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LITERATURA: UM ESPELHO DA COMPLEXIDADE HUMANA

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“…nosapegamos aos últimos prazeres, como a árvore se apega às últimas folhas”.

Gosto de escrever. Expressar sentimentos, desejos,frustrações, alegria, amor, enfim, coisas que fazem parte da subjetividade evêm à tona com certa facilidade, pelo menos para esta que ora vos fala.

Algumas vezes penso que esgotei meu acervo nesse sentido.Mero engano: E a memória que está recalcada na escuridão do inconsciente?Dezenas de experiências traumáticas, talvez, desde a infância, façam parte deminha persona, sem que eu me dê conta.

O ato de mergulhar em uma obra literáriapode causar um elo, uma conexão, entre o consciente e o inconsciente? Quem sabea cada análise de personagem, escapesorrateiramente uma ou duas referências (que eu não conhecia) de minha própria história?

Deleitar com leituras deliciosas uma alma cansada detormentas; esta é a forma que encontrode fazer uma espécie de literatura comparada e pensar nos grandesautores de todo o mundo e de diferentes séculos.

Vejo-os agora, de mãos dadas em uma roda infinita, que giraem torno do planeta, uma rede humana de conexão –connection of writes from allplaces and all eras. Nada de teorias, tudo por puro prazer, deleite de umaleitora apaixonada.

Hoje, trago-lhes referências de um célebre conto daescritora neozelandesa Katherine Mansfield, que viveu entre os anos de 1888 e1923. Como um clássico, sua obra permanece atual, pois a autora, através desituações do cotidiano, propicia ao leitor deliciosas e dramáticas descobertasque desvelam os mais ocultos dos sentimentos humanos. Brevíssimo mergulho noconto em questão:

  

TÍTULO:A MOSCA

CENÁRIO: Londres do sec. XIX, Centro Histórico PERSONAGENS:


Sr.Woodifield: Velho senhor, cuja maior alegria é visitar o ex-chefe na empresa emque trabalhara a vida inteira. Aposentado, depois de sofrer um AVC, vive aoscuidados da esposa e das duas filhas. Sai esporadicamente; banho tomado,cabelos penteados, roupas limpas, além de devidamente perfumado com a colôniadas filhas; tudo isso supervisionado, apenas para visitar a empresa, mais propriamente o gabinete do Chefe, um ambiente que encanta o velho senhor, pelo luxo queostenta. Admira o modo como vive o Chefe, homem rico, que o recebe com certa cortesia.

O CHEFE: Homem forte, apesar daidade avançada, cuida de sua empresa com punho de ferro. Tolera as visitas deWoodifield, porque, de certa maneira, se diverte com o deslumbramentoindisfarçável do ex-funcionário (já caquético), diante do ambiente luxuoso deseu gabinete recém reformado: poltronas de couro, assentos forrados em ricoveludo, cortinas de seda, luminárias italianas e obras de arte nas paredes. Nofundo, o Chefe alimenta o próprioego, diante da fragilidade física e mental, das inconveniências de Woodifield.

O FILHO MORTO DO CHEFE: Estepersonagem será trazido à conversa entre os dois homens,por Woodfield, claro,e provocará todo o dramada história. Filho único, jovem amável,querido por todos,aluno brilhante, preparava-se para, no futuro, assumir aempresa do pai, que fora criada especialmente para ele. O filho do chefe tevemorte súbita há seis anos.

Antes de término da visita, Woodifield comenta alegrementea ida de uma de suas filhas ao cemitério, descrevendo o quão bem cuidado estavao túmulo do filho do Chefe. Tal comentário caiu como um raio e provocou aabertura de uma cratera sob os pés daquele pai; o silêncio sobre o assunto eraimperativo para sua própria sobrevivência. Dilacerado pela dor reacendida pelas palavras de Woodifield, o Chefe tratoude encerrar a visita.

Trancado em seu gabinete, sentado em sua mesa de trabalho,o homem de ferro tenta chorar como no passado, buscando certo alívio após fortecrise de choro; desta vez, sequer lhe cai uma lágrima. Tudo perde o sentido.Resta-lhe apenas o coração dilacerado. Quanta dor!

Naquele momento, o Chefe observa que uma mosca caíra dentrodo tinteiro grande que havia sobre a mesa e, desesperada, tentava sobreviver,nadando para fora do tinteiro. Em vão.


