“…nosapegamos aos últimos prazeres, como a árvore se apega às últimas folhas”.
Gosto de escrever. Expressar sentimentos, desejos,frustrações, alegria, amor, enfim, coisas que fazem parte da subjetividade evêm à tona com certa facilidade, pelo menos para esta que ora vos fala.
Algumas vezes penso que esgotei meu acervo nesse sentido.Mero engano: E a memória que está recalcada na escuridão do inconsciente?Dezenas de experiências traumáticas, talvez, desde a infância, façam parte deminha persona, sem que eu me dê conta.
O ato de mergulhar em uma obra literáriapode causar um elo, uma conexão, entre o consciente e o inconsciente? Quem sabea cada análise de personagem, escapesorrateiramente uma ou duas referências (que eu não conhecia) de minha própria história?
Deleitar com leituras deliciosas uma alma cansada detormentas; esta é a forma que encontrode fazer uma espécie de literatura comparada e pensar nos grandesautores de todo o mundo e de diferentes séculos.
Vejo-os agora, de mãos dadas em uma roda infinita, que giraem torno do planeta, uma rede humana de conexão –connection of writes from allplaces and all eras. Nada de teorias, tudo por puro prazer, deleite de umaleitora apaixonada.
Hoje, trago-lhes referências de um célebre conto daescritora neozelandesa Katherine Mansfield, que viveu entre os anos de 1888 e1923. Como um clássico, sua obra permanece atual, pois a autora, através desituações do cotidiano, propicia ao leitor deliciosas e dramáticas descobertasque desvelam os mais ocultos dos sentimentos humanos. Brevíssimo mergulho noconto em questão:
TÍTULO:A MOSCA
CENÁRIO: Londres do sec. XIX, Centro Histórico PERSONAGENS:
Sr.Woodifield: Velho senhor, cuja maior alegria é visitar o ex-chefe na empresa emque trabalhara a vida inteira. Aposentado, depois de sofrer um AVC, vive aoscuidados da esposa e das duas filhas. Sai esporadicamente; banho tomado,cabelos penteados, roupas limpas, além de devidamente perfumado com a colôniadas filhas; tudo isso supervisionado, apenas para visitar a empresa, mais propriamente o gabinete do Chefe, um ambiente que encanta o velho senhor, pelo luxo queostenta. Admira o modo como vive o Chefe, homem rico, que o recebe com certa cortesia.
O CHEFE: Homem forte, apesar daidade avançada, cuida de sua empresa com punho de ferro. Tolera as visitas deWoodifield, porque, de certa maneira, se diverte com o deslumbramentoindisfarçável do ex-funcionário (já caquético), diante do ambiente luxuoso deseu gabinete recém reformado: poltronas de couro, assentos forrados em ricoveludo, cortinas de seda, luminárias italianas e obras de arte nas paredes. Nofundo, o Chefe alimenta o próprioego, diante da fragilidade física e mental, das inconveniências de Woodifield.
O FILHO MORTO DO CHEFE: Estepersonagem será trazido à conversa entre os dois homens,por Woodfield, claro,e provocará todo o dramada história. Filho único, jovem amável,querido por todos,aluno brilhante, preparava-se para, no futuro, assumir aempresa do pai, que fora criada especialmente para ele. O filho do chefe tevemorte súbita há seis anos.
Antes de término da visita, Woodifield comenta alegrementea ida de uma de suas filhas ao cemitério, descrevendo o quão bem cuidado estavao túmulo do filho do Chefe. Tal comentário caiu como um raio e provocou aabertura de uma cratera sob os pés daquele pai; o silêncio sobre o assunto eraimperativo para sua própria sobrevivência. Dilacerado pela dor reacendida pelas palavras de Woodifield, o Chefe tratoude encerrar a visita.
Trancado em seu gabinete, sentado em sua mesa de trabalho,o homem de ferro tenta chorar como no passado, buscando certo alívio após fortecrise de choro; desta vez, sequer lhe cai uma lágrima. Tudo perde o sentido.Resta-lhe apenas o coração dilacerado. Quanta dor!
Naquele momento, o Chefe observa que uma mosca caíra dentrodo tinteiro grande que havia sobre a mesa e, desesperada, tentava sobreviver,nadando para fora do tinteiro. Em vão.
O homem, então, com uma caneta, retirou a mosca do tinteiroe a jogou sobre uma folha de papel mata-borrão. Isto fez com que o insetotentasse se recompor, chacoalhando seu minúsculo corpo várias vezes pararetirar o excesso de tinta sobre as asas caídas. Depois de um esforço hercúleo,quando a Mosca se preparava para voar, o homem novamente esvaziou a canetasobre ela, trazendo de volta aquela realidade desesperadora e angustiante.Perplexo, o leitor acompanha uma verdadeira sucessão de horrores, até a morte da mosca.
Impactada, trago-lhes algumas questões sobre o comportamento cruel do CHEFE:
*Por quetamanha perversidade para com um inseto?
* Estaria o chefe projetando na Mosca opróprio Woodfield, que reacendeu em sua alma o sofrimento pela morte dofilho?
* A sucessão de torturas sofridas pelaMosca seria uma metáfora criada pela autora, para demonstrar a forma como aangústia martiriza continuamente o ser humano após a perda de um filho?
NOTA: Após essas ou outrasreflexões sobre os acontecimentos que antecedem o final do conto, tenho adizer-lhes que este deve ter sido surpreendente para os leitores da época. Masnão para mim, leitora do séc. XXI, tempo em que essas dores terríveis convergempara um final já conhecido.
Belíssima escrita, enredomaravilhosamente intrigante, estilo único. Este foi mais um conto de KatherineMansfield, a escritora que expõe as dores humanas, através de situações docotidiano.
FIM
Bibliografia:Mansfield, Katherine, 1889-1923 Felicidade e outros contos- Rio de Janeiro:Revan, 1991







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