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Milton Hatoum toma posse na Academia Brasileira de Letras

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Cerimônia de posse do escritor Milton Hatoum na ABLDivulgação/ABL
Rio – O escritor Milton Hatoum tomou posse na Academia Brasileira de Letras (ABL) nesta sexta-feira (24), em cerimônia realizada na sede da instituição, no Petit Trianon, no Centro do Rio. Ao assumir a cadeira 6, ele se torna o primeiro autor amazonense a integrar o quadro de “imortais” da ABL.
Em um discurso focado na função humanizadora da literatura e na resistência do imaginário, o romancista, que acumula mais de meio milhão de obras vendidas e livros traduzidos em 17 países, exaltou a educação pública como o alicerce fundamental para a consciência crítica brasileira e defendeu a literatura como espaço de reflexão.

“Enquanto houver vida neste mundo em chamas, haverá histórias a serem narradas, lidas e ouvidas. Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário, nos sonhos, na literatura, nas artes, no teatro, essa arte viva, na experiência mística. Vivemos também no devaneio”, disse.

O novo ocupante da cadeira 6, vaga desde a morte do jornalista Cícero Sandroni, foi recebido pela Acadêmica Ana Maria Machado.

‘Milton Hatoum oferece uma análise sutil, cheia de camadas inteligentes, sofisticadas e corajosas, relacionando pontos distintos, numa argumentação bem informada que ilumina nuances até então impensadas pelo entrevistador. Não foge do tema. Mas se recusa a ser porta-voz não nomeado de estereótipos alheios”, afirmou.

Presidente da ABL, o Acadêmico Merval Pereira celebrou a chegada do novo imortal à Casa: “O maior escritor brasileiro vivo é um romancista de primeira ordem”, declarou.

Milton Hatoum
Além de romancista, Hatoum é contista, ensaísta, tradutor e professor universitário. Em 1989, seu primeiro romance “Relato de um certo Oriente”, publicado pela Companhia das Letras, ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Romance e foi adaptado para o cinema com o filme de mesmo nome cuja direção é de Marcelo Gomes.
Já a obra “Dois Irmãos”, publicada em 2000, foi eleita o melhor romance brasileiro no período entre 1990 e 2005 em pesquisa realizada pelos jornais Correio Brasiliense e O Estado de Minas. O título foi publicado em Argentina, Alemanha, China, Espanha, Estados Unidos, Itália, França, Grécia, Holanda, Inglaterra, Líbano, Portugal, República Tcheca e Sérvia. Além disso, o livro recebeu uma adaptação para o audiovisual, com uma minissérie da TV Globo, sob direção de Luiz Fernando Carvalho e roteiro de Maria Camargo.

ACLER: Solenidade de Outorga da Comenda Governador Jorge Teixeira de Oliveira

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A Academia de Letras de Rondônia – ACLER, representada por seu Presidente e pela Coordenadora de Eventos, esteve presente na Solenidade de Outorga da Comenda Governador Jorge Teixeira de Oliveira, concedida pelo Governo do Estado de Rondônia.

A honraria foi entregue ao Pastor Moisés Selva Santiago, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à sociedade rondoniense.

A cerimônia foi realizada no dia 30 de março de 2026, no Teatro Palácio das Artes, em Porto Velho, reunindo autoridades, convidados e representantes da sociedade civil em um momento de grande significado e valorização do serviço prestado à comunidade.

A ACLER parabeniza o Pastor Moisés Selva Santiago pela merecida homenagem e celebra este importante momento de valorização da paz e da cidadania.

 

NOITE LITERÁRIA NO BURACO DO CANDIRU

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Literatura Minimalista do Acadêmico Viriato Moura foi o tema. Apresentação e distribuição de seus livros sobre poesias minimalistas foi apresentado pelo Acadêmico Samuel Castiel. Muito concorrido o evento, com amigos jornalistas, poetas e escritores, o evento foi aplaudido por todos os presentes que se deliciaram com os poemas minimalistas do autor. Francisco Chagoso Presidente da Academia de Letras de Rondonia – Acler e representante da Academia Rondoniense de Letras se fizeram presentes, bem como outros Acadêmicos.

