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M Í S T I C A

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Ela é uma mulher diferente (não no melhor sentido): acha difícil conhecer o seu avesso, tal a profusão de sentimentos que carrega na mente, durante a maior parte de seus momentos, e sofre; em outros (não raramente), sente-se indiferente diante do desamor, da morte e das maldades do mundo, como se apequenasse intencionalmente o próprio ser. Há muito aceitou a ideia de que, algum dia, não muito distante, será apenas uma imagem no arquivo de fotos do celular de alguém: sem história, sem saudade, sem poesia, sem nada. Acredita que assim é a vida.

Costuma perceber sussurros e vultos pelos cantos da casa: serão pessoas que não existem mais e que tentam revelar-lhe suas presenças na casa onde vive? Serão espíritos? Seres do além? De qualquer forma, não se incomoda com isso; pensa o quanto seria bom vê-los e ouvi-los claramente.

Sempre teve um lado místico: gosta de ouvir e contar histórias que assombraram sua infância. Certa vez, ao olhar-se no espelho do banheiro, viu que o rosto ali refletido não apresentava os seus traços, porém sentiu que era ela e que possuía outra identidade. Lamentou a rapidez com que se deu visão tão interessante. E assim segue a vida, em seu universo de árvores, flores, cantos de passarinhos, livros e fantasmas. O importante é que em tudo… Sinta o pulsar da poesia!

ACADÉMICA SANDRA CASTIEL COMENTA OBRA DO ESCRITOR E POETA VIRIATO MOURA PISTAS SUTIS:

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PISTAS SUTIS

Pistas Sutis é o novo livro do escritor Viriato Moura.

A leitura de Pistas Sutis, obra constituída de nanocontos, proporciona uma incrível viagem para dentro do ser, onde o leitor mergulha na realidade contundente da própria subjetividade, reconhece-se nas “pistas” que podem trazer à tona sensações, expectativas
frustradas, decepções, amarguras, desgastes, enfim, tudo o que está subjacente ao “faz de conta”, às múltiplas máscaras que encobrem o universo interior de cada ser humano, propiciando ao leitor o difícil encontro com suas verdades ocultas nas profundezas da alma. Selecionei alguns nanacontos de PISTAS SUTIS, para comentar:

ATESTADO

Morreu, mas, desta vez, Morreu de verdade.

Minha leitura: viver é respirar, levantar de manhã, caminhar, comer, dormir, trabalhar, enfim, cumprir a rotina de todo dia, sem amor, sem poesia, sem paixão, sem tórridos beijos, sem cálidos abraços, sem cumplicidade, sem troca, sem expectativas, sem motivações? Certamente este é um exemplo de alma morta. Quantas vezes já morri  (e tantas outras pessoas já morreram) por ausências, comoções, desgostos (coisas assim) ao longo da vida? Impossível mensurar. Porém, a morte só é declarada quando o cartório atesta o óbito.

GOZADOR  

Fazia seus fantasmas  morrerem de rir.

Minha leitura: vivências dolorosas do passado habitam definitivamente na mente humana.  Neste conto, os personagens criados pelo autor, além do principal, são os fantasmas; neste universo tenebroso, os fantasmas personificam chagas antigas que não cicatrizam; lembranças que machucam desde a infância: mortes, humilhações, arrependimentos, frustrações, perdas, descaminhos, palavras não ditas, coisas assim. Enfim, o conto revela a subjetividade de um sujeito que dialoga com  os próprios fantasmas. Este sujeito apresenta-se ao leitor através do título do conto: Gozador. O gozador seria alguém perseguido pelos fantasmas que moram nas profundezas de sua mente, ou o gozador teria se tornado um piadista da própria vida, ante as amarguras pretéritas? Fico com as duas hipóteses. Esta leitura não busca traduzir o sentimento literal do autor, não é isto que se busca; porém há pistas de cunho subjetivo, através da atitude dos personagens. A literatura nos proporciona um olhar particular à obra artística: “… É preciso ir além do que o texto diz e como diz” (Vizibelli, 2017). Para mim, neste contexto, o sentido do título é uma ironia, uma metáfora; o passado ainda incomoda o personagem e provoca risos em seus fantasmas; sinto uma conotação de deboche pela “derrota” do sujeito; demonstração de que os fantasmas estão ali e continuarão no mesmo lugar para sempre.

IMAGEM

Exímio pintor de retratos, menos  do seu, que nunca parecia com ele.

