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Nós Mulheres, e a Mamografia

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Quando eu era jovem, e lá se vão várias décadas, não se falava em câncer de mama, claro, e muito menos em mamografia; os seios eram apenas objeto de certo orgulho feminino, jamais de preocupação. Esta existia apenas na ocasião da amamentação, coisa que era normalmente resolvida com os remédios caseiros de então. Enfim, as mulheres morriam de câncer de mama e morriam com a inocência dos ignorantes: o que os olhos não veem o coração não sente.

Em torno dos seios femininos havia uma mística que muito fascinava os rapazes e os homens em geral; afinal, antigamente as mulheres não saíam exibindo seus dotes físicos como hoje (e aí não vai nenhuma crítica, apenas uma observação). Lembro-me de uma amiga de minha mãe, que se referiu ao decote “V” frontal de uma de minhas irmãs mais velhas, dizendo assim: “Lindo decote! Dá pra ver o caminho da perdição!”  Na verdade o “caminho da perdição” era como se chamava uma espécie de vinco na pele  no encontro dos seios provocado pelo sutian.

Pus-me a relembrar essas coisas, na sala de espera de uma clínica de mamografia, local hoje obrigatório para as mulheres, pelo menos para as que tentam se cuidar.  Ali, qualquer magia ou encantamento em torno dos seios vai por água abaixo. O que se vê são muitas mulheres sentadas aguardando, provavelmente tensas, tentando fazer daqueles momentos algo mais leve do que a coisa realmente é. Uma vez ou outra alguém sai amparada lá de dentro, pelo acompanhante, e demonstra estar  meio zonza: o motivo? passou por uma biópsia na mama.Este quadro causa desconforto nas presentes e alguma preocupação (faz parte), mas  afinal  salva vidas.

Quando enfim, após uma espera interminável, chamam seu nome, você veste um aventalzinho aberto na frente, claro, adentra um local gelado e é apresentada a uma parafernália metálica e fria; seus seios, ali denominados mamas, são colocados numa espécie de taça de metal e comprimidos até o limite da máquina, porque o seu limite para o desconforto nessa hora é absolutamente irrelevante; também faz parte, não se acovarde.

A modernidade da máquina, segundo se ouve, é capaz de ver tudo, ou quase tudo que ameace  seus seios, ou mamas, como preferem os médicos. Quando não vê tudo, você ainda tem que passar por um exame complementar: a ultrassonografia mamária. Este para mim é pior, apesar da simplicidade, porque no caso do primeiro exame (mamografia), você ainda pode relaxar no final, e esperar o dia do resultado; no caso do segundo, não tem refresco: a médica (no meu caso) ou o médico fala na hora, com muita naturalidade, afinal isso se constitui na rotina dele:  “Olha, tem um nódulo aqui! Vamos ver se é cisto” (o que é uma boa notícia) ou “Vamos ser se é sólido” (e isso é uma má notícia).

Brincadeiras à parte (há que se levar com uma pitada de humor as coisas sérias da existência), bendita máquina esta da mamografia, pois afinal, quantas vidas já salvou, revelando o câncer de mama logo no início…Que todas as mulheres do mundo possam ter a oportunidade de fazer periodicamente este exame.
Saio pela porta da clínica de mulheres aliviada, e um sorriso me enfeita o rosto ao sentir nos cabelos a brisa da manhã: não é que continuo com as lembranças das mulheres de antigamente, do fascínio dos nossos seios naturais e dos “caminhos da perdição?” Coisas do passado…

Academia de Letras de Rondônia – Esclarecimento

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Abnael Macjhado de Lima (*)

Ao prezado amigo jornalista José Carlos Sá, sobre os conteúdos dos seus artigos “ACLER DO B RACAHADA” e “O PETIT TRIANON CARIPUNA”, presto-lhe os seguintes esclarecimentos:

1º – Não existe a ACLER DO B e nem a tal “Racha”, promovida pelos acadêmicos.

A Academia de Letras existente é a Academia de Letras de Rondônia, instituída pelo idealismo de dezesseis cidadãos e a vontade politica do então governador do Estado de Rondônia, o Professor Ângelo Angelim o qual expediu o Decreto n.º 2881, datado de sete de março de 1986, constituindo um grupo de trabalho presidido pelo professor Raymundo Nonato de Castro, Secretário de Estado de Cultura, tendo como membros os cidadãos Coronel Paulo Nunes Leal, Desembargador Hélio Fonseca e o jornalista Esron Penha de Menezes, com a incumbência de realizar estudos e as devidas providencias para a criação da Academia de Letras, apoiando os intelectuais empenhados nessa realização. Unindo esforços e dedicação à causa, fundaram o silogeu, no dia dez de junho de 1986, tendo por objetivo precípuo congregar os intelectuais de todos os segmentos literários, e científicos propagando a difusão da cultura, em consonância os das demais congêneres desde os seus primórdios, a grega fundada em 387 a.c. por Platão, a francesa em 1635 por Richelieu, a brasileira em 1897, por Machado de Assis e as demais existentes.

A fundação da ACLER e sua trajetória de vinte e nove anos são independentes de qualquer derivação da outras entidades sociais culturais.

2º – o racha e o desmilinguamento da ACLER, tal situação não procede, a Academia encontra-se em sua plenitude, com seu quadro de sócios efetivos completo, também integrando-a dois acadêmicos honorários e sete correspondentes no Acre, Rio de Janeiro, Portugal, Rio Grande do Sul, Guayaramerin, Riberalta e Cobija(Bolívia). A única alteração ocorrida foi a destituição do Presidente e de sua condição de acadêmico, reduzindo-se o quantitativo de sócios de 40 para 39.

As anomalias relativas ao perfeito funcionamento da Academia decorreram da insensatez, da incoerência do Presidente que em publico destratava a entidade e aos acadêmicos.

Como prevenção à deterioração da ACLER, optamos em convocar uma assembleia geral extraordinária, na forma disposta em seu Estatuto e no Regimento Interno, para deliberar sobre a destituição do Presidente e a cassação de sua condição de acadêmico, o que ocorreu no dia 26 de agosto, havendo ele encaminhado uma carta  à assembleia, datada de 24 de agosto, renunciando a presidência e condição de acadêmico.

A alcunha de caripuna calhou muito bem como esses indígenas do alto Rio Madeira, somos persistentes e decididos alcançar nossos objetivos. Eles com audácia se opuseram a invasão de seu território, obrigaram os Collins a desistirem de construírem a ferrovia Madeira-Mamoré acossando seus empregados e ferindo mortalmente o Collins diretor geral. Atacaram em 1909, a expedição da Comissão Rondon no Rio Jací-Paraná matando um dos expedicionários e feriram o médico. Quando se sentiram impossibilitados de oporem resistência aos invasores, refugiaram-se no interior da floresta, sendo dado por extinto.