HOMENAGEM AS MULHERES

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Um dia Universal dedicado as mulheres!
Um dia que reverenciamos aquela que nos gestou por 9 meses, nos amamentou, nos acariciou e nos educou.
Um dia dedicado a mulher amada!
A Companheira do dia-a-dia, de todas as horas.
Todas as flores do mundo seriam poucas para elas!
Todas as bênçãos do mundo seriam poucas para elas!
Todas as preces do mundo seriam poucas também.
As mulheres são as responsáveis pelas novas gerações e pelos caminhos da humanidade. Sem elas nós todos caminhariamos para o fim da humanidade.
Portanto, são as mulheres os grandes pilares e a única esperança para a construção de um ser humano melhor.
O feminicidio é odioso, deve ser combatido com toda a força do estado, de qualquer governo, independente de ideologia, credo ou cor partidária.
Deve ser banido da nossa sociedade. Deve ser combatido por cada um de nós!
Viva as Mulheres!

PVH – RO, 8/3/26.

Acadêmico Samuel Castiel

O AVIADOR

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                  Sandra Castiel

 

Era um menino igual a tantos outros da pequena cidade onde vivia com os pais e irmãos, às margens dos caudalosos rios amazônicos. As brincadeiras, como era comum no Brasil dos anos sessenta e setenta, giravam quase sempre em torno de uma bola. Porém, mesmo em uma partida de futebol, no campinho da escola, o menino parava no meio do drible, quando ouvia o som de um avião que passava pelos céus da cidade.

— Omar!  Ei, Omarzito, acorda!    — Gritavam os colegas, em vão… As vozes   se perdiam carregadas pelo vento; a atenção e os olhos castanhos de Omarzito estavam longe, fixos no céu, acompanhando cada movimento do pequeno avião que sobrevoava a cidade.  Inebriado, imaginava-se sentado no lugar do piloto, no controle do manche, fazendo piruetas, provocando rasantes sobre o campinho de futebol e acenando para todos. Voar era o seu sonho!

O tempo, um dos encantados da grande Amazônia, vive deitado ao pé das cachoeiras do maior rio do mundo e de seus afluentes. Tal como a força das águas, sua força é demolidora, incessante, turbulenta, irreversível: passa por tudo que existe, passa para todos os seres viventes; seu legado é a efemeridade de tudo o que há. Assim, o tempo passou para o menino Omar, que então já era um homem casado, pai de família e eficiente bancário na cidade onde nascera e crescera.

A rotina de um funcionário de banco, no passado, era igual, dia após dia, mês após mês, ano após ano… Para Omar, passar a vida a percorrer os mesmos caminhos até a aposentadoria, significava caminhar no interior de um túnel sombrio, para um lugar distante, onde o sol não brilhava, onde o céu não era azul, e a vida era nada. E o sonho?

O sonho não havia morrido, só estava à espera do momento mágico que inesperadamente chegou: um avião monomotor, o avião de seus sonhos de menino!

“Todas as pessoas grandes foram um dia crianças — mas poucas se lembram disso.” Foi assim, com a curiosidade de uma criança, que o aviador montou o quebra-cabeça de mil pequenas peças que completavam a bela imagem de um avião e toda a sua engrenagem. E um dia, quando o azul da calmaria cobria o cėu iluminado pelos raios dourados do sol, o piloto finalmente pôde abrir as asas sobre o verde exuberante da mata amazônica. Deixou para trás a monotonia da vida estável e lançou-se em direção ao desconhecido infinito.

O aviador, então, ganhava o pão, voando sobre a Amazônia, deleitando a alma com a visão familiar daquele oceano verde, quase sem fim, dos rios que serpenteiam como veias pulsantes no coração da floresta, no coração de um homem sonhador. Até que a dura realidade da vida, tal como águas insanas, fez com que o sonho resvalasse no precipício da desesperança; sem floresta, sem cores de aquarela, sem o mavioso canto das aves…  seus encantos de criança!  Foi assim que o aviador chegou à maturidade:  doente, tristonho, exausto…  E, um dia, partiu deste mundo.

Dizem que, de vez em quando, o som de um avião monomotor voando baixo pode ser ouvido   pelas crianças que jogam futebol no campinho da escola, onde jogava o menino cujo sonho era ser aviador.

 

“Eu sou …

a grama molhada,

sou as botas sujas do barro de todas as pistas da Amazônia,

sou a glissada do final da tarde,

sou o cheiro do blusão de couro,

com as costas gastas e as golas puídas,

do chapéu molhado dos pousos nas cercanias das matas,

sou a face da morte nas cabeceiras de pistas de garimpo.”