Minha leitura: neste conto, temos a expressão explícita do sentimento do personagem (o pintor), aliás expressão da subjetividade do autor, esta presente no próprio título. Por que o exímio pintor de retratos não consegue identificação com o retrato que faz de si mesmo? Seria a imagem traçada na tela a de um rosto idealizado, por isto não a reconhece como a reprodução de seu rosto, ou seria o autorretrato uma espécie de espelho onde o sujeito enxergaria o próprio eu? Em ambos os casos, o personagem receia e evita confrontar-se com a própria imagem, com o dito eu. Afinal, confrontos podem causar feridas…

ESCURO

A luz que tanto almejava, apagou-o.

Minha leitura: através de apenas duas orações, este conto contém algumas das mais fortes angústias do homem moderno, o homem do século XXI. No mundo em que vivemos, educamos meninos e meninas (estas recém-abrangidas neste conceito), para tornarem-se vencedores, aqueles que conseguem chegar ao topo da pirâmide social; a sociedade nos impõe que eduquemos nossos filhos para fazerem-se admirados, reconhecidos pela mesma sociedade, alvo dos holofotes, onde quer que vivam. Só que este mundo que conhecemos distancia-se cada vez mais da razão da vida propriamente dita; estariam nossos cérebros originalmente preparados para tantas opções, tantas buscas, tantas maneiras de viver? Noutro dia ouvi que tudo que existe na natureza tem uma finalidade; a finalidade do sol é manter a vida no planeta, por exemplo, por isto ele nasce todos os dias e não uma vez ou outra; a finalidade de uma laranjeira é dar laranjas e não maçãs, bananas etc. Enfim, tudo que é natural está na Terra com um único propósito, e tal conceito se aplica, evidentemente, a cada um dos animais. Isto me faz pensar que o animal mais inteligente do planeta desconhece sua finalidade, porque esta finalidade se perdeu ao longo de sua evolução. Talvez o cérebro humano tenha dificuldade de lidar com a pluralidade dos desafios, dos sentimentos e emoções que se impõem ao homem neste universo de hoje. Daí as angústias. O animal-homem pode perder-se de sua essência: — Conquistei tudo que almejei na vida. E agora? Volto à leitura do conto e ponho-me a pensar que a angústia do personagem pode estar relacionada também à “iluminação” no sentido filosófico; a luz que o sujeito tanto almejava pode significar revelação, no sentido da compreensão máxima da vida e de sua finitude. Depois de longa busca, ao alcançar a luz, não conseguiu sobreviver à realidade tão dura, realidade esta incompatível com a fragilidade dos sentimentos humanos. Destarte, apagou-se sua própria luz. Belo conto.

PSICOSE  

Enquanto a mulher se banhava,  ele assistia a um filme de Hitchcock.  Então teve uma ideia.

Minha leitura: gostei bastante deste conto. Eu o considero um toque de humor inteligente, algo que nos reporta à diversidade dos temas presentes nesta obra. PSICOSE é um dos mais conhecidos filme de Alfred Hitchcock, diretor e produtor cinematográfico britânico, gênio do cinema nos anos sessenta. No conto, o personagem sugere que poderia esfaquear a própria mulher (ou outra com quem estivesse), enquanto ela se banhava, tal como ocorre no filme PSICOSE, em que um jovem psicopata,, que dirige uma espécie de hotelzinho de beira de estrada, esfaqueia dramaticamente uma linda “hóspede-passante” no momento em que ela estava no banho, protegida apenas pela cortina de plástico do box. A trilha sonora é marcante, o filme é inesquecível. O autor do conto nos provoca risos no primeiro momento, mas em seguida reflexão. No meu entendimento, o que está subjacente à ideia do personagem é certa saturação da convivência com a mulher mencionada no conto.

BLOQUEADA  

Odiava a velhice, por isso a matou Antes de ela chegar.

Minha leitura: este conto cujo título é uma expressão bastante usada no linguagem  contemporânea refere-se a um dos instrumentos utilizados pelos usuários das redes sociais. Bloquear alguém significa mantê-lo distante, afastá-lo definitivamente de qualquer interação ou contato, enfim, de certo modo, extirpá-lo de sua vida. É o que o personagem deste conto faz com a iminente chegada do envelhecimento, algo que abomina e repudia. Por isso decide bloquear a velhice antes que ela chegue. Conclusão: ou mata o próprio corpo, ou resolve viver como se fosse jovem para sempre.

Mariza Castiel: saudade de tudo

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Mariza Castiel - Gente de Opinião
Mariza Castiel

Na última semana, familiares e amigos acompanharam minha irmã, Mariza Castiel, à derradeira morada. Marisa era a sexta na ordem decrescente das sete filhas de Marise e Rapahael Castiel; irmã de Léa, Ana Maria, Helena, Sônia, Sandra e Enid. Marisa era viúva de Claudio, mãe de Marise e Raphaela, avó de Ana Maria, Lucas e Manoela, bisavó de Aurora, sogra de Everaldo e Etiane, além dos cunhados e de uma legião de sobrinhos, para os quais era a tia preferida.

