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NANOCONTOS

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Viriato Moura
 
EXPECTAÇÃO
Esperada
desde sempre, nunca chegou. Nem sequer disse que vinha, mas vive em mim como
ninguém.
 
CERTEIROS
 Atiravam apenas em marginais que não resistiam
aos ferimentos.
 
MANDINGA
Naquele
despacho, a galinha preta era sua esposa.
 
DIREÇÃO
De
tanto olhar pelo retrovisor, esqueceu das ameaças frontais.
 
CHAVE
Durante
o julgamento, a esposa do acusado adentrou na sala e disse: “Foi ele que me
matou!”.
 
OVAÇÃO
O
esperado orador fitou a plateia por alguns segundos, mas nada falou. Seu
clamoroso silêncio disse tudo. Aplausos.
 
INABILITADO
O
sonho dele de andar sobre as águas, concretizou-se. Virou pesadelo quando acordou:
não sabia nadar.
 
OCUPAÇÃO
Os
espaços vazios por onde passava, ficavam cheios de sua presença.
 
VIRTUOSO
Não
toca instrumentos musicais, toca apenas almas humanas, com excepcional
maestria.
 

ENSAIOS LITERÁRIOS SOBRE POETAS DE RONDÔNIA IV

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   ENSAIOS LITERÁRIOS SOBRE POETAS DE RONDÔNIAIV

SandraCastiel*

 

“Apenas aqueles quesão muito jovens ou muito ingênuos ignoram que obras de arte, sejam literáriasou de qualquer outro gênero, não são entidades universais e autônomas, nascidasdo nada ou Nonada (como GuimarãesRosa inicia sua obra máxima) indiferentes às condições históricas que asproduzem, aos valores das classes sociais que as canonizam e fruem.” (RenatoRezende- A poesia contemporânea brasileira e sua crítica, Revista virtualCronópios).

Aideia de que a arte literária possui autonomia, no sentido de ser voltadaapenas à beleza e à qualidade da obra, sendo esta livre de quaisquer propósitos, remonta,grosso modo, à Poética de Aristóteles. Porém, tal princípio só emergiu e ganhouforça a partir da metade do século XVIII.  Ao longo do tempo, este pensamento evoluiu aoconceito de arte pela arte.

É no campo da filosofia que a ideia da autonomia daarte se começa a delinear na segunda metade do séc. XVIII, conduzindo, a curtoprazo, aos posicionamentos próprios do Romantismo e, a mais longoprazo, à teoria da Arte pela Arte. Baumgarten é um dos primeiros filósofos a considerara arte como uma esfera independente da moral e do próprio prazer, cabendo-lhe omérito da criação do vocábulo estética em1750. Kant logo em seguidaaprofundou a questão dizendo que o prazer estético é desinteressado e não visaoutras coisas além de si mesmo, o que encontrou apoio nas ideias de  Schelling e Hegel. Em 1804, Benjamin Constant sumarizou o debate cunhando a expressão”arte pela arte”.

Estateoria propagou-se sobremaneira na França. Porém, no mesmo país, ThéophileGautier, em prefácio do romance Mademoisellede Maupin (1835), declara sua rejeição às finalidades de cunho moral esocial para a literatura: arte pela arte não significa beleza e utilidade, mas sim belezae verdade. A partir de 1860 o conceito de arte pela arte é relacionado a esteticismo (ênfase à beleza daarte).

No Brasil,a ideia de arte desvinculada de compromissos morais, sociais e políticos destacou-seno movimento parnasiano, poética produzida durante o realismo; surge comoreação ao sentimentalismo exacerbado da poesia romântica: a beleza da artepoética deve ser um fim em si mesmo, ou seja, cabe ao poeta criar beleza. Atéque surge o movimento modernista.

A Semanade Arte Moderna, realizada em São Paulo, no ano de 1922, consistiu na promoçãoem nosso país do chamado movimentomodernista, um movimento que surge com força avassaladora; o Modernismo tinhacomo objetivo romper com o tradicionalismo que servia de base à produçãoartística brasileira. Esse movimento passou por várias fases, porém o pilar queo sustentou (e de certo modo o perpetuou, na essência) foi a independência e avalorização de nossa cultura, nas artes.

Antes deadentrarmos no universo da poesia brasileira contemporânea, consideramosimportante esse brevíssimo olhar ao passado, algo que nos leva à maiorcompreensão do cenário desta poesia.

Há diversidadede olhares, da parte dos analistas, sobre a poesia contemporânea brasileira: elaainda estaria centrada nas pretensões modernistas?

Adiferenciação entre a produção poética contemporânea e a produção poéticamodernista, sobretudo quando do surgimento desta, na primeira metade do século XX,é evidente: enquanto a modernista ansiava por originalidade, independência eruptura com a tradição, a contemporânea possui outros propósitos. Porém, há quese acreditar que esses parâmetros não são suficientes para delinear a configuraçãode uma nova Escola.

DoModernismo aos dias de hoje, a nossa poesia passou por uma série de mudanças,algumas efêmeras, outras duradouras, e no caminho percorrido encontram-se, porexemplo, a Geração de 30, a Geração de 45, a Poesia Práxis, o Concretismo, oTropicalismo, a recriação do Sertão por Guimarães Rosa, merecendo destaque abusca empreendida no sentido de obter-se uma linguagem simples, apoiada nocoloquial e nas coisas triviais (José Geraldo Pires de Melo, Contemporaneidadee Poesia).

A poesiacontemporânea reflete o olhar do homem atual, um homem que vive em meio à urbetecnológica, convivendo com a pluralidade de expectativas impostas pela sobrevivênciamaterial e pela sobrevivência emocional, um mal de seu tempo; seu olhar é avisão de alguém cujo fazer poético é completamente livre e, com frequência,libertário, tanto no que diz respeito à temática quanto à forma.

Convivemoscom a diversidade no que se refere à poesia na contemporaneidade; alguns ousamna temática e mantêm a métrica e o ritmo, como é o caso deste poema de AntônioCícero, poeta, filósofo e letrista carioca, que aborda com irreverência aquestão da homossexualidade; considero este poema lindo, a cara dacontemporaneidade:

 

 

Onda

Conheci-ono Arpoador,

garotoversátil, gostoso,

ladrão,desencaminhador

desonhos, ninfas e rapsodos.

Contou-mefeitos e mentiras

indeslindáveispor demais:

eu todoouvidos, tatos, vistas,

epedras, sóis, desejos, mares

E noschamamos de bacanas

eprometemo-nos a vida:

Comprei-lheum picolé de manga

e deu-meum beijo de língua

emergulhei ali à flor

da onda,bêbado de amor.

Comumentenos deparamos com poetas contemporâneos que diversificam seu fazer poéticolevando-nos a tradições literárias do passado, seja na forma do poema, seja no usode características de determinadas escolas.

JoséGeraldo Pires de Melo (Contemporaneidadee Poesia), ao citar o soneto Transubstanciação,do poeta mineiro Anderson Braga Horta, ressalta a forte influência simbolistano referido soneto, aliás, belíssimo. Trata-se de um poeta da contemporaneidadecujo versejar nos remonta à tradição também na forma: soneto constituídode  versos decassílabos.

 

Umdia hei de chorar todo esse pranto,

quearrasará com todas as comportas.

Eum mundo de águas más e folhas mortas

escoará,deixando espaço ao canto.

 

Umdia, imerso em vinho, envolto em canto,

heide arrombar estas arcaicas portas

queme confinam nas planícies mortas,

eascenderei às solidões do espanto.

 

Galgareios degraus da etérea altura,

 e acima, acima da terrena vaia,

dasamplidões haurindo a linfa pura,

 

cegode êxtase, e tonto de vertigem,

contemplarei,do alto deste himalaia,

–transfeito em sonho – o vórtice da origem.

 

Há que seressaltar a principal característica do fazer poético contemporâneo: adiversidade. Com frequência ouvimos a comparação da poesia contemporânea com aarte do mosaico, arte esta que consiste em reunir uma gama de pedaços deazulejos das mais variadas estampas, épocas e procedências, juntá-los de talmodo que surjam novas configurações.

EmRondônia temos alguns poetas contemporâneos que retomam aqui e alicaracterísticas de escolas tradicionais; outros há em cujos poemas nãoconseguimos vislumbrar referências a essas escolas.

Caberessaltar que este trabalho não tem pretensões acadêmicas; trata-se de umensaio literário, portanto, desprovido do cunho e do rigor acadêmico.Apresentamos aqui apenas alguns poemas de poetas de Rondônia, conhecidos e nãoconhecidos dos leitores, dos amantes de poesia: versos que nos tocam a alma.

 

 

 

 

 

 

MARCUS VINICIUS DANIN

 

Marcus ViniciusDanin é autor de uma poesia única! Sua inspiração é comovente, bem como a construçãode belíssimas figuras de estilo, recursos poéticos que adornam como pequenasflores cada letra de seus versos. Marcus é um poeta do quotidiano; seu olharpercebe a grandiosidade contida nas coisas simples da vida, em tudo o que éeterno; a natureza é sua musa maior.

 

ALMA DE LAGO

 

minha alma de lago     

se alaga em algo

que só no céu há igual

no amálgama da alga

que a lágrima salga

no doce da água 

nada tão desigual

nessas nuvens que

a alma galga

o dia não morre

ele se incorpora

ao esplendor lacustre

da placidez do arrebol!

 

Otítulo deste poema remete à serenidade, à mansidão de um lago, eis o que estásubjacente a esta tão bela metáfora, através da qual o sujeito lírico define suaalma, a natureza de seu ser. Porém, percebe-se certa melancolia na expressãodesse sujeito poético, sentimento este que transparece da subjetividade dopoeta: somente além das nuvens, em um ponto abstrato, o eu lírico pode desnudarsua alma de águas plácidas e derramá-la em meio às outras, que vivem nesseponto celestial? Nesse lugar idealizado pelo eu poético, não existe a morte,sequer o dia morre; apenas incorpora-se à grandiosidade do crepúsculo.

Este poema traz várias e belas figuras delinguagem: no título, uma metáfora,  alma delago; na sequência, hipérbole, exageropoético intencional: “se alaga em algo que só no céu há igual”, ou seja,algo tão grandioso que não existe no mundo; segue reportando-nos aos sentidos, sinestesia/ antítese?,   no amálgama da alga que a lágrimasalga, no doce da água, nada tão desigual”; na sequência, temos uma metáfora lindamente construída: “nessas nuvens que a almagalga”; os últimos versos seguem a mesma linha de construção metafórica; comoum artesão da palavra, alguém familiarizado com sua multiplicidade semântica, opoeta encerra esse majestoso poema, com a imagem do crepúsculo ao qual o diaincorpora-se, ou seja, não se trata apenas da ampliação de sentido de umsignificado, mas de uma verdadeira tela poética, que permite ao leitor estavisão mágica.

Alma de lago é um poema contemporâneo; comumente ospoetas contemporâneos não usam esquemas de rimas e de métrica; porém, nãoacidentalmente, nos dois primeiros versos temos rimas externas e paralelas (AA)bem como no quarto e quinto versos, rimas internas e externas; em quatro dosversos temos rimas internas ou coroadas.

Consideroeste uso das rimas e da repetição de palavras, bem como a aliteração em g e l, água, lago, alaga amálgama, alga, galga, recursos poéticos, usados para marcaro ritmo dos versos; observe que essas palavras são paroxítonas, tonicidade que,neste caso, imprime aos versos um  ritmoque reporta o leitor ao movimento contínuo e marcado da água, água que invade opoema e a alma da gente. Lindo!

Selecionamospara o leitor o poema Pássaro e Flor,título que, de pronto, nos remete à temática da natureza. Porém os versos deMarcus trazem um sentido completamente conotativo, é a natureza da pluralidadeliterária.    

 

PÁSSARO E FLOR

Ser um
passarinho
despindo tuas manhãs

Alvorecendo
alvoroçado
alvissareiro

Eriçando
tuas pétalas
roçando tuas sépalas

Mitigando
minha
sede

No orvalho
sagrado e
divino

Que a aurora em
tua Inflorescência
aflora

Nesse receptáculo
espetáculo
do belo

Na efemeridade
onde a vida
voa

A grandeza de ser
pássaro

e flor!


            Passarinhoe flor são na verdade metáforas usadaspelo sujeito lírico para expressar, poeticamente, o encontro entre homem emulher: personificação delicada ebelíssima composição, poesia mágica e erótica; através de elementos danatureza, o eu lírico narra este encontro, “colhido” da subjetividade do poeta.

O poema é constituído de nove estrofesde três versos (tercetos), todos os versos são curtos, não acidentalmente; oritmo reporta-me ao voo e aos movimentos de um colibri, saltitando aqui e ali.Não há esquema de rimas e de métrica, os versos são brancos e livres, marca dapoesia contemporânea. 

Marcus Vinicius Danin é um poetacujo olhar é vasto; sua alma sensível enxerga a poesia contida nas pequenas egrandes coisas da vida, valoriza-as e as eterniza em versos; é o que veremosneste magnífico poema que certamente toca a alma, sobretudo dos amantes destaregião:

 

CHEGUEI

 

Cheguei, trouxe solavanco de estrada

de chão, deslize bucólico de canoa,

balouçar embanzeirado de batelão…

Trouxe mansidão de peixe-boi,

espreito de boiúna, pitiú nas vestes,

tuíra na pele, ferroada de pium…

Trouxe uma fieira de mandi e bico-de-pato,

fiz uma caldeiradinha de fato…

Muito cheiro verde, chicória, farinha

d´água e limão…

Pimenta, odor aguçado, escorrendo

da venta, tucupi

Nada de mágoa, só água que passarinho

não bebe, travo de caju…

Cheguei, do reino das barbatanas, caldos

de cana, beira piscosa de rio, sol e langor

Meus olhos repletos de asas e escamas,

mergulhos de gaivotas, peripécias marotas

de boto, pedras negras, flutuo de flor

Trouxe os pés nus, lama, Calama,

gosma de candiru…

Rio acima, rio abaixo descendo Madeira

Beradeirice e lânguidez que dura a vidainteira…

Cheguei, desbarrancando de amor…

 

O poema Chegueié um hino de amor a sua musa, a Amazônia; o sujeito lírico está presente  naexaltação de tudo que uma viagem à floresta propicia: solavanco de estrada dechão, canoa deslizando suavemente na imensidão do (rio) Madeira, batelãoagitando as águas, banzeiros, e alguns dos  animais que vivem no rio:  peixe-boi, mandi e bico de pato, boto,candiru.

Este hino de amor à Amazônia traz asimpressões que o eu lírico (narrador da subjetividade do poeta) carrega em si,na volta do mergulho ao interior da floresta amazônica, algo prazeroso aoshabitantes locais. Através de versos fortes e linguajar caboclo, percebemos amata, o rio Madeira, os seres misteriosos de suas águas, os peixes, os insetosque atacam a pele humana, o cheiro de peixe cru nela entranhado, o trajeto naestrada de terra e seus solavancos, a refeição que é preparada na volta, osingredientes, os temperos…  Enfim, tudoque faz parte do universo dos beradeiros compõe este poema belíssimo, um marcona poesia amazônida e brasileira sobre esta fascinante e majestosa região.

