Início Site Página 5

POSSE DO PROFESSOR E ACADÊMICO ARNO WEHLING NA ABL

0

* Yêdda Pinheiro Borzacov

Atendendo convite do Presidente da Academia Brasileira de Letras – ABL, Domício Proença Filho, participei dia 11 de agosto, no Rio de Janeiro, da belíssima solenidade ocorrida no Salão Nobre do Petit Trianon – posse do historiador e professor Arno Wehling, na cadeia nº 37, sucedendo o acadêmico e poeta Ferreira Gullar, falecido no dia 4 de dezembro de 2016.
A cadeira nº 37 teve como fundador Silva Ramos e Tomás Antônio Gonzaga como patrono; seus ocupantes anteriores foram João Cabral de Melo Neto, Ivan Junqueira e Ferreira Gullar (poetas); Alcântara Machado, Getúlio Vargas e Assis Chateaubriand.

Em nome da ABL, o acadêmico, embaixador e historiador Alberto da Costa e Silva, discursou na tribuna saudando o novo acadêmico, enfatizando que “desde cedo, Arno Wehling já tomara interesse pela historiografia, ou melhor, pela história da História e dos métodos de que ela se vale. Não fora assim e o seu primeiro livro, publicado aos 27 anos, não se chamaria “Os níveis da objetividade histórica”. Nos que seguiram – como “A invenção da história: estudos sobre o historicismo – e em incontáveis trabalhos impressos em revistas especializadas e obras coletivas, e em conferências, palestras e comunicações em simpósios, respirou a segurança e o entusiasmo do estudioso que se tornou íntimo das teorias que movimentam as ciências humanas e outros saberes”.

Autor de cerca de duzentos trabalhos – artigos em periódicos especializados, verbetes em obras de referência, capítulos de livros, comunicações em anais, ressaltam-se seus livros que abordam questões teóricas e historiografia. Dentre eles: “A invenção da História – estudos sobre historicismo” (1994 e 2001), “Estado-história e memória – Vamhagen e a construção do estado nacional” (1999), “De formigas, aranhas e abelhas – reflexões sobre o IHGB” (2010 e 2017), “Sobre estruturas de poder, em especial relacionadas ao direito e à justiça e as ideias políticas”, “Administração portuguesa no Brasil – 1777-1808” (1986), “Pensamento político e elaboração constitucional” (1994), “Direito e Justiça no Brasil Colonial – o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro” (2004), este em coautoria com Maria José Wehling e dois livros em síntese, também com Maria José Wehling, “Formação do Brasil Colonial” (1994) e “Documentos Históricos Brasileiros” (2000).

O homem, o meio e o momento, convergência de três fatores é enfocada na obra de Arno Wehling, que faz-nos entender que, além da ciência, a História quando bem escrita, pode ser uma obra de arte literária.

O privilégio de tantos anos de amizade com o historiador Arno Wehling dá-me razões de todas as ordens de regozijar-me com a sua entrada na Academia Brasileira de Letras, ampliando, como assim expressou o Presidente da ABL, Domício Proença Filho: “O contingente dos notáveis da inteligência brasileira que, ao lado dos escritores, integram, como estabeleceu a sabedoria dos fundadores, a Casa de Machado de Assis”.

* Yêdda Pinheiro Borzacov, da Academia de Letras de Rondônia, do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia, vice-presidente do Memorial Jorge Teixeira, da Academia Histórica Militar Príncipe da Beira, colunista do site Gente de Opinião e do jornal Alto Madeira.

Nem tudo que reluz é ouro – Por Dante Ribeiro da Fonseca

0

Por Dante Ribeiro da Fonseca

 

A visão é um dos mais maravilhosos sentidos, permite realizar as formas, cores e movimentos da natureza através do órgão que a torna possível, o olho. A queda da árvore na floresta não seria vista se não houvesse o olho humano ou animal. Já a operação que torna a visão um fenômeno cognitivo necessita do uso da razão. Como os animais, mesmo os que possuem em geral os órgãos e sentidos como os humanos, não possuem a racionalidade, pelo menos na medida humana, não se apropriam da visão subjetivamente, ou seja, não podem interpretar (dar sentido) essa queda da árvore senão naquele nível que neles provoca reações instintivas. Assim, a visão se presta a muitas analogias epistemológicas.

Foi por usar a razão que Protágoras de Abdera, (c. 490 a.C. – c. 415 a.C.) afirmou: O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são. É notável nesse fragmento sugerir a possibilidade de definir quando as coisas não são aquilo que poderiam ou deveriam ser. Aristóteles (A Política) declara a razão a mais divina das virtudes humanas, capaz de transformar potência em ato. Isso se dá exatamente em função dessa capacidade humana de combinar os sentidos com a razão, tornando concreto o real. Exemplo disso é traduzido na sabedoria daquele ditado: a beleza só está nos olhos de quem a vê. A percepção física (visão) e a interpretação racional, a partir de um padrão estético, compõem um conjunto necessário para que se produza a beleza. Só está nos olhos de quem a vê porque a condição sine qua non para sua concretização depende da combinação simultânea da visão com um determinado padrão racional. Essa capacidade humana de ser racional produz então, como a beleza, outras abstrações, que também não são objetos reais, mas produtos das relações do real. O número é um bom exemplo. Não encontraremos nem na natureza nem nos produtos da cultura qualquer objeto real que possamos chamar assim. Nesse caso o real é abstrato. O número não é o seu sinal, mas uma relação abstrata entre coisas, que ganha existência (torna-se fato, no dizer de Aristóteles) através da operação racional.