Porém na década de 1950, reapareceram atacando os seringueiros do alto Rio Jaci-Paraná, persistindo em lutar pela posse de suas terras.

Também nos caripunas fundadores da Academia de Letras de Rondônia, não é qualquer revés que nos fará desistir de mantê-la funcionando desempenhando a atribuição social lhe imposta, ocupando o espaço lhe devido.

(*) Abnael Macjhado de Lima, historiador,  Prof. de História da Amazônia/Universidade Federal do Pará,  Prof. de Geografia Regional/Universidade Federal de Rondônia, Membro do Instituto Histórico e Geográfico/RO, Membro da Academia de Letras de Rondônia

CELEBREMOS

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Elsy Alpire Vaca (*)
 
Hoy que logramos una meta con las manos

Reunidos en acción y pensamiento Imbuidos de emoción y entre hermanos

Compartimos con amor los sentimientos.

 
Culminamos el sueño de un anhelo

Con las luces de nuevas esperanzas

Florece primavera en nuestro suelo

Y se extiende la historia en lontananza Cobija, ciudad de bellas rosas

Inspiración de fragancias y auroras

Nuestro canto en versos y prosas

Constituye dimensión de nuevas horas

Al momento la emoción nos embriaga,

En el pecho mariposas acarician con sus alas

Hay aroma de jazmines, elixir del alma En el nuevo eco  del cantar de hadas.

Llamas tornasoles forman nueva historia

Ángeles que tejen versos en colores

Aportan a las páginas de tu memoria

Aliento y tibieza de antiguos amores.

A Cobija en el altar de su progreso

 En honor de los cristales del pasado,

Y el polen de la luz de este suceso

Recorre las esferas del tiempo nacarado.

 

http://elsyalpire.blogspot.com.br/#sthash.jTTYuY2p.dpuf

 

(*)Elsy Alpire Vaca, acadêmica correspondente da ACLER em Bolívia

QUERÍAN BAILAR…

Elsy Alpire Vaca

 

El loro y el boro

Se pusieron a cantar

Invitaron a la lora

Y no quiso la borá

 Ponerse con ellos a bailar

 Se acordaron de la ardilla

 Corriendo en seguidilla

La fueron a buscar

Para invitarla a cantar

Y en la honda

De la ronda

Cantando y bailando

 Se pusieron a jugar.

(*)Elsy Alpire Vaca, acadêmica correspondente da ACLER em Bolívia

PAI

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Sandra Castiel

 Já ouvi em algum lugar que o dia dos pais foi uma invenção do comércio do passado para vender gravatas. Acredito. Seja lá qual for a origem desta homenagem, a gente acaba meditando sobre o pai que tem ou o pai que teve;  quem é pai acaba também meditando sobre o pai que  consegue ser. Creio que seja assim com a maioria das pessoas. Quanta coisa mudou ao longo das décadas com relação à figura do pai!

Antigamente (e ainda hoje isso existe), a mulher era quase santificada pela maternidade no seio da família. Bastava ser mãe para tornar-se uma espécie de santa, alguém muitíssimo reverenciada pelos filhos, o que era positivo; mas era como se apenas dela emanasse o verdadeiro amor pelos filhos. O mesmo não ocorria com relação à figura paterna, esta é a impressão que guardo da época.  Ao pai cabia o papel de provedor absoluto; a grande maioria dos pais, chamados “chefes de família”, mantinha certo distanciamento dos filhos, aliás, o pai era figura temida pelos filhos porque exercia sua autoridade. Sou levada a crer que esse distanciamento era ideológico-cultural, uma hierarquia cultivada através das gerações pelo senso – comum, a fim de preservar os costumes e os valores da sociedade, manter os filhos nos trilhos. Outra época…

Hoje, o distanciamento no tempo e a maturidade me fazem olhar os pais de antigamente de outro modo; eram homens que evitavam ao máximo demonstrar sua vulnerabilidade; demonstrar fragilidade emocional não lhes era permitido, embora tantas vezes o amor pelos filhos lhes saltasse do peito e não conseguissem segurar a emoção. Afinal de contas, amor é amor, amor de mãe ou amor de pai! E há que se valorizar com total reconhecimento a importância de um pai na vida de um filho: porto seguro, ombro amigo, mão grande e forte que sustenta a da cria nas horas difíceis, inspiração para a vida; e isso se mantém ao longo da existência, mesmo que seus cabelos estejam totalmente brancos, mesmo que seu andar tenha um passo lento e trôpego, mesmo que seu rosto seja marcado pelos anos. É uma pena que tantos filhos só se deem conta disso tarde demais…

Fico a refletir sobre as grandes transformações pelas quais passou a família de um modo geral: o pai deixou de ser provedor único, e a ausência da mulher de plantão no lar levou esse pai a assumir tantas vezes as tarefas domésticas e os afazeres com os filhos. Hoje temos pais separados, pais que compartilham a guarda dos filhos, além de pais que vivem em outras formações familiares. É a modernidade!

Não importa a época em que viveram e que vivem os pais; exceções à parte, todos se igualam no mesmo sentimento que faz seus olhos marejarem, independentemente da idade que tenham: o amor pelos filhos.

Espero que você, meu amado pai, daí de onde está, no céu dos paizinhos que já se foram, receba minha homenagem e meu afeto mais profundo.

Feliz Dia dos Pais a todos os Pais!

O batuque de SANTA BÁRBARA

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Hugo Evangelista da Silva*
 
Atransferência do Batuque de SANTA BÁRBARA para o nosso bairro – SANTA BÁRBARA – foi, sem dúvidas, um fator determinante para sua ocupação conquanto fez-se acompanhar de parte significativa dos membros da Irmandade de Santa Bárbara, que congregava o Terreiro e a Capela aqui instalados, o primeiro a partir do ano de 1944 e a segunda a partir de 1947, na Avenida Joaquim Nabuco, onde permaneceram até o ano de 1972, o que contribui sobremaneira para a ocupação da área. Converge, nesse sentido, a informação da Professora MARTA VALÉRIA DE LIMA, contida em sua Dissertação de Mestrado, intitulada “Barracão de Santa Bárbara em Porto Velho – RO: Mudanças e Transformações das Práticas Rituais”, dando conta, de que:

 “os membros da Irmandade de Santa Bárbara, filiados ao Recreio de Yemanjá, adquiriram lotes nas proximidades do terreiro ou, a exemplo do que ocorreu no Bairro Mocambo, ergueram novos tapiris na propriedade de Dona Esperança”, enquanto, ela mesma, ”mandou construir alguns (tapiris) para receber os seus filhos-de-terreiro e pessoas que vinham das barrancas dos rios e dos seringais em busca dos seus conhecimentos de curandeira e mágico-religiosos”.