Omar Morhy Neto

(1952 -2008)

 

 

 

* Antoine de Saint -Exupéry -O Pequeno Príncipe

 

 

 

 

 

 

Ailton Krenak decide se candidatar à ABL e é favorito a ser eleito

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O autor de “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, “A Vida Não É Útil” e “Futuro Ancestral” pleiteará a cadeira número 5, aberta pela morte do historiador José Murilo de Carvalho no último domingo.

Caso a eleição se confirme, ele será a primeira liderança indígena a ocupar uma cadeira na academia centenária.

A sessão da saudade, ritual tradicional para se despedir do acadêmico morto e declarar a vaga aberta, acontece na tarde desta quinta na sede da ABL. Em seguida, as candidaturas podem ser submetidas. A escolha acontece daqui a 45 dias.
Em mensagem à reportagem na tarde desta quinta, Krenak reitera que a despedida oficial de Carvalho ainda não aconteceu e que, respeitando os trâmites, esperará a vaga estar oficialmente aberta. “Decidi apresentar meu nome à ABL amanhã”, afirma.

Há dois anos, o escritor Daniel Munduruku pleiteou uma vaga na Academia e foi derrotado pelo médico Paulo Niemeyer Filho, eleito em seu lugar para a vaga deixada pelo crítico literário Alfredo Bosi.

A candidatura de Munduruku foi defendida por abaixo-assinados e encampada por celebridades e movimentos indígenas, por seu caráter histórico. Daquela vez, não adiantou.

Agora, a pressão para a eleição de Krenak vem de dentro da Academia, com boa parte dos imortais já entrando em consenso em torno de seu nome. (Walter Porto/Folhapress)

NOITE DE LANÇAMENTO – SILVIO PERSIVO

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O economista, escritor e poeta Sílvio Persivo brindou seus amigos e convidados com o lançamento de mais uma obra de sua autoria — desta vez, o livro Estudo do Desenvolvimento Econômico (Conceitos, Teoria e Prática), escrito em parceria e em homenagem póstuma ao seu amigo Vinícius Dantas Silveira.

O evento aconteceu no tradicional Bar Buraco do Candiru, reunindo diversos amigos que prestigiaram o lançamento, incluindo a representação da Academia de Letras de Rondônia (ACLER), na pessoa do acadêmico Samuel Castiel.

Fotos do evento:

Academia Brasileira de Letras não vê razão para adoção oficial da linguagem neutra

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Não é o momento de expressões como “todes” entrarem oficialmente na língua portuguesa. Esta é a posição apresentada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Merval Pereira, em uma reunião pública realizada nesta terça-feira (3) pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) para tratar do tema da linguagem neutra. Merval Pereira esclareceu que a ABL analisa o tema com prudência. Ele disse que a linguagem neutra é um fenômeno ainda incipiente e de nicho, e ressaltou que a mudança seria complexa, já que alteraria a estrutura do português brasileiro. Sobre o uso da linguagem neutra em textos oficiais, deixou claro que, se houver, o texto não estará dentro do padrão da língua culta.

“Os documentos oficiais devem seguir as normas oficiais que estão vigentes. Se o professor quiser falar ‘todes’ na sala de aula, ele estará prejudicando a maioria dos alunos que não sabe o que é isso. Ele também não pode obrigar os alunos a usarem a linguagem neutra, porque não há nada que obrigue a isso”, ressaltou.

Pereira disse também que cabe ao Ministério da Educação, não à ABL, tomar uma decisão sobre uma possível adesão oficial da linguagem neutra, mas acredita que não é o momento para isso. Recentemente, a acadêmica Heloísa Teixeira usou vocabulários neutros em seu discurso de posse na ABL. Sobre o ocorrido, Merval Pereira expôs que a situação causou “um espanto, como se a Academia Brasileira de Letras estivesse adotando a linguagem neutra naquele momento, não é nada disso”.

Segundo ele, a nova acadêmica tinha intenção de homenagear o público LGBTQIA+ que estava presente na cerimônia. O presidente comentou que é preciso tratar o tema com cuidado para que não se cometa um erro nem ao assumi-lo oficialmente, nem ao renegá-lo definitivamente. “A gente tem que ficar atento a continuidade do uso ou não dessa linguagem, ver até que ponto ela pode se ampliar na sociedade, fora do nicho na qual nasceu e que, no momento, só pessoas ligadas a esse nicho usam”, explica Pereira. Ele concluiu dizendo que não é uma reprovação definitiva, visto que o fenômeno é recente e que ainda precisa de tempo para ser avaliado.