Além de servir às analogias epistemológicas, dos cinco sentidos: tato, paladar, olfato, audição é a visão aquele que também mais se presta às analogias morais, tão necessárias ao balizamento de nossas ações em sociedade. Dessa capacidade de abstração, e de criar analogias, é que produzimos outro tipo de visão, meramente espiritual e socialmente subjetiva. Assim, dizemos: “a Justiça é cega”, introduzindo aqui uma nova abstração, a Justiça, cujas alegorias expressam as ideias que os homens dela fazem.

As atuais representações alegóricas da Justiça são originárias do Mundo Greco-Romano onde compunham o panteão das divindades. Na Grécia Themis, deusa dos juramentos, portava uma espada e sua filha, com Zeus, Diké, deusa da justiça, portava a balança. No Mundo Romano a deusa Justitia portava a balança e a espada. Eram sociedades escravistas e, assim, sintomaticamente, traziam essas alegorias seus olhos bem abertos: pois a lei para os escravos não era a mesma a que se submetiam os patrícios. Por exemplo, em Roma um senhor tinha o direito de matar seu escravo, mas não ocorria o inverso. Segundo Jean Pierre Vernant (As origens do pensamento grego) eram na Grécia divindades surgidas no mundo dos basileus, antes do surgimento da cidade (pólis). Sua existência dependia do pronunciamento dos senhores, que possuíam esse monopólio. Com o surgimento das cidades, e da Democracia, a exigência do povo produziu a lei escrita. Essa lei não era mais um incontestável atributo de uma elite, mas passível de ser discutida e modificada, embora fosse ainda desigual. Muita gente hoje, assentada nos postos de poder, deve sentir uma certa inveja daquele tempo.

É dessa tradição clássica que herdamos as alegorias da Justiça, e as nomino no plural porque eram representadas com diferenças. Mas continuaram com os olhos bem abertos, mesmo em períodos posteriores ao clássico. Embora haja registro de que já no século XV a venda tenha sido colocada para cobrir os olhos da Justiça, essa adição do acessório estava carregada de ironia, pois simbolizava que a cegueira produzia resultados erráticos. Quero crer que a venda foi colocada como símbolo de equidade apenas após as Revoluções Burguesas iniciadas no século XVIII. Ao contrário do Antigo Regime, onde a Justiça expressava uma lei desigual para cada Estado (Nobreza, Clero e Povo), os regimes representativos pretendiam-se (ao menos em tese) baseados no princípio da igualdade. Contudo, mesmo esse ideal passaria ainda por um longo processo. De fato, continua ainda a luta para atingi-lo. Foi o britânico Thomas Humprey Marshall que definiu os três âmbitos da completa Justiça através da luta pelos direitos civis, políticos e sociais. Perseguimos ainda a plenitude desses três direitos, comportando essa história avanços e recuos. Creio mesmo que no Brasil do século XXI estamos em pleno processo de retrocesso, cuja expressão mais visível é a maneira desproporcional, em franco prejuízo dos mais fracos, pela qual estão sendo reformadas as leis previdenciárias e trabalhistas. Apenas como exemplo, dessa reforma trabalhista emerge, ressuscitado do século XVII, o conceito Hobesiano de “liberdade dos contratos”. Já se julgava morto e enterrado esse princípio por sua falácia, pois colocar o contrato entre patrões e empregados acima da lei, que busca equilibrar a desproporção de forças entre eles, é o mesmo que colocar o pescoço a negociar com a guilhotina. Contratos derivados de posições sociais desiguais herdam essa natureza originaria, são também desiguais. A espada da Justiça ficará, como é de se prever, no pescoço do mais fraco, pois hobesianamente se limitará a fazer “respeitar os contratos”.

Mas tomemos outra alegoria da Justiça. A pintura renascentista do alemão Lucas Cranach (1472 – 1553), representa uma Justiça agradavelmente nua sob o aspecto estético, embora socialmente a nudez possa simbolizar algo desagradável. Isso em razão de que, talvez, essa nudez represente a transparência de suas ações em uma sociedade assumidamente desigual, vale ressaltar, inclusive, sob o aspecto jurídico. A ausência da venda talvez represente a necessidade dela melhor pesar a desigualdade jurídica observando os pratos da balança. Pode ser também que essa ausência a permita fazer sua espada golpear mais severamente a uns que a outros. Outra característica dessa alegoria é a expressão de tranquilidade quase indiferente, passividade seria a palavra certa. Seu rosto não revela nem severidade nem alegria, nem riso nem tristeza, nem clemencia nem vingança. Seu olhar parece mirar o vazio. É o oposto da Mona Lisa de Da Vinci, onde se vislumbra um enigmático sorriso, quase imperceptível em seu rosto plácido, que parece zombar discretamente daquele que tenta decifrá-la. Talvez essa passividade da justiça de Cranach expresse a indiferença quanto aos destinos daqueles que são submetidos às suas decisões. Talvez seja a expressão da impessoalidade, respeitados os limites da lei que representa alegoricamente, desigual e classista, ou, ainda, e creio que essa é a que melhor fica, indiferença quanto à própria desigualdade que incorpora e representa.


“Alegoria da Justiça”, Lucas Cranach, 1537.