O homem, então, com uma caneta, retirou a mosca do tinteiroe a jogou sobre uma folha de papel mata-borrão. Isto fez com que o insetotentasse se recompor, chacoalhando seu minúsculo corpo várias vezes pararetirar o excesso de tinta sobre as asas caídas. Depois de um esforço hercúleo,quando a Mosca se preparava para voar, o homem novamente esvaziou a canetasobre ela, trazendo de volta aquela realidade desesperadora e angustiante.Perplexo, o leitor acompanha uma verdadeira sucessão de horrores, até a morte da mosca.

     Impactada, trago-lhes algumas questões sobre o comportamento cruel do CHEFE:

     *Por quetamanha perversidade para com um inseto?

     * Estaria o chefe projetando na Mosca opróprio Woodfield, que reacendeu em sua alma o sofrimento pela morte dofilho?  

    * A sucessão de torturas sofridas pelaMosca seria uma metáfora criada pela autora, para demonstrar a forma como aangústia martiriza continuamente o ser humano após a perda de um filho? 

NOTA: Após essas ou outrasreflexões sobre os acontecimentos que antecedem o final do conto, tenho adizer-lhes que este deve ter sido surpreendente para os leitores da época. Masnão para mim, leitora do séc. XXI, tempo em que essas dores terríveis convergempara um final já conhecido. 

             Belíssima escrita, enredomaravilhosamente intrigante, estilo único. Este foi mais um conto de KatherineMansfield, a escritora que expõe as dores humanas, através de situações docotidiano. 

 

 

FIM

 

 

Bibliografia:Mansfield, Katherine, 1889-1923 Felicidade e outros contos- Rio de Janeiro:Revan, 1991


 


 

AVESSO

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Eu sou tão independente…
sem carência,sem ausência,
sem pensar que o avesso
existe nas sombras do inconsciente.
 
Meu avesso é fortaleza,
muros altos, portas fortes,
quarto escuro, alguns segredos
onde se escondem meus medos.
 
Teias enormes, estranhas
em que se amaram meus ais,
se pudesse voltar atrás…
teria sonhado mais.
 

AFINAL, O QUE É O TEMPO?

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                                                                      Sandra Castiel

Quando eu era nova, otempo não era um tema que eu considerasse instigante. Para mim bastava pensarque a vida é o que é, ou seja, tudo se modifica ao longo das experiências dequem vive. Mas àquela altura eu estava no princípio da minha jornada, focada emplanos e objetivos, não havia vivido o bastante para reflexões filosóficas, o sentimentoque me movia diante das leis da vida era, em outras palavras, manter a inocênciados ignorantes (sem ter noção desta opção).

 

JUVENTUDE:

Em nossa casa, meu paivivia a repetir uma frase que me marcou pra sempre. Isto acontecia quando recebíamosa notícia da morte de um conhecido ou amigo, um parente ou pessoa próxima: “- É a Vida! …-É a Vida!”

Ao repetir esta frase,sua voz mudava, seu rosto se transfigurava em mágoa, em desolação, em raiva,talvez. Refugiava-se em sua rede, com seu maço de cigarros e com seuspensamentos. Não queria conversas. No dia seguinte, voltava aos seus livros debolso, à leitura das histórias de faroeste americano, mas evitava até sair doquarto. Não conseguia ir a velório, tampouco a sepultamento.

Depois de tantos anos, leioo comportamento de meu pai como o de um homem de meia idade que não aceitava aideia e a concretude da morte, da finitude de tudo o que é vivo; isto lhecausava um profundo sentimento de indignação e, sobretudo, de ressentimentocontra a Vida, contra suas regras, contra a impossibilidade de mudá-las. Ah sepudesse parar o tempo! … Afinal, sabia que as leis da vida são eternas eimutáveis, isto o incomodava profundamente. 

Hoje minha leitura da mágoade meu pai diante da finitude tornou-se mais clara. Estar vivo, para ele,significava contemplar e interagir com a natureza, com a simplicidade dascidades minúsculas às margens dos caudalosos rios amazônicos, e com suas filhas,esses eram seu tesouro.

