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MINHA VIDA – MEU CANTO

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Amizael Gomes da Silva (*)
 
Amizael é meu nome,
Professor a profissão;
Nasci por entre as palmeiras
De Bacabal — Maranhão.
Humanizar é o meu lema,
Lealdade o meu refrão.
 
Sou filho de pioneiros,
Garimpeiro e lavrador
Costurando mosquiteiros
Minha mãe foi onde andou;
Um irmão foi balateiro
E o outro pregador.

Vim para Rondônia criança,
Quando ainda era Guaporé,
Em uma enorme barcaça.
Gente deitada ou em pé;
Peito cheio de esperança,
Coração cheio de fé.
 
Aquela gente do Nordeste
Fez-se ao grande matagal,
Enfrentando toda peste
Da floresta ou pantanal
Onde tudo se investe
No combate à dor e ao mal.
 
Enfrentei ainda menino
Todo sofrimento e dor;
Na malária andei caindo,
Neste assunto sou doutor;
Jà tomei muito quinino,
Remédio reparador.
 
Já remei por muitas águas,
Subi cachoeira, enfim,
Andei o lombo de égua,
Nas veredas dos confins,
Como pacas, jamais…

Do cipó retirei água,
Da raiz do pau também;
Da palmeira quis a alva
Que ó o palmito tem
Comi o fruto da sorva,
Comi carne de moquém.

Já via a morte de pertos,
Agruras e muita dor
Senti fome no deserto
De Vilhena a Roncador
E ninguém passava perto
Quando tudo nos faltou.
 
Já sofri com borrachudos,
Piuns e carapanãs
Onde até os “barrigudos”
Procuravam os socavões
E o tucano bicancrudo
Voava para os sertões

Já morei em pé de serra,
Na mata e no beiradão.
Já trabalhei na taberna
Sujeito a mais de um patrão
Já me escondi em caverna
Fugindo a grande trovão.
 
Lutei muito no trabalho
Que me era oferecido;
Vender pão, cavar cascalho,
Pra não me dar por vencido
Cortei lenha, “quebrei galho”
Como qualquer oprimido.

Na roça plantei legumes,
Fiz “escritas” no jornal.
Da lenha tirei o lume,
Tomei bacaba com sal;
Um homem bom se assume,
Não se assume um homem mau.

Minha vida em menino
Foi de grande sofrimento:
Nem sempre em nossa panela
Fervia o bom alimente:
Da carne, feijão, pepino,
Só se via o adiamento.
 
Comi carne e fiz a boia,
Tomei leite de jumenta,
Já me livrei de tramoia
Botei sempre pela venta,
Aguentei muita pinoia
Que cabra bom não aguenta.

No estudo fui ardente,
Tarefas dei andamento,
E aprendi de repente
Usar do bom argumento,
Sou feliz e independente,
Sem nenhum abaixamento.
 
Da grandeza vivo longe,
E tenho muitos amigos.
Não me troco por um conde,
Sou do pedante inimigo.
O cruel de mim se esconde
Ou briga muito comigo.
 
Eu condeno o magistrado,
Que tolera a injustiça,
Recrimino o soldado
Que não ama a justiças.
Tratantes bem disfarçados
Que não querem andar na liça.
 
O coronel atrevido,
Para mim será desprezado;
O civil comprometido
Por mim será renegado,
O covarde e fingido
Por mim será esmagado.

Aos que ao pobre deprimem,
Dou de rijo nos costados.
O sacrista não se anime,
Em ter-me por aliado
Pra cometer algum crime
Contra o pobre enjeitado.
 
Na defesa do amigo
Leal, bondoso e decente,
Vou às barbas do inimigo,
Me tornando impertinente,
Enfrento qualquer perigo,
Derrubo qualquer patente.
 
Amor, coragem e bonança;
Moral, escola e saber,
Impoluto na estrada que avança;
Zêlo no mandar fazer;
Arrojo contra a matança
Eficiência no dizer
Lealdade e segurança.
(*) Professor, escritor, jornalista, deputado estadual relator final da Constituição Estadual de 1983 e a de 1989. (n. 1941/m.

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