“A educação tem outras prioridades”, afirma Niskier Arnaldo

Niskier que, além de membro da Academia de Letras, já compôs o Conselho Nacional de Educação, também participou da reunião pública. Em sua manifestação, tratou de outros assuntos e dedicou poucos minutos à linguagem neutra. Do pouco que falou sobre o tema, seguiu a linha da importância de tomar cuidado para que não haja nenhum tipo de precipitação. Niskier comentou que a educação tem outras prioridades, como a discussão sobre o ensino integral e aumento do orçamento público destinado ao setor. “Nós temos que discutir sobre a manutenção e ampliação das verbas para a educação. Não podemos conviver com cortes absurdos que são feitos desde o governo passado e que parece que se tornou mania. A educação precisa sempre de mais e não de menos”, disse.

O professor abordou sobre a urgência de lutar pela qualidade da educação. “Isso depende fundamentalmente nos professores serem mais bem formados e mais bem remunerados também”, reforçou. Niskier também aproveitou o momento para cobrar do CNE a elaboração de uma nova lei de diretrizes básicas para substituir a anterior e a necessidade de se dedicar à qualidade do ensino à distância para torná-lo efetivo. Evanildo Bechara, gramático e filólogo e também integrante da ABL, estava presente, chegou a ser anunciado durante a reunião, mas não se pronunciou.

JANTAR DE CONFRATERNIZACAO DA ACLER 2025

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O evento aconteceu nesta terça-feira (16), no Restaurante Beirute, muito concorrido, com a presença de vários acadêmicos e familiares. Houve pronunciamento de todos os imortais e, como não poderia deixar de ser, fruição literária. Alguns momentos do evento, em flashes e VTs:

CORONEL DE BARRANCO

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Na Amazônia o homem trabalha para escravizar-se”

                             (Euclides da Cunha)

Essa figura caricata aparece no cenário do ciclo da borracha, povoando predominantemente a região norte do País, mas tendo como matriz principal os seringais do Acre. Tinham quase sempre o mesmo perfil: eram homens rudes, brutos, esbanjadores, autoritários, sem estudo, e muito ambiciosos. Apesar disso, no fundo, alguns deles ainda eram capazes de atos de bondade.

O ciclo da borracha aconteceu mais ou menos entre os anos de 1876 a 1926 , e se caracterizava pelos altos preços da borracha nas bolsas de europeias. A Amazônia, com a maior floresta do planeta e clima tropical, dispunha das condições ideais onde floresciam imensos seringais da hevea brasiliensis.  A produção da borracha brasileira atinge seu auge até que teve sementes e mudas da hevea surrupiadas com a complacência dos próprios brasileiros, e levadas para Londres pelo inglês Henry A.

Wickmam, onde iriam florescem no jardim botânico de Kew Garden, de Londres, antes de serem levadas para o plantio ordenado em Singapura e na Malásia, segundo os fatos relatados no magistral romance de Claudio de Araújo Lima, intitulado Coronéis de Barranco.

A chamada belle époque dos seringalistas, sem que eles percebessem, estava com seus dias contados. Mesmo assim, continuavam a esbanjar dinheiro nas pensões de Manaus e Belém, fumando charutos cubanos, sem se aperceber do risco fatal que seus negócios iriam enfrentar. Já em 1914, a produção da borracha oriental supera a brasileira, coincidindo com o início da Primeira Guerra Mundial. A borracha brasileira perde o valor drasticamente, sendo que nesse ano a sua produção não passou das 36 mil toneladas, contra 150 mil toneladas da borracha oriental. O declínio e o fim desse ciclo estavam estabelecidos.             

Coronel Joventino Florêncio, natural de Alagoas, era um homem branco, baixo, mas atarracado, e tinha bigode grosso. Usava um chapéu com abas grandes que fazia sua cabeça parecer pequena para o corpo. Tinha a voz branda, falava baixo. Casado,  com seis filhos, sendo quatro meninos e duas meninas. Dona Inês, sua esposa, também alagoana, era uma companheira dedicada: cuidava dos filhos e fazia-lhe todos os gostos. Homem rude, ambicioso e ignorante, cujo perfil o credenciava como coronel de barranco. Morava em Porto Velho, mas seu seringal ficava no Vale do Guaporé, estendendo-se por mais de quatro mil hectares de terras, cuja produção de borracha rendia o suficiente para dar- lhe uma vida de esbanjador.