Mariza era de longe a mais carismática, a mais popular, a mais alegre, a mais espirituosa e cheia de vitalidade das sete filhas.

Para Mariza, a vida era uma festa permanente. Muito engraçada, costumava imitar as irmãs e a infinidade de pessoas com as quais convivia; não tinha como não deixar os problemas de lado e entregar-se aos encantos daquela personalidade incrível que também carregava na alma forte empatia com os mais pobres.

A situação de pobreza de pessoas que viviam em barracos, mães sozinhas sem condições de alimentar os filhos, por exemplo, abalavam o coração de Marisa de forma profunda. Diante de um panorama de miséria, ela não chorava; sua reação era conversar com aquelas pessoas, conhecer todos os integrantes da família, contar piadas, fazê-los rir e tornar-se uma amiga querida dessas pessoas, para a vida inteira, pois dava um jeito de voltar ao lugar levando alimentos, lençóis, redes e brinquedos usados, objetos diversos, enfim, pequenas coisas que tornariam menos difíceis os momentos dessas famílias. Quem a conheceu de perto sabe que tal atitude diante da pobreza era completamente verdadeira e provocava reações desse tipo em minha irmã.

Morava eu então no Rio de Janeiro, fazia cursos e estudos na área da Educação, e, de vez em quando, vinha a Porto Velho para ver minha mãe, irmãs e demais familiares.

Numa dessas estadias, Mariza, bastante entusiasmada, convidou-me a visitar uma creche que conseguira erguer em parceria com Padre Bento, para atender as crianças de determinado lugar que viviam em situação de pobreza. Falou-me sobre a dificuldade de erguer a casa que seria a creche, sobre a luta para conseguirem um local, coisas assim; mas enfim ela e Pe. Bento estavam na luta.

A ideia da creche surgiu quando Mariza resolveu entrar em um dos barracos erguidos em volta de um bueiro. Ali deparou-se com uma criança sozinha, presa a uma corrente, deitada em uma rede. Conversou com a vizinhança e ficou sabendo que a mãe daquele menino frágil e desnutrido (à época com cinco anos) prendia-o daquela maneira em casa, quando ia ao trabalho, a fim de livrá-lo dos traficantes do lugar; estes usavam crianças pequenas para entregar drogas na comunidade. O menino em pauta chamava-se Jones e sua vida inspirou minha irmã a erguer uma creche naquela comunidade, para que as mães (solteiras em grande maioria) pudessem trabalhar, e as crianças fossem alimentadas e cuidadas. Assim teria começado a luta de Mariza e Pe. Bento, uma grande batalha.

A Visita

Entrei no velho carro de minha irmã Mariza e dirigimo-nos para a tão sonhada creche, que, segundo ela, estava em pleno funcionamento. No caminho, notei que nos embrenhávamos por ruas (ou seriam caminhos?) onde o mato era bastante crescido. A topografia do lugar era acidentada, e Mariza parou o carro num local mais alto. Dali avistei o tal bueiro, rodeado por vários e minúsculos barracos.

Descemos do veículo e ela caminhou à minha frente em meio ao capim alto e ao chão de barro. Olhei pra frente e avistei o que era na verdade um barraco maiorzinho, erguido com pedaços de madeira; notei que havia uma janela também de pedaços de madeira; na parede, um cartaz onde se lia: CRECHE MEU PEQUENO JONES.

No interior do espaço, observei que as paredes estavam repletas de cartazes com figuras recortadas de bichinhos e flores, frases em letra manuscrita pela própria diretora e professora da creche; reconheci a letra de minha irmã Mariza em todos os cartazes; um deles trazia uma frase que ouvíamos de nossa mãe (maior educadora que conhecemos): “O professor é como a vela; consome-se iluminando.”

Eu já estava bastante impactada com o ambiente de pobreza do ambiente. No espaço principal, havia duas mesinhas velhas e bancos de caixote onde estavam sentadas várias crianças, desenhando em folhas rasgadas de caderno.

Em dado momento, minha irmã tocou um sino e chamou-me para a janela. Mal pude acreditar no que via. Dos precários barracos em volta do bueiro saíam dezenas de pequeninas crianças, meninos e meninas que corriam em direção à creche: algumas usavam apenas um short velho, outras vinham completamente nuas.

Ela os recebeu com alegria e entusiasmo, não havia onde sentar, sentaram-se em pequenos círculos no chão. Do segundo cômodo da creche, na verdade um cubículo com um fogão e um filtro de barro, surge, carregando pratos de alumínio e colheres, uma senhora adorável, voluntária que preparava a sopa.

Famintas, aquelas crianças perguntavam se podiam repetir. Diante daquele quadro, eu tentava disfarçar as lágrimas, mas ela percebeu minha emoção e disse em tom de brincadeira: _ Está chorando, né?