Os motivos que levaram à mudança do Barracão de SANTA BÁRBARA foram, também, contemplados na pesquisa da Professora Marta Valéria, que ao analisar as várias razões apresentadas pelos médiuns mais idosos da Irmandade de Santa Bárbara, considerou que:

“o motivo da transferência parece ter sido o fato de que, com o crescimento urbano de Porto Velho, o Recreio de Yemanjá ficou localizado muito próximo ao centro da cidade e assim o som dos tambores passou a incomodar os moradores do “centro”, que residiam nas imediações do mesmo; por outro lado, os serviços de pavimentação e urbanização desta cidade parecem ter alcançado o bairro neste período e provocado o deslocamento do Barracãopara o sítio no qual residia Dona Esperança”. 

Os primeiros instantes que se seguiram à transferência do Batuque de Santa Bárbara para a Avenida Joaquim Nabuco (ano de 1944), ainda, sob a administração de seus fundadores IRINEU DOS SANTOS e ESPERANÇA RITA, foram marcados pela estruturação e adequação do espaço, ocasião em que foram construídos, além do barracão, os cômodos necessários à acomodação dos “irmãos” que acompanhavam o TERREIRO, além do alojamento destinado aos filhos-de-terreiro, para, depois, a Entidade afirmar-se aos olhos dos demais moradores, como “um espaço de cura e diversões”, contando, nesse período, segundo depoimentos colhidos, com o apoio irrestrito da maior autoridade do Território Federal, o Governador Aluízio Ferreira, segundo alguns, grande admirador e praticante dos trabalhos que ali se realizavam.

Os anos seguintes – 1945-1947 – foram, entretanto,particularmente penosos para os membros da Irmandade de SANTA BÁRBARA conquanto tenham amargado momentos de indiscutíveis sofrimentos, sendo eles envolvidos, já ao início do primeiro ano – 1945 – em um lamentável incidente: Conta-se que, por ocasião de uma das sessões de festejos que acontecia no Batuque de Santa Bárbara, apareceu no TERREIRO um jovem oficial do Exército, chamado Fernando Gomes de Oliveira, o Tenente Fernando, que acompanhado de outros militares de patente inferior, resolveu, numa atitude intolerante e assaz grosseira, pôr fim às atividades que tomavam lugar no barracão. Proferiu, ao início de suas brutalidades, uma enorme quantidade de palavrões e indizíveis ofensas, inclusive raciais, às pessoas presentes aos trabalhos em andamento, até quando, manifestada pequena resistência de alguns membros da Irmandade, insuficientes a uma reação mais enérgica considerada a superioridade física dos militares, foram violentamente agredidos enquanto os instrumentos do TERREIRO – atabaques/tambores – foram todos perfurados, quebrando-se, em seguida, as imagens e outros adornos que guarneciam o salão. Tentou o Tenente, ainda, atear fogo ao barracão, o que só não aconteceu porque era coberto de palhas – muito comum àqueles tempos – e como havia chovido torrencialmente, estava com sua cobertura bastante molhada, o que impediu que o Tenente, apesar das várias tentativas, atingisse o seu objetivo. Dizem mais: no afã de impedir a ação do militar, “mãe” Esperança Rita, dona do Terreiro, dirigiu-se a ele suplicando-lhe que cessasse sua fúria ao que teria, por isso, recebido alguns “sopapos” que a levaram ao chão. Ao levantar-se e verificar os estragos patrocinados pelo Tenente – sem forças para enfrentá-lo – teria dito, em lágrimas e com voz branda: “Meu filho, você é muito forte para mim, mas logo haverá quem se encarregue de ti!”

Aprofecia feita por “mãe” Esperança Rita, àquele instante de desespero e dor – verdadeira sentença de morte, no dizer das pessoas que presenciaram a truculência do Tenente Fernando – viria a se confirmar no dia 29 de julho de 1945, um domingo, na localidade de São Pedro, a aproximados sessenta kilometros de Porto Velho, onde estava acantonada a 2ª. Companhia Rodoviária Independente, quando, ao amanhecer, o Tenente Engenheiro decidiu empreender uma caçada e, ao caminho, buscando matar um inhambu que gorjeava a pouca distância do alojamento, adentrou a mata e nunca mais voltou. Encontrei antigos moradores que tendo presenciado a violência praticada pelo militar naquela terrível noite e a firmeza das palavras da mãe-de-santo, proferidas ao momento de horror, afirmem convictos que os dois lamentáveis incidentes guardam estreita correlação. Conversei com outros, entretanto, que preferem desacreditar a vinculação entre os dois episódios, por achar que essa hipótese tenha sido apenas um factoide criado para tumultuar as investigações e impedir a descoberta dos verdadeiros culpados pelo sumiço do militar. Para os mais céticos, trago aqui, por oportuna, a certeza de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, diante da estranheza de Horácio – personagens de Shakespeare – que nos assegura: “Existem mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”.

Esse infeliz episódio mereceu de parte das autoridades locais e de alguns moradores, quiçá pela comoção criada, diferentes versões: a) o oficial teria sido sequestrado pelos índios Boca-Negra para servir de reprodutor e apurar a raça da tribo; b) o oficial teria se perdido na mata e, por isso, ficado louco; c) o oficial teria sumido num buraco da selva; d) o oficial teria sido vítima de um atentado por pessoas ligadas ao Governador do Território; e) o oficial teria sido vítima do ataque de algum animal; e, f) o oficial teria sido jogado num rio, amarrado a uma pedra.

Oano de 1946 seria marcado, também, por incidentes extremamente desagradáveis acontecidos à IRMANDADE Santa Bárbara: primeiro, ofalecimento de um dos fundadores da Entidade, o “Seu” IRINEU DOS SANTOS, ocorrida logo ao início do ano – 06.01.1946 – do que decorreu a suspensão dos trabalhos do Batuque pelo período de luto, que se prolonga por 01 (um) ano, com o reinício de suas atividades somente no ano seguinte – 1947 – quando já investido na condição de Pai-de-Terreiro “seu” ALBERTINO BARBOSA DA SILVA, o “pai” Albertino, que enfrentou, aos primeiros momentos de sua gestão, enorme rejeição à conta de uma suposta homossexualidade, o que precipitou uma cisão da IRMANDADE de Santa Bárbara, que assistiu à transferência de vários de seus membros para o Terreiro de São Benedito, o Samburucú, fundado por Dona Chica Macaxeira, ela mesma uma filha-de-santo de “mãe” Esperança Rita e maior incentivadora da cizânia; depois, a exoneração do Governador do Território Federal do Guaporé, o Major Aluízio Ferreira – acontecida a 07.02.1946 – e sua substituição, nessa mesma data, pelo Tenente Coronel Joaquim Vicente Rondon, o que incomodou sobremaneira a Irmandade à medida que via afastada do poder uma autoridade que sabidamente era simpático às atividades desenvolvidas no Terreiro de SANTA BÁRBARA, e, por fim, a chegada do novo Bispo de Porto Velho, D. João Batista Costa, empossado no cargo em Março de 1947, quando, em seguida, deu início a uma violenta campanha de perseguição aos cultos afro-brasileiros, tanto por intransigência e crenças pessoais quanto por cumprimento às orientações e determinações eclesiásticas superiores, o que culminou com a dissolução da IRMANDADE de Santa Bárbara e o fechamento da Capela – em agosto de 1947 – sob a alegação de que “… de algum tempo a esta data a Irmandade vivia em contraposição com todos os artigos dos seus estatutos”. 