 

Essa Justiça do século XVI, como as anteriores, assumidamente vê. Isso a torna diferente de nossa Justiça moderna, em razão de que as sociedades as quais serve foram diferentes da sociedade moderna. As ideias de Justiça mudaram com as mudanças das sociedades. No campo conceitual, a assunção da desigualdade dos súditos tem o mérito de não permitir sua bipolaridade entre Justiça e Injustiça. É com base no princípio da igualdade entre cidadãos que a alegoria moderna da Justiça é representada por uma mulher vendada (não colocaremos aqui discussões do tipo analisadas por John Rawls). Esse artifício deveria impedi-la fulanizar o resultado da ação de sua espada, que porta em uma mão, e de definir para onde pende sua balança, que porta em outra mão. O conjunto expressa a força e a equidade de seus pronunciamentos. Sua face revela em geral uma severidade serena, como a expressar compromisso apenas consigo própria. Mas severidade e serenidade não se traduzem em indiferença. Embora o compromisso consigo própria possa ser interpretado pelos transgressores como vício de uma deusa egoísta, é inegável que, como ideal, a venda muda tudo, pois pode ser instrumento da imparcialidade que deve presidir seus vereditos. Em outras palavras, a Justiça ouve as partes em conflito, mas não vê a quem julga.

Sócrates, segundo Platão, afirmava que a Justiça consiste em dar ou fazer a cada um aquilo que lhe é próprio. Prêmio ao merecimento e castigo ao malfeito. Parece simples, mas não é. Poderíamos parafrasear Cecília Meireles, que em belo poema definiu (ou indefiniu) a liberdade. Justiça seria então: […] essa palavra, que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique, e não há ninguém que não a entenda (Romanceiro da Inconfidência). Significa que não podemos definir com precisão matemática e inequívoca o que seja Justiça, mas algumas vezes podemos entender claramente quando ela não foi concretizada. Lembremo-nos de Protágoras, a razão pode nos indicar as coisas enquanto são, mas também, e acrescento: às vezes com maior clareza, as coisas enquanto não são.

 

http://andredorigo.com.br/wp-content/uploads/2017/02/Alegoria-da-Justi%C3%A7a_Tribunal-de-ultima-instancia_Hong-Kong.jpg

Alegoria da Justiça, Tribunal de ultima instancia, Hong Kong

 

Retomemos o fio dessa investigação. Assim como não podemos igualar a visão ao olho, o fenômeno ao seu órgão de percepção, não podemos igualar a Justiça, nem às leis, nem à sua execução. A primeira não promana natural e linearmente das seguintes. A visão é mais que o olho e a Justiça mais que a forma como juízes e legisladores a veem. Há um objeto abstrato que perseguimos e que tanto as leis como seus executores devem perseguir. Um bem moralmente superior a que chamamos Justiça, que deve apresentar como sua maior virtude a equanimidade pois, somente com ela poderá confraternizar-se com a Paz. Segundo Rousseau (O contrato social) o bem comum seria obtido pela realização da Vontade Geral expressa pelo Poder Soberano, o povo. Não é o bem comum a Justiça? Contrariamente, quando interesses particulares predominam em detrimento do bem comum, não predominou a vontade geral. Bem comum e vontade geral, duas belíssimas abstrações que nos permitem ver o verdadeiro caráter Justiça. As bases da realização desse ideal estão sintetizadas em sua alegoria.

Os “olhos” que ajudam a dar concretude a esse ideal são de fato as leis e seus executores. Utilizando uma linguagem analógica, os juízes e legisladores devem ser os cultores da Justiça, devem tornar concreto aquilo que é abstrato, são os olhos que a veem e a razão que a dota de significado. Mas essa relação epistemológica entre sujeito e objeto nem sempre é bem sucedia. Como “a beleza só está nos olhos de quem a vê”, o produto dessa ação cognitiva pode ser belo apenas se os olhos de quem a busca pretendam a beleza, nesse caso a Justiça. Do contrário, o resultado pode agredir nosso senso estético, epistemológico e cívico, ou seja, ser apenas sua caricatura horrenda, seu oposto desprezível. Nem tudo que reluz é ouro, assim como nem todo veredito é a palavra da Justiça, pode ser antes um maledictum (maldição).

Ocorre, porém, para infortúnio daqueles que elaboram e executam a lei, que o vulgo (o cidadão), embora não possa dar consequência à Justiça tem o poder de racionaliza-la. Com essa capacidade, e ancorado em um conjunto de valores morais comuns, pode, para a infelicidade de muitos e felicidade de outros, julgar os julgadores e legisladores. Nesse julgamento esses personagens nem sempre apresentam bonita figura. Isso ocorre em casos nos quais, embora não saibamos definir precisamente a Justiça, sabemos que sua concretude é apresentada como fenômeno alienado e abastardado. A entidade que surge dessa operação espúria não é irreal e é dotada de concretude, porém, não é a Justiça. Ao olha-la vemos o alarmante rosto da Injustiça: quando não se dá ou faz aquilo que lhe é próprio. Não é feita a Justiça quando não é dado o que é próprio aos fingidos, desleais, fanáticos, cobiçosos, corruptos, sem princípios que iludem, desfalcam, oprimem, usurpam e abusam do povo. Não vemos a Justiça quando juízes e legisladores tornam-se despachantes de interesses particulares. Quando se vende uma lei ao seu interessado ou quando se paga uma nomeação com um maledictum. Quando antes mesmo do julgamento, sabemos não somente o seu resultado, mas o voto de cada um daqueles que julgam. Quando o “castigo” para uns é o “prêmio” para outros. A balança da lei se desequilibra quando alguns não podem ser presos imediatamente após condenação em segunda instância, enquanto todos os demais estão sujeitos a prisão nesse caso. Quando se fatia artigos da Constituição para facilitar um pronunciamento favorável a esse ou aquele. Quando se impede a manifestação das provas para inocentar ou culpabilizar o réu. Então, embora não tenhamos uma definição que torne inequívoca sua concretude, sabemos que nesses casos o resultado foi o oposto da Justiça. Quando a decisão dos juízes e a formulação das leis afronta ao sentimento comum que os homens dela possuem. Enfim, embora não possamos saber exatamente o que é a Justiça, reconhecemos mais facilmente a Injustiça, ao ser formulada na lei ou pronunciada na sentença.