O que aconteceu depois todos devem saber, a creche cresceu, foi acampada pelo município e minha irmã dedicou a maior parte de sua vida àquele sonho. A educação do município de Porto Velho foi engrandecida pelo trabalho da professora Mariza Castiel.

Minha irmã Mariza era igual ao nosso pai, uma verdadeira judia cabocla: simples como um copo d’água; seus pratos preferidos eram os regionais, costumava ir pra cozinha e preparar com satisfação vatapá, caranguejo com farofa, coisas assim. As frutas que comia quase diariamente eram pupunhas e tucumãs acompanhadas de seu copo de café puro.

Falei pouco sobre Mariza. Muito mais há a falar, diante da riqueza de sua personalidade, diante de sua vitalidade, de sua risada inconfundível, das várias pessoas que ajudou ao longo da vida, dos momentos em família.

Minha irmã Mariza, sentirei saudade de tudo! A vida de suas irmãs e filhas não será a mesma sem sua presença. Até algum dia, amada irmã!

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela “OPINIÃO”, que é exclusiva do autor.

NANOCONTOS (8)

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TERAPÊUTICO

Suas angústias foram curadas por doses de silêncio interior.

CORREDOR

A justiça se fez quando ele, antes de ser executado, infartou.

IMEDIATO

Seu contato com um extraterrestre transformou este mundo em outro mundo.

PARADA

A estação e o trem estavam vazios. Só a passageira estava cheia.

VERDADE

Quando retirou a máscara, sua face caiu.

RESPOSTA

Vovó, sua bênção! Sua bênção, vó! Vovó?…

TROCO

De herança, o milionário deixou um susto.

POLÍGAMO

Casado com certezas, mas coabita com sedutoras dúvidas.

COMPLETO

A única coisa que lhe faltava, descobriu quando morreu.

CASTIGO

Ao tentar entrar no céu pagando meia, acabou inteiro no inferno.

FORA

Sua presença sempre estava ausente.

ALHEIAS

Sobre sua vida, nada contava; mas sobre a dos outros, como contava.

DIÁLOGO

Precisava de um amigo fiel, por isso aprendeu a latir.
 
IMERGIU

Exímio nadador, afogou-se nas próprias lágrimas.

MEUS SONHOS

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Sonhei com uma folha em branco
à espera de meus sentimentos:
flores, cores, risos de criança,
pés em água cristalina,
passarinhos, nascentes,  poentes,
Legião Urbana, faroeste caboclo…
Esconderam-se todos?
Sonhei com meu amor entrando porta adentro,
acariciando meu rosto com sua mão cálida,
deitando sua presença forte sobre minha tristeza,
aquietando-me o coração com seus olhos de lago.

Hoje despertei com a trilha sonora de minha alegria,
Rolling Stones, Satisfaction,
crianças, passarinhos, flores e cores
Uma vez mais… Vida em harmonia.
     

 

MEUS AMORES

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Meus amores são todas as flores
bicolores, tricolores
incolores, decolores
Dolores

Meus amores são todas as flores
açucena, jasmim,  botão de ouro
flagrâncias, olores
Um tesouro
 
Meus amores são as folhagens
auriverdes, sempre verdes
ramagens, selvagens, paisagens
Verde- que- te- quero-verde

Meus amores são as fruteiras
mangueira, ingazeira, goiabeira
pitangueira,  jaqueira ,laranjeira
Vida-Videiras

Meus amores são todos os rios
caudalosos, translúcidos, barrentos
poluídos ou mortos
Desalentos

Meus amores são todas as aves
Simplesinhas, emplumadas
brancas, pretas, coloridas
 Asas da vida
 
Meus amores são as florestas
terra firme,  várzea, matas de igapó
vitória-régia,  sopro de  serestas
Cio e cipó

Meus amores são todos os homens
gentis, maliciosos, inteligentes
incultos, divertidos,  salientes
Resilientes

Meus amores vivem no tempo
Tempo de paz, lembranças, temperança

 
 

 
   


NANOCONTOS (5)

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VICIADO
Leitor voraz, lia até  jornais que cobriam cadáveres.

VASSOURA
Era uma bruxa, porém voava sempre de primeira classe.

DECEPÇÃO
Ao adentrar no lupanar, deu de cara com seu DNA.

DEFESA
Era o sol da vida dele, por isso ficou cego de ódio de tanto olhar para ela.

ÍMÃ
O poder de atração de seu pensamento induziu-o a esquecer desafetos.

FIM
Quando ela entrou em cena, ele fechou a cortina do palco.

IMPULSIVO
Mensurava tudo que lhe diziam, porém nunca as próprias palavras.