Aperseguição aos cultos afro-brasileiros e suas práticas ritualísticas promovidas pelas autoridades católicas – sobretudo para com a Irmandade de Santa Bárbara – fora de uma intolerância tão repulsiva que chegou a produzir “opiniões” as mais abjetas, como a feita pelo então Padre e historiador regional VITOR HUGO:

“Essa irmandade, em Porto Velho, foi sempre insubordinada às autoridades eclesiásticas e, após repetidas admoestações, terminou por fazer as festas anuais, primeiro sem o sacerdote, e, atualmente, tudo se reduz a um vulgar batuque frequentado por pessoas sem categoria moral”.

(Vitor Hugo, 1991, II VOLUME, Pg. 28).

Adecisão episcopal, entretanto, não intimidou os membros da então Irmandade de Santa Bárbara, que com sua extinção criaram uma sociedade beneficente, conforme nos afiança a Professora MARTA VALÉRIA DE LIMA, em trecho contido em sua dissertação de Mestrado:

“Apesar das medidas oficiais da Igreja, o grupo comandado por Dona Esperança não acatou as determinações do Bispo, reabrindo a Capela em um dos prédios do conjunto arquitetônico do terreiro e dando continuidade às suas atividades religiosas e beneficentes com uma nova razão social, a de Sociedade Beneficente de Santa Bárbara.”

Os constantes acontecimentos desagradáveis, tais como os ocorridos aos primeiros anos da transferência do Batuque de SANTA BÁRBARA para a Avenida Joaquim Nabuco, viram-se cessados a partir dos anos finais da década de ’40 – 1948 a 1950 – verificando-se, a partir desses anos, uma acomodação das forças contrárias aos trabalhos da SOCIEDADE, quando o Terreiro de YANSÃ passou, então, a ser visto pelos moradores de Porto Velho como “um espaço de cura e de lazer”, passando a ser considerado como uma opção de passeios e de entretenimento aos demais moradores de nossa cidade, sobretudo, nos períodos das festas dedicadas a YANSÃ e OXÓSSI que aconteciam, regularmente, no período compreendido entre 26 de novembro e 20 de janeiro, de todos os anos.

Nos anos em que permaneceu na Avenida Joaquim Nabuco – 1944 a 1972 – o Terreiro de SANTA BÁRBARA foi, sem dúvidas, a nossa referência maior. Para nós moradores, era visto como um espaço para aonde acorríamos todos nós em horas de necessidades ou de incontido desespero à busca do conforto precisado. Por isso, supõem-se, os festejos que tomavam lugar no Barracão por conta das celebrações em louvor aos nossos santos padroeiros – SÃO SEBASTIÃO e SANTA BÁRBARA – sempre tenham merecido uma participação significativa de nossas gentes. Diga-se, ademais, que o envolvimento de nossos moradores nas festividades que ali tomavam lugar fazia-se à revelia do credo religioso de cada um, razão pela qual os eventos festivos sempre foram muito esperados por todos nós, o mesmo acontecendo com as outras atividades realizadas em atendimento ao calendário profano, sobretudo o carnaval, e as brincadeiras relativas às festas juninas.

Destaque-se, ademais, que o Terreiro de SANTA BÁRBARA foi, para muitos de nossos moradores, um espaço de trabalho e renda para aonde eles acorriam à busca dos recursos necessários ao sustento próprio e de suas famílias, o que se fazia, geralmente, através de uma “banca de comidas” que era colocada nos arredores do BARRACÃO para ali serem vendidas as diversificadas iguarias regionais – os bolos, os mingaus, o tacacá, a tapioca, o mungunzá e o cafezinho, para ficar em alguns poucos exemplos – às pessoas presentes ao momento da realização das festas. Ressaltamos, entretanto, que o tradicional “churrasquinho de gato” hoje tão comumente presente às festas populares não compunha o rol de acepipes vendido nas bancas instaladas na área periférica do Terreiro de YANSÃ, quer seja pela escassez da carne bovina em nossos açougues; quer seja pelo desconhecimento de nossos moradores das qualidades nutritivas e afrodisíacas presentes na carne de nossos bichanos.

Ao início dos anos ’70 – 1971 e 1972 – o Batuque de SANTA BÁRBARA mergulharia em nova crise, consequente do falecimento da mãe-de-santo d. ESPERANÇA RITA e da decisão de seus filhos adotivos em vender o imóvel onde estivera edificado o TERREIRO de YANSÃ, quando, então, o corpo diretivo do Batuque, tendo à frente “seu” Albertino Barbosa, viram-se obrigados a uma nova mudança da, agora, ASSOCIAÇÃO BENEFICENTE SANTA BÁRBARA que transferiu suas instalações – em 1972 – para a Rua Venezuela, no bairro Nova Porto Velho, vindo, anos depois, a ser transferida para o bairro Vila Tupy – 1986 – aqui em nossa cidade, onde permanece até os dias atuais.

 

* Advogado, escritor e memorialista, conta histórias que viu ou ouviu sobre nosso estado, nossa cidade e do bairro em que nasceu e reside: o Santa Bárbara. e-mail: [email protected]    

Dos RELÓGIOS e da PONTUALIDADE

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Hugo Evangelista da Silva*
 

Os relógios de pulso foram, aos tempos de minha infância, o meu sonho de consumo. Comparo aquela obstinação à que muitos dos jovens de hoje devotam aos telefones móveis mais sofisticados – os chamados “i-phone e smartphone” – que lhes levam a formar gigantescas filas à entrada das lojas de departamentos na busca desesperada de comprar o lançamento da hora. Lembra-me, daqueles tempos, a crise de ciúmes que me abateu certa noite quando ao sairmos a passear no arraial que acontecia na igreja do bairro – a Nossa Senhora das Graças – meu pai, atendendo ao pedido de meu irmão mais velho, permitiu-lhe que desfilasse garbosamente com o seu relógio ao pulso. Senti-me demasiado preterido e fiz, àquele instante, uma promessa a mim mesmo: “um dia, quando bem remunerado, haveria de dar-me o relógio mais bonito do mundo!”