Costumava inventarhistórias sobre a floresta e contá-las com uma interpretação incrível, para asfilhas crianças. Os personagens das histórias pertenciam sempre a esseuniverso, inclusive ele próprio. Creio que encarava a morte como uma “sentença”de privação injusta do que lhe era mais caro, privação eterna imposta pelasleis do universo.

 

INFÂNCIA:

“Umachoupana à beira do rio Amazonas, chão de terra batida, teto de palha, no meio dafloresta. Um dia, meu pai e seu amigo, cansados de caminhar naquela mata,avistaram a choupana e chegaram até ela. Foram bem recebidos pelo dono dacasinha onde passariam a noite; este era um senhor de certa idade, que alimorava com sua filha, Jara, garotinha de 6 anos de idade, descrita como uma caboclinhade aparência frágil, magrinha e de cabelos longos. A história de Jara eratriste, sua mãe havia morrido por uma picada da terrível cobra pico-de-jaca.

Todosataram suas redes no único cômodo que havia. Meu pai só conseguiu cochilar demadrugada. Acordou quando ouviu o seguinte diálogo:

-Jara!

-Siô, meu pai!  

-Sialevanta, minina!

-Jávô, meu pai!

-Vaiperpará um café pru meu cumpade Rafaé e pru amigo dele!

Napenumbra do barraco, à luz de uma antiga lamparina, a menina levantou da rede,pegou uma panela velha pendurada em um prego na parede e saiu, descalça, oslongos cabelos lisos desgrenhados, em direção ao rio. O dia ainda não havianascido completamente, quando Jara desceu o barranco, acocorou-se bem à beira, emergulhou a panela nas água do gigantesco Amazonas.

Eisque um jacaré enorme, nascido e criado naquelas águas barrentas, aproximou-sesilenciosamente… (ainda não havia comido nada àquele dia), abriu sua bocarracheia de dentes pontiagudos e, com um movimento que fez as águas tremerem,atacou a pequena Jara. Da choupana, todos ouviram o grito desesperado damenina.

– Meu pai! Me ajuda, meu pai!

Aosentir que a filha estava em perigo, o velho pai de Jara teve um passamento(como se falava à época nesta região) e foi amparado pelo amigo de meu pai. Naquelemomento, meu pai correu até o rio com sua espingarda, mirou bem e apertou comforça o gatilho.   

Otiro certeiro ecoou na mata como uma explosão, espantando os pássaros, quevoaram em bandos pra longe: BUM!!!!!!!!

Aságuas do rio ficaram vermelha do sangue do jacaré, que ainda mantinha a meninapresa em sua enorme boca. Os cabelos negros de Jara boiavam sobre as águasiluminadas pelos primeiros raios de sol.  Os três homens arrastaram o bicho pra fora d´aguae com cuidado retiraram a pobre menina. Ela não se mexia, não respirava. Jaraestava morta!”

 

Esta história, uma dasmuitas inventadas por meu pai para encantar a imaginação das filhas, vem-me à memóriacomo a mais linda lembrança de minha infância (apesar de Jara ter morrido nofinal; acho que a psicologia explica essa morte). É difícil ter que aceitar queaquele tempo está morto, é inútil revisitar lugares para tentar reencontrá-lo,voltando presencialmente aos cenários do passado; nada mais é igual, nem cenáriose nem personagens. O tempo leva tudo, como dizia Rubem Braga. Não volte aopassado buscando encontrá-lo, guarde consigo as memórias.

No fundo acredito que otempo seja linear, isto é apenas uma intuição, não sou filósofa. Gosto depensar sobre o tempo e imaginar como estará o mundo daqui a cinquenta anos.Algo me diz que já terão inventado uma máquinado tempo, espécie de nave que nos possibilite visitar de verdade o passado,já pensou?!

Uma pena eu não estarmais aqui daqui a cinquenta anos: o tempo já terá aberto sua bocarra cheia dedentes afiados e … É a Vida!

    

 

 

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  Professora, escritora, membro da Academia deLetras de Rondônia

O TEMPO E EU (Arrancando Pétalas)

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                                                                                                   Sandra Castiel

               Ponho-me a pensar no tempo. No que o tempo fez comigo. Escrevo em primeira pessoa para não afirmar que todas as mulheres da minha geração guardam desencantos. Digamos que todas, não. 
Quase todas.