Há figuras de estilo (linguagem) ricamenteconstruídas ao longo do poema; destacamos algumas, para comentar: Cheguei,trouxe solavanco de estrada/ de chão, deslize bucólico de canoa,/ balouçarembanzeirado de batelão…/Trouxe mansidão de peixe-boi,/ espreito de boiúna,pitiú nas vestes,/tuíra na pele, ferroada de pium…/ Esses versos nos reportama um misto de sensações expressas pelo eu lírico; um ajuntamento de sentidos,que nos remetem à metonímia e à sinestesia; “Meus olhos repletos de asas e escamas”, figura de estilo elaborada commãos de artesão, nesta sinédoque,belíssima:  (parte pelo todo) asas eescamas, para descrever aves e peixes; “Muitocheiro verde, chicória, farinha/d´água e limão…/Pimenta, odor aguçado,escorrendo da venta, tucupi…”/;  figurade linguagem que nos remete aos sentidos: sinestesia;  peripéciasmarotas de boto,”: temos aqui outra figura de linguagem, a personificação, pois o sujeito líricoatribui comportamento humano ao boto,  animal aquático;  “Cheguei,desbarrancando de amor…”. Clímax da expressão poética neste último verso: o eu lírico compara a intensidade deseu amor pela região, com os barrancos ribeirinhos, desmoronados pelo impactoda vigorosa força d’água.  Realmente, háque se deter nesse emocionante exagero poético intencional: hipérbole.

Mergulhando mais profundamente na leitura dessesversos, entendemos que esse poema é uma grande metáfora: o eu lírico colheu a essência da floresta amazônica,depositou-a em um frasco com cheiro de peixe no tucupi e a trouxe consigo. Tudoisso está impregnado em sua alma.  

Cheguei é um poema completamente modernista-contemporâneo; traz a valorizaçãoda brasilidade contida no sotaque caboclo, na flora, na fauna existente noscaudalosos rios e na cultura amazônica. Não possui esquema de rimas e métrica,é constituído de estrofe única. 

 



ORAÇÃO PRA ASAS

Ave Maria

Cheia de

Graça

Protegei

As árvores

Cheias de

Garças…

Jesus menino

Filho da luz

Abençoai

Os sagrados

Ninhais…

Os cabeças-secas

Os colhereiros

Os tuiuiús…

Salvai as

Araras-azuis…

 

Através da temática deste poema, o sujeito lírico revela asubjetividade, os sentimentos colhidos da sensibilidade e da alma do poeta;transparece aqui a religiosidade e o amor infinito pela natureza, a preocupaçãocom as aves e com os pássaros que habitam as florestas brasileiras e vivem àmercê da ignorância, do descaso e da crueldade humana, muitos deles ameaçadosde extinção.

Observamos o uso de figuras de linguagem usadas com maestria paraenfatizar a ideia, como no título, Oraçãopra Asas. O poema, na verdade é uma prece poética, o título identifica otema; logo no título temos uma figura de estilo, a metonímia; aqui, a parte (asas) representa o todo: pássaros; em seguida, nos versos: “Cheia de/ Graça” / “Cheia de Garças…”/temos o uso da anáfora, a repetiçãoda palavra Cheia, no início de doisversos, e de letras ,nas palavras g- a- r- ç –a-s / g- r –a- ç- a-s; noverso /Filho da luz/, sagrados ninhais /temos metáforas.

Oração Pra Asas é um poema de estrofe única eversos curtos, estrutura poemática bastante usada na poesia contemporânea; nestecaso, não por modismo ou tradição; trata-se de um recurso poético para aceleraro ritmo dos versos, assim como no título: porque não usou oração para asas, ao invés de Oração pra Asas? Acredito que isto se deu,também para conferir rapidez ao verso, ao número de sílabas métricas; tudoreporta o leitor à brevidade do momento em que se vê um pássaro em pleno voo. Opoema não apresenta esquema de rimas nem de métrica: os versos são quase todosbrancos e livres; contudo, observamos alguns aspectos a ressaltar: ahomogeneidade de alguns sons em versos distintos, Graça e Garças, Jesus e luz, tuiuiús e azuis (nestes dois últimos, rimas ricas com as quais o poeta encerraesta pérola poética).

Escolhi o poema PROCURO para encerrar a leitura desteensaio sobre uma amostra da poesia de Marcus Danin, porque, aqui, deparo-me comverdadeira cortina tecida num tear de fadas: subjacentes à candidez dosbelíssimos versos, quantas mensagens nesse discurso poético comovente!  

 

PROCURO

 

Procuro

Olhos dechuva,

espreito delua,

águas deriacho, semeadura,

candura,candura

 

Procuro

Caminhos deaves

Rastros desonhos,

Epílogo dasagruras,

ternura,ternura

 

Procuro

Janelas dealma,

tempestadesde calma

placidez degarça, alvura

brandura,brandur

Procuro

Brilho nasvozes

Estribilho,rebrilho

Solfejos deesperança

Bonança,bonança

 

Procuro

Facesrisonhas

Pésserelepes

Estórias deinfância

Criança,criança

 

Procuro

Palavrasgentis, sutis

Acenos dePaz

Homensdesarmados

Amados,amados

 

Procuro

A nãoviolência

Carinho àsmulheres

Em todas asidades

Amistosidade,amistosidade

 

Procuro

Frestas deflorestas,

Asas dearribação

Canções,poesias, amores,

Emoção,coração, coração…

 

Observamos um estado de espírito melancólico no eu-lírico, ao longo detodo este poema; em cada verso, esta melancolia, este desconforto, se fazpresente: há uma busca incessante por algo que parece inatingível no mundoreal, no mundo urbano, no universo agitado e competitivo, onde os homens(sobre) vivem. A grande busca do eu-lírico tem, como contraponto a este mundoagressivo, a placidez, a Paz existente na natureza, a alegria e a serenidade contidasnas pequenas-grandes coisas: candura, ternura, brandura, bonança, criança,homens desarmados e amados, amistosidade em qualquer idade, a emoção dascanções…

 O poema Procuro é constituído de oito quintilhas, estrofes de cincoversos. A construção de belíssimas figuras de linguagem é a marca da poesiade Marcus, especialmente quando sua inspiração está associada a elementos danatureza; no segundo e no terceiro versos, temos “olhos de chuva” / espreito de lua: olhos de chuva teriam osignificado de olhos molhados de sensibilidade, olhos embargados, cujaslágrimas podem cair a qualquer instante, assim como a chuva, ou esta metáfora reflete apenas a beleza, atransparência das águas existente nesses olhos?  No terceiro verso, outra figura de estilo que revela a “busca” do eu-lírico: “espreito de lua”; nesta, temos um luar tímido, a lua apenas “espreitando”a escuridão da noite, ou temos a presença escancarada da lua a espreitar, emmeio ao céu estrelado, a vida sob o luar? Em ambas as hipóteses, há personificação.

Na segunda estrofe, mais belas metáforas, “rastros de sonhos”, “epílogo das agruras”; bemcomo na estrofe seguinte, segundo,terceiro e quarto versos: “Janelas dealma,” “tempestades de calma,”“placidez de garça”. Nasequência, quarta estrofe, no segundo e no quarto versos, Brilho nas vozes/Solfejos de esperança”; essas duasúltimas nos reportam à música, poderíamos dizer que, para alguns leitores,esses versos soam melodiosos.

Procuro apresenta vários recursos poéticos, possibilidadesque a língua oferece ao escritor, para enfatizar a ideia que o eu-lírico quer expressarao longo dos versos; a anáfora é umdesses recursos estilísticos usado neste poema: o título é repetido ao iníciode cada estrofe; no último verso de cada estrofe há outra  repetição de palavras; quanto maior for onúmero de repetições  mais intensa será apercepção da ideia que o sujeito lírico pretende expressar.

Existe a presençade rimas no poema Procuro:Na primeira estrofe, quarto e quinto versos, semeadura/candura (DD), rimas paralelas; rimas paralelas também na segundaestrofe, agruras/ternuras (DD), noquarto e quinto versos; na terceira estrofe, alma/calma (BB), alvura/brandura(CC), primeiro e segundo versos e terceiro e quarto versos respectivamente; hátransposição de rimas em (D) da primeira para a segunda estrofe e destas para aterceira estrofe; na quarta estrofe, temos rimas internas, segundo e terceiroversos (rimas em B), brilho/estribilho/rebrilho,e rimas paralelas no quarto e no quinto versos (DD), esperança/bonança; na sexta estrofe, quarto e quinto versos, rimasparalelas (DD), desarmados/amados; naúltima estrofe, há a repetição desons no segundo verso, aliteração (frestas/florestas), e rimas cruzadas noterceiro e no quinto versos, arribação,emoção, coração (CC).

 

 

 

 


 

 

DADOSBIOGRÁFICOS

Marcus MendonçaDanin é amazônida, do estado de Rondônia, nascido em 14.10.1970, às margens doRio Madeira, na cidade de Porto Velho. Desde muito cedo teve contato com aLiteratura, incentivado por seu pai, Jornalista e Radialista, amante de arte eliteratura. Começou a escrever aos 15 anos quando residia na cidade deCuiabá-MT. Já participou de várias coletâneas e publicou em alguns jornais desua cidade natal; é integrante do fecundo grupo Poetas de Indaiatuba e do Mundo, agraciado inúmeras vezes com Menção Honrosa, por suas composiçõespoéticas. Recentemente foi homenageado com a publicação de vários poemas seusna conceituada página Lítero-Cultural,do poeta, escritor e jornalista Selmo Vasconcelos, do Jornal Eletrônico Rondônia ao Vivo. Também é músico,compositor e coralista. Ainda não possui livros lançados, porém, em fase deedição.  (Texto de autoria do poeta)

 

ABEL SIDNEY

A poesia de Abel Sidney ésurpreendente: temas que abrangem tanto as inquietações existenciais do homemde sempre, até as pedras do caminho do homem contemporâneo; sua poesia nos levaà reflexão, de uma forma informal, leve, como se o sujeito-lírico estivessedialogando com o leitor, e isto é incrível! Abel Sidney é, literalmente, um poeta de seu tempo, independentementedos temas que inspiram sua produção poética. Penso que o ser humano possui amesma essência, não importa o século em que tenha vivido ou viva; daí as mesmasangústias, os mesmos temores, os mesmos anseios, as lembranças da infância e dajuventude, amores perdidos no tempo, amores presentes, a consciência dafinitude, enfim, muda o universo exterior, transformam-se os costumes,transforma-se a vida com os avanços da ciência e da tecnologia, mas a essênciahumana é imutável. A poesia de Abel nos remete à vanguarda, tanto nairreverência, quanto na estrutura de alguns de seus poemas. Todos belíssimos!

 

EI, PSIU, VAI UM POEMA AÍ?!

 

– Sabe,perdeu-se o encanto e

eu nem seimais quem sou…

A escuta, aauscultação permite

colar oouvido direto ao

peito, aocoração.

– Sei lá,parece que perdi o

endereço demim…

Acolhimentoe cuidado exige

preparo enobre disposição.

– Às vezespenso se não seria

melhor tudoacabar e eu sumir…

O insondável,o mistério bate à porta

exigindo aconsulta ao sagrado

humildemente,em oração.

– Só estouaqui porque fui obrigado,

pra mim oproblema são eles!

Guia nasdescobertas, meio de alívio

e cura,base firme de orientação.

– Agradeçopor me contrariar e me

fazer ver oque eu não

queriaenxergar!

Eis umpoema de gratidão, desses

que valem oesforço de uma

vida toda,a confirmar

minhavocação.

 

Neste poema, o eu-lírico expressa profundosentimento de solidão. Temos um eu-poético angustiado, em busca da própriaidentidade; sentimentos que saltam dos versos contundentes, na dor, e leves, nalinguagem, através da construção de belas figuras de linguagem.

Encontramos, aqui, uma metáfora pura: perdi o endereço de mim”: esta construção poética pode significar:estou entre estranhos? tornei-me umdeles? e o encantamento? não me reconheço! Na sequência, vemos um sujeitolírico pessimista com relação ao que percebera, “auscultando” o própriocoração: “… seria melhor tudo acabar eeu sumir”; aqui está implícita a ideia de fim (fim de uma relação amorosa,ou até da própria vida), suavizada pelo eufemismo;o próximo passo é a consulta ao sagrado, algo que acalma o espírito desteeu-poético; mais uma metáfora pura:“Guianas descobertas” (podesignificar que o sagrado, através da oração, trouxe-lhe a compreensão de suasangústias). O poema termina com a expressão de um sentimento de gratidão, pelaconfirmação de seus propósitos na existência, algo ao qual se dedicou ao longoda vida. Belíssimo poema!

Ei, Psiu,vai um poema aí? Este poema apresenta estruturapoemática contemporânea: estrofe única, versos brancos e livres, ou seja, nãohá esquema de rimas e os versos são heterométricos; porém, reconheço ritmointencional na repetição de palavras terminadas em –ão (aliteração),aolongo do poema:  auscultação, coração, disposição, oração, orientação, gratidão,vocação, todas com a tonicidade na última sílaba. No título do poema transparecea marca vanguardista do fazer poético de Abel Sidney: a irreverência.   Neste título, o eu- lírico revela-se umentregador de poesia, ou, talvez, um vendedor de sonhos. Fiquei comovida!

Dentre tantos outros, selecionei este poema, tantopela temática, quanto pela forma contemporânea da expressão poética:

 

EM TEMPO… BREVE CONFISSÃO

 

Não vivonos tempos idos

nas terrasde outrora…

Tantospassados, porém,

insistem emme viver!

Vivo neles,ao sabor das

lembranças,parte delas

ternas,sentimentais.

O certo éque me importo

mais com aspessoas

do que elascomigo.

Daítrazê-las, puxá-las

pelo fio damemória,

sem pedirlicença.

Num segundoei-las

de novo nastelas

darecordação.

Gosto delas, doutrostempos

e tenho o controle dofilme

nas mãos…

Dou-me o direito degostar

daquele tempo, daspessoas

sem que elas sequersuspeitem.

 

Neste outro poema, Em Tempo… Breve Confissão, osujeito lírico conduz o leitor ao universo de lembranças que vivem nasubjetividade do poeta: “… passados queinsistem em me viver  , ou seja, aviver permanentemente em mim; para descrever a intensidade de suas memórias, oeu-lírico expressou-se através de figuras de linguagem: “sabor daslembranças/ parte delas/ ternas,sentimentais/”:   sinestesiae  metonímia; “… me importo mais com as pessoas do que elascomigo”, comparação; “daí trazê-las, puxá-las/ pelo fio damemória, catacrese; …” num segundo ei-las/ de novo nastelas /da recordação/” : aslembranças das pessoas do passado  vivemna  memória desse  eu-poético e, em um segundo, surgem  como sefossem projetadas em telas, as telas das recordações, metáfora; e tenho o controle do filme nasmãos…” Interessantíssima construção metafórica: as recordações são como um filme,  e o “controle” (aqui, talvez, associado aoobjeto controle remoto) dos momentos que serão exibidos (ou lembrados)  está nas mãos do sujeito lírico. “gostar daqueletempo, das pessoas /sem que elas sequer suspeitem”: aqui a presença de zeugma (gostar das pessoas).

O poema EmTempo… Breve Confissão traz no título, ao exemplo do anterior, umtom irreverente, marca do autor. Ainda não havia visto a expressão Em Tempo(expressão esta que se costumava usar depois do final de uma carta manuscrita,para mencionar algo que não fora dito na carta) em um poema; nas cartas deoutrora, tal expressão era escrita de forma abreviada: E.T. Não por acaso, essaexpressão intitula este poema: o eu-lírico faz um mergulho em terras deoutrora, tempos idos, quando ele próprio escrevia ao pé da carta: Em Tempo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O fazer poéticode Abel Sidney revela a inquietude, a curiosidade, a urbanidade do homem contemporâneo;ora o eu-lírico, narrador de sua expressão poética, “define-o” como um vendedorde sonhos, alguém que distribui poemas aos motoristas nos semáforos dasmetrópoles, ora o enxerga como alguém que anseia deixar registros de suasconfissões, mesmo que sejam breves, enquanto há tempo.

