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O TEMPO E EU (Arrancando Pétalas)

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                                                                                                   Sandra Castiel

               Ponho-me a pensar no tempo. No que o tempo fez comigo. Escrevo em primeira pessoa para não afirmar que todas as mulheres da minha geração guardam desencantos. Digamos que todas, não. 
Quase todas.

              Quando o tempo era um jovem e eu era uma flor, ele morava dentro de mim, aguçava-me com sua vigorosa energia e levava-me a alimentar os mais variados sonhos: liberdade, colônias hippies, crianças correndo na grama, viagens por lugares exóticos, palmeiras, cabelos ao vento, homens altos e loiros, homens altos e negros, coisas assim, colhidas das revistas da época.

             À medida que ficava adulto, o tempo, hóspede permanente, acenava com outra gama de possibilidades para minha provinciana vida: metrópoles esplendorosas, capitais do mundo ocidental, jornalismo, comunismo, blá blá blá.

            Vida vivida (quase toda), continuo hospedeira do tempo.

           É certo que ao longo desta convivência (o tempo e eu), vez ou outra busquei alguns desses caminhos. Descobri, então, que meu hóspede perene ocultou-me quão decepcionantes poderiam ser essas buscas: a cada frustação, o tempo arrancava-me uma pétala.

           Um dia acordei e sobre os lençóis estavam todas as pétalas arrancadas pelo tempo (eu era uma flor, lembram?).
           Catei-as amorosamente.

           Percebi que estavam desbotadas, mas continuavam belas. De outra maneira, é verdade. Perderam o frescor, o viço e as cores. Porém, carregavam consigo as marcas da minha vida; sulcos causados pelos momentos de dor e sofrimento, em meio a traços de rabiscos delicados, pelas horas felizes (e foram tantas!), pela percepção do sentido da vida e pelo encontro com o verdadeiro amor.

           E este amor durou a existência inteira.

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