Essa percepção de que tanto o poder legislativo quanto o judiciário podem produzir Injustiça encontra sua possibilidade na própria alegoria do princípio moral.  Explico. Diz-se que a Justiça é cega, não vê que prato pende da balança nem sobre quem abate sua espada: se poderoso ou humilde, se rico ou pobre. Mas a alegoria da Justiça como princípio moral é vendada. Ora, se a justiça não enxerga, qual o motivo da venda? O acessório que passa às vezes despercebido e que tem relação com o adágio definidor do princípio moral (a justiça é cega=imparcial) oculta outra alegoria. Contém nele mesmo sua possibilidade de contradição no sábio artifício de portar venda, como a simbolizar a possibilidade de ver o que não devia. Dialeticamente, a Justiça porta em si o germe de seu oposto. Quando o oposto se manifesta vemos que surge da Justiça uma outra natureza. Como na novela de Robert Louis Stevenson, o que resulta dessa relação epistemológica contaminada é uma natureza estranha, seu horrendo oposto negativo, um mister Hyde. Sim, meus amigos, a Justiça não é cega, mas vendada. Essa deusa transmuta-se em Injustiça quando, as vezes discreta as vezes ostensivamente, levanta a venda, para ver a quem vai julgar. O que a faz agir assim é o interesse de colocar no prato de sua balança um peso mais leve ou mais pesado, conforme a conveniência de quem é julgado ou daquilo que é legislado. Às vezes também tem que levantar a venda para dosar desigualmente a pena imposta. O que vemos então é uma monstruosidade que nega absolutamente aquela proposição de cunho aristotélico dita por São Tomas de Aquino: Veritas est adaequatio rei et intellectus. A verdade como resultado da adequação entre o intelecto e a realidade. Isso ocorre quando a Justiça perdeu sua autonomia e se torna a miragem produzida por executores e produtores das leis.

Diz um ditado popular que os olhos são a janela da alma. Conhecemos uma pessoa olhando-a “olhos nos olhos”. Ao olhar essa visão de pesadelo antagônica à Justiça vemos sua alma, que não se coaduna com a sua oposta. Então, o sentimento que temos é de indignação. Como puderam corromper imagem tão bela? Como puderam transformá-la em algo tão inacreditável e repugnante?

Como o que o intelecto dos que deviam concretizar a Justiça produziu não expressa a adequação com sua realidade ideal (o bem comum), o que vemos é outra coisa. Á tranquila face da Justiça substitui uma figura digna de pesadelo, cuja visão agride a todos. Agride inclusive a dignidade daqueles que a produziram. Fere com seu horror também aos olhos que lhe deram concretude, tal modo é horripilante. Fere assim porque sabemos o que fazemos. Podemos enganar a todos, mas não a nós mesmos. Assim, maus julgadores e maus legisladores deveriam andar de olhos baixos, para que não mirássemos neles suas reais motivações. Vemos então uma mulher com a venda abaixada, os olhos projetados para fora das órbitas, tão abertos estão, e injetados com sangue, a buscar todo apetite egoísta que representa para sacia-lo de forma cúpida. Arrojada ao chão a balança da equidade encontrou destino digno de seu desprezo. Na boca uma gargalhada cínica, ou melhor um esgar, a escarnecer de todos nós, tão diferente da serenidade de sua oposta. Na mão, a espada prepotente, injusticeira. É, na escala entre o bem e o mal, a própria antípoda da Justiça. Como antípoda é um ser maléfico, a não justiça, ou Injustitia, concretizada pela visão que se dirigiu para as regiões onde o civismo decaiu na obscuridade e no esquecimento.

Propomos então nova alegoria, para representar esse leviatã. Arrojemos ao chão também a espada, ou melhor, deixemo-la de lado, em repouso, já que não precisa a Injustitia portá-la o tempo todo pois, será apenas seletivamente utilizada. Será o gládio sempre inútil quando ceder aos ilegítimos interesses daqueles com quem ela tenta conviver em secreto conúbio adúltero. Também a balança, já que com os olhos desmesuradamente abertos terá a possibilidade de colocar pesos desiguais segundo aquele que se julga ou sobre o qual se legisla. A alegoria da Injustiça, com os braços livres da espada e da balança, significa que poderá, ao seu bel prazer utilizá-los. Poderá, com os braços livres, tapar os ouvidos às provas e dar nova serventia à venda agora inútil, transformando a em mordaça quando as provas não quiserem calar. Poderá ainda utilizá-los para golpear com a espada tirânica do castigo àqueles que demandam contra seus amantes.