Encontro aqui, entre os escritos de Abel, este poema visual: acho lindo!

O poema visual tem a cara da contemporaneidade; nele, há váriaslinguagens, estas subjacentes à linguagem poética tradicional: o modo como aspalavras são distribuídas no poema, os vários discursos ali existentes, aimagem ou imagens que constituem o poema, enfim, uma gama de possibilidades deleitura e interpretação.

No caso em pauta, temos um poema cujo título é Amar-se Traz Alforria: umahomenagem à mulher cuja história propiciou a criação da lei Maria da Penha, aprimeira lei brasileira voltada a proteger a mulher da violência doméstica, e aprimeira lei que leva parceiros violentos à cadeia. O título sugere que aconquista da liberdade plena requer amor próprio, amar-se a si mesma, o quesignifica não aceitar imposições de caráter machista; o sujeito lírico usa apalavra alforria, fazendo umaanalogia entre a liberdade do escravo que conseguia  a carta de alforria, e alibertação da mulher que vive “presa” a uma relação abusiva. 

O poema está configuradoem três colunas de versos; os pilares são constituídos de palavras fortes, significantesque carregam consigo a pluralidade dos significados, quando se trata delinguagem conotativa, a linguagem poética. Acredito que a leitura sejavertical, mas nada impede que o leitor faça outros tipos de leitura entre ascolunas que apresentam os versos, ou seja, que busque novos sentidos, formandofrases com palavras de diferentes “colunas”, por exemplo: “cabelos presos,soltos, cacheados”, etc.

O poema Versões reitera a modernidade, a informalidade e a irreverência da poesiade Abel Sidney:

VERSÕES

Descobri quesó quero

ser euzinhomesmo

um pouco mais

melhorado.

Mais pé nochão, a despeito

dos voos quea poesia

me permitesem

muito risco.

Isso incluivoltar para casa

todos os diaspara curtir a

vidinha  bo(b)a que muitos

descobremtardiamente…

Bem, se euaprender um novo truque,

desses demelhorar a estética da alma

– de clarearsorriso e de esquecer mais

rápido asmágoas, hei de ensiná-lo.

Então é isso!

 

O título deste poema sugere pluralidade de perfis, pluralidade depersonas, pluralidade de preferências, pluralidade filosóficas, no sentido dediferentes olhares sobre o mundo e sobre a existência.

Consigo vislumbrar neste poema a expressão de um lírico jovial, leve,urbano, universitário com a mochila nas costas, usando jeans e camiseta,calçando tênis, rabiscando versos no celular, enquanto espera o metrô: esteperfil vive e viverá eternamente na alma, na subjetividade deste poetainterpretada pelo sujeito-lírico.” Só quero ser euzinho mesmo”, ou seja, gostode mim como sou, gosto da minha “vidinha”,(pequena, talvez para outros, paraaqueles que ainda não atingiram a maturidade, não valorizam a vida, o agora!),mas para mim (lírico) é uma vida boa, não boba, porque aprendi desde cedo a enxergar a grandiosidade contida naspequenas coisas da existência, na rotina do dia a dia, como voltar para casa,para a convivência com as pessoas que amo, por exemplo.  

A partir daí o eu-poético apresenta a capacidade madura de reflexãotambém colhida da subjetividade do poeta: no mesmo tom irreverente, o líricorevela ao leitor sua busca filosófica, uma busca que engrandece a alma etorna-a mais bela: esquecer as mágoas, de pronto, e sorrir (com um sorrisoclaro e bonito) mais amiúde para o próximo; isto não impede que esta bela almaalce voo (sem risco?) para o infinito, lugar onde vive a poesia. VERSÕES é umpoema contemporâneo, constituído de estrofe única, versos brancos e livres.

Considerodeliciosa a leitura do poema CardápioVariado:

 

CARDÁPIO VARIADO

Ao moço,carne

ao velho,sopa

à criança,fruta.

Almoço paratodos?!

Banana daterra frita

cuscuz comovos

suco de açaí.

Para evitarmales sem fim

castanha-do-brasil todos os dias.

Para as dores da saudade

um retrato 3x 4 de pegar

com a mão esentir

com ocoração…

Temática leve e irreverente, marca da poesia deAbel Sidney, aliás, leitura prazerosa, toque de humor presente na lista dessecardápio poético: alimentos considerados adequados para as diferentes faixasetárias. Achei interessante e divertido o modo como o sujeito lírico expressouas representações sociais do poeta nesse quesito; os costumes, os ensinamentos,enfim, a tradição no que se refere à alimentação em nosso país, no meio em queo poeta viveu ou vive. Gostei, sobremaneira, do almoço (para todos) que integrao cardápio: banana da terra frita(aqui, conhecemos como banana comprida), cuscuzcom ovos (comida mineira?), suco deaçaí (no Norte, tomamos açaí no prato ou na tigela), este último (suco)hábito de passado recente. Para garantir males de todas as naturezas, castanha do brasil (do Pará, como chamamos na região).

O item do cardápio que me emocionou e levou-me amergulhar nos sentimentos do eu-lírico foi o alimento que cura as doresprovocadas pela saudade: um retrato 3 x 4 de pegar/ com a mão e sentir/ com ocoração…/. Enfim, esses versos revelam ao leitor que esse cardápio nasceu delembranças da juventude, quem sabe, até da infância longínqua, lembranças dacasa dos pais, dos irmãos, de si próprio quando vivia a inocência dos queignoram as maldades do mundo. Tudo isso parece leve e bem-humorado na poesia deAbel Sidney. Lindo!

 

 

 


 

 

DADOS BIOGRÁFICOS


Abel Sidney nasceu em Apucarana, norte do Paraná, no dia 11 de janeirode 1964. Quando estava com cinco anos de idade, a família mudou-se para acidade de Pacaratu, em Minas Gerais; chegou a Rondônia com doze anos. Maistarde, sua jornada de estudante levou-o a morar em São Paulo e no Rio Janeiro,onde cursou Ciências Sociais e Administração de Empresas na UFRJ e UFF,respectivamente. Em Porto Velho, voltou-se à educação, ao serviço público e àedição de livros. Atualmente, Abel Siney continua à frente da Temática Editora,casa que tem produzido relevantes obras regionais. Além dos poemas, Abel Sidneyé autor de vários livros, um deles de contos para crianças e jovens. Abel émembro fundador da Academia Rondoniense de Letras.

* Sandra Castiel é professora de Literatura Brasileira eLíngua Portuguesa, com formação na Universidade Santa Úrsula, RJ. Pós Graduadaem Língua Portuguesa (SOMLEI, RJ) e em Didática do Ensino Superior, pelaFaculdade da Cidade, RJ. Mestre em Educação e Cultura Contemporânea, pelaUniversidade Estácio de Sá, RJ. Membro Efetivo da Academia de Letras deRondônia. Escritora de contos e crônicas literárias.

ENSAIOS LITERÁRIOS SOBRE POETAS DE RONDÔNIA (III)

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                                                                                                 * Sandra Castiel

              A explosão demográfica em Rondônia nos anosde 1980 impactou e evidentemente provocou mudanças significativas no olhar dapopulação local que acompanhou o crescimento do extinto território; quando istoocorreu, houve um sentimento comum: era como se estivéssemos desterritorizados emnossa própria terra, distanciados que ficamos de nossa cultura, de nossastradições, de nossas próprias raízes e, cada vez mais, de nosso jeito de falar,de nosso próprio sotaque, o sotaque de quem nasceu e cresceu às margens doscaudalosos rios amazônicos; esse estado de coisas reverberou no fazer literáriode alguns poetas da região, fato absolutamente compreensível, vez que aliteratura reflete o momento histórico e as transformações das sociedades. 

          No cenário da atualidade vivemos em um mundomarcado pela celeridade: as mudanças e transformações ocorrem tão rapidamenteque, hoje, neste panorama “futurista”, temos uma nova sociedade, um novo homem,uma nova mulher e uma nova criança; são transformações que envolvem, entreoutras coisas, tradições regionais, relações interpessoais, a língua falada e,sobretudo, a língua escrita;

         O foco deste preâmbulo é apresentardois poetas de Rondônia, através de alguns de seus poemas, parte de suas obras,haja vista que este é um ensaio literário, portanto desprovido de cunho acadêmico;trata-se de uma breve análise que envolve a interpretação do texto, o estilo doautor, as formas dos poemas, os esquemas de rimas (se houver), métrica, ritmo, temática,vocabulário etc.  

             Em referência aos parágrafosiniciais desta Introdução, reportamo-nos ao poeta Carlos Drummond de Andrade;este traduziu, magistralmente, a memória das coisas findas, memórias que serãoeternas. 

 

 Memória

                 Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido/deixa confundido/este coração.

Nada pode o olvido/contra o sem sentido/apelo do Não.

As coisas tangíveis/tornam-se insensíveis/à palma da mão

Mas as coisas findas/muito mais que lindas,/essas ficarão.

 

ANTÔNIO CÂNDIDO DA SILVA

              Os poemas de Antônio Cândido, célebre poeta de Rondônia,  apresentam diversidade de temas, destacando-seo amor  à Maria, sua musa, sua esposa e amulher de sua vida; à religiosidade; à natureza amazônica, cenário onde cresceue vive até os dias de hoje; à infância longínqua, às tradições regionais que seperderam e continuam plenas em suas lembranças.

              A marca do fazer literário deAntônio Cândido é a singeleza, a pureza de sentimentos e a beleza contida na simplicidade,características que transluzem de seus versos e enlevam o leitor; contudo,alguns poemas trazem crítica social.

 

                                         

 

                                                                                                                                             Imagemde Nareeta Martins-Unsplash

                       PORTO VELHO

                                             Antônio Cândido daSilva

Umdia eu fui chegando de mansinho

eem um velho tronco de aroeira

amarreiminha canoa de itaúba

emum ponto qualquer do teu barranco.

Acanoa uma quase montaria

erapequena e muito mal cabiam

meussonhos de criança retirante

poisnem saudades, dentro do meu peito,

meupequenino coração trazia.

 

E setenta e três anos se passaram…

 

Teussonhos de menina, a duras penas,

sóalguns hoje estão realizados

porquenasceste com a triste sina,

atriste sorte dos colonizados,

deviver sob o jugo do opressor.

Aosque te ofendem abres tua porta

eas ofensas muito pouco importam.

Éesse gesto que cativa a gente

eme faz ter por ti tamanho amor…

 

          O poetaAntônio Cândido exercita livremente e com maestria os recursos que o fazerpoético proporciona. Em dezenove versos, agrupados em três estrofes, canta suachegada ao cenário ribeirinho de Porto Velho: o barranco, a pequena canoa deitaúba onde não cabiam seus tímidos sonhos de criança retirante, o tronco dearoeira, enfim, versos que remontam ao início de sua jornada e de sua relação deamor com este então pedaço longínquo da Amazônia.

         Entre asduas estrofes de nove versos, a presença de uma estrofe constituída de versoúnico não é aleatória; ela está ali, entre as outras duas, destacada, comorecurso poético para marcar a passagem do tempo: setenta e três anos. Umprimor!

         A partirdesse ponto, o poeta humaniza a cidade; esta era uma menina que não realizouseus acalantados sonhos, porque foi explorada pelo jugo do opressor, sina doscolonizados; apesar das  ofensas e doabandono, Porto Velho continua de portas abertas a todos que a procuram; esta éa razão maior do amor do sujeito lírico pela cidade. Nesta estrofe, a críticasocial do poeta: a triste sina da cidade perdura, ou seja, a cidade continuasob o jugo dos opressores. A crítica social é uma característica da última fasedo Romantismo na literatura brasileira. Também cabe ressaltar a importância doselementos regionais presentes nos versos: o barranco, a canoa de itaúba, otronco da aroeira. Além disso, este poema de Antônio Cândido apresenta característicasda poesia modernista, haja vista a liberdade estética exercitada pelo poeta noesquema de estrofes: entre duas nonas(estrofes de nove versos), há um monóstico,ou seja, estrofe de apenas um verso.

       Quanto à métrica, os versos do poema Porto Velho são decassílabos. Este poema não apresenta esquema de rimas definido,portanto é um poema constituído de versosbrancos, outra característica da poesia modernista.

    

SÓ PARA LEMBRAR

                       Antônio Cândido da Silva

Quando março retorna a nossa vida

vem-me à lembrança o dia vinte e dois.

Você chegando, linda e comovida

para o primeiro encontro de nós dois.

 

Manhã que ainda hoje revivida

me faz lembrar o que seguiu depois.

Uma história de amor foi assumida

e jurando ser eterna se dispôs.

 

Depois foi seguir juntos, caminhar,

trocando as ilusões e desenganos

por tudo o que juntos conquistamos.

 

Estou aqui, só para te lembrar,

que hoje faz cinquenta e oito anos

da vez primeira em que nos encontramos.

 

          O poema SÓ PARA LEMBRAR tem como temática alembrança do primeiro encontro entre o sujeito lírico e sua musa, há cinquentae oito anos; a partir de então, consolida-se uma história de amor eterno.

          Os versosde SÓ PRA LEMBRAR contam agrandiosidade do amor que uniu o poeta e sua musa, um sentimento que se manteve,mesmo diante dos desenganos e tribulações da vida.

         SÓ PARA LEMBRAR é um soneto, poema de forma fixa, que possuidois quartetos (duas estrofes dequatro versos) e dois tercetos (duasestrofes de três versos); todos os versos são decassílabos, ou seja, possuemdez sílabas métricas.

      Conforme as características do soneto, o temapercorre as quatro estrofes, desde sua abertura(data do primeiro encontro) até a chavede ouro, que é o encerramento; no caso deste poema, a lembrança decinquenta e oito anos transcorridos a partir do primeiro encontro.

       Nasduas quadras, encontramos rimas alternadas (ABAB); do ponto de vista morfológico, as rimas da primeira quadra, vida/comovida (substantivo e adjetivo) edois/dois (substantivo e substantivo), são rimas ricas e pobres respectivamente;na segunda quadra, temos rimas ricas:revivida/assumida (adjetivo e particípio passado-verbo) e depois/dispôs (advérbio e verbo).

No primeiro terceto, encontramos rimas emparelhadas (BB) e ricas, desenganos/conquistamos (substantivo e verbo). Do mesmo modo, no segundo terceto,encontramos rimas emparelhadas (BB) e ricas, anos/encontramos (substantivo e verbo). Há transposição de rimas emABC, do primeiro ao segundo terceto,rimas interpoladas: caminhar/lembrar, desenganos/anos, conquistamos/encontramos.

 

 

  I S Q U E M I A

                    Antônio Cândido da Silva

Hoje é o dia dosnamorados

e devo ter cautela aote falar 

pois o meu velhocoração

acostumado as nossasemoções

ameaçou parar.

Devo, portanto, apartir de hoje,

medir minhas palavras,

tomar o meu remédio

eesquecer o verbo emocionar.

Hojeé o dia dos namorados…

Eu quero te dar umarosa,

um sonho de valsa

e palavras parareavivar

do nosso amor a eternafantasia.

Mas, eu não devo meemocionar…

E não sei como fazer,

pois só pelos caminhosda emoção,

eu posso te dizer doamor que sinto

pelos meandros do meucoração.