              Quando o tempo era um jovem e eu era uma flor, ele morava dentro de mim, aguçava-me com sua vigorosa energia e levava-me a alimentar os mais variados sonhos: liberdade, colônias hippies, crianças correndo na grama, viagens por lugares exóticos, palmeiras, cabelos ao vento, homens altos e loiros, homens altos e negros, coisas assim, colhidas das revistas da época.

             À medida que ficava adulto, o tempo, hóspede permanente, acenava com outra gama de possibilidades para minha provinciana vida: metrópoles esplendorosas, capitais do mundo ocidental, jornalismo, comunismo, blá blá blá.

            Vida vivida (quase toda), continuo hospedeira do tempo.

           É certo que ao longo desta convivência (o tempo e eu), vez ou outra busquei alguns desses caminhos. Descobri, então, que meu hóspede perene ocultou-me quão decepcionantes poderiam ser essas buscas: a cada frustação, o tempo arrancava-me uma pétala.

           Um dia acordei e sobre os lençóis estavam todas as pétalas arrancadas pelo tempo (eu era uma flor, lembram?).
           Catei-as amorosamente.

           Percebi que estavam desbotadas, mas continuavam belas. De outra maneira, é verdade. Perderam o frescor, o viço e as cores. Porém, carregavam consigo as marcas da minha vida; sulcos causados pelos momentos de dor e sofrimento, em meio a traços de rabiscos delicados, pelas horas felizes (e foram tantas!), pela percepção do sentido da vida e pelo encontro com o verdadeiro amor.

           E este amor durou a existência inteira.

A MAIS BELA HISTÓRIA DO MUNDO

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    Era uma vez uma grande massa sem forma nenhuma chamada Caos. Um dia, houve um tremor estranho em Caos e Caos se dividiu em duas partes: a primeira parte era o céu e recebeu o nome de Urano; a segunda parte era a terra e recebeu o nome de Geia. Urano e Geia olharam-se, apaixonaram-se e se casaram.

     Ora, acontecia, porém, um fato muito curioso: Urano não queria ser pai; todo filho que nascia de Geia Urano enterrava.

      Numa noite fria, Geia deu à luz um menino robusto; para salvá-lo, resolveu escondê-lo de Urano. Geia chamou seu filho de Cronos; assim, Cronos cresceu, sempre escondido de seu pai, Urano.

      Geia deu à luz também uma menina, a quem chamou de Reia, e, para salvá-la, resolveu igualmente escondê-la de seu pai, Urano. O tempo passou.

     Um dia, Geia chamou Cronos e entregou-lhe uma foice, ordenando-lhe que, assim que a noite chegasse, castrasse seu pai. Cronos obedeceu.

   Naquele momento, o esperma de Urano derramou-se sobre o mar, gerando muita espuma nas ondas. Dessa espuma, nasceu Afrodite, a deusa do amor.

   Como entre aqueles seres tudo era possível, Cronos casou-se com sua irmã, Reia, e tiveram vários filhos.

    Acontecia, porém, que Cronos puxou a seu pai, Urano, e também não gostava dos filhos. À medida que os filhos nasciam, Cronos os devorava sem piedade.

     Face a esta terrível realidade, Reia tornou-se muito infeliz. Resolveu, então, terminar com aquela situação. Na hora em que Cronos ia engolir o filho mais novo, chamado Zeus, Reia escondeu-o e, no lugar da criança, enrolou uma grande pedra, dando-a para Cronos, como se esta fosse seu filho Zeus. Cronos devorou a pedra e ficou satisfeito. Deste modo, Zeus estava a salvo e pode crescer.

   Assim que se tornou adulto, Zeus serviu uma bebida a seu pai, para que ele vomitasse os filhos que houvera devorado. Cronos vomitou dois meninos, Posseidon e Hades, e duas meninas, Hera, Hestia e Demeter.

   Quando cresceram, os irmãos resolveram que Cronos não daria mais as ordens, e sim Zeus.

   Zeus começou a reinar. Chamaram seu reino de Olimpo. Muito poderoso, Zeus fez a partilha do Universo entre seus irmãos, tornando-os deuses: Posseidon passou a reinar sobre os mares; Hades passou a reinar sobre os infernos; Demeter, sobre a agricultura e a colheita; Hestia, sobre o fogo; Hera foi escolhida para ser a esposa de Zeus.