CESSAÇÃO
As manchas de seus lençóis há muito não denunciam prazeres.

COMPENSAÇÃO
Sua invisibilidade feriu sua vaidade, mas matou sua curiosidade.

DUBLÊ
Lançava-se por alguém que não era, até que caiu em quem era.

PERDIDOS
Ele perdeu a cabeça — coitado de quem a encontrar e usar.

ALIMENTO
Sua miséria era tanta que fartava a misericórdia alheia.

PENITÊNCIA
“Reze vinte Ave-Marias”, disse o confessor à bela fiel. De pronto, ela retrucou: ”Seja justo, padre: eu rezo dez e o senhor dez”.

PARTIDA
Ela apenas chega, nunca se sabe de onde.

ANÚNCIO
VENDO-ME OU TROCO-ME POR QUALQUER COISA, dizia o cartaz que portava.

ROMÂNTICO
O marido gostava de presenteá-la com flores. Até que um dia, ela desabafou: “Deixe flores para depois!”.

NANOCONTOS (3)

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Viriato Moura

 

REAÇÃO

Ao cair em desgraça, levantou-se com chalaça, sob o silêncio de uma
plateia ausente.

 

INSATISFEITO

Procurava compulsivamente, porém, quando encontrava, não era mais o que
estava procurando.

 

INTERPELAÇÃO

Mudo quando lhe cobravam cumprimento de suas promessas, eloquente ao
cobrar as que lhe fizeram.

 

AVESSO

Sofreu tanto na vida que, ao chegar ao céu, negou-se a entrar.

 

RECONSTRUÇÃO

Suas quedas lhe tiraram muitos pedaços, mas o que dela restou
tornaram-na mais inteira.

 

VACUIDADE

Era um ser cheio de vazios.

 

PÉRFIDO

As lembranças de seus benfeitores, incitavam-no
à ingratidão.

 

ATIRADOR

Quando acertava em corações, nunca matava
amores.

 

LÚDICO

Fora como um pião, girou desgovernado até parar.

 

DEMONÍACO

Sofria mais sabendo sobre o céu dos outros que vivenciando seu inferno.

 

INAÇÃO

Ela caminhou por muitos caminhos, menos por aqueles que escolheu.

 

RESIGNAÇÃO

Ao tentar se matar por três vezes e não conseguir, concluiu que seu
destino era viver.

 

IMPROFÍCUO

De tanto perder, desaprendeu a reconhecer as próprias vitórias.

 

OUTRO

Quem o conhecia, queria ser como ele — menos ele.

 

VINGANÇA

As aves agourentas que o assediavam, agouravam a si próprias: nenhuma
sobreviveu à sua sorte.

 

DESEJO

Não gostava de sorvete, mas lambia os beiços ao vê-la degustar um.

 

PSICOSE

Enquanto a mulher se banhava, ele assistia a um
filme de Hitchcock. Então, teve uma ideia.

 

O garoto: História ou Ficção

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O garoto: História ou Ficção - Gente de Opinião

O que é História e o que é Ficção? A questão está baseada no fato de que a ciência busca definir-se a partir de conceitos rigorosos, que não admitem contaminação. E a História pretende-se ciência. Sendo assim, contagiar a História com o mínimo de ficção seria condená-la à morte enquanto ciência. Já a ficção admite tranquilamente, sendo uma manifestação da arte, as informações derivadas da História. Contudo, bem contado e bem medido, um pouco do fazer-se de ambas as atividades contamina-as mutuamente. Creio então que a pergunta pode ser melhor formulada com a seguinte pergunta: em que medida a História produz algum grau de Ficção e em que medida a Ficção absorve algum grau de História? Justifico minha proposição de que há algo em comum entre as duas manifestações do intelecto recorrendo a: 1) sabedoria popular, que declara “quem conta um conto acrescenta um ponto”; 2) obras ficcionais do cinema ou da literatura onde os autores declaram antecipadamente que são “baseadas em fatos reais” ou então que “qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência”, acusando com isso exatamente a origem real do trabalho artístico. Mas essa influência ocorre mesmo estando ausentes os referidos alertas. Há muito os historiadores abandonaram a pretensão de expressar o passado exatamente como ele foi. Penso então que a diferença entre uma e outra está não está tanto nas circunstâncias da história, mas naquilo que costumamos denominar fatos. Quanto ao restante, como na ciência farmacêutica há uma distância sutil que separa o veneno do remédio, também com a História e a Ficção isso ocorre.