Eu este ano vou ficarcalado

pois o Doutor falou,minha Maria,

que existe um problemade isquemia

neste meu coração detrovador

que de tanto te amar

se obstruiu de amor…

        Otema do poema ISQUEMIA traz umaespécie de “confidência” do sujeito lírico: como conter tanta emoção, sufocada,sobretudo no dia dos namorados, o dia do oferecimento da rosa, do sonho de valsae da expressão maior do amor à sua amada?  “… o Doutor falou, minha Maria/, que existeum problema de isquemia/neste meu coração de trovador/ que de tanto te amar/ seobstruiu de amor…/”  Belíssimos versos!

     ISQUEMIAé um poema que nos reporta àpoesia romântica, sobretudo pela musicalidade conferida pelos versos livres; osversos livres não possuem um padrão de métrica definido; este recursopoético enriquece sobremaneira o poema.

      ISQUEMIAapresenta versos soltos, ou brancos, como também são conhecidos osversos que não trazem esquemas de rima. Bastante utilizadosdesde o século XVIII no Brasil, os versos soltos são bastante comuns em poesiasromânticas, se fazendo bastante presentes, entretanto, também na literaturamoderna e na literatura contemporânea.”(Natália Petrin)

          Nesteoutro poema, intitulado Sem Compromisso,o poeta exalta a liberdade de poetizar livremente, sem compromisso com escolasliterárias; tal exaltação à liberdade é legítima. Apreciei sobremaneira estepoema.  

SEM COMPROMISSO

                            Antônio Cândido da Silva

Não quero tercompromisso

com escola literária

com antigo ou commoderno.

Quero ser fiel devoto

do compromisso com aarte

no meu jeito decantar.

 

     A Literatura, como todas as artes, refleteos momentos  históricos; são contextos quemudam de acordo com as transformações políticas e sociais. Normalmente, aexpressão do artista reverbera essas mudanças e elas transparecem em seu olharsensível. Comumente o artista nem se dá conta de características de determinadasescolas em sua arte, mesmo que haja predominância (na estética e na temática)de um ou outro movimento, até porque, na poesia, assim como na vida, não háelementos estanques; carregamos n’alma um acervo infinito de memórias e essasestão sempre conectadas umas às outras; na obra literária há vozes deparnasianos, românticos, simbolistas, modernistas, contemporâneos, enfim, ummisto de sentimentos, sentimentos estes que traduzem a essência humana; oimportante é o resultado da obra: a poesia contida no poema.

     AntônioCândido da Silva é um poeta que compõe sonetos, poemas de forma fixa, usadospelos chamados poetas parnasianos, além de poemas com características da poesiaromântica, modernista e modernista-contemporânea; portanto sua obra é bastantediversificada. Exercita nos sonetos os recursos poéticos inerentes à métricapoética, sobretudo a elisão e o hiato. Confere a cada verso cadência emusicalidade, instrumentos rítmicos que encantam o leitor.

      

     

VELHICE

         Antônio Cândido da Silva

 

Eununca tive medo da velhice

atravésdos caminhos percorridos

assimpensava em minha meninice

enos sonhos de jovens destemidos.

 

Eununca importei com quem me disse

queapós os momentos decorridos,

chegandoo dia que o viver predisse

vamosviver de sonhos já vividos.

 

Eusempre tive a naturalidade

parapor alegria em cada idade

ever que em tudo um lado bom existe.

 

Prapensar na velhice sempre é cedo.

Maso que eu tenho realmente medo

éde um dia ficar velho… e triste.

         Destaco o poemaVELHICE pela complexidade do tema epela originalidade com que o poeta discorre sobre os efeitos da passagem dotempo: a sabedoria de atribuir a cada idade a alegria que é intrínseca à vida.

        O poema VELHICE é um soneto, portanto um poema constituído de dois quartetos e doistercetos. Quanto à métrica, todos os versos apresentam dez sílabas poéticas.  

Nas duas quadras observamos rimas alternadas (ABAB ABAB); do ponto de vistamorfológico, as rimas da primeira quadra, velhice/meninice(substantivo e substantivo), percorridos/destemidos(adjetivo e adjetivo), são rimas pobres; na segunda quadra, disse/predisse (verbo e verbo), decorridos/vividos (adjetivo e  adjetivo), também são rimas pobres.

    No primeiroterceto, encontramos rimas emparelhadas (AA);do ponto de vista morfológico, são rimas pobres, naturalidade/idade (substantivo e substantivo).

    No segundoterceto, encontramos rimas emparelhadas (AA)e ricas, cedo/medo (advérbio esubstantivo).

    Encontramostransposição de rima em C do primeiropara o segundo terceto; rimas ricas, existe/triste(verbo e adjetivo).

    Característicado soneto clássico, o poeta apresenta o tema, discorre sobre ele em todas asestrofes, e a chave de ouro (conclusão)resume lindamente a temática. Este recurso, próprio do soneto, está demonstradono primeiro e nos dois últimos versos deste belíssimo poema.

“Eu nunca tive medo davelhice…

Mas o que eu tenhorealmente medo

é de um dia ficarvelho… e triste.”

 

                           

Antônio Cândido da Silva nasceu em 05.11.1941, nacidade de Humaitá, interior do estado do Amazonas. Poeta, romancista,historiador, compositor, Antônio Cândido é um escritor de renome no meioacadêmico. Licenciado em Letras, pela Universidade Federal de Rondônia e Mestreem História e Estudos Culturais pela mesma universidade, a obra de AntônioCândido é bastante diversificada: além de poemas e romances, é autor da bandeirado município de Porto Velho, bem como autor do brasão do referido município.Compôs os hinos dos municípios de Costa Marques, Cerejeiras e Jaru, todos noestado de Rondônia; também é sua a autoria da bandeira do município de CostaMarques.

Membro efetivo da Academia de Letras de Rondônia (ACLER)e da União Brasileira de Escritores (UBE), Antônio Cândido possui uma obraconsiderável: além de vários livros de poesia e romances publicados, guarda umacervo de seis  livros inéditos. Oescritor vive em Porto Velho, desde tenra idade.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                         

 

 

SAMUEL CASTIEL

 

           Ofazer poético de Samuel Castiel traz a marca de um olhar atento às dores daalma e às reações humanas face ao mundo moderno. Seus versos, livres, sãopróprios da liberdade modernista. Nos poemas de Samuel, as sensações, emoções,enfim, toda a interioridade do sujeito lírico. Os temas dos poemas de Samuelnascem das paixões, do amor à natureza e das inquietações  do ser humano. Os versos soltos de Samuel traduzema musicalidade presente em sua vida; revelam a subjetividade como um Raios-X daalma, sua percepção  de médico sobre a existência,através do lírico. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CORVOS NEGROS DE SOMOE 

                                                           SamuelCastiel                                                                                                                                 

Corvos negros da Ilhade Somoe
Nessa algazarra festiva que fazeis
Voando sobre os verdes  coqueirais 
Com  grunhidos roucos, estridentes 
Que mais parecem gritar para o homem surdo e intolerante os seus males,
Mostrando-lhe como a vida é bela e simples…

Corvos Negros da Ilha de Somoe

Por que não mandais um representante dentre os teus

Como mandastes para Allan Poe

Que repita aos ouvidos desse ateu

Insistentemente

Que o bem maior da vida é a Paz?

Que se não despertar o planeta vai

Morrer desértico na guerra e no fogo sem terninguém

Nuca mais

Que chore os seus tristes ais!?…


Corvos negros da Ilha de Somoe 
Por que vós, que sois ave negra e  azarenta 
Marcada por todo preconceito,
Por que  não vindes  logo dizer 
Que o sapiens homo perdeu o senso
No rastro  da soberba e do poder?…

 

Corvos negros da Ilhade Somoe
Que representais  o belo, o simples, a natureza 
Nesse vosso habitat selvagem e verde
Com o mar azul à  frente, o vento e o farfalhar 
Das palmeiras e dos  coqueirais…
Vinde e repeti ao homem quão bela é a vida
Sem guerra, na quietude singela da paz!…

Corvos negros da Ilha de Somoe 
Dizei-me quando será a terra outra vez
O planeta azul do universo
Explodindo em vida  e  em cores 
Sem o fantasma perverso
Da destruição, da insensatez
— Ah! Nunca, nunca mais!…

(Escritona Ilha de Somoe, em Punta Cana. República)

 

 

 

           O belíssimopoema Corvos Negros de Somoe traz versoscarregados de angústia, verdadeira explosão de sentimentos que transpareceatravés da  subjetividade do eu lírico.Quanta beleza! Quanto encantamento diante da natureza virgem, natural…  Corvos negros alçando voo sobre o mar azul dailha de Somoe, santuário natural preservado da destruição causada pela ganânciado homem…

 

            Opoema é constituído de cinco  estrofesque apresentam diferenças entre  si,quanto ao número de versos: duas sextilhas (primeira e terceira estofes), umadécima (segunda estrofe) e duas septilhas (as duas últimas estrofes).

 

           Osversos não apresentam um padrão com relação à métrica, portanto são os chamadosversos livres, assim denominadosporque não possuem o mesmo número desílabas métricas; na teoria da literatura são definidos como heterométricos. Cabe ressaltar que ospoemas constituídos de versos livres ressaltama musicalidade, característica primordial das poesias.

 

          O poema Corvos Negros de Somoe não apresenta esquemade rimas, característica bastante frequente na literatura moderna e naliteratura contemporânea; são os chamados versossoltos ou versos brancos.

 

       Observamos a presença de anáfora,figura de linguagem, na repetição do verso “Corvos negros da ilha de Somoe”, noprimeiro verso de todas as estrofes. Esta invocação repetida enfatiza e confereemoção ao clamor do sujeito lírico.

 

      Refletindo sobre a temática de CorvosNegros de Somoe e sobre a estrutura mesma do referido poema, consideramosque este apresenta características da literatura contemporânea brasileira; istose dá, não apenas pela forma, mas, sobretudo, pelo tema, tema este que refletea preocupação e a angústia do homem contemporâneo face às agressões aomeio-ambiente. Corvos Negros de Somoe éuma pérola da literatura de Rondônia.

 

ESFINGEE FÊNIX

                                 Samuel Castiel

Boca escancarada,língua de fogo

Que tudo devoras cominsaciável fome!

Engoliste faminta omeu sonho todo

Minha quimera quearde e o abutre come! …

 

Boca escancarada,cheia de dentes

És a esfinge, o teuolhar penetrante

Tudo transforma empedras ardentes

Fizeste-me estátuanum Sol brilhante !

 

Boca escancarada defome voraz

Lançaste-me  ao solo na areia quente,

Trituraste  meus sonhos, todos meus ais

Tornando-me assiminfeliz Duende!…

 

Boca escancarada desopro abrasador

Te enganaste pensandoque foi o meu fim,

Pois sou eu a Fênixque das cinzas do amor

Renasce forte aosturbilhões em mim!  …

 

                Destaco este poema Esfinge e Fênix, não apenas pela belezado significado e da construção poética, mas também porque algumas de suascaracterísticas reportam-me à poesia simbolista.

                  O movimento simbolista literáriosurge na França, no século XIX, com a publicação de As Flores do Mal, obra do renomado escritor francês CharlesBaudelaire (1821-1867), numa espécie de reação ao realismo e ao naturalismo naliteratura.

               A poesia simbolista secaracteriza pelas temáticas misteriosas, sombrias, além de religiosas esensuais. No caso em pauta, o título do poema traz a esfinge e a fênix, doissubstantivos que, semanticamente, reportam a mistérios; enquanto a Esfinge representa o indecifrável, o quenão se pode desvendar, portanto, o definitivo, o fim de quaisquerpossibilidades, a Fênix representa orenascimento, a vida que ressurge das cinzas, ressurge da morte.

           Observamos aqui um mergulho à imaginação e à criatividade, elementospresentes na poesia simbolista, bem como, de certa forma, alusão ao místico e aotranscendental, imagens sombrias…  “Presença comum de antíteses eoposições, graças às tentativas de encarnar o que é divino e espiritualizar oque é terreno: o poema é a forma de conciliação entre os planos material e espiritual” (Sobre a poesiasimbolista, Literatura/Brasil/Escola).

         Outra característica simbolista no poema Esfinge e Fênix é o uso da sinestesia,figura de linguagem que mistura elementos relativos aos sentidos do corpo humano.Na segunda estrofe, “olhar penetrante” (visãoe tato); “pedras ardentes” (visão epaladar); na terceira estrofe, “areiaquente” (visão e tato/paladar), alémde outros elementos sinestésicos, como “sopro abrasador”, “língua de fogo” etc.Além da presença da sinestesia,encontramos outra característica da poesia simbolista, como o uso das chamadas letras maiúsculas alegorizantes, paraenfatizar o poder simbólico das palavras: na segunda estrofe, Sol; naterceira, Duende, ambos os elementos impalpáveis.

         Opoema Esfinge e Fênix apresenta quatro quartetos, estrofes de quatro versos. Comrelação à métrica, os versos são os chamados versos livres, não seguem um padrão de métrica definido; na teoriada literatura são denominados versos heterométricos; esta característicaimprime musicalidade aos versos e ao poema como um todo.   

        Comrelação às rimas, encontramos aqui o seguinte esquema de rimas: rimas cruzadase ricas, na primeira estrofe:  ABAB  fogo/todo(substantivo e pronome) , fome/come(substantivo e verbo). Na segunda estrofe, também rimas cruzadas e ricas, ABAB,dentes/ardentes (substantivo eadjetivo) e pobres, penetrante/ brilhante(adjetivo e adjetivo). Na terceira estrofe, há rimas cruzadas e ricas, ABAB,voraz/ais (adjetivo e substantivo) e ricas,quente/Duende (adjetivo esubstantivo); na quarta estrofe, o mesmo esquema de ricas cruzadas ABAB ericas, abrasador/amor (adjetivo esubstantivo) e fim/mim (substantivo epronome). Observamos a presença de anáfora,ou seja, a repetição das palavras “Boca escancarada” no primeiro verso de todasas estrofes.

         Apesar de não apresentar uma estética integralmente simbolista, o poema Esfinge e Fênix traz algumascaracterísticas desse movimento que se fez forte na literatura brasileiraatravés dos poemas de Cruz e Souza, Alphonsus de Guimaraense Augusto dos Anjos, estes os mais conhecidos.

 

PRAFALAR COM DEUS

                           Samuel Castiel

Inerte,nu e sem nenhuma emoção 
Quero  ficar assim mudo, estático 
feito cadáver estirado sobre a pedra fria.
Sem pensamento algum a  transgredir a minha mente
Deixando apenas o ar úmido e morno 
Insuflar os meus pulmões suavemente …

Não quero ninguém por perto desse morto
Nenhum residente ou legista ateu
Não quero o incômodo das orações 
Nem mesmo a luz tosca das velas…
Assim talvez possa eu longe das minhas  quimeras
Não ter sonho algum,  violação ou pesadelo 
Assim talvez  possa eu falar comigo mesmo,
Talvez assim  possa eu  falar com Deus!…

 

        Destaco o poema PRA FALAR COM DEUS, pela originalidade temática, pela belezapoética e por uma característica curiosa, característica esta que me reportouao tom pessimista, depressivo e macabro da Segunda Geração do Romantismobrasileiro; o egocentrismo, a exacerbação sentimental, o sofrimento do sujeitolírico e o desejo de fugir da realidade são algumas marcas dos poemas da faseultrarromântica. A expressão do eu lírico sugere desilusões, sonhos perdidos(amores?), ausência de perspectivas, enfim, diria eu que este poema contemporâneodemonstra que a essência humana vive em cada ser independentemente do seu tempoe da forma como se expressa.          

           O poema PRA FALAR COM DEUS apresenta duas estrofes: a primeira é umaestrofe com seis versos (sextilha); a segunda é uma estrofe com oito versos(oitava). Este poema não apresenta esquema de rimas, portanto, temos aqui versos brancos ou soltos; o mesmo comrelação à métrica, os versos são livres,ou seja, heterométricos, nãoapresentam o mesmo número de sílabas métricas.  