    Zeus, o grande soberano, passou a reinar sobre todos os seus irmãos e sobre todo o Olimpo, sendo o mais poderoso dos deuses.

   

Nota: esta narrativa, de minha autoria, é baseada nas aulas de literatura grega, do curso de Letras da Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, ministradas pelo grande classicista brasileiro, professor Junito de Souza Brandão (in memoriam), de quem tive a honra de ser aluna, ao longo de todo o curso.  
 

Sandra Castiel, professora, escritora, membro efetivo da Academia de Letras de Rondônia.        

 

 

 

 

 

CARTA A MEU AMOR

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Fui uma mulher de vários amores, na juventude? Talvez sim. Fui uma colecionadora de namoricos? Creio que sim. Mas você chegou e mudou alguma coisa em mim: olhava-me como se eu fosse especial, uma fada, desde que seus olhos de lago cruzaram com os meus olhos curiosos. Costumava dizer que se apaixonara por mim por causa dos cabelos muito longos e brilhantes. Nos dias mais quentes, eu os prendia em uma trança única e transversa. Você não gostava. Soltava-os. Dava-se ao trabalho de, no interior do carro (escondidos), desmanchar cada mecha do meu penteado. Mergulhava o rosto nos meus cabelos soltos, deliciava-se com o aroma de flores do meu shampoo simplesinho, contemplava cada centímetro de meu rosto, com expressão de admiração e felicidade.

Éramos dois jovens encantados com o sentimento que nos invadia; seria paixão? Seria amor? Talvez os dois misturados numa poção mágica que nos deram de beber os deuses alquimistas, durante o sono.

Tivemos uma história como tantas outras; aprendemos a nos conhecer melhor ao longo da convivência duradoura; longe de ser perfeita, foi única e inesquecível. Lutamos lado a lado pelas nossas conquistas; você, com sua alma sempre alegre, era o fiel da balança que equilibrava minhas emoções intensas, meus temores, meus medos.

Tem sido difícil sem você. Tento não me tornar alguém triste; luto para expulsar o vazio que vez ou outra preenche minh’alma; às vezes, sonho que o presente na verdade é o passado, e ali sou uma visitante em busca de nós dois. Loucura. Não quero perder-me nas artimanhas do tempo. Sou forte, e você confiava nisto.

Para viver, só preciso da graça e do encanto das pequenas-grandes coisas da vida; é como se você estivesse comigo, a colher uma flor ou a contemplar, com seus olhos de lago, a alegria dos passarinhos em nosso quintal.

Para sempre sua,

Sandra

Academia de Letras de Rondônia Ontem e Hoje

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      Desde os primórdios, havia, entre os moradores de Rondônia, alguns homens célebres pela inteligência, pela sapiência, pelo talento; à medida que o desenvolvimento (mesmo em passos lentos) chegava a esta terra, alguns deles colaboravam com jornais locais ou com a educação de jovens alunos, apresentando o mundo à juvenilidade deste rincão distante, através de suas aulas. Faziam deste grandioso mister um dos aspectos mais relevantes de suas vidas; para muitos, a remuneração era o contentamento, o júbilo que transparecia da motivação daqueles adolescentes face às suas aulas.
       Ao longo das décadas, vários desses homens sábios seguiram suas jornadas em outras paragens; outros, aqui permaneceram; alguns, partiram para a eternidade. Os que aqui permaneceram juntaram-se a novos eruditos que chegavam, trazidos pelo contínuo movimento da vida. Eventualmente encontravam-se para interagir entre si, conversar e debater sobre temas diversos, trocar impressões e opiniões sobre a leitura de seus escritos poéticos, filosóficos, históricos, políticos, antropológicos, enfim, textos pertinentes ao conhecimento, à arte, à cultura.
       Os encontros aconteciam em locais inusitados: nos bancos das praças à sombra de uma árvore, na sala de estar da casa de alguns deles, na biblioteca da cidade, enfim, aqueles intelectuais eram movidos pelo sonho de fomentar, junto à população, sobretudo junto aos jovens escolares, as letras, a literatura, as artes, a cultura, o conhecimento e o pensamento crítico, visando enriquecer a educação escolar, cujo objetivo por excelência é o desenvolvimento humano. Destarte, fez-se necessário agir no sentido de difundir à sociedade rondoniense o tesouro que está no cerne de tudo isto: assim nasce a Academia de Letras de Rondônia.
      A Acler-Academia de Letras de Rondônia foi criada em 10 de junho de 1986. Seus fundadores integravam a elite intelectual de Rondônia; eram pessoas originárias de diferentes segmentos da sociedade rondoniense, reverenciadas pela erudição, pelo saber, pelo (s) talento (s), por suas valiosas contribuições nas diversas áreas do conhecimento, seja trazendo à luz, através da pesquisa científica, fatos pertinentes à história de Rondônia, desde os primórdios; seja enlevando a alma  dos leitores através de poemas, crônicas poéticas, romances e outros gêneros literários; seja ainda revelando aspectos importantes e curiosidades sobre a natureza de nossa terra, da gente amazônida, de nosso modo de viver, neste pedaço de Brasil  outrora isolado dos grandes centros do país.
   Colhemos da historiadora Yêdda Pinheiro Borzacov, em discurso proferido na comemoração dos 37 anos da Acler: “A relação dos Acadêmicos presentes à reunião de fundação da Academia, realizada no auditório da Biblioteca José Pontes Pinto:
Ary Tupinambá Penna Pinheiro, José Valdir Pereira, Amizael Gomes da Silva, Bolívar Marcelino, Edson Jorge Badra, Emanuel Pontes Pinto, Esron Penha de Menezes, Eunice Bueno da Silva e Souza, Gesson Álvares de Magalhães, Hélio Fonseca, Matias Alves Mendes, Paulo Nunes Leal, Abnael Machado de Lima, Raymundo Nonato de Castro e Vitor Hugo.”

