Um dia, em 1917, um barco grande, novo e bonito foi subindo o rio Madeira. Dentro dele havia um grupo de gente. No meio dessa gente havia um homem gentil, de fala mansa e olhar doce. Era o poeta maranhense Vespasiano Ramos.
Ele estava fazendo uma excursão pelo vale do Madeira. Queria conhecê-lo, pretendia ver de perto as belezas do vale para escrever um livro sobre ele.
Vespasiano Ramos estava deslumbrado com tanta beleza junta, quando, de repente, o barco rodeou uma ilha e entrou num remanso, exatamente no lugar onde estavam as palmeiras de açaí, que haviam nascido naquele lugar aberto, ensolarado! Ao fundo estava a floresta. À sua frente, as areias amareladas que cercavam as águas do Madeira que passavam.
O vento balançava as folhas das palmeiras pra lá e pra cá… Era como uma música suave que ninava como embalo de braço ou de rede… Dava até para dormir… Volta e meia os pássaros de várias cores e tamanhos passavam por ali. E continuavam ou paravam… Parecia que as palmeiras ficavam cheias de flores que voavam…
Às vezes a chuva lavava todas as palmeiras e os pingos caiam pelas “franjas” de suas folhas fazendo um barulhinho ritmado: tic… tic… tic…
Quando o sol se refletia nestas folhas lavadas, elas pareciam esmeraldas… As palmeiras em três tempos.
O poeta ao vê-las, se apaixonou por elas e comentou com os outros passageiros que esses vegetais tinham perfeição, suavidade, encanto!
Algumas pessoas apanharam um monte de coquinhos da palmeira e fizeram vinho roxo de açaí, e o poeta tomou com farinha d’água e gostou demais! O vinho do açaí contém muito ferro e é muito nutritivo.
Ele quis ficar naquele lugar lindo o resto do dia… toda a noite… e a próxima manhã… E assim aconteceu.
O poeta do Maranhão teve a satisfação de contemplar três espetáculos de rara e estonteante beleza: um pôr do sol; uma noite de lua cheia e um amanhecer, no vale madeirense.
Vespasiano Ramos observou que com o pôr do sol, a floresta se tornou uma massa escura… O sol, com seus raios amarelos, alaranjados e vermelhos, tingia a copa das árvores e se refletia nas areias e águas do rio.
O desenho foi se formando e o inesperado aconteceu! Mas… aconteceu… o que?
Aconteceu o seguinte:
O sol projetava a sombra da palmeira do açaí nas águas do rio… e, bem destacado, o seu desenho aparecia em detalhes na parte clara do céu que ficava atrás dela… com o seu tronco e amontoados de folhas se abrindo lá do alto… Então, no mesmo tempo, ela estava ali, na terra, na água e no céu!
O poeta não perdeu tempo e fotografou o quadro que o Criador pintara e que seria um dos temas para o seu livro.
À noite, a lua cheia apareceu no céu estrelado… derramava um banho de prata sobre a floresta, o rio e as palmeiras! Uma brisa suave tocava gentilmente suas folhas prateadas…
No céu, estavam a lua cheia e milhões de estrelas… O rio espelhava em suas águas o céu e as palmeiras… Elas estavam ali, no centro de tamanha maravilha! O poeta, emocionado, sentou-se e registrou este cenário com sua arte, usando seus olhos, sua sensibilidade, sua mão, papel e caneta.
Era o segundo quadro que o Criador pintara!
Pela manhã, houve o amanhecer! O sol vagarosamente surgindo atrás da floresta… tingindo o céu de cores deslumbrantes… tornando mais claras as águas barrentas do rio… fazendo as palmeiras visíveis em toda a sua primitiva beleza!
Elas estavam ali como rainhas! O poeta de tão encantado, nem falou… só fotografou mais este quadro que o Criador criara!
Se o poeta Vespasiano Ramos, autor do livro “Coisa Alguma”, não tivesse falecido dias depois, ao chegar a Porto Velho, teríamos certamente um livro muito bom sobre o vale do Madeira, com destaque especial para a palmeira alta, esguia e linda, cujo tronco redondo, fino e reto subia em direção ao céu e folhas verdes, cheias de “franjas” se espalhando lá no alto, como um espanador e flores como buquês firmes ao redor do seu tronco. Seus frutos, em pencas, ocupavam o lugar das flores, quando elas murchavam e caiam.
A palmeira açaí é, sem dúvida alguma, uma das mais bonitas da floresta amazônica.
* Yêdda Pinheiro Borzacov, professora, autora de oito livros e dezesseis coautorias. Membro da Academia de Letras de Rondônia e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia.
