Ao terminar a exposição, já em meio a perguntas e questionamentos dos acadêmicos, uma professora doutora da USP tomou a palavra. Disse que estava admirada, que nunca havia imaginado tanto produzisse e publicasse Rondônia. A admiração da professora, por sua vez, não foi motivo de surpresa para esse que vos escreve. Sabia, desde muito, que Rondônia possui escritores, e bons. Mas sabia também que Rondônia é vista no Brasil como um lugar incógnito, frequentemente confundido com Roraima ou Acre (assim como esses estados também são confundidos com Rondônia).
Enfim, sabia ainda que a mídia nacional publica com grande empenho os problemas do Estado, mas não com tanto empenho os méritos do seu povo. Já o grande magnata da imprensa americana William Randolph Hearst tinha uma frase que dizia mais ou menos o seguinte: o homem quer o bem, mas é fascinado pelo mal. Em outras palavras: se a manchete do jornal de amanhã anunciar que as pessoas estão bem e felizes, certamente venderão esses periódicos menos do que se anunciarem crimes, corrupção, roubo e assassinato. Faz sentido, é parte do instinto de sobrevivência pessoal e coletivo ter mais interesse sobre aquilo que nos ameaça do que sobre aquilo que não oferece perigo. Contudo, algumas vezes temos que mostrar o que produzimos também de positivo.
Foi pensando assim que no mês de março do corrente ano a ACLER e o IHGR entraram em contato com o Secretário de Planejamento de Rondônia, George Alessandro Gonçalves Braga, para propor a ele que o estado se fizesse representar na XVI Bienal internacional do Livro, no Rio de Janeiro, entre 29 de agosto a 08 de setembro do corrente ano.
Ficamos realmente animados com a entusiástica acolhida do Secretário George Braga à sugestão dessas instituições. Se é verdade, como já afirmava no século passado o escritor paulista Monteiro Lobato, que um país é feito com homens e livros, podemos dizer que Rondônia tem ambos, e alguns deles estão governo. A proposta do Secretário recebeu a acolhida do Governador do Estado, Confúcio Moura, como o secretário também escritor. Depois, uma parceria da ACLER, do IHGR e o apoio da UNIR e da Secretaria de Cultura do Estado fizeram o restante.
Parafraseando um nosso ex-presidente, “nunca antes na história” desse estado vimos coisa semelhante. A ideia era que Rondônia fizesse bonito, apresentasse um lado positivo, chamasse o interesse para aquilo que ela realmente é: uma terra de gente honesta e trabalhadora.
Rondônia então fez-se representar na XVI Bienal com um estande, aberto a todos os escritores do Estado. Dezenas de autores participaram expondo suas obras. Escritores iniciantes, como Rose-Mary Medeiros Brito, com a sua primeira obra publicada “Onde está meu coração” e Alexandre Lúcio Fernandes, com seu “Elos no Horizonte”, e veteranos, como a professora Yêdda Borzacov, os drs.
Viriato Moura e Samuel Castiel, que naquele evento lançaram um livro em comum intitulado “Trem Vivo: viagem ao imaginário da Ferrovia do Diabo”, contendo contos, crônicas, poesias sobre a legendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), bem representaram nosso estado. Do interior do estado, escritores como Luiza Marilac Almeida Teixeira de Oliveira, de Ji-Paraná, com o seu “Tempo de Felicidade” e Paulo Cordeiro Saldanha, de Guajará-Mirim, com o seu “O Alferes e o Coronel”, também se fizeram presentes. Foram muitos, e peço desculpas aqui porque não poderei apresentar a todos os que se fizeram presentes com as suas obras àquele estande.
O fato é que o estande foi visitado por um público numeroso. Não era um estande luxuoso, não tínhamos muito a oferecer ao público a não ser saber que em Rondônia se escreve, e se publica. Não podíamos competir com as grandes editoras, nem com os grandes e ricos estados da federação ali representados.
Mas, e isso é o mais importante, lá estávamos, pela primeira vez em nossa história. As pessoas paravam, compravam livros, e perguntavam por Rondônia. Nosso amado torrão, esse pedaço de Brasil que muitos escolheram para construir suas vidas, fez bonito. Os livros expostos foram vendidos, uns mais, outros menos, não importa. O que importa é que agora muitas pessoas que pensavam Rondônia de uma maneira negativa, tem um ponto positivo para pensa-la. Dos contatos que fizeram aqueles visitantes do estande de nosso estado certamente frutos advirão. Soube mesmo de uma norte-americana, representante de uma instituição de seu país que, do contato com o estande do nosso estado decidiu visita-lo, para adquirir um livro de cada autor.
Somos muito prontos em criticar os governos, e nisso temos razão porque os governos existem por causa dos nossos impostos e da confiança neles depositadas ao elegê-los. Mas devemos também elogiá-los quando acolhem, como o Governo de Rondônia o fez, uma proposta como essa. “Não fez mais que a obrigação” dirão alguns, irrestritamente descontentes. Sim, é obrigação do Estado promover a cultura, mas nem sempre ele a promove e, nesse caso, o fez. O Estado, como todos nós, tem seus recursos escassos e encontra-se frequentemente frente a decisão de escolher onde aplica-los frente a um inesgotável universos de demandas. Contra todas as incompreensões e censuras infundadas digo: nesse caso o Governo de Rondônia acertou em cheio, e eu como escritor devo parabeniza-lo e agradecer pela iniciativa.
Porto Velho, 11 de setembro de 2013.
Dante Ribeiro da Fonseca
