pro senhor que quando eu levei o prato de sopa ele tava sentado na cama e eu tremia mais que vara verde. Mandou que eu puxasse suas botas sujas de barro, o que eu fiz prontamente. A seguir dei seu prato de sopa bem quentinha. Ele tomou umas duas colheradas, cuspiu pro lado e atirou o prato na parede espatifando e derramando tudo! — Sua filha da puta! Isso é comida que tu sirva pro teu macho? Trata de trazer outra comida pra mim agora senão tu vai apanhar de cinturão, sua vagabunda!

— Calma, Valadão, eu vou trazer outra comida em outro prato. — Eu juro pro senhor, Seu Delegado, quando eu voltei com o outro prato, ele tava deitado na cama de peito pra cima, dormindo, roncando alto e espumando pelo canto da boca de tão bêbado! Aí então, peguei a minha trouxinha de roupa e piquei a mula, andei a noite inteirinha sem parar pra chegar até aqui. Tenho certeza que se ele acordasse, dessa vez ia me matar. E agora, o que qu’eu faço doutô?

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