   Hoje, a Academia de Letras de Rondônia mantém-se viva, tanto pelos esforços de sua diretoria, quanto pela emoção que invade nossas almas de escritores no ato da criação literária, nos desafios impostos pela pesquisa científica, pela audição emocionante da história oral, pelo grupo de amigos que ajuda a sustentá-la. Face às adversidades que vem enfrentando ao longo desses 37 anos de existência, o que nos move, todos os acadêmicos e amigos da academia, é o respeito pelo passado, pela iniciativa grandiosa de seus fundadores, pelo amor às letras e pela construção de novos conhecimentos.
    A Academia de Letras de Rondônia, hoje, é presidida pelo poeta-escritor e criador de forma única de estruturação de um poema, conhecida como Munduri: o rondoniense Francisco Chagas, o Chico Chagoso, como se identifica em seus trabalhos literários.
    Esperamos que nossa Acler receba novas gerações de escritores, através de incontáveis décadas. Que seja eterna. Ad aeternum.

Sandra Castiel, escritora, professora, membro efetivo da Academia de Letras de Rondônia, cadeira n.36.

Nós e a eternidade

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Sandra Castiel - Gente de Opinião
Sandra Castiel

A morte de entes queridos, não obstante aspectos subjetivos como fé e religião, nos devasta; conviver com a ausência absoluta da voz, do riso, da companhia de quem se ama é avassalador. Será ad eterno, ou no reino dos mortos haverá reencontros? É tão consoladora esta possibilidade!…Ponho-me a pensar nos aspectos filosóficos que sustentam a pluralidade de posicionamentos do ser humano face a esta implacável realidade: todos partiremos.

      Na mitologia grega, a morte significa uma passagem da vida, para o mundo dos mortos. Na ocasião da morte, a alma se separa do corpo e segue para o reino de Hades, submundo, ou mundo inferior. Porém, nem todas as almas chegam até Hades: Caronte é o barqueiro que conduz as almas dos mortos ao longo do rio Estige, divisor entre os dois mundos; a viagem a Hades requer um pagamento a Caronte. Por isso, a família do morto costuma colocar em sua boca uma moeda de ouro ou prata, a fim de que o barqueiro conduza a alma do recém-falecido até o reino de Hades. Se não houver pagamento, a alma não embarca e fica vagando pelas margens por um século. A viagem até o palácio de Hades é terrível: o barco passa pelo rio das aflições e dores, pelo rio dos gemidos e lamentos, pelo rio gelado dos horrores, pelo rio das chamas que nunca se extinguem e finalmente pelo rio do esquecimento; todos esses rios conectam os diversos planos de Hades. Na chegada ao castelo, e após o desembarque, as almas se apresentam ao grande tribunal para serem julgadas; este julgamento sela seu destino. 