Mas, se Injustiça tem os defeitos apontados, tem pelo menos a utilidade de ser extremamente versátil em oposição à inflexibilidade, que em sua oposta é virtude. Aliás, Alfredo Ceschiatti, autor da Justiça que repousa em frente ao STF, talvez inconscientemente criou um ente que parece ser, ao menos parcialmente, de transição. A Justiça ali representada não porta a balança da equidade e encontra-se sentada, em displicente repouso, assim como sua espada, em descanso no colo da deusa. Talvez uma alegoria mutante. Isso não fica bem, penso que os ministros do STF devam substituí-la por uma Justiça mais adequada. Além disso, sugiro que à porta das casas legislativas e dos tribunais sejam colocadas as alegorias da Justiça e da Injustiça lado a lado, como a lembrar constantemente a todos que naquelas casas os dois fenômenos podem ser produzidos, afinal de contas o preço da igualdade é a eterna vigilância.

Todo esse horror acontece porque não possui o ideal superior a capacidade de por si mesmo concretizar seus princípios. Assim, volta e meia, como o ourives de Bilac, se torce, retorce, e até mesmo distorce, funde, separa e lima a lei e sua interpretação, à luz de outras conveniências que não o bem comum. Mas, contrariamente ao ourives do poeta, essa atividade produz uma joia de metal falso e de estética discutível na qual engasta a pérola deformada de seu caráter barroco, essa joia é a Injustiça. É grande a visibilidade dessa gárgula monstruosa que despeja impropérios contra o bem comum. Data de longa e renitente prática sua permanência entre nós. Ambas, fazem, pouco a pouco, as instituições políticas se afundarem no pântano da infâmia. A cada dia mais fica difícil manter o adultério oculto aos olhos do povo. Agindo assim os mesmos radicais cobiçosos que afrontam arrogantemente o sentimento de Justiça popular, abusando das defesas constituídas para si pela lei para conspurca-la, ficarão eventualmente horrorizados pelo radicalismo da multidão em fúria, quando abarrotarem as ruas de indignação. Julgam-se como aquela casta antiga da Índia, intocáveis. Achincalham as prerrogativas que detêm, aviltam a função que exercem. Não se importam que as injustiças do presente não reparadas, se apresentarão como um ônus terrível do futuro. Confundem com indiferença a calmaria que precede a tempestade cujos ventos semearam.

A visão da Injustiça desperta em nós outros sentidos, todos igualmente desagradáveis: o mau cheiro interesseiro que dela emana, o mau gosto de suas decisões, o incerto roufenho de seus pronunciamentos e a repugnante sensação ao ter que suportá-la e obedecer aos seus imperativos. Apesar de toda essa miséria, termino declarando minha certeza que a Justiça vencerá. Apesar da forte oposição que sofrem aqueles que querem vê-la concreta, verdadeira e substantiva, aos honoráveis juízes e legisladores que a cultuam. Vencerá porque forças da Injustiça buscam conte-la, com delongas e obstáculos, mas seu avanço é inevitável. A Justiça, apesar de suas estações e as suas noites e dos dias tempestuosos, saberá vencer todos os tropeços e despertará algum dia triunfante. Assim, a certeza da Impunidade, filha primogênita da Injustiça, já não devia ser tão forte entre os cultores dessa última. Afinal de contas, minha certeza dessa vitória encontra lastro no fato de que hoje no Brasil a espada da Justiça mantém-se erguida. Não está em repouso, mas sobre a cabeça de todos, inclusive  daqueles poderosos que transgridam seus princípios, pronta a faze-los sentir seu gume. Quem sabe mais um pouco e ela terá os olhos vazados para não ver aquilo que a aliena deformando-a?

DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL

0

Hoje, 18 de abril, comemora-se o Dia Nacional do Livro Infantil; esta data é uma justa homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato, um mestre considerado por muitos um divisor de águas na literatura infantil: com seu livro A Menina do Nariz Arrebitado, Lobato trouxe para a literatura infantil inovações que estavam ocorrendo no âmbito da literatura adulta, no Brasil, inovações estas divulgadas na Semana de Arte Moderna em 1922.

A grande maioria de nossa população desconhece pontos importantes sobre literatura infantil; felizmente, nas escolas, há atualmente uma informação maior inclusive sobre pontos que envolvem teoria e prática dessa vertente da literatura. Afinal, o que vem a ser literatura infantil?