Cobria sua esposa de joias de ouro de 18 quilates, dando-lhe presentes todas as vezes que viajava para Manaus ou Belém, com a finalidade de fechar grandes contratos de venda de borracha e comprar mercadorias para seu armazém no seringal. Nessas viagens, que demoravam cerca de dois meses, Joventino gostava de vestir-se com ternos de linho puro, bem engomados, calças vincadas e gravatinhas tipo borboleta de  bolinhas. Tinha uma coleção de diversas cores. Gostava também de usar sapatos mocassim, de pelica.

Os perfumes de sua preferência eram os franceses. Bebia whisky, champanhe e licores também importados. Costumava frequentar as melhores pensões de mulheres em Manaus e  Belém.  Numa dessas suas viagens, arrumou um xodó com uma paraense morena, de coxas grossas, que  fazia ponto na Travessa 1º de março. Quase não voltou mais para o seringal!… Onde chegava era tratado com todas as honras pelas donas dos bordéis.  Pagava bebida para todas as mulheres que sentavam em sua mesa. Porém, tinha as suas preferidas. Baforando charutos cubanos, deixava os ambientes esfumaçados, como o rastro de um esbanjador. Pagava muito bem todas as prostitutas que com ele deitavam: dava presentes valiosos para elas e para as cafetinas que lhe traziam as meninas mais novas e mais recentemente chegadas ao lupanar.

Com  o coronel Joventino não tinha tempo ruim! – diziam as cafetinas, estimulando as meninas e ficarem com ele. Deixava saudade e também muito dinheiro quando tinha que voltar para o seringal. Mas tinha a certeza que seu gerente lá estava, tomando conta de todo aquele seu império, e que seu problema não era dinheiro. A borracha produzida nas suas terras eram da melhor qualidade.

Tinha comprador certo no exterior. Seus duzentos seringueiros trabalhando nas mais distantes e espalhadas colocações, produziam o suficiente para que ele pudesse se divertir com aquelas jovens fogosas. Enfim, nesse contexto não  tinha nenhum problema que pudesse afligi-lo ou tirar o seu sono. Sua mulher Inês, como sempre, dedicada, tomando conta da casa e dos seus filhos. E nada lhe faltava. Todos na cidade a respeitavam — afinal, era a mulher do coronel Joventino, o todo poderoso do lugar. Portanto, nada tinha que lhe pudesse afligir.

Aliás, quase nada, pois nas ultimas contratações que fez de seringueiros, vieram alguns que eram metidos a valentões. Gente do sertão da Paraíba e de Pernambuco, que chegou a Porto Velho fugindo da seca e precisando de trabalho. Tinha contratado alguns deles, pois apesar de não terem quase nenhuma experiência na extração e coleta do látex, pareciam muito interessados em aprender o manuseio e a prática extrativista da borracha. Além de tudo, eram homens fortes, acostumados às intempéries da seca do Nordeste. Sua única preocupação com eles é que não pareciam gostar das normas implantadas nos seringais.

Uma delas, por sinal tendenciosa: as mercadorias necessárias para mantê-los no mato durante o mês, deveriam ser obrigatoriamente compradas no armazém do seringal, com os preços exorbitantes que o patrão estipulasse. Justificava a exorbitância dos preços cobrados alegando que o custo para essas mercadorias chegarem até aquelas brenhas de mato era muito alto. Além do mais, o patrão tinha que ter uma boa margem de lucro, pois os seringueiros pagavam essas mercadorias e víveres com sua produção de borracha – argumentava quando alguém o questionava.

O coronel sabia que era uma vida difícil para os seringueiros, mas nada podia fazer, pois entrava nessa labuta quem dela precisava. Já tinha tido alguns problemas no passado com seringueiros que se revoltavam com as normas do patrão, mas todos tinham sido devidamente punidos e alguns, os mais rebeldes, até mesmo castigados violentamente. Jamais aceitava ter sua autoridade questionada, sequer ameaçada por qualquer um desses arigós sem eira nem beira que chegavam por aqui precisando da oportunidade que ele lhes dera.