 

AOS MONGES

                                                                                      Samuel Castiel

Clausuraescura e sufocante
Cânticos sagrados gregorianos
A um só tempo o paraíso santo 
Ou os grilhões ferrenhos  dos porões

Penitências, castigos e Orações
Misturam-se nas cândidas  mãos 
Quando a noite desce com seu negro manto 
A espreitar incautos infiéis em arrependido pranto
Na leitura de um Breviário Santo…

Em uníssono os monges cantam
Num coro de celestial beleza
Gregorianos cânticos que tocam a alma
Enchem o espírito de maior pureza!…
Mesmo antes do raiar do dia
De longe se ouve a Santa cantoria

Embora distantes deste mundo louco
Dão os monges exemplo do mais puro amor:
é possível viver na alegria santa 
Em clausura, sim,  mas com a mente sana,
Enlevadas a Deus, nosso Pai Criador…

        Observamos que a austeridade presentena temática de Aos Monges pode serencontrada em vários outros poemas da lavra de Samuel. O poeta utiliza palavrasfortes e contundentes para descrever o universo ao qual se refere; no caso dopoema Aos Monges, o claustro: mosteirofechado, sufocante, grilhões, porões, enfim, imagens que nos reportam às clausurasda Idade Média. Porém, ao mesmo tempo em que essa ambientação sufoca, ointerior dos seres que ali vivem é santificado pelo cântico gregoriano, algoque liberta, eleva e enleva a alma, ideias que reportam a paradoxos eantíteses; do mesmo modo, “Penitências…castigos… orações… arrependimento… paraíso santo… pureza… celestialbeleza…”

 

      O poema Aos Monges apresenta quatro estrofes: uma quadra, dois quintetos (segunda e última estrofes) e um sexteto. Comrelação à métrica, não há um padrão, os versos são heterométricos, os chamados versos  livres.

Observamosaliteração (em u) no primeiro versoda primeira estrofe; esta figura de linguagem enfatiza sobremaneira a imagem descritapelo sujeito lírico.

      Alguns poemas apresentam rimas misturadas, ou seja, são aschamadas rimas mistas; isto ocorrequando o poema apresenta diversas combinações, não há um esquema fixo de rimas,é o caso de Aos Monges. Estacaracterística é encontrada principalmente na poesia modernista. Neste poema,temos, na segunda estrofe, rimas emparelhadas manto/santo/pranto (na verdade as emparelhadas ou paralelas sãoconstituídas de dois versos); na terceira estrofe, temos rimas cruzadas nosegundo e quarto versos, beleza/purezae rimas emparelhadas no quinto e sexto versos: dia/cantoria; na última estrofe há rimas interpoladas, segundo equinto versos, amor/criador.

Enfim,não há um padrão definido.

DEUSATEU

                                                                          Samuel Castiel

Vão-selonge os sonhos meus

Dainfância pueril

Restou-mesó tu, oh! deus ateu…

Comesse escárnio vil

Aqueimar o meu jardim

Numaescalada louca que vai

Arrastandotudo de mim

Minhafé, minha luz, meu amor

Notriste lamento que sai

Numpranto que se chama dor! …

 

           Considero Deus Ateu um poema de temática bastante original e interpretação complexa:o sujeito lírico, cuja infância era plena de sonhos, possivelmente, nutrindo afé em um Deus presente, é tomado pela decepção e pelo desencanto face àsolidão, ao vazio, ao sentimento de desamparo em que se encontra. Teria Deusdesacreditado do eu lírico que expõe sua dor? Em um fenômeno inverso, teriaDeus caído na descrença com relação a esse sujeito lírico, levando-o a perderos sonhos e a própria esperança na vida?

          O poema Deus Ateu apresenta características modernistas, tanto na temática(ousada), quanto na estética. Poema de estrofe única, apresenta versos livres e soltos, ou seja, sem padrão definido de métrica e rimasrespectivamente.

 

 

 

DADOS BIOGRÁFICOS

SamuelCastiel nasceu em11 de maio de 1947 na pequena cidade de Gurupá, no estado do Pará.  Veio com pais e irmãos para Porto Velho aos 4anos de idade. Médico formado pela UFPA  éespecialista em Radiologia e Diagnóstico por Imagem ( PUC-RJ).  Poeta, contista e cronista, com várias obraspublicadas, é Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia- ACLER, e daAcademia Brasileira de Médicos Escritores- ABRAMES. Além da Medicina e dasLetras, Samuel tem outra paixão: a Música. Ao longo de sua vida, tornou-se ummúsico conhecido e requisitado; costuma prestigiar eventos culturais, com seuinseparável  Saxofone. Samuel é umapersonalidade ilustre em Rondônia, tanto pelos serviços prestados na áreamédica, quanto pelo talento musical e poético. Samuel Castiel vive em PortoVelho.

Sobre aautora: Sandra Castiel é professora de Literatura Brasileira e Língua Portuguesa,formada na Universidade Santa Úrsula, na cidade do Rio de Janeiro. Pós Graduadaem Língua Portuguesa (SOMLEI), RJ e em Didática do Ensino Superior, pelaFaculdade da Cidade, Rio de Janeiro; Mestre em Educação e CulturaContemporânea, pela Universidade Estácio de Sá, também no Rio de Janeiro.Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia. Escritora de contos, crônicase peças teatrais para crianças deficientes visuais, possui vários livrospublicados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ensaios Literários sobre Poetas de Rondônia – Parte II

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Ensaios
Literários sobre Poetas de Rondônia – 
Parte II

                                                                          
                          *Sandra
Castiel

 

 

     A proposta deste trabalho é revelar ao
público-leitor a beleza da poesia produzida pelos poetas que aqui vivem.
Estamos falando sobre pessoas apaixonadas por literatura, pela expressão
artística através da escrita. E sabemos que esta expressão torna-se necessária,
imperativa mesmo, àqueles cuja arte faz parte de sua humanidade, de seu próprio
ser.

Ainda
muito jovem, punha-me
a pensar nas diferentes formas de arte; como são belas! Então dei-me conta de
que a expressão artística que mais me emocionava era a que me chegava à alma
através da palavra.

O que
diferencia a literatura das outras artes é a matéria -prima com a qual o
artista trabalha: a linguagem. Mas não se trata de uma linguagem qualquer; o fazer literário pressupõe escolher cada
palavra, trabalhá-la tal qual o joalheiro burila uma pedra preciosa,
estudar-lhe a posição no verso, ou na frase, avaliar sua multiplicidade de
sentidos, até retratar, através dela, o sentimento que lhe vem à alma. Creio
que esse processo é intrínseco à arte de poetizar, sobretudo, seja qual for a
forma que tenha o poema.  Mário Quintana
define bem o significado dos poemas:  

 

Os poemas

                        
Mário Quintana

Os poemas são pássaros que
chegam /não se sabe de onde e pousam / no livro que lês. /
Quando
fechas o livro, eles alçam vôo / como de um alçapão. /
Eles não têm pouso/ nem porto / alimentam-se um instante em cada par de mãos /e
partem. /E olhas, então, essas tuas mãos vazias, / no maravilhoso espanto de
saberes /
que o
alimento deles já estava em ti…

 

Neste despretensioso Ensaio Literário, apresentaremos alguns
poemas de Gesson Alvares Magalhães, um mestre, nome reconhecido por gerações de
alunos e professores e pelo meio acadêmico.

Gesson é um poeta
clássico, um homem apaixonado pelas letras, com as quais é bastante
familiarizado. O fazer poético de Gesson é ricamente elaborado; observa-se o
cuidado com as estrofes, com a metrificação dos versos, com as rimas, com a
tonicidade das sílabas.

No livro Amor Eterno, todos os versos do poeta
têm como tema sua musa inspiradora, o grande amor de sua vida, sua esposa, Ivete.

Gesson é um artista que,
através da poesia, expressa de forma singela seus sentimentos mais puros.
Gesson desnuda a própria alma na expressão do eu lírico; a lírica amorosa é a
tônica de seus poemas nesta obra. Destacamos o poema Ontem e Hoje.

 

ONTEM E HOJE

 

Eras
a virgem mais bonita e pura / Que havia no colégio; Eras tão linda, /

Que
ao ver-te a vez primeira, fiz a jura / De dedicar-te uma afeição infinda. /

 

Amaste-me
também, e a estrutura / Do amor que ali nasceu perdura ainda. /

Depois
de trinta anos de ventura, / Tua beleza me é sempre bem-vinda. /

 

Hoje,
nossos cabelos estão brancos, / Já sofremos da vida os duros trancos, /


temos filhos, netos e uma neta. /

 

Não
és mais a mocinha bela e doce, / Mas para mim, é tal qual se ainda fosse /

Aquela
Musa que me fez poeta. /

 

O fazer poético de Gesson
é diversificado; porém a forma de poema que prevalece em seu trabalho é o
soneto. O poema Ontem e Hoje
apresenta quatro estrofes isométricas, formadas por versos decassílabos
estruturados em duas quadras (ou quartetos) e dois tercetos, constituindo-se de
catorze versos: esta é a característica que distingue o soneto, poema tradicionalmente
de forma fixa.  

Nas duas quadras,
encontramos rimas alternadas (ABAB).
Do ponto de vista morfológico, as rimas da primeira quadra, pura/jura (adjetivo e substantivo), linda/infinda (adjetivo e adjetivo) são rimas ricas e pobres
respectivamente; na segunda quadra, temos rimas pobres e ricas estrutura/ventura (substantivo e
substantivo); ainda/benvinda
(advérbio e adjetivo). Todas as rimas apresentadas são rimas chamadas graves ou femininas, assim denominadas,
quando as palavras, de acordo com a acentuação tônica, são paroxítonas.

No primeiro terceto,
encontramos rimas emparelhadas e ricas (CCD)
brancos/trancos (adjetivo e
substantivo). O mesmo ocorre no segundo terceto, rimas emparelhadas e ricas (EED), doce/fosse (adjetivo e verbo). Há transposição de rima do primeiro
ao segundo terceto; neste caso, temos rima interpolada em D.

No poema ONTEM E HOJE, observa-se o rigor métrico, rítmico e rimático,
características do soneto clássico.

A temática do soneto  ONTEM E HOJE está evidente na primeira
quadra:  o amor profundo que a musa desperta
no poeta, desde que este  a vê, vez
primeira,  na adolescência. E segue,
desenvolvendo o tema, na segunda quadra.

Nas duas últimas estrofes (tercetos), temos a conclusão  da ideia inicial: o tempo (trinta anos) e as
dificuldades da vida não diminuíram o sentimento de ambos;  o amor perpetuou-se, deu frutos, e  o poeta
expressa e reitera a
grandiosidade desse amor pela mulher amada. No último verso, a chave de ouro.  A história de amor do poeta com sua amada está
plenamente contida em catorze versos. Lindo!

Destaco neste espaço quão
rica é a obra literária de Gesson Alvares Magalhães. No soneto ONTEM E HOJE, o poeta nos encanta com sua
lírica amorosa, versos que expressam com maestria sua subjetividade, seus
sentimentos mais puros. Porém, somos surpreendida por outra habilidade de
Gesson, habilidade e talento evidentes no livro PARÓDIAS & PERFIS, publicado este em passado recente (2019).

O livro foi ordenado em
duas partes distintas: a primeira apresenta  paródias
de poemas clássicos da língua portuguesa; a segunda, apresenta perfis; este último trata de  pessoas, familiares, tipos, coisas, livros,
eventos, enfim, pluralidade de  pessoas,
objetos e acontecimentos que fazem parte da vida e inspiraram o autor: há que
se ler para que se possa ter a dimensão do múltiplo talento e da perspicácia de
Gesson, de seu aguçado senso de observação da realidade e de sua elevada
capacidade de análise crítica. Esses aspectos são imprescindíveis sobretudo à
paródia; no caso específico da literatura, este gênero se constitui em um
recurso da intertextualidade, ou
seja, o autor descontrói um texto já existente (normalmente clássico bastante
conhecido) e o reescreve, respeitando-lhe a estrutura, porém modificando-o sob
à sua ótica.  Cabe mencionar que, falar
sobre paródia, leva-me, de pronto, à sátira.  

Fazem parte da sátira: zombaria,
escárnio, achincalho, malícia, ridicularização, crítica, enfim, tudo isso
existe nos poemas satíricos de Gregório de Matos, poeta brasileiro (1636-1696)
que difundiu este gênero de poesia.   No rastro da sátira (e com ela de mãos dadas),
surge a paródia.

Destacamos do livro Paródias & Perfis, de Gesson
Alvares Magalhães, um dos sonetos de Raimundo Correia, importante poeta da literatura
brasileira, que

formou com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac a famosa Tríade Parnasiana. Apresentaremos,
na sequência, a paródia de autoria de Gesson Alvares Magalhães.

 

 

Mal secreto

                                            
Raimundo Correia

 Se a cólera que espuma, a
dor que mora / N’alma e destrói cada ilusão que nasce;/ Tudo o que punge, tudo
o que devora / O coração, no rosto se estampasse; /

Se se pudesse o espírito que chora / Ver através da máscara da
face, / Quanta gente talvez que inveja agora / Nos causa, então, piedade nos
causasse! /

Quanta gente que ri, talvez consigo /Guarda um atroz, recôndito
inimigo / Como invisível chaga cancerosa! /

Quanta gente que ri, talvez existe, / Cuja ventura única
consiste / Em parecer aos outros, venturosa! /

 

O tema do soneto Mal
secreto
, de Raimundo Correia, trata da verdade oculta que mora no recôndito d’alma de cada ser humano; quantas dores ou
aflições as pessoas carregam consigo, sem deixar que esses males ou outras
emoções lhes transpareçam na face? Como desvelar os verdadeiros sentimentos que
estão no coração do outro, se este usa sempre uma máscara de felicidade? Ou
seja, quais as chagas que vivem escondidas por detrás dessa usual aparência? O
poeta conclui seu pensamento no último terceto: há pessoas cuja única
felicidade (ventura) é aparentar aos outros que é de fato feliz.    

O tema deste clássico da literatura brasileira inspirou nosso
poeta Gesson Alvares Magalhães a compor uma de suas paródias. Assim, destacamos
Mal concreto.

 

 

MAL concreto

                                                                                  
Gesson Alvares Magalhães

           

Se corrupção, mentira, safadeza, / E qualquer outro que não foi citado,
/ Tudo o que atinge, “quase” com certeza, / Prefeito, Senador ou Deputado. /

Se se pudesse colocar na mesa, / O caráter do “privilegiado”, /
Quanta sujeira a exigir limpeza, / E quanto podre a ser extirpado! /

Quando chega o período da eleição, / Quantos se mostram como a
salvação, / proclamando a maior honestidade…/

Mas depois, no exercício do mandato, / Demonstram-se piores do
que rato; / Fraudam o povo e faltam com a verdade. /

 

Este soneto de Gesson Alvares Magalhães reporta-nos de imediato à poesia satírica. A sátira literária pode estar presente na
paródia, através da crítica, da ridicularização, do achincalho.

A paródia de Gesson começa subvertendo o título do soneto de
Raimundo Correia: Mal secreto (um mal que reporta a sentimentos ocultos,
ao que está por trás das aparências e refere-se ao ser humano de modo geral).
Gesson o parodia com Mal concreto, ou
seja, o Mal é evidente e sabemos
onde ele está “quase” com certeza.
Nesta paródia, há crítica escancarada, escárnio, achincalho, ridicularização e
ironia (vide título); o humor faz parte da essência da paródia.