Alguns estudiosos costumam dizer que Literatura Infantil é, antes de tudo, LITERATURA. Em outras palavras, é ARTE! E Literatura é um fenômeno de criação artística, através da palavra, que representa o mundo, o ser humano, a vida, a existência. Como nos lembra Nelly Novaes Coelho (Teoria, Análise, Didática, 2000) esta essência está presente na Literatura Infantil. Portanto, a Literatura Infantil não é uma subliteratura; seus leitores não são subleitores: o que diferencia as duas “categorias “de literatura é, verdadeiramente, a natureza do seu leitor: A criança!
Será que sempre existiu uma literatura para crianças? A resposta é não! Não existia porque há alguns séculos havia uma distorção na visão com que as sociedades consideravam a criança: a criança não era vista como um ser cujas potencialidades passavam por um processo de desenvolvimento; a criança era vista, sim, como um adulto em miniatura, por isso a educação de antigamente era tão rigorosa e disciplinadora; isso explica o caráter exemplar da literatura de então.
Os primeiros textos “destinados” à criança, nos séculos XVIII e XIX, eram na realidade obras literárias originalmente escritas para os adultos e adaptadas às crianças. Seu objetivo? Fazer a criança gostar de ler!
Até pouquíssimo tempo, no nosso século, a crítica considerava a literatura infantil um gênero menor, e os adultos a consideram algo útil: enquanto aprendia, a criança se mantinha quieta!
A redescoberta da Literatura Infantil, no século XX, como nos lembra Nelly Novaes Coelho, só foi possível graças aos avanços da Psicologia Experimental, que revelou ao mundo um conhecimento científico e absolutamente novo: as Fases Evolutivas da Inteligência no ser humano em crescimento. A partir de então a criança deixa de ser vista como um adulto em miniatura e passa a ser vista como um ser cuja cognição está em processo de desenvolvimento. A sequência dessas fases evolutivas é a mesma para todas as crianças; porém, o meio em que cada criança vive, além de diferenças (individuais) biopsíquicas  são determinantes para o ingresso em cada estágio. 

Nelly Novaes Coelho, sob uma perspectiva da Literatura Infantil, descreve esses estágios, que, por motivos óbvios, abreviamos aqui:
PRÉ-LEITOR:  Dos 15 meses aos 3 anos: nesta fase, a criança inicia o reconhecimento da realidade que a rodeia, principalmente pelos contatos afetivos e pelo tato; há o impulso de adaptação ao meio físico e o interesse pela comunicação verbal. Nesta fase a participação do adulto é fundamental principalmente nas brincadeiras com o livro. O livro deve tratar do cotidiano familiar, evidentemente com predominância de imagens; humor, graça e certa expectativa são importantes nos livrinhos desta fase.
LEITOR INICIANTE:  A partir dos 6/7 anos; a criança em processo de aquisição à leitura, já reconhece os signos do alfabeto e sílabas simples e complexas; nesse estágio ocorre o processo de socialização e racionalização da realidade. Nesta fase a criança é atraída por histórias bem humoradas; o texto deve ser constituído de frases simples e diretas, com predominância de imagens.

LEITOR EM PROCESSO: A partir dos 8/9 anos: a criança já domina com facilidade os mecanismos da leitura; sente atração pelos desafios e pelos questionamentos de toda natureza; seu pensamento lógico organiza-se em formas concretas que permitem as operações mentais. A presença do adulto ainda é importante como estímulo à leitura e como provocador nas atividades pós-leitura. Os livros devem conter frases simples e diretas, imagens que interajam com o texto e girar em torno de um conflito, um problema a ser resolvido até o final.

LEITOR FLUENTE: A partir dos 10/11 anos. Há o domínio da leitura e da capacidade de compreensão do mundo expresso no livro; a capacidade de concentração aumenta, desenvolve-se o pensamento hipotético dedutivo e a consequente capacidade de abstração; há uma sensação de poder interior: a da inteligência, do pensamento formal, reflexivo; é a fase da pré-adolescência. Nesta fase, a presença do adulto já não se faz necessária. Nos livros as imagens não são imprescindíveis, o texto começa a valer por si só. Os gêneros que mais interessam são contos crônicas e novelas que envolvam grandes desafios (novelas são narrativas maiores do que um conto e menores do que um romance).
 
LEITOR CRÍTICO: A partir dos 12/13 anos. Esta é a fase do pensamento reflexivo e crítico, do despertar da consciência crítica em relação às realidades consagradas; é também a fase da agilização da escrita criativa. A ânsia de viver funde-se com a ânsia de saber.

Ao longo de minha vida como professora de Literatura Brasileira e Literatura Infantil nos cursos de formação de professores, deparei-me com uma questão que ainda hoje divide professores e outras pessoas que trabalham com literatura infantil. A questão é: O livro para criança deve estar voltado apenas ao entretenimento ou deve conter um cunho pedagógico (educativo)?

Vários autores tratam deste tema. Muitos acreditam que, como objeto que provoca emoção, a literatura infantil é arte; Porém, se o texto estiver manipulado por uma intenção educativa, então ele se insere no campo da pedagogia.

Enfim, há duas correntes distintas. A primeira acredita que o livro infantil deve girar em torno do elemento lúdico, já que a função do lúdico seria desestruturar paradigmas cristalizados pelo tempo; a segunda corrente, contudo, acredita que a criança deve ser protegida dos questionamentos e auxiliada em sua inserção social; acredita que o livro deve reforçar valores cultivados através do tempo.  A primeira corrente argumenta que não se deve fugir das questões existentes em um presente que vive em constante transformação.
A propósito deste tema, Nelly Novaes Coelho ressalta que, se analisarmos as grandes obras que, ao longo do tempo se impuseram como literatura infantil, iremos constatar que elas pertencem simultaneamente a essas duas áreas: a área da arte e a área da pedagogia; enfim, há um equilíbrio na existência dessas duas abordagens na mesma obra.  
Contudo, atualmente, observamos em grande parte da produção literária infantil a prevalência de uma dessas duas áreas sobre a outra, fato que gera grandes equívocos.
E as histórias? Quando tenho em mãos um livro infantil, procuro identificar nele suas linhas ou tendências. Se analisarmos as produções recentes, vamos observar que há muito do passado nelas, enfim, em pleno século XXI, passado e presente se misturam para gerar novas formas (considero isto positivo!).