Anos mais tarde, eu ainda um pré-adolescente – com idade ao redor dos quinze anos – tive concedido, por meus pais, o direito de sair sozinho à noite e vislumbrei na autorização a oportunidade de reparar a ”enorme injustiça” outrora sofrida. Digo-lhes: Sabendo que meu pai tirava do pulso o seu relógio à hora de dormir, esperei a ocasião de seu sono para apossar-me do “objeto do desejo”, para, colocando-o em meu pulso, desfilar entre os amigos na festa que tinha lugar na mesma igreja do bairro. N’algum momento alguém me pediu pelas horas e ao buscar atendê-lo fiz uma constatação que me apavorou: os ponteiros do relógio estavam parados! Voltei correndo para casa, acertei as horas, pus o relógio de meu pai no lugar onde o havia alcançado e fiquei a imaginar o ”pito” que ouviria no dia seguinte, o que, para minha surpresa, não aconteceu. O relógio, de certo, haveria de ter voltado à sua normalidade, presumi!

Ao tempo do meu primeiro emprego o sonho de consumo juvenil, acalentado por tanto tempo, já não integrava mais a lista de minhas prioridades. Essa a razão pela qual não sei precisar o momento exato em que comprei o meu primeiro relógio de pulso. Posso afirmar à margem de qualquer dúvida, entretanto, que todos que adquiri conduziram-me à mesma decepção final: funcionaram por um breve tempo, para, em seguida, sem mais nem menos – atrasaram-se nas horas ao início, para, depois, travarem seus ponteiros! Depois de tantas frustações e desnecessários estipêndios financeiros entendi conveniente desistir dos relógios!

Dia desses tentando colocar ordem a velhos alfarrábios encontrei um surrado diário de viagem no qual eu havia grafado em alguma de suas páginas: “Data: 09.05.2009 – a viagem entre Paris e Genebra passa por Lausanne, com chegada prevista para as 12:00hs. Dali rumaríamos ao destino final, com partida fixada para as 12:17hs. O TGV chegou e partiu – incrivelmente! – quando o relógio instalado à plataforma da gare marcava 12:00 e 12:17hs, respectivamente, nem mais nem menos”.

Aquela leitura trouxe-me à lembrança mais uma de minhas tantas teimosias. Conto-lhes:

Quem for a Genebra, em primeira visita, saltar-lhe-á aos olhos, certamente, a expressiva quantidade de relógios, colocados às ruas ou afixados à frente das lojas. Dentre algumas e com muita frequência, destaca-se uma marca muito comercializada em nosso país, a quem os publicitários nacionais resolveram por chamar seu relógio, em comerciais, de “o suíço mais pontual do mundo!”. Não há uma só esquina em que não sejam avistados relógios a indicar, com invejável pontualidade, as horas do dia. Não se tem motivos, estando-se em cidades suíças, para se “perder das horas”.

Ao fim da visita resolvi – como de regra – comprar algumas lembranças para presentear aos amigos mais próximos ao instante de meu regresso. Por sugestão da amiga que ali me ciceroneava – a Maria Vitória – comprei algumas peças de cutelaria, alguns artesanatos e variados chocolates. A minha sabida incompatibilidade ao uso dos relógios de pulso, contudo, não evitou que me encantasse com um belo exemplar do aqui chamado “o suíço mais pontual do mundo” e, não resistindo a seu encanto, o comprei.  Coloquei-o no pulso momento antes de iniciar o percurso de volta e ative-me aos trâmites alfandegários, para, logo depois, embarcar no TGV que me levaria a “cidade luz”. Durante a viagem, que leva horas, detive-me a apreciar a paisagem e não me ocupei do relógio, só o lembrando ao chegar ao Hotel. Ali verifiquei – surpreso – que o meu “suíço” não era “o mais pontual do mundo”, seus ponteiros situavam-se aquém das horas. Mais uma decepção!

Faz tempo fui presenteado por um amigo e cliente – o Ernesto – com um relógio de pulso de singular beleza. Era um moderno exemplar da afamada marca suíça. Por precaução não ousei sequer colocá-lo no pulso. Ao receber, olhei-o, agradeci ao amigo e mantendo-o no belíssimo estojo que o acomodava, guardei-o numa gaveta. Sabendo da enorme simpatia que nutre meu filho – o Emanuel – pelos relógios de pulso, aguardei uma ocasião apropriada e dei-lhe de presente. Sempre que o visito – ele mora em Manaus – peço-lhe notícias sobre o presente, sobretudo sobre sua pontualidade, e recebo de sua parte muitos elogios. Dia desses, em visita a meu primogênito varão, verifiquei que ele tinha ao pulso outro relógio ao que, incomodado, perguntei-lhe: “O relógio que te dei quebrou? Ele respondeu-me: “Que nada! Aquele é muito especial! Eu só o estou usando em ocasiões igualmente muito especiais!”

Ao tempo em que me dispus a escrever esta crônica busquei encontrar – na “maior enciclopédia do mundo” – uma resposta capaz de explicar essa minha inconveniente capacidade de danificar relógios de pulso. Dentre poucas que encontrei duas chamaram minha atenção: uma, com singelo ranço científico, leciona: “O ritmo do coração é muito lento, ou muito rápido, algumas pessoas possui mais negativos ou positivos magnéticos no corpo ou ainda tem muita eletricidade. O magnetismo e a eletricidade é um fator normal em cada individuo. Faça um simples experiência, se (em) um cidadão não funciona o relógio, deixe ele ficar descalço na grama, molhada e verá o relógio funcionar, se for a pilha ou bateria. Em caso for a corda idem, é só dar corda. Não estou brincando, vera, funciona”;e outra, com viés religioso, garante: “Encapetamento, do relógio ou da pessoa. Leva os dois na IURD para desencapetar”. Com a saúde um tanto fragilizada, a ponto de comprometer minha prática literária, decidi: Preciso, com urgência, consultar um cardiologista! Ou, quem sabe, adotar a segunda opção. Cruz, credo!

* Advogado e memorialista, conta histórias que viu ou ouviu sobre nosso estado, nossa cidade e do bairro em que nasceu e reside: o Santa Bárbara. E-mail:[email protected]

Eu, sambista!