O fio condutor do poema original (Mal secreto), evidentemente parodiado, está presente ao longo de
todo o soneto de Gesson: na apresentação do tema, no desenvolvimento e na
conclusão. O último verso encerra o soneto-paródia com chave de ouro: Fraudam o povo e faltam com a verdade.

A estrutura poemática do soneto de Raimundo Correia foi mantida
pelo autor de Mal concreto; a
paródia de Gesson utiliza figuras de linguagem presentes no soneto de Raimundo
Correia: anáfora, antítese, metáfora.

A segunda parte do livro de Gesson Alvares Magalhães é
constituída do que o autor denomina Perfis (Pessoas, Familiares, Tipos,
Coisas, Livros e Eventos).  Considerei oportuno destacar, entre tão
belos poemas, o Perfil de um Soneto, talvez
por uma questão de veneração literária.

 

Perfil de um Soneto

                                                          
Gesson Alvares Magalhães

 

Leia estes versos, bem
devagarinho, / Sem ver a forma, sem olhar a rima, / São versos feitos com muito
carinho, / Só para conquistar a sua estima. /

 

Leia…Não pare! Siga este
caminho, /Embora, pra você, ladeira acima, / Chegando ao topo, haverá outro clima,
/ E então verá, que não há tanto espinho. /

Catorze versos só, nos
quais, com jeito, / Procuro dizer tudo o que eu quero, / Num esforço para tudo
ser perfeito. /

 

Em duas quadras e mais
dois tercetos, / Eis, de você, o que mais eu espero: /Que aprenda, assim, a
gostar de sonetos. /

 

O tema do poema é óbvio,
pelo título. Na apresentação, o poeta convida o leitor, provavelmente refere-se
a um leitor que não está habituado a esta estrutura poemática, à leitura do
poema; como recusar um convite feito tão amorosamente? Porém, se a tarefa for
árdua “ladeira acima”, cansativa, que não desista, pois, ao chegar ao topo, aí
sim, encontrará um clima ameno, ou seja, atingirá a compreensão plena do poema,
as dificuldades iniciais da linguagem poética ficarão para trás, são os
espinhos, e o leitor finalmente aprenderá a gostar de sonetos, a magia que
acontece em apenas catorze versos, distribuídos em dois quartetos e dois
tercetos. Lindo! 

Este soneto apresenta o
seguinte esquema de rimas nos quartetos e nos tercetos respectivamente: ABAB (rimas alternadas), ABBA (rimas interpoladas e emparelhadas),
CDC (alternadas), CDC (alternadas). Na primeira quadra,
há rimas ricas, devagarinho/carinho (advérbio
e substantivo) e rimas pobres rima/estima
(substantivo e substantivo); na segunda quadra, há rimas pobres, caminho/espinho (substantivo e
substantivo) e rimas ricas, acima/ clima
(advérbio e substantivo. Nos tercetos, há rimas ricas, jeito / perfeito (substantivo e adjetivo) e pobres, tercetos / sonetos (substantivo e
substantivo). O poeta demonstrou sua maestria e familiaridade com este gênero
de poesia, ao combinar três rimas, transpondo-as do primeiro ao segundo
terceto.

 

Da segunda parte do livro,
Perfis, no quesito Pessoas, destacamos outro soneto, este
satírico, para demonstrar ao leitor a versatilidade do talento de Gesson
Alvares Magalhães. O poeta utilizou algarismos romanos para identificar os
poemas no que se refere a Perfis.

 

IV

 

Arrogante, vaidoso,
prepotente, / De verborreia fluente e rebuscada, / A pose de jurista
“inteligente”, / Que fala, fala, mas nunca diz nada. /

 

Com seu falar enganou
muita gente, / Da política fez a sua estrada, / Chegou a Senador, como
suplente, / Depois, eleito, fez sua escalada. /

 

É que, com muito poucas
exceções, / Políticos comparam-se a feijões: / Se postos n’água, todos, por
inteiro, /

 

O que não presta, o
chocho, o vagabundo, / Flutua, sobe, enquanto, lá no fundo,/ Só fica o bom, o
cheio, o verdadeiro./

 

Este soneto impecável,
decassílabo, com rimas alternadas nas duas quadras, ABAB; rimas emparelhadas nos dois tercetos, CCD, EED, e transposição de rima (interpolada) em D, do primeiro ao segundo terceto,
eterniza a crítica do poeta à arrogância, à enganação e à escalada social dos
políticos que integram o parlamento brasileiro. Através da descrição de um
deles, o poeta utiliza uma metáfora, para conduzir o leitor à realidade: todos
os políticos, com raras exceções, são como feijões na água: os que flutuam (os
imprestáveis) são os que galgam elevados postos, funções relevantes na
sociedade; porém, aqueles que são verdadeiramente úteis à nação permanecem na
base da pirâmide social. Há que se ressaltar e enaltecer esta bela crítica
social feita pelo autor. Cabe lembrar que um soneto desse nível pode provocar
no leitor importantes mudanças em seu olhar sobre o panorama social e político
de seu país, de seu estado, de seu município.   

  DADOS
SOBRE O AUTOR:



 Gesson Alvares Magalhães nasceu em Santana dos
Brejos, estado da Bahia, em 12 de outubro de 1934. Graduado em Língua
Portuguesa, pela Faculdade de Ciências e Letras de Jandaia do Sul, no Paraná,
possui cursos de Pós-Graduação, realizados na PUC – Belo Horizonte e UNIR –
Rondônia, respectivamente.

Em Rondônia, além de
professor universitário e Assessor Parlamentar na Assembleia Legislativa de
Rondônia, onde ocupou cargos de grande relevância, exerceu outras funções de destaque
no serviço público estadual.

Gesson Alvares Magalhães é
Membro Fundador da Academia de Letras de Rondônia, escritor, poeta, professor
de Língua Portuguesa. Vive em Rondônia desde a década de 1980.

 

A
POESIA DE JÚLIA TRINDADE

 

 

Destaco a poesia de Júlia
Trindade pela forma moderna, com traços de contemporaneidade, através da qual
se expressa. No fazer poético da autora, há predominância da lírica amorosa:
quanto sentimento contido nos versos livres e brancos de Júlia!

Existem conceitos
simplistas sobre a literatura brasileira contemporânea, destacando-a sob uma perspectiva
meramente cronológica. Certamente a literatura brasileira contemporânea carrega
em seu bojo um conjunto de várias escolas literárias; esta característica
transparece em contos, crônicas, poemas e romances. Porém, há que se ressaltar
que existem alguns aspectos, além da forma e do conteúdo, que identificam a
contemporaneidade nas produções artísticas. O filósofo italiano Giorgio Agamben
(O que é contemporâneo e outros ensaios,
Argos, 2009)
centra sua opinião sobre o tema em dois pilares: dissociação e
anacronismo.

A contemporaneidade,
portanto, é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao
mesmo tempo, dele toma distâncias; mais precisamente, essa é a relação com o
tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo. Aqueles que
coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem
perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não
conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela.

A poética de Júlia é
inspirada no passado, em suas vivências; isto fica bastante claro ao longo de
seu fazer poético, como se o eu lírico
afirmasse: Meu ser é o conjunto de todas essas vivências! Não obstante as
lembranças, há a presença da reflexão do ponto de vista da mulher madura, que
vive seu próprio tempo, e do olhar analítico e poético sobre sua vida, seus
amores, suas paixões, suas alegrias, suas decepções, seu sentimento de
abandono; e isto significa uma dissociação, um corte entre passado e presente. Ao
mesmo tempo em que se reporta ao passado, o
sujeito lírico
toma distância dele.

Júlia lançou apenas um
livro de poesias:  Canto… por enquanto canto. Porém, sua produção literária é vasta, continua escrevendo poemas, contos
e crônicas.

Coletamos deste seu
primeiro livro de poesia alguns poemas, dentre tantos que nos enlevaram a alma:

 

 

 

Febre

                                                                                  
Júlia Trindade

 

Primeira estrofe:  Hoje eu pensei /naquele meu vestido verde, /no
moço de rosto afogueado, / no som do bolero num fim de ano. / Eu tinha febre e
dançava. / A cabeça doía, /mas me esquecia da dor nos braços dele. /

 

Segunda estrofe: Quando
ele saiu do meu mundo / com outra vestida de noiva, / fiz um piquenique / comi
“hamburger” com lágrimas, / bebi “cuba libre” como veneno. /

 

Terceira estrofe:  Ah! O reencontro… / Sua cabeça baixa, / seu
crespo cabelo louro, / o banho no regato… / E eu rindo, rindo, / dele, do
vestido verde, / do bolero num fim de ano, / da noiva, da febre que afundavam.

 

Este poema transporta
literalmente o leitor ao cenário bordado por Júlia, através de seus lindos
versos: homem e mulher, jovens, ela em seu belo vestido verde, rostos colados,
corpos unidos, tudo isso em meio à penumbra de um salão e ao som de um bolero.
Pura magia!

O eu lírico faz-se
presente na expressão do sentimento de dor, dor esta física e emocional, de
mágoa contida, do grande amor que salta dos versos. A autora construiu
metáforas, remetendo ao contemporâneo e ao antigo:  comi hamburger com lágrimas,
bebi
cuba libre como veneno
; este
é outro traço da contemporaneidade de Júlia. A estrutura poemática de Febre é constituída de três estrofes: a
primeira com sete versos; a segunda com cinco versos e a terceira com oito
versos: versos livres e brancos. Na última estrofe, a conclusão: anáfora na
repetição das palavras (rindo, rindo)
para enfatizar o tom da melancólica ironia com a qual Júlia encerra seu poema. Lindo!

Na sequência, do livro Canto… por enquanto canto, destacamos
o poema Clamor, poema este que, de
pronto, nos remete ao sentimentalismo exacerbado dos poetas românticos. É uma
composição poética que trata de um clamor infinito, pela volta do amado, ao
mesmo tempo que expressa um misto de saudade, tristeza e desilusão. Clamor é constituído de quatro
estrofes, e, de certa forma, eu o considero quase minimalista: como um poema
com estrutura tão “frágil” pode conter tema e versos tão fortes? Percebe-se a
delicadeza feminina nesta composição de Júlia Trindade; apesar do tema, forte,
o clamor ao amado é feito em versos curtos e delicados. Na primeira estrofe,
temos dois versos; na segunda, temos três versos; na terceira, cinco versos; na
quarta, apenas um verso.

Clamor

 

Primeira estrofe: Ah!
Amado meu, /encontra o caminho de volta! /

 

Segunda estrofe: Retrocede
o tempo / Ao dia de tua despedida / e deixa tudo continuar como dantes! /

 

Terceira estrofe:  Ah! Amado meu, / me traz de volta o teu
sorriso, /a tua ternura, / tua presença forte, / o teu amor! /

 

Quarta estrofe: Traz de
volta a minha vida! /

O poema Clamor transborda sentimentos doridos,
sentimentos estes que apresentam traços dos poemas da segunda geração do Romantismo.
A autora utilizou recursos de figuras de linguagem, para enfatizar a veemência
com a qual o sujeito lírico clama pela volta do amado. Encontramos repetição
(anáfora, aliás, belíssima) no primeiro verso da primeira estrofe e no primeiro
verso da terceira estrofe: Ah! Amado meu; encontramos repetição de sons
(aliteração em d) na segunda estrofe: dia,
despedida, deixa, dantes;
na terceira estrofe, aliteração em t: traz, teu, tua, ternura, tua. A autora
prossegue, no verso final, com aliteração em t: traz, e em v: volta, vida; esta
última bastante sugestiva, enfatizando a veemência da declaração poética: sem
você, não há vida! 

 O poema que selecionamos, na sequência, é uma
demonstração da contemporaneidade na poesia de Júlia:

 

Codificação

Para não mais entrares/ em
minha vida, / vou me codificar. / Quero te ver sofrer / por não decifrares /
minha senha. /

 

O texto por si só remete o
leitor à modernidade da tecnologia: a senha é comumente usada para que se possa
acessar determinado arquivo, informações, coisas do gênero; através desta
metáfora, em apenas seis versos curtos, a autora nos conduz à conclusão da
relação de amor que inspirou o poema.

Como é de seu estilo, Júlia
utiliza a leveza da linguagem coloquial-criativa, versos livres e brancos, aliás,
simples e belos como água cristalina.

 

Conceito

Primeira estrofe: Conheço
tua manha, / tua sanha, tua trama. /

 

Segunda estrofe: Conheço
teu jeito, / teu feito, teu leito. /

 

Terceira estrofe: Conheço
teu enredo, / teu medo, teu segredo. /

 

Quarta estrofe: Só não
conheço teu coração! /

 

Destacamos este poema,
porque, além da beleza do conteúdo, ele apresenta um diferencial: a presença de
rimas; nas duas primeiras estrofes, rimas
encadeadas,
ou seja, as palavras que rimam se situam no fim de um verso e
no início de outro: manha/sanha; jeito/feito; enredo/medo; ainda na segunda estrofe, há rimas emparelhadas, jeito/leito.

Para conferir força aos
versos e relacioná-los ao título (Conceito), a autora utilizou a mesma palavra
para começar o primeiro verso das três estrofes, compostas estas de dois versos
cada uma; isto é um recurso estilístico denominado anáfora:    Conheço
tua manha, / Conheço teu jeito, / Conheço teu enredo, /.
A última estrofe é
constituída de apenas um verso.

 

  DADOS SOBRE A AUTORA: 


Júlia Trindade nasceu em
Manaus- AM. Seus pais, amazonenses, radicaram-se em Porto Velho no ano de 1959.
Graduada em Direito pela Universidade Federal do Amazonas, Júlia tornou-se
Auditora Fiscal do Governo do Estado de Rondônia, tendo ocupado, ao longo de
trinta e cinco anos, várias funções de destaque nessa área. Júlia, hoje aposentada,
vive em Porto Velho, onde continua a produzir sua literatura.   

 

Sandra
Castiel: Professora de Literatura Brasileira e Língua Portuguesa, Pós- Graduada
nas duas áreas de atuação, Mestre em Educação e Cultura Contemporânea. Membro
efetivo da Academia de Letras de Rondônia.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ensaios Literários sobre Poetas de Rondônia – Parte I

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Descobri o amor pela poesia, ainda criança, no Grupo Escolar Barão do Solimões, em Porto Velho. Naquela época, os livros de leitura eram obrigatórios no curso primário. Então, aos oito, nove anos, líamos os grandes poetas parnasianos brasileiros que escreviam também para a infância, como Olavo Bilac.

Destaco Olavo Bilac, pois seus sonetos abriram-me os olhos d’alma para a poesia; deste modo, passei a perceber a poesia que existe na vida e em tudo que é imutável, eterno. Mais tarde, dediquei-me a buscar a poesia que existe na palavra dita, algo além do aspecto meramente linguístico, algo que não se restringe ao significante e ao significado; algo que transcende a racionalidade e pode ser identificado na fala de alguém, ou em um verso escrito por algum poeta. Quando a encontro, quanta emoção!

Há pessoas que não sabem que são poetas, quantas delas já reconheci… Há pessoas que são naturalmente líricas e expressam uma subjetividade rica em poesia, subjetividade esta embalada pelas emoções, dores e frustrações vividas. Isto me faz pensar em tantas coisas aparentemente incompreensíveis, como por exemplo: por que o pássaro canta, mesmo preso em uma minúscula gaiola pela maldade humana? Acredito que todos sabemos a resposta porque todos partilhamos a vida no mesmo planeta, humanos e animais.