Abro aqui um parêntese para declarar que não desconheço a complexidade tremenda que é definir inequivocamente o que é um “fato histórico”. Grandes historiadores já o tentaram antes com maior ou menor sucesso, cito para começar pelo francês Marc Bloch. Ao escrever essas linhas lembrei agora de minhas leituras de graduando no curso de História, há trinta e oito anos atrás, entre outros de Adam Schaff, Lucien Goldman e Edward Hallet Carr, pondo-nos a par das dificuldades do problema. O primeiro, lembrando a historiografia positivista, defensora da rígida separação dos fatos “duros”, autônomos em relação “interpretação” sempre duvidosa e subjetiva, diziam eles. Independente da complexa discussão a que esse tema poderia nos conduzir, aproveitaremos aqui a ideia de fatos duros. O que seriam eles? Fatos inquestionáveis em sua natureza, empiricamente observáveis. Fulano nasceu em tal ano e morreu em outro, sicrano comandou o exército em determinada batalha, são fatos constatáveis, ainda, sua aceitação ou negação são mais facilmente realizáveis. Já os fatos de natureza analítica são de mais difícil comprovação. Contudo, sem eles a História se transformaria em mera descrição, e não um estudo da experiência humana no tempo. Seria um esqueleto, sem a carne e o sangue, indispensáveis à manifestação da vida.

Também a Literatura é a expressão da experiência humana no tempo. Em outras palavras, os fatos da Literatura são os mesmos da História, elaborados, porém, de outra maneira. Da literatura não se exige a precisão dos fatos duros em sua construção, nem da argumentação analítica ou lógica, desfruta da liberdade artística. Já da História exige-se precisão factual e argumentação lógica. De resto, repito, creio que há um pouco de cada uma nas duas expressões do conhecimento humano. Há sim, um pouco de ficção na História e muito de História na Literatura. Isso porque é inevitável acrescentar um ponto a um conto e é inescapável que haja semelhança entre fatos ficcionais e a realidade. Para exemplificar vou contar uma história. Se é fato ou ficção, veremos depois. De qualquer forma, a discussão não se esgota nesses termos, que escolhemos apenas para colocar em relevo a história que vamos contar.

Na primeira metade do século passado, vivia no centro de um enorme e verdejante país um garoto. Era uma região agreste e, portanto, portadora de poucos recurso modernos. Havia pouco o garoto viera ao mundo, coisa de doze anos, pouco mais ou menos. Foi em torno dessa época que, estando a mãe do garoto grávida, julgou o pai de melhor alvitre enviá-la a um lugar onde o parto pudesse ser feito com melhor assistência. Encarregou então a um carreteiro, homem de sua confiança, para transportar a esposa a essa localidade. Tomada a decisão, foi destinada uma carreta para transportar a mulher e o garoto, que a acompanharia. Certamente a carreta, ou carro de boi, foi equipada com uma tolda, mesmo que rústica, que protegesse essa mulher e seu pequeno filho das intempéries climáticas. Também víveres e agasalhos foram providenciados, pois seria uma viagem longa. Então partiram os três, ou os quatro, se assim quiserem. Imagine-se aqui a lenta evolução da comitiva por aqueles sertões pobremente habitados por população colonial (civilizada, alguns dizem). Imaginem as noites estreladas e frescas, o calor dos dias, as chuvas e os perigos pelos quais passaram naquele trajeto. Tudo transcorria sob os olhos do garoto que, sabia, iria ao final ser presenteado com um irmãozinho ou irmãzinha (que naquele tempo não se podia saber antecipadamente). Enfim, a viagem durou vários meses. Chegados à cidade de destino, a mulher pariu um menino. Para evitar as dificuldades e privações do caminho de ida, decidiu a mulher voltar ao lar de navio. Deslocou-se então ao povoado portuário fluvial mais próximo, onde aguardaria a embarcação. O périplo escolhido para o retorno exigiria deslocar-se pelos rios até encontrar a enorme costa marítima do país, pela qual seguiriam até encontrar o início de um percurso ferroviário e, ao final desse, tomar novamente o rio, em cuja ribeira encontrariam os viajantes seu lar. O destino, porém, reservava-lhe novos contratempos. Debalde, esperaram por longo tempo a ansiada embarcação, mas ela demorava. Os recursos que levaram iam se esgotando, ao mesmo tempo que as necessidades aumentaram, pois a mãe agora além do garoto conduzia o recém-nascido e já não contava mais com o apoio do carreteiro Foi então informada que atravessando a fronteira, em uma cidade no país vizinho, encontraria aeronaves de passageiros, que facilitariam seu retorno ao lar. Seguindo por terra um caminho de boiadas chegou à tal cidade. De fato, lá era parada de aviões que seguiam para a fronteira de seu país, mais próxima de sua morada. Mas a aeronave também demorava a chegar e os recursos continuavam minguando. Finalmente, chegou um avião que seguiria para a fronteira. A mulher, já sem recursos, pediu ao garoto que fosse pagar o hotel, no qual esperaram o avião, com as joias que levara consigo. No momento em que o garoto entregou as joias para que o dono do hotel calculasse com elas o pagamento da dívida entrou na sala um cidadão, natural daquele país estrangeiro. Reconhecendo no garoto o filho de seu conhecido, interferiu na transação. Disse ao garoto que guardasse as joias de sua mãe que ele pagaria a dívida. Depois acertaria as contas com o seu pai. Foram então os três para o aeródromo, dois deles esperançosos e ansiosos por rever, depois de tantos imprevistos e desconfortos, o lar. Mas ainda um último incidente os esperava. Era carnaval naquele país e o piloto e copiloto alemães, entusiasmados pela festa puseram-se a beber e a fantasiarem-se de mulher para melhor desfrutar da ébria folia. Brincando assim o carnaval, esqueceram do avião e, principalmente, dos seus passageiros. Já bem passada a hora da decolagem, para o espanto e apreensão dos passageiros, entraram os dois tedescos, ainda com vestes femininas e visivelmente embriagados. Tomaram seus assentos na cabine de comando e levantaram voo. O voo transcorreu normalmente, na medida do possível, dadas as circunstâncias nas quais se encontravam os pilotos. Desembarcando da bêbada aeronave, tomaram os nossos viajantes o percurso fluvial, através do qual chegaram ao lar. Uma aventura inesquecível para um garoto.