 Os teóricos costumam mencionar que as histórias se desenvolvem a partir de cinco linhas básicas. Cabe frisar que essas linhas não são elementos estanques. O melhor exemplo que temos desta afirmação é a obra de Monteiro Lobato: as histórias sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo costumam perpassar todas as cinco linhas, e isto é maravilhoso: Linha do Realismo Cotidiano (nesta linha há uma gama de desdobramentos: realismo mágico, realismo crítico, realismo lúdico etc), Linha do Maravilhoso (magia), onde as histórias ocorrem em lugar indeterminado na terra, ou fora do lugar e do tempo como os conhecemos; Linha do Enigma: as histórias giram em torno de um mistério a ser desvendado até o final; Linha da Narrativa por Imagens ( histórias contadas apenas através de imagens) e Linha dos Jogos Linguísticos (o autor utiliza recursos de linguagem, fazendo brincadeiras com as palavras para contar a história.

No âmbito da Literatura Infantil, considero muitíssimo importante a dramaturgia, o Teatro Infantil. Ao longo de minha vida como professora, enfatizei bastante esse gênero, sempre com respostas muito positivas. O Teatro mobiliza o jovem e a criança, despertando neles uma grande paixão pelo ato de representar personagens antes explorados nos livros em sala de aula; afirmo, sem medo de errar, que o Teatro faz com que o jovem e a criança apaixonem-se pela escola. Um professor de Literatura pode transformar vidas se trabalhar com o Teatro na escola. Evidentemente isto requer receptividade da direção e da coordenação da escola. 

Tive oportunidade de montar grupos de teatro no Instituto Carmela Dutra, em Porto Velho, eventos que mobilizaram a escola, a direção, pais de alunos e até outras escolas que vinham ao auditório conhecer nossas apresentações. No Rio de Janeiro, durante quase uma década trabalhando na área da Cultura do Instituto Benjamin Constant, tradicional instituição para crianças e jovens cegos, fundada pelo imperador Dom Pedro II, tive oportunidade de montar grupos de folclore e teatro com alunos cegos, inicialmente adaptando, para os cegos, peças da autora Maria Clara Machado, sob a aprovação da autora, à época. Nosso grupo de teatro e nosso grupo de folclore recebiam honrosos convites: além da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, comparecemos à Primeira Jornadinha de Literatura Infantil de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, evento que nos encheu de orgulho, pois nos apresentamos para um público de milhares de crianças e adultos. 

Em meio aos escritores ilustres e consagrados, estávamos nós, apresentando uma peça de minha autoria, que tratava da realidade dos alunos cegos. Nossas peças eram ricas em elementos sonoros, utilizávamos recursos como pratos, cornetas, tambores, que levavam as crianças ao delírio.  Para nossa surpresa, fomos ovacionados pelo público presente, nosso teatro foi matéria de capa do jornal local. 

Termino estas breves considerações sobre Literatura Infantil, trazendo um pouco de poesia para crianças. Acredito apaixonadamente que a poesia para criança deve traduzir a alegria que a criança consegue vislumbrar em todas as coisas.

                                                     PARAÍSO
                                                                                    (José Paulo Paes)
Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Não para automóvel matar gente
Mas para criança brincar
Se esta árvore fosse minha
Eu não deixava derrubar
Se cortarem todas as árvores
Onde é que os pássaros vão morar?
Se este rio fosse meu
Eu não deixava poluir
Joguem esgotos noutra parte
Que os peixes moram aqui
Se este mundo fosse meu
Eu fazia tantas mudanças
Que ele seria um paraíso
De bichos, plantas, crianças!

Um dia em Porto Velho, nas páginas do “Alto Madeira” – Por Dante Ribeiro da Fonseca

0

Por Dante Ribeiro da Fonseca

 

Certas pessoas têm o hábito de anotar em diário suas impressões sobre os fatos cotidianos. E as cidades? Têm elas também um instrumento semelhante de registro? As cidades também têm os seus diários, são os jornais, onde ficam impressos os fatos do seu dia a dia. Neles estão registradas muitas facetas da vida social. Mais da vida urbana e menos da vida rural. É instrumento citadino por natureza. Enquanto o diário cobre o registro de uma vida, o jornal pode cobrir o percurso de várias gerações. Além disso, ao contrário do diário, onde impera a subjetividade individual, no jornal expõe-se um conjunto de subjetividades subjacentes aos artigos, notícias e aos anúncios nele expostos.

Esse conjunto de individualidades agregados em um mesmo meio de comunicação colabora, por sua vez, para a formação das impressões coletivas sobre a urbe. Abrindo um de seus exemplares sabemos o que ocorreu naqueles dias, ou ao menos o que foi selecionado para ser registrado. Sabemos o fato, ou ao menos como o jornalista o interpretou ou o informou. Sabemos como era seu comércio, ou pelo menos como os comerciantes o apresentavam e, assim, seus produtos. Mesmo assim, apesar dessa dificuldade de concluir pela cidade real que nos apresenta a epistemologia, expõe o jornal um pouco da sua paisagem na época em que foi publicado. No limite, podemos vê-la através daquilo que Adam Shaff chamou de “fatos duros” ou do aspecto mais factual que é exibido nele: seus moradores mais ilustres, e também os indesejados, seu comércio, suas associações, suas brigas e acertos. Da alta política à desavença entre vizinhos, da “alta sociedade” às “notícias populares”. Tudo cabe no jornal, o que não significa que tudo é nele registrado. E assim é também se analisarmos a notícia sob seu aspecto subjetivo. Com todos esses senões, se considerado individualmente, é o jornal o veículo onde a cidade mostra de forma condensada o maior número de seus intermináveis aspectos.