 

Imagem Tiooda.com.br - Gente de Opinião
Imagem Tiooda.com.br

Na literatura comparada, podemos observar que há diferentes mitologias sobre a criação do mundo e sobre  a morte dos homens, em conformidade com as diferentes culturas que habitam o planeta; rabisquei fragmentos da mitologia grega sobre este tema, por dois motivos: 1) desde a juventude, apaixonei-me por sua beleza, sobretudo por suas construções metafóricas, construções  que enriquecem a imaginação do leitor, instigando-o a aprofundar-se mais e mais nas descrições minuciosas de todos os aspectos do comportamento humano (comportamento este presentes nos deuses):seus sentimentos, imperfeições, atitudes, escolhas, conflitos e dramas;  2) a explicação para o segundo motivo é óbvia: a Grécia é o berço da civilização ocidental.

      Felizmente existem forças que confortam a alma humana, tais como a fé e a religião. Neste quesito, sou uma bruxa, pois só minhas crenças são capazes de sustentar as complexidades de minha mente (por vezes) torturada: espíritos, energias, santidades, divindades, anjos, milagres, coisas assim. Este simbolismo, que habita meu “entendimento” sobre o incompreensível, trouxe-me verdadeiro alento quando senti, em passado recente, o véu negro da morte (eternidade) a cobrir-me os olhos: um anjo a quem chamo Maria retirou dos meus olhos o véu da escuridão e acendeu a luz.  

Um pouco da história política recente de Rondônia (II)

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1976 – UMA EXPERIÊNCIA DE VOTO DISTRITAL EM RONDÔNIA

Até novembro de 1977 Rondônia contava apenas dois municípios, Porto Velho, que se estendia do Abunã até à divisa com o Estado de Mato Grosso, e Guajará-Mirim, na região dos rios Mamoré e Guaporé, abrangendo áreas de alguns (hoje) municípios ao longo da BR-429.

A Câmara de Porto Velho, cujas eleições não aconteciam desde a década de 1920 e foram retomadas em 1969, teve naquele ano e depois em 1972 apenas vereadores moradores da sede municipal.

Em 1969, num período em que para exercer qualquer função em órgão público os órgãos de segurança faziam uma devassa na vida do cidadão, o jornalista Dionísio Xavier da Silveira, membro do Partido Comunista, foi um dos eleitos, pela Arena, partido do governo.
Na eleição de 1972, o radialista Osmar Vilhena, sozinho, fez votos suficientes para que o MDB elegesse cinco. E logo depois, com possibilidade de Osmar fazer sombra ao “Cacique” Jerônimo Santana, o próprio partido que devia ser maioria graças a Osmar, articulou e conseguiu sua cassação.

Em 1972 outro também do PCB foi eleito, Cloter Mota, reeleito em 1976 e que em 1982 foi eleito para escrever a primeira Constituição estadual.
Em 1976 Porto Velho teve uma espécie de “eleição distrital”, à moda rondoniense. Os candidatos eram apenas da Arena, de sustentação do Governo – no Território na maioria das vezes isso não vogava, e do MDB, a chamada “oposição consentida”.

Naquele ano pela primeira vez se fez sentir a voz do novo rondoniense, migrantes que entraram pela BR-364 e que vinham aos poucos ocupando espaços tanto na área social quanto, mudando, o direcionamento econômico com a inserção da agricultura em larga escala (plantando o que hoje é o agronegócio rondoniense) e o político.

Fechadas as urnas, contados os votos, para o período a se iniciar em 1977 na Câmara de Porto Velho, quando foram eleitos 14 vereadores, foi pela primeira vez composta com representantes das vilas que se estavam formando ao longo da BR-364 sentido sul.
A Arena elegeu seis vereadores, três do interior: Nunoi Itsumi (Vila Rondônia), João Cabral (Pimenta Bueno) e Osmar Costa (Vilhena). Da capital foram Marise Castiel (primeira mulher eleita em Porto Velho), João Bento da Costa (que em 1978 mudou para o MDB) e Antonio Leite da Fonseca.

O MDB trouxe quatro do interior: José Viana (Vila Rondônia), Noé Inácio dos Santos (Presidente Médici), João Dias (Ouro Preto), João Gonzaga (Cacoal). De Porto Velho o MDB elegeu Itamar Moreira Dantas, Abelardo Castro Filho, Cloter Mota, Paulo Strutos Filho.