Poderá o leitor afirmar se a história que contei acima é ficção? Da forma como foi escrita não podemos decidir, senão agregando a ela o núcleo dos “fatos duros”. Poderíamos ainda afirmar no início da narrativa que a mesma é “baseada em fatos reais”, dotando-a de alguma historicidade. Ainda, se temêssemos eventual processo das pessoas que a viveram ou de seus descendentes, diríamos que “qualquer semelhança com fatos e pessoas é mera coincidência”. Nesse último caso vai aqui uma hipocrisia da ficção, pois qualquer semelhança não é mera coincidência e, assim, o fato descrito foi real. De qualquer dessas maneiras o leitor ficaria prevenido de que a história aconteceu, embora a forma como foi contada não fosse muito próxima de como ocorreu, além de não fornecer nomes, datas e locais reais onde esses fatos aconteceram.

Enfim, a história relatada acima poderia ser ficção, foi descrita como um conto, mas não é. É História. Contou-me essa história várias vezes um participante do episódio, o “garoto”, já então um nonagenário, mas ainda bastante lúcido e com boa memória. Depois da primeira vez que me contou, sempre que ouvia novamente dele a história não informava àquele senhor que já a havia relatado a mim, deixando que contasse de novo pelo mero prazer de ouvir uma história tão fantástica que parecia ficcional e ao mesmo tempo tão inacreditavelmente real. Creio também que o nonagenário tinha prazer em contar aquela história. Vamos então cobrir o esqueleto ficcional dessa história com os “fatos duros”, para transformá-la em História. De qualquer forma, quase cedi à tentação de transformá-la em ficção (baseada em fatos reais), acrescentando aqui e ali algumas pitadas de invenção: a passagem de um curso d’água, o perigo das feras bravias, algum ataque de nativos, a descrição das noites enluaradas, enfim, tudo o que pudesse trazer à história a graça e a beleza, que são as obrigações primárias da arte.

O grande país da história é o Brasil. A região era o estado do Mato Grosso (hoje dividido nos estados do Norte e do Sul). Os personagens: o “garoto”, o empresário e jornalista de Rondônia Euro Tourinho Filho, sua mãe dona Eulália Malheiros Tourinho e o nascituro, sr. Luiz Tourinho. Euro Tourinho nasceu em Corumbá em 17 de janeiro de 1922, onde o pai, Homero Tourinho, administrava a fazenda Puraputanga, herdada pela mãe. O sr. Luiz Tourinho nasceu em 29 de maio de 1934 em Campo Grande (MS). Tinha o “garoto” então 12 anos, quando da viagem de Santa Fé, no rio Guaporé, onde a família então residia, a Campo Grande, onde foi parir sua mãe. No retorno da viagem esperaram um navio em Cáceres, deslocando-se depois para Trinidad (talvez outra localidade) em busca do transporte aéreo que os conduziu até a fronteira do Brasil (talvez Riberalta ou Guayaramerin) de onde tomaram o curso do Guaporé até Santa Fé. Bem, muita pesquisa têm ainda que ser feita para reconstituir essa história mais fielmente e em sua integridade, mas com maior ou menor fidelidade a reproduzi aqui o que ouvi do sr. Tourinho. No futuro essa história poderá ser contada sob a forma de História ou de Ficção.

