1964 em RO: (1)
Lúcio Albuquerque
(Consultoria Abnael Machado de Lima)
Porto Velho 70 mil habitantes. Guajará-Mirim
em torno de 20 mil. Conforme o censo do IBGE em 1960 rondava por aí a população
do então Território Federal, que quatro anos antes deixara de ser do Guaporé para ser de Rondônia. Em 1964 é possível que a população já fosse um pouco
maior, mas, oficialmente, o número é mesmo aquele, 90 mil almas.
As distâncias eram muito maiores do
que hoje. Havia apenas um juiz e um promotor, isso quando havia. A segunda
instância era em Brasília onde os recursos daqui mofavam anos nas gavetas dos
membros do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Emissora de
rádio apenas a Caiari, fundada poucos anos antes, mas só uma minoria de
famílias tinha um aparelho de rádio, em redor dos quais, à noite, amigos se
reuniam para ouvir a Voz do Brasil, por
onde se ficava sabendo das novidades – com em 1943 quando foi lido o decreto de
criação do Território do Guaporé, juntando partes dos estados do Amazonas e de
Mato Grosso, ou quando acontecia troca de governadores, o que era coisa comum,
fato imediatamente festejado com foguetes pelos adversários de quem estava no
poder.
Chovia
muito naquela noite de 1943 e o doutor Ary Pinheiro comemorava em casa o seu aniversário
e ele saiu com uma espingarda comemorando atirando para cima, recordou o
historiador e também membro da Academia de Letras de Rondônia, ACLER Esron
Penha de Menezes, fato contestado, apesar de àquela altura contar apenas com 4
anos de idade, pela historiadora e membro da ACLER Yêda Pinheiro Borzacov.
Apesar de ser o que consideravam
àquele tempo um funcionário subalterno,
o telegrafista da agência dos Correios era muito assediado por saber das
notícias antes de todos. Poucos moradores, um deles o Sr. Alcedo Marrocos, possuíam
um rádio-amador, sistema que permitia comunicar-se com outras cidades, sendo
que um desses equipamentos era instalado no quartel comandado pelo major Carlos
Godoy, da 3ª Companhia de Fronteira – atual 17ª Brigada de Infantaria de Selva.
Os jornais locais eram o Alto Madeira e
O Guaporé. A “emissora” mais rápida
era a rádio cipó.
Os aviões de carreira pousavam no campo do Caiari – região que vai do ginásio
Cláudio Coutinho até ao CPA do Governo, e isso era uma atração enorme, para ver
quem saía ou chegava, e para a garotada pegar
poeira, o vento levantado pelas hélices. Outra forma de chegar era pelos
navios – Lobo D’Almada, Augusto Montenegro e Leopoldo Peres, que faziam a rota
Belém/Manaus/Porto Velho. Ou pela Madeira-Mamoré, com seus trens entre Porto Velho
e Guajará-Mirim. A cidade não tinha ainda telefonia interurbana.
A rodovia era a BR-29, primeira
designação da atual BR-364, mas as condições da estrada eram terríveis, o que
incluía falta total de estrutura, sem pontos de apoio e era uma enorme aventura
viajar nela que fora aberta no primeiro semestre de 1960.
Durante o dia, e até a noite, quando se queria ficar sabendo das novidades a pedida era ir aonde todossabiamtudodetodoomundo, o restaurante Café Santos, na
esquina da Sete de Setembro com a Prudente de Moraes. Outros locais também
apreciados eram os clíperes, espécies
de botecos no meio da Sete de Setembro, e o restaurante Arara. Luz elétrica ia até zero hora, a partir de quando começava a
funcionar a boate Céu, com seu salão
de dança em baixo e os quartos no andar superior, nas proximidades do cemitério
dos Inocentes.
A economia tinha como base o
sistema extrativismo vegetal, o que incluía a borracha e o dinheiro que
circulava era oriundo do pagamento dos funcionários federais, com destaque para
os ferroviários da EFMM. Àquela altura outro produto começava a se firmar na
economia local, e a atrair homens e mulheres especialmente do Maranhão, a
garimpagem manual de cassiterita, descoberta por acaso nas terras do
seringalista Joaquim Pereira da Rocha.
Havia duas agências bancárias, a do
Banco do Brasil e a do Banco da Borracha (atual Basa). Seus funcionários
formavam uma espécie de classe privilegiada e tinham até um clube, o Bancrevea
(Carlos Gomes com a Campos Sales), aonde as mulheres iam às festas de longo e
os homens de passeio completo. Nos finais das tardes a pedida era ficar no bar
do Porto Velho Hotel, numa espécie de hapy
hour.
Aos domingos as disputas de futebol
eram no campo do Ypiranga ou no da 3ª Companhia, quando as torcidas participavam
com o mesmo fervor por suas preferências e por seus atletas principais.
Apesar de ser uma cidade pequena,
Porto Velho fervilhava quando o assunto era política. Não havia terceira opção. A
disputa política ficava entre cutubas
partidários do coronel Aluízio Ferreira e os peles-curtas liderados pelo médico Renato Clímaco Borralho de
Medeiros que em 1962 derrotara nas urnas Aluízio e se tornara deputado federal.
Quando 1964 chegou havia sindicatos
atuantes e a União dos Estudantes, que realizava concursos de rainha, mandava
delegações para participar de congressos em outras cidades, mantinha um jornal devezemquandário, e naquele ano o
presidente da entidade era o estudante João Lobo que em entrevista ao projeto Testemunha da História lembrou ter ido com
uma delegação ao Comício das Reformas de 13 de março de 1964.
No Colégio Carmela Dutra um fato
interessante: muitos dos professores eram bancários ou militares da 3ª Cia. Lógico que eles mantinham um relacionamento
formal, mas
politicamente
eram inimigos, enquanto a diretora, a professora Marise Castiel tentava
contornar para evitar que essa divisão se refletisse de forma negativa no
processo educacional, lembrou o professor e historiador Abnael Machado de
Lima, membro fundador da ACLER.
Quando a cidade adormeceu no dia 30
de março, uma segunda-feira, ninguém esperava que o dia seguinte, uma
terça-feira, seria o divisor das águas.