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Hugo Evangelista da Silva*

A história tantas vezes dita pelos compositores do genial “Samba de Orly” dando conta da participação do, também genial, poeta Vinicius de Moraes na composição dessa obra-prima é de toda singular. Conto-lhes: O encontro que incluiu o poeta na autoria da composição aconteceu quando o samba já estava pronto. Assim, apresentaram-lhe a letra da música e com ela o pedido de que ele – Vinicius – acrescentasse ali mais algum verso. O “poetinha” tomou do papel, leu os versos já escritos, e em seguida propôs a substituição do verso que dizia: “Pede perdão pela duração dessa temporada … “ sugerindo ao seu lugar o verso que acabara de compor: “Pede perdão pela omissão um tanto forçada … “ ao que os compositores – Chico e Toquinho – aquiesceram. Refeita a letra, encaminharam o samba ao crivo do censor de plantão, conquanto estivéssemos em tempos de exceção, que ao ler seus versos decidiu-se por “censurar” justamente a frase substituta do poeta, voltando o samba ao status quo anterior. Detalhe: A participação de Vinicius na composição do samba, entretanto, restou mantida por seus colegas!

Guardadas as devidas proporções, ouso dizer que a mim aconteceu algo similar!

Digo-lhes: Faz algum tempo, ocorreu-me encontrar num fim de tarde um dos mais produtivos sambistas do bairro – Santa Bárbara – que por seus reconhecidos méritos, integra em posição privilegiada a ala de compositores de nossa Escola – minha queridíssima ASFALTÃO – e transita com inigualável desenvoltura em meio as demais co-irmãs de nossa cidade, sendo, por isso, convidado ocasionalmente a compor seus sambas de enredo. Nos momentos de folga, nosso sambista, instala-se na acolhedora calçada do “bar do CALIXTO”, onde possui cadeira cativa, e, aproveitando-se do frescor da brisa soprada morro acima a partir do nosso rio madeira, entre uma prosa e outra ou um gole e outro, encontra a inspiração que lhe falte à composição de seus sambas. Refiro-me ao singular Mávilo Melo!

Naquele encontro, cumpridas as formalidades que recomendam sua boa educação, convidou-me a sentar-me à mesa e mostrou-me a sinopse que lhe fora passada por uma Escola de Samba com o pedido de que ele compusesse o samba de enredo que, naquele ano, haveria de embalar o desfile da Escola na “avenida”. Li o documento em rápidas vistas e ao concluir a leitura, perguntei-lhe: “Vais fazer o samba?” Ele respondeu-me: “Está quase pronto!” Em seguida, tomou de alguns papeis que, em tintas ainda frescas, guardavam os versos que ditariam o samba encomendado, e pediu-me: “Faça suas considerações!”

Confesso: Fui tomado de grande surpresa, eis que jamais tivesse vislumbrado em mim quaisquer atributos de sambista e, já estava a ponto de recusar a empreitada, quando então meu dileto compositor, do alto de sua apurada sensibilidade e arguta perspicácia, observou: “Por favor, não me evites o pedido! Sei que vc tem conhecimentos de causa para agregar mais qualidades a este samba!”. Aquiesci e iniciei, então, uma re-leitura da sinopse, para, em seguida, ocupar-me com mais vagar dos versos do samba. Concluídas as tarefas, fiz alguns comentários e sugeri a inclusão de mais algumas linhas a fim de dar o merecido destaque a alguns de nossos deliciosos pratos típicos – o enredo da Escola ocupava-se do centenário de nosso município – ao que o sambista, anuindo às minhas considerações, as anotou com o devido cuidado.

Passaram-se mais alguns dias e, em outro fim de tarde – avistei – lá estava o compositor na mesma calçada do “bar do Calixto”, ocupando a mesma mesa, rabiscando – quem sabe? – mais alguns versos que moldariam o seu próximo samba. Quando, ao avistar-me, sinalizou a mim para que me aproximasse, e assim o fiz. Conversamos trivialidades e, de repente, mostrando-me uma folha de papel, disse-me: “Aqui está o nosso samba! Veja se agora está do seu agrado!” Essa a maior surpresa! Questionei aquele “nosso” porquanto não divisasse razões para pegar carona no primoroso trabalho do sambista à conta de singelos comentários, feitos mais em razão da admiração e do apreço que devoto ao nobre amigo do que pelas eventuais qualidades de compositor, que reconheço não as possuir. O sambista, a justificar sua atitude, falou-me àquele instante da história que envolve os compositores do “samba do avião”, a qual já a conhecia. E, assim, convenceu-me mais uma vez a envolver-me em seu samba e, eu, por absoluta generosidade do compositor, acabei por tornar-me “sambista de um samba só”!

É possível que em outras oportunidades atreva-me eu novamente a “viajar” como o Mávilo Melo, a seu convite, na composição de outros sambas. E, embora sendo certo que a comunidade não ganhe, com a minha participação, um grande letrista, resta-me, contudo, uma indiscutível certeza: “Ganhei eu um parceiro de peso”. Literalmente!     

 

* Advogado, escritor e memorialista, conta histórias que viu ou ouviu sobre nosso estado, nossa cidade e do bairro em que nasceu e reside: o Santa Bárbara. e-mail: [email protected]     

Revolução de 1924 em Porto Velho

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A revolução de 1924 é a continuidade da revolta de 1922, gerada pela conspiração de 1920. (Tenentismo).

A rebelião contra o governo federal presidido por Dr. Artur da Silva Bernardes (Presidente) e Dr. Estácio de Albuquerque Coimbra (Vice-Presidente), eleitos com mandatos de 1922 a 1924, eclodiu em São Paulo no dia 05 de julho de 1924, chefiada pelo general Isodoro Dias Lopes. O governo federal energicamente reagiu, decretou o estado de sítio para São Paulo, Amazonas, Pará, Sergipe, Bahia, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, nos quais havia batalhões do exército, da marinha e das policias estaduais rebelados apoiados pelas respectivas populações. Justificavam a sublevação como instrumento saneador das anomalias politicas e administrativas de extinção do coronelicio dos  senhores de currais eleitorais, financiadores dos pleitos eletivos e avalistas do espúrio acordo entre São Paulo e  Minas Gerais (café e leite) estabelecendo os mandatos dos Presidentes da República, um período para cada um desses estados.

O objetivo era o alcance da instituição de regime democrático pleno com a prevalência do respeito aos direitos constitucionais e a vontade soberana do povo.

Para auxiliar as forças legalistas o governo criou os batalhões patrióticos paramilitares, a fim de combater os revoltosos. Estes, no dia 27 de julho de 1924, retiram-se da cidade de São Paulo internando-se pelo interior do país em atitude hostil.

A Revolução em Manaus/AM (23/07/1924).

Em Manaus os revolucionários vitoriosos liderados pelo 1º tenente, Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, tomaram o governo do Estado, destituindo o governador Rego Monteiro, assumindo o cargo o chefe da revolução, o qual destituiu todos os superintendentes municipais (prefeitos), dissolveu os Conselhos Municipais (Câmaras) e a Assembleia Constituinte, extinguiu a Constituição do Estado.