Euro Tourinho Autoria: Mikeliton - Gente de Opinião
Euro Tourinho Autoria: Mikeliton

É esta, certamente, uma história ainda incompleta, embora suficiente para retratar as dificuldades de se viver na hinterlândia brasileira naqueles anos de 1930. Ainda nos anos de 1930 a família se transferiu para Santo Antônio do Rio Madeira (MT), então vizinha a Porto Velho. O “garoto” ficou assim conhecido, segundo informou-me o próprio sr. Tourinho, por ocasião do falecimento do seu pai, quando ainda era muito novo. Foi então chamado a administrar o seringal que a família adquirira na região que viria a conformar Rondônia. Nas reuniões dos seringalistas era o que possuía menor idade, cabendo então a ele a alcunha de “garoto”.

O garoto cresceu, formou com seus irmãos uma grande família, tornou-se empresário e jornalista. Em 1970 adquiriu dos Diários Associados o jornal Alto Madeira, que conduziu até o encerramento de suas atividades em 2017, ao cem anos de existência.

Hoje o sr. Euro Tourinho faria, se vivo estivesse, 100 anos. Resta-nos o conforto de que está espiritualmente vivo, através dos números do Alto Madeira e da legião de amigos e colaboradores que soube conquistar. Embora tivesse conhecido o sr. Tourinho em 1985, tive o privilégio de conviver com ele apenas nesses últimos anos de sua vida: como colaborador do Alto Madeira, na Academia Rondoniense de Letras (ACLER) e na Confraria do Buraco do Candiru, na qual, segundo as palavras de Marco Danin: “Foi é será nosso eterno presidente de honra”. Teve o sr. Tourinho uma vida longa e produtiva, faleceu aos noventa e sete anos, tendo contribuído para o progresso de Rondônia e vivenciado ativamente as diversas fases de sua História. Durante essa convivência de poucos anos ouvi dele muitas histórias de sua vida, todas muito interessantes, mas a que acabei de contar foi a que deixou-me mais impressionado e parece ser aquela da qual ele mais gostava. Decidi então contar essa história aqui em memória ao seu centésimo aniversário. Consola-me o fato de que se ele já não está mais aqui para a contar, outros poderão saber dela através desse escrito. Ao sr. Tourinho e família minhas sinceras homenagens, pelo transcurso dessa data. Deus certamente continuará guardando sua alma e os amigos a sua memória.

Dante e Zélia Fonseca ladeando o sr. Euro Tourinho - Gente de Opinião
Dante e Zélia Fonseca ladeando o sr. Euro Tourinho

Referências

 

BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício do historiador: Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

CARR, Edward Hallet. O que é história? 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

COSTA, Beth. Para vovó Laláia. ALTO MADEIRA, Porto Velho [Periódico]. Ano LXXI, nº 19.729, 6 de agosto de 1989.

GOLDMANN, Lucien. Ciências Humanas e filosofia. Rio de Janeiro. Difel, 1979.

PERSIVO, Silvio. Euro Tourinho, a samaúma da imprensa amazônica. São Paulo: Scortecci, 2016.

PINHEIRO, Ciro. Gente. ALTO MADEIRA, Porto Velho [Periódico]. Ano LXVIII, nº 14.865, 29 de abril de 1984.

SCHAFF, Adam. História e verdade. 2ª ed. São Paulo. Martins Fontes, 1983.

TOURINHO, Euro; PERSIVO, Silvio. Cem Anos do Alto Madeira (Paixão 100 Limites). Porto Velho. Imediata, 2018.

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NANOCONTOS (2)

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Viriato Moura

 

ATESTADO

Morreu, mas desta vez morreu
de verdade.

 

ATELOFOBIA

Nem incompetente nem
preguiçoso, apenas tinha fobia de errar — eis seu maior erro.

 

EVENTO

Sua
ausência compareceu deixando todos os presentes mortos de saudade dela.

 

INGRATO

Quando um jovem tentou
ajudá-lo a atravessar uma rua, ele reagiu: “Velho é tua avó!”.

 

REJEIÇÃO

Como um Frankenstein, era composto por pedaços
alheios à sua vontade

 

SURTO

Irritado com sua sombra,
atirou nela várias vezes.

 

SUBTRAÇÃO

A cada passo dado, descontava
um, até não ter mais passos.

 

ÓBICE

Possuía quase tudo que queria
ter, mas também o que não queria.

 

IMUNE

Sua absoluta falta de boas expectativas, preservava-o de futuras
frustrações.

 

FALTA

O que o incomodava nas viagens era não ter bagagem.

 

LINHA

Ao chegar à mansão do assassinato, o delegado enfatizou: “O mordomo não
precisa ser investigado”.


APARECER

Iria pedir ao gênio da lâmpada para ser invisível, mas desistiu: sua
vaidade não suportaria.