Hoje volto-me à literatura de Rondônia, às leituras recentes que tenho feito de poetas de nossa região. A ideia é, por esta plataforma, mostrar aos leitores, através de ensaios literários despretensiosos, o quão rica é a literatura de nosso estado no que se refere à poesia. A intenção é, a cada texto, fazer referência a dois poetas, sem a pretensão de esgotar-lhes as obras, muito menos criticá-las; a intenção é falar sobre nossa literatura: em primeiro momento, poesia; na sequência, prosa poética.

 

 

VIRIATO MOURA

 

Viriato tem o dom de vislumbrar a poesia contida nos sentimentos mais profundos, até aqueles que nos confundem o ser pela complexidade.

Os poemas de Viriato Moura apresentam o vigor dos versos livres e brancos, ou seja, passam longe dos versos rimados e metrificados. Esta forma de escrever poesia, no Brasil, tem como ponto de partida a Semana de Arte Moderna, de 1922, que introduziu na literatura brasileira a poesia modernista. Ao longo de um século, evidentemente, houve mudanças no que concerne à temática e à forma de expressão da poesia modernista, poesia esta que reagia contra o sentimentalismo do Romantismo e à “Arte pela Arte” do Parnasianismo.

Desde o Romantismo, entendia-se o lírico como a expressão da subjetividade do poeta. Para Hegel (filósofo germânico), o poeta lírico forma “um mundo subjetivo fechado e circunscrito”; um mundo “fechado em si mesmo”; nesse mundo “as circunstâncias exteriores não lhe são senão um pretexto para se exprimir a si mesmo, com seu estado de alma”.

Há inúmeras reflexões teóricas sobre o sujeito lírico na poesia moderna contemporânea; uma delas, vem provocando debates e pesquisas nas comunidades acadêmicas mundo afora. Trata-se da teoria de Michel Collot, professor de Literatura Francesa da Université Sorbonne Nouvelle Paris III, autor de importantes obras sobre poética (a propósito: O sujeito lírico fora de si. Terceira Margem, Rio de Janeiro, 2004). Para Collot, o “eu-lírico” na poesia moderna está fora de si, ou seja, não existe mais como sujeito circunscrito à própria interioridade. O sujeito lírico agora tem um novo olhar, um olhar que se constrói a partir do outro, a partir da diferença: “Desviando-se de si, o sujeito descobre-se”.  

É o que encontramos no belíssimo poema CONSPIRAÇÃO, presente no livro Ritual de Catarse (p. 29) de Viriato Moura:

 

 

CONSPIRAÇÃO

 

Conspirou, /determinado, / com suas armas mais letais, / para derrubar o ditador /de si mesmo. / Hoje, /cansado de guerra, / cabelos tingidos pelas emoções, /respira as vidas /que perdeu.

 

O fato é que tudo se transforma, porém, os poemas modernos contemporâneos apresentam, sim, uma lírica própria. Na nova lírica o eu-lírico, que, no Romantismo, caracterizava-se por um sentimentalismo exacerbado (tônica constante na expressão da subjetividade do poeta), torna-se, agora, o sujeito observador da alteridade, do mundo concreto. Este eu-lírico atua como sujeito racional, alguém que opera a língua com racionalidade aguçada, fazendo da metalinguagem a marca de seu fazer poético.   

Destacamos, também, como exemplo de poesia moderna contemporânea, o poema Incesto, presente no livro Ritual de Catarse (p.167). Aqui, o poeta propaga uma poesia livre dos grilhões impostos pelos puristas e expressa o novo eu-lírico. Agora, este eu lírico é um olhar “de fora”, um “eu” que interage com a pluralidade, com a alteridade presente na sociedade e no mundo, possibilitando ao poeta descobrir-se. Sua escrita é caracterizada pela metalinguagem e pelas metáforas, aliás metáforas fortes e contundentes.

 

INCESTO

                                                      Viriato Moura

 

A poesia não deve ter vergonha de ser libertária, / tem que dizer o que o poeta sente, / livre de qualquer corrente, / sem o pudor dos puristas castradores / ___rimas, métricas, isto ou aquilo, que se danem! / Tem de se deixar expelir plena, / como vômito incoercível/ como ejaculação incontida, / para adubar o jardim das sensações. / O poeta é apenas o veículo/que a gesta, / fruto da relação incestuosa/ consigo mesmo. /

 

 

Ao longo do tempo, a escrita poética de Viriato Moura foi-se diversificando e a objetividade tornou-se a tônica de sua poesia. Fundamentamos esta afirmação com exemplos contidos em   suas obras mais recentes, que trazem um gênero ainda pouco conhecido do grande público, gênero denominado Aldravia.  

 

Aldravia: é uma composição poética minimalista, compostas de seis palavras apenas; cada palavra corresponde a um verso, portanto podemos caracterizá-la como sextilha. Outra característica desta escrita poética é a incompletude do sentido, o que gera diversidade no quesito interpretação; ao mesmo tempo que traz uma ideia “clara”, abre espaço para o subliminar. Enfim, esta estrutura de poema pretende construir poesia utilizando o mínimo de palavras; cabe ao leitor alcançar esta poesia, pois ela salta dos poemas e da sensibilidade do poeta. Selecionamos, de dois livros, dois blocos de dez Aldravias; o critério foi escolher dentre estas aquelas que mais nos tocaram a alma, ressaltando as que estão sublinhadas.

 

 

 

 

Aldravias na Veia

 

                                     Viriato Moura

 

1) belas /auroras / não /garantem /dias/ensolarados

2) nada /perdido/em /mim /apenas/mudado

3) nó /górdio /de /amor /pode /desatar

4) escrever /apagar /reescrever /assim /vida /conta

5) silêncio /absoluto /pode /gritar /mais /alto

6) incorporou /próprio /espírito /mas /corpo /rejeitou

7) minha /infância /doce /ainda /engorda /saudades

8) morrer /em /vida /mais /que / lamúrias

9) infância /se /colore /com / lápis/de /cor

10) poesia /grávida /de /realidade /gera /vida

 

Breves comentários:

nó / górdio / de /amor /pode / desatar

 

Achei original a maneira com que o poeta fala de amor (e de desamor?). A expressão nó górdio significa problema insolúvel, dificuldade praticamente insuperável. Qual seria a intenção do poeta ao relacionar tal expressão ao sentimento amor? O nó górdio parece-me, aqui, a metáfora que ilustra o quanto o amor pode ser forte; quando duas pessoas estão apaixonadas, estão unidas por um laço tão intenso e impossível de desamarrar quanto o nó górdio; aí o leitor se depara com a continuação do poema: pode /desatar. Enfim, um grande amor pode acabar!? Esta foi apenas minha interpretação como leitora; certamente há outras, esta é a beleza da poesia contida nas Aldravias.

 

escrever / apagar / reescrever / assim / vida / conta

 

O poeta, em seis palavras, ilustrou poética e filosoficamente a vida. O que é a vida senão uma sucessão de recomeços? Recomeços de propósitos, decisões impensadas, escolhas equivocadas, enfim, coisas que precisam ser “apagadas” e “reescritas”, para que sigamos em frente, até o fim, porque o tempo é contabilizado sempre.  Para o poeta é assim que vale a pena? cada leitor que faça sua própria interpretação.

 

 

ABRA-SE PARA POESIA

   

                                             Viriato Moura

 

1) dias / idos /sem adeus /não / partem

2) de / ataque /de /vida /súbita /morreu

3) ventos / sopram / algodão / feito / nuvens / terrenas

4) seus / pecados / fizeram / inveja / ao / padre

5) com / medo / do / inverno / outono / amarela

6) caminho /atrás /de / mim / encontro /outros

7) aurora / fecha / cortina / palco / das / estrelas

8) mendigo /morto / sua / miséria / mais /viva

9) lavava / saudade / com / água / dos /olhos

10) desnuda /sem / adereços / aldravia / emana / poesia


 


Seguimos com breves comentários:

 

lavava / saudade / com  / água /dos  / olhos

 

Esta Aldravia carrega consigo a beleza das coisas simples; leva-me a imaginar uma mulher velha carregando na cabeça um tacho cheio de água dos olhos, para lavar a saudade da juventude, dos dias felizes, e de quem se foi. Belíssima construção poética!  

 desnuda / sem / adereços / aldravia  / emana  / poesia

 

Neste poema, o poeta declara seu amor pelo gênero que escolheu para sua escrita poética: palavras fortes que, em versos, compõem belas metáforas sob as quais, resguardada, repousa a poesia. Compete a cada leitor, descobri-la e encantar-se com ela.

Ensaios Literários sobre Poetas de Rondônia -  Parte I - Gente de Opinião

Viriato Moura nasceu em Xapuri, no então Território do Acre, em 19 de outubro de 1947. É médico, empresário na área de saúde, artista plástico e autor de mais de duas dúzias de livros sobre poesia. Vive na cidade de Porto Velho, onde presta relevantes contribuições à saúde, às artes plásticas e às letras de Rondônia.



 

 

 

 


CARMÊNIO BARROSO

 

Os versos de Carmênio costumam ser bastante inspirados; fica-se com a certeza de que vêm do recôndito de sua alma sensível. Pretendemos comentar, embora sucintamente, alguns aspectos de sua poesia.

Os poemas de Carmênio são primordialmente líricos; diríamos que são centrados no eu, no sonho e na fantasia, na saudade, na paixão, o que nos remete à subjetividade da arte romântica. E isto é tão bonito!

Como exemplo, citamos este belíssimo poema, composto em 1979:

 

 

 

 

                       

OS VERSOS


                                       Carmênio Barroso

 

Eu crio versos, como faz o ninho, /A pomba que perdeu seu companheiro; / Recolho os cavacos do caminho, / Num sonho em vão que ainda tem parceiro! /

 

Os versos que se faz e se confia /A um destino que não seja o lodo…/ São lidos no silêncio que arrepia / E falam mais alto que um artigo todo! /

 

Os versos meus são estilhaços d’alma, / Que se partiu por certas coisas vãs, / Talvez querendo o furacão à calma / Ou certamente uma legião de fãs! /

 

São rimas extraídas da procela, / Dos vendavais da nossa própria vida, / São cores chamuscadas da aquarela / Que nos retrata a alma enternecida! /

 

São gritos do meu eu enclausurado / Que se retorce com o que tanto sente, / Carregando a bagagem de um passado / Nos caminhos fugazes do presente! /

 

O poema Os Versos apresenta cinco estrofes em quadras, ou seja, cada estrofe possui quatros versos. O eu lírico está presente em primeira pessoa, para falar de seu sentimento mais dorido: a solidão, solidão esta provocada pelo abandono de um amor, de uma parceira: Eu crio versos como faz o ninho, / A pomba que perdeu seu companheiro; / Recolho os cavacos do caminho, /Num sonho em vão que ainda tem parceiro!

 

Destaca-se, nesta estrutura poética, o talento do poeta não apenas no que diz respeito à expressão do sentimento, à linguagem poética, como também no que se refere à metrificação e às rimas, aspectos importantes neste gênero literário, pois estes imprimem musicalidade aos versos: o poema apresenta versos decassílabos e um esquema de rimas alternadas.

 

No que se refere à morfologiahá a prevalência de rimas pobres, ou seja, palavras que pertencem à mesma classe gramatical. Porém, há também rimas ricas: lodo/todo (substantivo e adjetivo –o pronome todo neste contexto é adjetivo), vãs/fãs (adjetivo e substantivo), vida/enternecida (substantivo e adjetivo), sente/presente (verbo e substantivo), rimas constituídas de palavras de diferentes classes gramaticais.

 

 

 

 

SONHOS AMENOS

 

                                 Carmênio Barroso

 

Os meus sonhos repetidos / E tantas vezes sonhados / Viraram longos vestidos / Cheios de muitos babados. /

 

Viraram teias imensas / Onde se prendem meus ais / Viraram nuvens tão densas / Donde não saio jamais. /

 

Quisera sonhos pequenos / Que gostamos de lembrar; / Doces, fagueiros, amenos… / Que dão prazer de sonhar. /

 

O poema Sonhos Amenos possui três estrofes de quatro versos (quadras). Os versos são isométricos, ou seja, apresentam medida igual, todos heptassílabos (sete sílabas poéticas).  A exemplo do poema anterior, as rimas também são alternadas, pobres e ricas. Logo na primeira estrofe, encontramos rimas ricas:  repetidos/vestidos (adjetivo e substantivo) sonhados /babados (adjetivo e substantivo).   

 O eu lírico está presente na expressão dos sentimentos do poeta, que construiu metáforas belíssimas, verdadeiros adornos poéticos, que enriquecem sobremaneira este poema e o tornam uma pérola literária. Cabe ressaltar a natureza dos sentimentos de tristeza e lamentos presentes no poema, o que nos reporta a poemas da época do Romantismo.

 

Carmênio Barroso pode ser definido como um poeta   que incorporou a seu trabalho características de diferentes movimentos literários. Observo em seu livro Solilóquio alguns poemas com versos livres (Modernismo) e poemas de forma fixa. (Parnasianismo). Porém, aquilo que se constitui no cerne de sua poética é o lirismo sentimental. Os poemas de sua autoria que mais o definem são os poemas clássicos, não no sentido literal, mas aqueles que apresentam versos isométricos e rimas elaboradas.   

              

Carmênio compõe belíssimos sonetos, forma de poema bastante utizada no Brasil, até a Semana de Arte Moderna, ocorrida em 1922. A despeito do Movimento Modernista, ao qual aderiu a maioria dos poetas da época, o Soneto permanece vivo até os dias atuais. Consagrado por Vinicius de Moraes, o soneto brasileiro contemporâneo passou a ter sua própria identidade.

 

 

A MUSA MENINA

 

                                      Carmênio Barroso

 

 Eu ouço o sussurrar da voz bonita, / Brejeira e sensual, altiva e bela!/ Não é Maria – pela voz é Estela; / Não foi Moema  — pode ser Anita!/

 

Ouvi dizer que a voz é infinita / E que no burburinho da procela / Há bilhões de vozes e uma só é dela: / A musa augusta que o amor habita!/

 

Quisera eu que, em água cristalina, / Em que meu ser se envolve na refrega, / Eu buscasse o amor dessa menina. /

 

E o fizesse como quem carrega / No coldre da alvissareira sina / Um vendaval de amor que não se nega! /

 

 

O soneto brasileiro contemporâneo incorpora traços de diversas escolas literárias; passa longe da objetividade e da impessoalidade, características estas que remontam ao auge do Parnasianismo.

 

A tônica do soneto Musa Menina é a lírica amorosa.  O esquema rimático nas duas quadras é constituído de rimas interpoladas (ABBA); os dois quartetos apresentam rimas ricas: bonita/Anita (adjetivo e substantivo), bela/Estela (adjetivo e substantivo), infinita/habita (adjetivo e verbo), procela/dela (substantivo e pronome).

Nos tercetos, as rimas são alternadas CDC e DCD; há transposição de rimas do primeiro ao segundo terceto.  Cabe ressaltar a musicalidade imprimida pela beleza das rimas nesta composição. Do mesmo modo, cabe destacar o vocabulário erudito utilizado pelo autor. Enfim, os poemas de Carmênio Barroso nos remetem à beleza dos poemas clássicos.

 

Dados sobre o autor: 

 

Ensaios Literários sobre Poetas de Rondônia -  Parte I - Gente de Opinião

Carmênio Barroso nasceu em 13 de agosto de 1930, na cidade de Jaguaruana, no estado do Ceará. Radicou-se em Porto Velho muito jovem. Poeta, cronista, colaborador dos jornais Alto Madeira e O Guaporé, publicou crônicas e poemas, de 1959 a 1963.   Carmênio é bastante conhecido em Porto Velho por sua atividade como empresário, mas também é reconhecido por sua arte poética.



* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela “OPINIÃO”, que é exclusiva do autor.

DIA DO POETA, EM LITERATURA DE CORDEL

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Um fato muito importante,

que a história completa,

é o Dia do Poeta,

o seu dia consagrado,

que alguém criou na terra.

Não precisa ser profeta

e nem mesmo um atleta,

pra que seja iluminado.

 

No dia 20 de outubro

a data é comemorada,

para a festa da moçada,

que gosta de curtição

não precisa ser poeta,

nem precisa escrever nada,

mas a leitura “sagrada”

faz parte da emoção.

 

O que consagra o poeta

é a criatividade,

 e a sensibilidade,

além da pura emoção.

Escrever liberta a alma

e o coração acalma,

na sua imaginação.

 

É uma das sete artes,

em qualquer ocasião,

segundo a tradição,

a moderna poesia.

Por isso tem seu valor,

não precisa ser doutor

e nem também  professor,

para escrever todo dia.

 

O sexo não interessa

para ser bom escritor,

mas escrever com amor

fincado no coração,

a mulher leva vantagem,

dada a sensibilidade

e sua forte vontade,

de vencer sempre o varão!

 

 

Vejam a Clarisse Lispector

e a Cora Coralina,

cada qual mais feminina,

se alguém quer asconhecer;

vejam a Verônica Noblat

e outras do Facebook,

que são verdadeiros Books,

na hora de escrever!

 

Patativa Assaré,

“Cante Lá Que eu CantoCá”,

outro exemplo eu voucitar;

nem sequer ele estudava,

mas foi um grande poeta,

quando estava de veneta,

não usava nem caneta;

no cordel ele arrasava.

 

Poderia citar outros

exemplos do meu cordel,

mas ninguém quer lerpapel,

só quer ler na Internet,

por isso, caros amigos,

se estão de bons astrais,

curtam isto e nada mais,

pra não ser Marionete.

 

Pedro Albino.

 

 

 

 

 

DIA DAS CRIANÇAS ( Inédito )

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Jesus primeiro pensou,

quando Ele anunciou:

vinde a mim as criancinhas,

porque Ele as curava

e até as ressuscitava,

como Lázaro o ressuscitou.

Aqui no nosso Brasil,

antes do resto do mundo,

um Deputado pensou

e um projeto criou;

Galdino do Vale Filho,

que o idealizou

e o nosso PresidenteArthur Bernardes

logo oficializou:

Era o Dia das Crianças,

que assim homenageou

milhões de criançaspobres,

que ao contrário dasnobres,

nem sequer possuem um lar.

Sendo assim, valeu o Vale,

valeu também o Arthur…

Parabéns aos dois ilustrespolíticos!

Parabéns a Jesus Cristo,

que um dia há de voltar…!

Parabéns às criancinhas,

sem a distinção de classe,

de raça e também de cor!

Cuidemos de todas elas,

com carinho e amor,

porque só depende delas

um futuro bem melhor!

 

Pedro Albino.

 

UM SÉCULO DA GRANDE DAMA DA EDUCAÇÃO DE RO

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Dezesseis de julho. Uma data para o futebol chorar, porque em 1950 o Brasil perdia para o Uruguai a Copa cuja final foi disputada no Maracanã. Para o rondoniense, mais especificamente para a Educação, a Política, a Cultura neste Estado, uma data importante para lembrar: Há um século a 16 de julho, nascia em Belém do Pará Marise Magalhães, que depois acresceria o nome Castiel, e se tornaria a seguir na grande referência da presença feminina no Estado que ela ajudou a construir.

Em 1976, quando vim aqui para ficar apenas um tempo, o jornalista e advogado Rochilmer Rocha estava lançando um jornal (A Tribuna) e encarregou-me de, no primeiro número e daí em diante, construir textos sobre fatos e personalidades da História local – um dos alvos a professora Marise Castiel.

Como sempre faço quando vou entrevistar alguém, procurei informações sobre quem era e o que representava para o Território aquela senhora. “Foi a primeira diretora do “Carmela Dutra”, disseram uns; “Tem envolvimento político partidário” ouvi de outros; “É uma liderança não só na Educação”, acrescentaram; “É muito envolvida com  cultura, a música e o carnaval”, ampliaram. “Ela é uma referência importante no Território”, alguém falou.

Não sou de “tietar” ninguém, mas a partir daquela primeira entrevista – fiz algumas mais com a importante participação do jornalista Zé Carlos Sá e aos poucos fui passando para o lado daqueles que a respeitavam, e ainda respeitam.

Uma lembrança do ativismo político de Marise Castiel foi ter sido ela a primeira mulher a ser eleita para a Câmara portovelhense, em 1976 e, depois, quando houve a tentativa na Constituinte de 1989 de interiorizar a capital do Estado recém criado, Marise outra vez se apresentou como líder, levando dezenas de moradores da capital para a mobilização que pressionou os deputados a não aprovarem a ideia.

Há alguns anos houve uma mobilização para mudar de “Carmela Dutra” para “Marise Castiel” o nome do colégio onde Marise foi professora, diretora e sempre lembrada pelo muito que fez. Lamentavelmente, talvez pela inveja sentida em relação à importância do nome dela, deputados arquivaram a proposta. Ela é patrona hoje de uma escola infantil do governo.

Numa das primeiras reuniões da Academia de Letras de Rondônia, onde Marise Castiel é patrona de uma das Cadeiras, propus que a ACLER realizasse uma sessão solene para marcar a data deste 16 de julho, mas sob alegação de estar ainda de luto pelo falecimento do esposo sua filha, a acadêmica Sandra Castiel, agradeceu mas pediu que a solenidade não fosse realizada.

Nome maiúsculo na História rondoniense, quando atuou não só na Educação mas também em campos diversos da política, da administração pública e da cultura, presto minha homenagem àquela senhora nascida no Pará mas a quem Rondônia deve tributos grandes.

Considere-se dito!

 

DATAS DE RONDÔNIA

Julho

16 – 1918 – Nasce em Belém (PA) Marise Barata Magalhães Costa, que em 1945 já professora normalista, mudou-se para Porto Velho e se destacou na Educação, na política e na cultura. Após o casamento ela adotou o sobrenome do marido, “Castiel” e entrou na história de Rondônia como Marise Castiel. (Sandra Castiel, “Professora Marise Castiel e Rondônia: Educação, Cultura e Política) 

Dia 16 – 1972 – O Incra implanta o projeto Gy-Paraná  – região de Cacoal (26)

Dia 16 – 1983 – Com 246 artigos, é aprovada a primeira Constituição do Estado de Rondônia, pela Assembléia Estadual Constituinte (Lúcio Albuquerque, “Assembleia Legisltiva – 20 Anos da Nossa História”)

Dia 17 – 1947 – A senhorita Carolina Figueiredo torna-se a primeira mulher a pilotar um avião saindo de Porto Velho, numa viagem até Guajará-Mirim (Antonio Cantanhede, Achegas para a História de Porto Velho)

17 – 1948 – O seringalista Joaquim Pereira da Rocha envia ao deputado federal Aluízio Ferreira, com pedido de análise laboratorial, de amostras de uma terra preta recolhida em sua propriedade. Os testes confirmaram alto teor de cassiterita (Vitor Hugo, Cinquenta Anos do Território Federal do Guaporé)

In idem flumen: as povoações do rio Madeira e a origem de Porto Velho (século XVIII ao XX)

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Por Yêdda Pinheiro Borzacov.

                        

Recentementefoi lançado em Porto Velho o livro do professor e acadêmico Dante Ribeiro daFonseca intitulado: “In idem flumen: as povoações do rio Madeira e a origem dePorto Velho (século XVIII ao XX)”. A publicação da obra, foi feita sob osauspícios do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia (IHGRO). Compõe-se detrês estudos independentes, mas interligados, sobre o processo que o autordenomina de neocolonização do rio Madeira, que culmina com o surgimento dePorto Velho. Coube-me a tarefa de apresentar a obra desse nosso confrade,apresentação que reproduzo abaixo.

Professor efetivo da UniversidadeFederal de Rondônia e integrante dos quadros do Instituto Histórico eGeográfico de Rondônia (IHGR), da Academia de Letras de Rondônia (ACLER) esócio correspondente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA),Dante Ribeiro da Fonseca é autor de expressiva produção acadêmica na área emque se tornou íntimo: Ciências Humanas – História Regional Amazônica, de cunhonitidamente nosso. Sua obra composta de capítulos de livros, prefácios,comunicações em anais, verbetes em obras de referência, artigos em revistasespecializadas e na imprensa rondoniense, conferências e livros, é primordial einestimável para resgatar, divulgar e valorizar a História da Amazônia, rica defeitos significativos, de passagens marcantes para a História do Brasil,servindo para emular e estimular as novas gerações.

Na sua numerosa bibliografiafiguram questões teóricas e historiográficas, fundamentais para o conhecimento,a compreensão e a reflexão das raízes históricas da Amazônia. Dentre os livros,ressaltam-se “Estudos da História da Amazônia” volumes I (2007) e II (2016),“Rondônia, sua História e sua Gente” (2008) e em coautoria “História Regional –Rondônia (1998), didático pioneiro, livros estes arrolando fatos políticos,administrativos, econômicos, sociais e culturais, com detalhes até então negligenciadosou divulgados com versões distorcidas e inaceitáveis.

A publicação de “In idem flumen: aspovoações do rio Madeira e a origem de Porto Velho (século XVIII ao XX)”, éresultante de pesquisas, estudos, dedicação e trabalho extraordinários, atestandouma visão extremamente douta e ao mesmo tempo informativa da evolução de umcentro da vida amazônica – o vale do Madeira, escritos que propiciamadquirirmos maior conhecimento desse pedaço do norte brasileiro. É um trabalhodestinado a permanecer e a ter profunda penetração na mente e no espírito dosapreciadores da nossa literatura histórica.

Evidencia, o autor, além do períodoneocolonial do século XIX do vale madeirense, o surgimento de Porto Velho,relacionada à construção de um empreendimento moderno: a épica Estrada de FerroMadeira-Mamoré, processo descentralizador significativo, abrindo a florestatropical.

Destaca, aspectos vivenciados pelapopulação e as transformações que se operaram ao longo do espaço territorial,enfocando sempre o papel relevante do rio Madeira que destaca-se no contextoamazônico pela sua extensão e pela vasta região que atravessa.

Dante Ribeiro da Fonseca ocupaposição de primeiro plano, na vida literária da Amazônia Rondoniense. Em faceaos relevantes serviços prestados ao Estado, com dignidade, inteligência ecompetência foi agraciado com prêmios e títulos, dentre eles: Ordem do MéritoMarechal Rondon, grau de Oficial, Governo de Rondônia; Setenta anos departicipação da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mundial, ComandoGeral do Exército Brasileiro; Distinção Honorífica Estrada de FerroMadeira-Mamoré – EFMM, Câmara Municipal de Porto Velho – Rondônia; Pergaminhode Honor, Alcadia de Guayaramerin, Bolívia; Oficial do Mérito JudiciárioTrabalhista, Tribunal Regional do Trabalho da 14ª Região, Rondônia e Acre; eDiploma de Honor, Sociedad Cultural y Literária Guayaramerin, Bolívia.

Um dos grandes ideais de DanteRibeiro da Fonseca, hoje, é que seja inserido na educação os valores culturaisnativistas, desde o ensino fundamental (porque nele se estabelece os pontosimprescindíveis da formação do homem) e, consequentemente, da permanência dosconhecimentos.

Honra-me, sobremaneira,manifestar-me sobre o amigo, amicíssimo, Dante Ribeiro da Fonseca, figuraexponencial no seu campo de ação, por mais este livro, registrando minhaadmiração pela sua capacidade intelectual.

Vindo do Rio de Janeiro em 1984,aqui permaneceu para contar a nossa História, para escrever a História e paraser História.

 

Yêdda Pinheiro Borzacov, do Instituto Histórico eGeográfico de Rondônia, da Academia de Letras de Rondônia, da Academia MilitarForte Príncipe da Beira, do Memorial Jorge Teixeira e sócia-correspondente dosInstitutos Históricos e Geográficos do Amazonas e da Paraíba.

ACADÊMICO DA ACLER EMPOSSADO COMO MEMBRO DA ABRAMES

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* Yêdda Pinheiro Borzacov

Nunca é demais lembrar e realçar acontecimento merecedor de registro: Samuel Castiel Júnior, médico, escritor, poeta, compositor e intérprete foi empossado dia 10 de novembro, no Rio de Janeiro, como membro da Academia Brasileira de Médicos Escritores – ABRAMES, cadeira 23, sucedendo o médico escritor Jorge Valente, tendo como patrono Rigner Armentário Silva. A saudação protocolar na sessão solene, coube ao Dr. Hugo Miyahira, médico que prestou serviços em Porto Velho, na década de 1970. O discurso do homenageado empossado representou uma peça literária de beleza de estilo e forma de expressão.

Samuel Castiel Júnior, membro titular da Academia de Letras de Rondônia – ACLER, confrade por quem tenho imensa amizade e apreço, temos a mesma origem, ambos nascemos em Rondônia, ele bebendo água do Madeira, eu, do Mamoré. Em criança, em Porto Velho, corremos pelas mesmas ruas e brincamos nas mesmas praças, onde muitas vezes os ventos sopravam libertos. Assistimos filmes nos cines Brasil e Resky e conhecemos e conversamos com pessoas que contribuíram com os seus feitos para o desenvolvimento sociocultural e econômico do estado.
Samuel Castiel Júnior publicou obras de grande valor, literatura onde sentimos que juntamente com a narrativa ficcional-literária, corre mensagem paralela, outra preocupação do escritor: o registro de usos e costumes de Porto Velho antiga, dá vida aos que partiram, estimula os jovens, sonha nossos sonhos e canta nossas canções. Citamos algumas delas:
•    Trem Vivo – Viagem Imaginária na ferrovia do diabo (2013) e Rio de Histórias (2014), coletânea de crônicas e contos, em coautoria com Viriato Moura e a autora desta crônica.
•    A Interface de um Morcego (2016) e Entre a Cruz e o Sabre (2016), contos, crônicas e poemas.
A posse de Samuel Castiel Júnior na ABRAMAS, demonstra que a Academia de Letras de Rondônia – ACLER, não está inerte. Ela se representa por seus pares. Com eles, a ACLER se exalta, se engrandece, se eleva. Seus atuais participantes estão permanentemente a postos. Homenagens lhes são prestadas, livros são lançados.
Tenho oportunidade de conviver com Samuel Castiel Júnior, nas reuniões da ACLER, que nos propicia a amizade, constatando sua extrema pontualidade, sempre presente, chamando atenção pelo traço de sua personalidade cativante: a capacidade de clarear os assuntos controversos. Destrincha tudo com habilidade tranquila e serena. É inimigo pessoal da avidez e é homem de erudição e cultura.
Com a alma sorrindo e o coração alegre, associo-me a distinção da ABRAMES, prestada a Samuel Castiel Júnior, porquanto considerar justo o seu triunfo. Aplaudo calorosamente a ABRAMES, aplausos que certamente são de todos os associados da Academia de Letras de Rondônia.

* Yêdda Pinheiro Borzacov, da Academia de Letras de Rondônia, do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia, vice-presidente do Memorial Jorge Teixeira, da Academia Histórica Militar Príncipe da Beira, sócia-correspondente dos Institutos Históricos e Geográficos da Paraíba e Goiás, membro titular da Academia Guajaramirense de Letras e colunista do site Gente de Opinião.