O interior logo perdeu uma cadeira, porque Nunói Itsumi foi nomeado prefeito de Ji-Paraná renunciado à vaga na Câmara, assumindo o professor Amizael Silva, que fora vereador entre 1973 e 1977.

Lúcio Albuquerque
Repórter e pesquisador da história pós visita de Getúlio Vargas (1940)

Um pouco da história política recente de Rondônia (I)

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MDB – RAÍZES DESDE A LUTA DE CUTUBAS E PELES-CURTAS ATÉ 1978

Beneficiado por raízes históricas das quase octogenárias disputas entre “cutubas” – ligados ao histórico cacique Aluízio Ferreira – e “peles-curtas”, Paulo Saldanha/Joaquim Rondon/Renato Medeiros, o MDB rondoniense, a menos de quatro meses de sua 11ª eleição estadual, pelo que se ouve dentro e fora da sede regional, “está à deriva”.

Um problema que, ao contrário do que se propor, vem acontecendo há alguns anos, e os números obtidos nas últimas eleições, pela seção local do partido criado pelo ato institucional nº 2/1965 quando, com raras exceções, os fundadores no então Território eram “cutubas”, provam que os números têm razão.

O governador, nomeado pelo presidente da República por indicação do deputado federal em mandato, o primeiro, em 1947, Aluízio Ferreira, líder “cutuba”, era preciso ter muita coragem para ser de oposição.

“Hoje o partido perdeu o protagonismo”, disse influente membro, com vários mandatos exercidos desde a primeira eleição estadual e o que não é difícil ouvir, às vezes de forma diferente mas com o mesmo sentido, no prédio da Rua Elias Gorayeb, edifício dos “bons tempos” que a sigla viveu.

Pelo que se observa mais uma vez o MDB, que já elegeu quatro governadores (considerando Confúcio Moura em 2010 e 2014), vai para a disputa estadual sem “cabeça” e, também, sem um nome viável ao Senado.
CAMINHADA
Os “peles-curtas”, de onde se originaria o MDB, elegeriam dois dos cinco deputados federais (cada Território só elegia um deputado) entre 1947 e 1964, mas ganhou três vezes com Jerônimo Santana em 1970, 74 e 78, período em que o grupo volta a ter força política, e se estruturar melhor, a partir de 1970.

No período Rondônia tinha dois municípios e a Câmara de Porto Velho (o outro era Guajará-Mirim) era a voz dos moradores desde a capital do Território até Vilhena, o que só mudaria a partir de 1976 quando foram eleitos sete vereadores oriundos dos distritos da região sul rondoniense da BR-364 para a Câmara portovelhense.     

Naquela três eleições (70, 74 e 78) Jerônimo, com um discurso voltado para o restabelecimento da garimpagem manual, que ele, como advogado, deveria saber, que a decisão de reabrir o garimpo independeria de deputado federal, agrupou os filiados ao MDB, então uma autêntica babel política que incluía de cristãos a comunistas.

Além do discurso contra o fechamento do garimpo manual Jerônimo também carregou contra governadores do período pós-1964, todos coronéis do Exército, sem habilidade com o trato político. Talvez única exceção dentre os nomeados o engenheiro Wadih Darwich tenha sido o único civil.

Independente dos resultados positivos que qualquer governador conseguisse, o discurso de JerÔnimo e todos no MDB era um só, como em 1977, em entrevista ao jornal A Tribuna, dizia o então vereador Cloter Mota, comunista mas abrigado no MDB, e constituinte da 1ª Constituição estadual, “todos são coronéis desempregados”.
Jerônimo explorou o ressentimento que parcela importante da população local teve devido à extinção da ferrovia Madeira-Mamoré, com a culpa jogada na ação do 5º BEC, que pode ter cometido “pecados”, mas é preciso considerar que, no caso da ferrovia, o Batalhão já chegou com ela considerada extinta.
Além disso, vivia-se um período de exceção, em que a ação política, mesmo que partida de um governador, tinha poucas chances de reverter decisões.

(*) Leia terça-feira o II capítulo de “Um pouco da história política recente de Rondônia”.
Lúcio Albuquerque
Repórter e pesquisador da história pós visita de Getúlio Vargas (1940)