Em troca, queria apenas que fossem respeitadores, honestos e produzissem muita borracha para o seringal. Não aceitava aqueles que eram solteiros, pois costumavam arrumar confusão na tentativa de roubar a mulher dos outros. Também não eram aceitos aqueles que tinham muitos filhos, pois crianças adoeciam e acabavam morrendo, dando muito trabalho e responsabilidade ao patrão, além de tirar o seringueiro da sua rotina de produção.

Quando chegava o final do mês, a maioria ficava sempre devendo, pois sua produção era pífia, insuficiente para quitar seus débitos no armazém. Assim, o seringueiro ficava mais tempo no seringal, uma vez que só poderia pedir para sair quando estivesse sem débitos na casa. Ele, Joventino,  achava isso tudo muito justo, pois afinal, todos podiam comprar os gêneros que quisessem no seu armazém, que era sempre muito bem sortido.

Numa de seus retornos ao seringal, o coronel ficou sabendo que o Abdias, um dos novatos que contratara, estava praticando furto de borracha, vendendo-a para invasores clandestinos que passavam periodicamente na sua colocação, distante dos olhos do coronel. Chamou seu capataz Valadão e o tropeiro Josias, homens de sua confiança, mandou que fossem de surpresa até a colocação do Abdias, checassem tudo, trouxessem toda a sua produção de borracha, e caso ele se metesse  a besta, dessem uma pisa nele. Podiam dizer que foi o coronel que mandou e que, caso ele continuasse a furtar a borracha, não iria viver para apanhar outra surra. Assim foi feito: trouxeram toda a produção e deixaram o pobre Abdias todo moído de chutes e pontapés.

—Isso é pra você aprender a não roubar mais o patrão, seu nêgo vagabundo! – dizia o Valadão, chutando as costelas do pobre homem.     Passaram-se semanas, e o coronel sempre de olho nos  seringueiros que queriam dar uma de espertos, ameaçando sua autoridade e tentando fazê-lo de bobo.

Cumprindo sua rotina matinal, Joventino acordou 5h30 da manhã, tomou seu café puro com farofa de charque, comeu algumas broas com ovos mexidos preparados a seu gosto pela cozinheira da fazenda, e foi para o armazém conferir os estoques de mercadorias, bem como o livro de contabilidade onde eram registrados todos os movimentos de caixa de cada seringueiro, e também  a receita dos contratos de venda. Analisou todos os empréstimos feitos no Banco da Amazônia nos últimos anos. Pela primeira vez  em toda sua vida no ciclo da borracha, teve uma sensação de que os negócios do seringal  não iam tão bem.

O preço da borracha brasileira começava a despencar!… Lá pelas 9h, chamou pelo Valadão, mas como não teve resposta,  lembrou-se então  de tê-lo mandado sair bem cedo para investigar e dar umas porradas em outro seringueiro que estaria também roubando a produção para vendê-la a clandestinos. Tomou um suco de carambola que estava na jarra em sua mesa e saiu do armazém, rumo ao seu barracão. Ao sair, ouviu o piado de uma inhambu, e pelo que conhecia, era uma inhambu azul. E ele sempre gostou muito de comer inhambu ao molho pardo, prato que sua cozinheira preparava como ninguém.

Voltou ao armazém, pegou uma espingarda 20, vários cartuchos, e saiu atrás daquele piado da inhambu. Andou naquela vereda próximo ao barracão, depois foi entrando no matagal até chegar próximo ao rio. O piado da inhambu foi ficando mais forte até que, de súbito, surgiu em sua frente o nêgo Abdias, que não deu tempo nem chance para o coronel atirar. Puxou primeiro o gatilho de sua espingarda e uma lingueta de fogo saiu do cano da arma, ao mesmo tempo que na camisa branca do coronel, uma enorme mancha de sangue surgiu no buraco que se formou em seu peito. A seguir o nêgo Abdias aproximou-se do coronel moribundo, que arfava em seus últimos suspiros:

—Morre  velho desgraçado! Morre! Isso é pra tu nunca mais Manda batê em macho!

Ao tempo que chutava o corpo do coronel, arrastava-o pelo barranco do rio até atirá-lo, sem seguida, ribanceira abaixo. O sangue ainda esguichando do peito de Juventino manchou as águas barrentas do rio Mamoré,  acabando   com mais um  coronel de barranco, que não chegou a ver o irremediável fim do opulento ciclo da borracha.

Autor: Samuel Castiel