Foi designado o capitão reformado do exército, chefe do 27º Distrito Telegráfico sediado em Santo Antônio do Rio Madeira, Luiz Marinho de Araújo com delegação especial do Interventor, para instalar o governo revolucionário em Porto Velho.

A Revolução em Porto Velho.

O Dr. Joaquim Augusto Tanajura Superintendente do Município de Porto Velho e Deputado Estadual membro da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, encontrava-se ausente de Porto Velho, em Manaus na ocasião em que irrompeu a revolta.

O Presidente do Conselho Municipal, Artur Napoleão Lebre, exercia interinamente a superintendência, quando no dia 4 de agosto de 1924, desembarca do navio Madeira-Mamoré, vindo de Manaus o capitão reformado, Luiz Marinho de Araújo, supramencionado, convocou uma reunião com a participação das autoridades, dos empresários, dos comerciantes e do povo em geral, cientificando-os de suas atribuições, sobre as razões e os objetivos da Revolução.

Considerando que a administração municipal encontrava-se acéfala, com amparo nos poderes lhes outorgados e com aprovação desta assembleia, assim deliberou: nomeio o cidadão engenheiro Cincinato Correia Rodrigues, Delegado do Movimento Revolucionário, administrador do município de Porto Velho, o qual declaro empossado. Designo o capitão Theofilo Araújo, a comunicar ao senhor Artur Napoleão Lebre, a sua destituição. Cumprida a missão lhe atribuída, seguiu para Santo Antônio sede do 27º Distrito Telegráfico, do qual era chefe.

Enquanto acontecem essas ocorrências em Porto Velho, Manaus é ocupada pelas forças legalistas, o Presidente da República nomeou o coronel do exército Raimundo Barbosa, governador militar do Estado do Amazonas. Restabelecendo-se a legalidade constitucional. Joaquim Augusto Tanajura e Artur Napoleão Lebre, foram reintegrado nos seus respectivos cargos eletivos, em 30 de setembro de 1924, concluindo seus mandatos em 31 de dezembro de 1925.

Um episódio político da centenária história da nossa jovem Porto velho.

No ensejo, pegando carona com esse, rememoro um recente acontecimento, para registro nos anais de nossa história, por seus lanches semelhantes com os de 1924, transcorridos quarenta anos.

A Revolução de 1964 em Porto Velho

Era governador do então Território Federal de Rondônia, o coronel do exército Abelardo Alvarenga Mafra, o qual no dia 6 de abril, foi convocado pelo governo da revolução a se apresentar a esse, no Rio de Janeiro, sendo demitido do cargo e preso sem justificativa.

O Dr. Eudes Camponizzi, Secretário Geral, cargo equivalente o do Vice-Governador, tendo assumido o governo, assim permaneceu.

No dia 22 de abril de 1964, chega a Porto Velho, vindo de Manaus, o capitão do exército Anachreonte Coury Gomes, se autodenominando agente da Revolução. Precionou o governador em exercício a se declarar impedido de permanecer no cargo, em consequência de se encontrar doente, exigido imediato tratamento fora do Território, assim sendo lhe repassar o cargo, o que ocorreu, o assumiu intitulando-se interventor, ocupando o palácio às 21 horas do dia 23 de abril.

No dia 24 de abril em nota oficial publicada no Alto Madeira, divulgava a formação do seu gabinete constituído por partidários do PTB partido do Presidente deposto. Enquanto os destituídos dos cargos ocupados, inclusive os de prefeitos, na maioria eram filiados ao PSP, partido apoiante do governo da revolução. Deste modo, a revolução chegou em Porto Velho, na contra mão.

Individuo arrogante, violento, executou prisões arbitrarias de diversos cidadãos e cometeu desvairados desmandos. Seus atos eram totalmente irregulares, visto que o governador do Território, Tenente Coronel José Manuel Lutz da Cunha e Menezes, encontrar-se nomeado deste 24 de abril de 1964.

O capitão era temido, durante o dia era uma fera, tal qual um leão.

E a noite tornava-se um dócil veado, divertindo-se com os guapos garotões.

Quando retornou à Manaus, foi flagrado em ato libidinoso de pederastia, sendo expulso do exército.

        

Abnael Machado de Lima

Membro da Academia de Letras de Rondônia

Cartão Postal

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* Yêdda Pinheiro Borzacov

Por estes dias recebi um belo cartão postal que me foi enviado por uma pessoa da família, muito querida, que mora em Guajará-Mirim. Nele se estampa um enorme ipê amarelo, inteiramente florido, sob um céu limpidamente azul. Está plantado em frente à estação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, uma construção antiga, amarelada, com janelas amplas e uma varanda na parte térrea. Esta faz parte da História. As cores são fortes, quase naturais e eu tive a impressão de que olhava o original, não a cópia.

Peguei com carinho aquele cartão, li, muito comovida, a mensagem carinhosa e amiga que a pessoa escreveu e já ia guardá-lo, quando observei um detalhe curioso: sem nenhuma premeditada pretensão, mas com a inegável força de tudo aquilo que é autêntico, o cartão tem, apenas, as cores de nossa bandeira! Ali está no visual que me encantou, o branco, o azul, o verde e o amarelo! Nenhuma outra cor, apenas estas! Há muito tempo não via um retrato real, vivo e “autobiográfico”, se assim posso dizer, desta terra brasileira, tão amazônida, tão cabocla. Nele, de forma silenciosa, mas extremamente bonita, Guajará-Mirim – Rondônia chama a nossa atenção para aquilo que ela realmente é: um lugar de gente boa, amiga, com uma história comovente e, ao mesmo tempo pitoresca, e uma natureza cuidadosamente criada!

Isto, junto, é o Estado de Rondônia!

Quem teria tido a feliz ideia de um cartão assim? Quem teria visto Rondônia com os olhos que ela merece? Quem teria feito para Rondônia, uma apresentação de tal modo verdadeira?

Olhei atrás do cartão. Estava escrito embaixo:

“Prelazia de Guajará-Mirim”.

Parabéns, Prelazia! Parabéns, D. Geraldo Verdier, bispo emérito, parabéns mesmo!

Para mim em particular e de forma bem pessoal, o cartão tem um valor inestimável por razões bastante justas:

1.   A pessoa que me enviou é muito querida, se expressa de modo agradável e me honrou muito com suas palavras amigas.

2.   Eu sou apaixonada por flores e isto foi um regalo para os meus olhos e um presente para o meu coração.

3.   Vi o Estado de Rondônia como sempre quis ver e encontrei o tema para esta crônica.

Os ipês são meus velhos conhecidos, desde criança quando viajava de litorina na Madeira-Mamoré, meus olhos ficavam extasiados ao contemplá-los, os amarelos pintavam o verde da mata, e era fácil identificá-los de longe. Os roxos preferiam o frio da várzea e as margens dos rios. Lembro-me de uma histórica foto de nossa família debaixo de um ipê roxo, onde, em contraste com o tamanho da árvore, mais parecíamos pingos humanos!

Certa vez, quando a Madeira-Mamoré ainda funcionava, viajava, como sempre, de litorina, numa estrada com floresta dos dois lados, escura e impenetrável. De repente avistei, não muito longe dali, um flamboaiã vermelho, de flores graúdas, cor de sangue, algo tão maravilhoso que eu pensei estar sonhando! Mas… lá estava ele! Conheço bem os flamboaiãs e não me enganava! Existia mesmo, soberano, único, naquele imenso verde! Que visão fantástica! Ele podia ser visto pela altura da árvore que se sobressaía, mas não atingido, porque o acesso era impraticável naquela floresta cerrada!

Nunca me esqueci daquele momento! Perto dos ipês amarelos, brancos e roxos, o vermelho do flamboaiã se destacava. Lembrei-me então, que o ipê amarelo gosta de céu azul, muito sol, dias longos e cuja floração começa em fins de julho; o ipê branco, apreciador do calor, mas gosta também de chuva forte de vez em quando. Setembro, outubro é seu tempo de floração. E o ipê roxo que gosta de clima mais ameno.

Os três são de grande beleza, sendo que o amarelo e o roxo variam um pouco na coloração, mas o branco é branco mesmo. Alguém escreveu uma elegia aos ipês, classificando-os como uma “sinfonia humana” na seguinte ordem:

Ipê roxo: a infância.

Ipê amarelo: a juventude.

Ipê branco: a velhice.

O único que não tem variação é o branco. Realmente, não há como mudar ou esconder a velhice.

O ipê é a flor símbolo do Brasil.

Que outros cartões postais como este apareçam, que outras pessoas que os enviem e outras os recebam. Que desta maneira bonita, boa e verdadeira, se conheça a essência de uma Rondônia Cabocla!

* Yêdda Pinheiro Borzacov, da Academia de Letras de Rondônia, do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia, vice-presidente do Memorial Jorge Teixeira e colaboradora do site Gente de Opinião.

 

Quiproquó do Dinheiro Falso

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O Hospital São José projetado e construído pelo padre João Nicoletti, inaugurado no dia 7 de Setembro de 1929, conveniado prestava serviço de internações hospitalares aos servidores do 3º Distrito Telegráfico e da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré ambos sob a chefia do capitão Aluízio Ferreira, os quais eram quinzenalmente pagos.

Sendo o pagamento da primeira quinzena do mês de agosto de 1934efetuado com cédulas falsas de duzentos mil reis (200$000), conforme constatado pela irmã Catarina Cappelli, diretora do hospital, ocorrência comunicada ao padre Nicoletti, o qual cientificou a Mesa de Rendas e este confirmado o crime, o denunciou ao tenente Alcides Lima Mendes, comandante do contingente especial do exercito em Porto Velho, tendo ele providenciado as adoções das medidas cabíveis.

Foram indigitados a Madeira-Mamoré e 3º Distrito Telegráfico.

A Justiça Federal intentou ação contra os senhores Elpídio Morais Teixeira, Cristóvão Pimentel, Lourival Pinheiro Ferreira, este tesoureiro da Madeira-Mamoré, irmão do capitão Aluízio Ferreira, e outros mais.

Dr. Ruy Araújo chefe de policia do Estado do Amazonas, pessoalmente, presidiu o inquérito policial instaurado no mês de agosto de 1934e concluído em 15 de dezembro deste ano, ficando apurado que em Curitiba/PR e Taubaté/SP, no mês de abril de 1934, começaram a circular numerosas cédulas falsas, recaindo a suspeita de serem autores os funcionários federais desses locais. E que a remessa de dois volumes lacradas, um contendo vinte contos de reis (20:000$000) em cédulas de duzentos mil reis e outro com seiscentos mil reis, tendo apenas uma cédula de duzentos mil reis, sendo falsas todas as deste de valor, foram remetidos à Madeira-Mamoré pela Tesouraria da Diretoria Regional dos Correios e Telégrafos de Manaus/AM. Finalmente concluiu não haver detectado nenhum indicio de culpabilidade contra qualquer servidor da ferrovia Madeira-Mamoré e do 3º Distrito Telegráfico, bem como de pessoas residentes em Porto Velho.

A circulação do dinheiro falso era o assunto primordial em todas esferas, nas residências, nas ruas, nas repartições públicas, no bar central do João Barril e outros. A boataria corria solta, cada qual emitia sua opinião e as mais estapafúrdias deduções. O Alto Madeira sugeriu que o dinheiro tenha vindo da Bolívia, outra conclusão insinuava que as cédulas eram destinadas a serem incineradas na Caixa de Amortização, tendo tomado outra destinação. O Peixotinho diretor da Agência do Correio e Telégrafo alardeava que quando fosse depor na Justiça Federal, não ocultaria nada doesse em quem doesse.

No dia 30 de janeiro de 1935, o Tribunal Federal de Justiça intimou várias pessoas de Porto Velho, entre essas o padre João Nicoletti, o comerciante Miguel Chakian e o Peixotinho para deporem em Manaus/AM, no inquérito judiciário.

A tarde na véspera da viagem, o Peixotinho foi à residência do Capitão Aluízio Ferreira para de despedir. Na qual após ingerir uma xicara de café lhe servida pelo Aristides, mordomo e um dos segurança do Aluízio, juntamente com o Timótio, o Militão e mais o índio Munduca, desabou esparramando-se no chão, sem vida. O anfitrião desesperado lamentava-se que tal funesto episódio fosse ocorrer em sua casa, com tão estimado seu amigo.

No Hospital São José a junta médica atestou como causa da morte, fulminante colapso cardíaco.

Pondo lenha na fogueira como diz meu amigo Zé Catraca, o DR. Collyer (médico), em uma roda de amigos no bar Central em alta voz afirmava que o Peixotinho tinha sido envenenado. A novidade se espalhou célere como fogo em rastilho de pólvora. O autor acolhendo o conselho dos colegas sumiu da cidade para local ignorado.

O padre Nicoletti tendo como advogado de defesa o Dr. Alcides Rocha, ante o Tribunal apenas confirmou a trapaça da qual havia sido vitima, não acusou ninguém. Retornou a Porto Velho em 20 de março de 1935, sendo festivamente recebido.

O desfecho deste bafafá foi tal o da Conceição, ninguém sabe ninguém viu. É mais um episódio da centenária história de Porto Velho, com os atuais, terminado em pizza.

 

Abnael Machado de Lima

Membro da Academia de Letras de Rondônia