O “Alto Madeira” noticiou milimetricamente a cidade de Porto Velho ao longo de 100 anos. Não é para menos, o jornal e a povoação são contemporâneos. Em suas páginas podemos aventurar o encontro do fixo e do transitório. Os movimentos humanos e espaciais de uma cidade em constante mutação, mas que manteve, sob a capa de novas manifestações, as contradições da vida social. Afirmou o historiador francês Marc Bloch que uma das tarefas da História é explicar a mudança, e acrescentou que também é sua tarefa explicar a permanência. Mas, para proceder a essa operação explicativa temos que discernir primeiramente o que mudou do que permaneceu. Essa tarefa de discernimento que antecede à tarefa explicativa é de dificílima operação. Mas é possível? “O essencial é invisível aos olhos.”, disse Saint-Exupery, fazendo-nos caminhar para sua quase impossibilidade. Karl Marx, porém, declara que essa invisibilidade pode ser superada pois, a ciência é o instrumento de discernimento da essência, oculta pela aparência. Passado e presente se nos apresentam de forma inextrincável, como se um fossem. Se já é difícil declarar a permanência do passado, mais difícil ainda é nominar seus elementos. Se já é difícil declarar a mudança no presente, mais difícil ainda é apontar o que mudou. Do Mocambo ao Marcos Freire, bairros populares de nossa cidade, muita coisa mudou, sabemos. O primeiro já existia em 1917 e o segundo surgiria coisa de 70 anos depois, mas a disparidade entre as áreas residenciais da cidade se manteve em razão da manutenção de uma brutal distância social que separa ainda hoje os seus munícipes. O que mais mudou e o que mais permaneceu? Às vezes, a aparência das coisas faz-nos ver mudança de conteúdo (essência) onde há apenas mudança na forma (aparência).

Pretendia falar da fundação do Jornal “Alto Madeira”, em 15 de abril de 1917, o mais antigo jornal de Rondônia. Mas, temi ser repetitivo. Outros já anteciparam essa tarefa. Eu mesmo já historiei brevemente o assunto em outra ocasião. Assim, decidi tomar aleatoriamente um dos antigos exemplares desse jornal, para tentar captar o cotidiano dessa vila de Porto Velho na primeira metade do século passado. Apresenta esse número tomado ao acaso, àqueles leitores do século XXI que se dispõem a folheá-lo, a infância de um século XX recém-nascido do século XIX e, portanto, ainda muito parecido com ele. Talvez como extemporâneo leitor encontre algo em comum com aquele contemporâneo dessa edição, pois sou leitor da infância do século XXI recém-saído do século XX e a vida não muda com as viradas dos séculos na folhinha, mas ao longo dos seus transcursos.

No domingo, dia 08 de julho de 1917, ano 1 do “Alto Madeira”, circulou sua edição de número 15 em Porto Velho, então Estado do Amazonas. Caracterizava-se como um jornal independente, dedicado aos interesses regionais e tinha como divisa a frase latina Labor Omnia Vincit Improbus, que significa: o trabalho tudo vence. Circulava de duas em duas semanas. Talvez pela pequenez da vila não houvesse notícias suficientes para uma circulação mais amiudada. Talvez faltassem leitores por ser grande parte da população à época analfabeta. Seu gerente, João Soares Braga, e seu administrador e proprietário, Cincinato Elias Ferreira, davam plantão na redação e oficina do jornal, que se situava na avenida Sete de Setembro.

Naquele dia, como em outros daquela primeira parte do século, estava anunciada a partida ou chegada dos vapores e seus passageiros, pois era o rio a única via de transporte de Porto Velho então. Cabe a exceção da ferrovia Madeira-Mamoré, que conduzia seus passageiros do Amazonas ao município vizinho pertencente ao Mato Grosso, fronteira com a Bolívia. Os vapores que estavam anunciados naquele dia? “Madeira-Mamoré”, “Índio do Brasil”, “Recife”, “Sobralense”, “Rio Curuçá”, “Rio Machado”.

O nome dessas embarcações nos reporta a uma parte da História ou da Geografia do Amazonas e do rio Madeira. O “Madeira-Mamoré”, pertencente à empresa de navegação da ferrovia de mesmo nome que cobria o roteiro Belém/Manaus/Porto Velho. A ferrovia ligava os rios Madeira (Porto Velho, Amazonas) ao Mamoré (Guajará Mirim, Mato Grosso), ambos os pontos situados hoje em Rondônia. Após esse percurso ferroviário até o rio Mamoré, ainda transportava cargas em embarcações até Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Isso sem mencionar os portos intermediários, no Brasil e na Bolívia. O “Índio do Brasil”, ao contrário do que muitos pensam, não homenageia nosso nativo. É o nome de um engenheiro que faleceu no rio Madeira a serviço da comissão Morsing/Pinkas nos anos de 1880. Essa comissão foi uma daquelas que veio a serviço do governo imperial estudar o trecho encachoeirado do rio Madeira em razão da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, que foi concluída entre 1907 e 1912. O “Rio Machado”, homenageia o principal afluente do rio Madeira, também conhecido como rio “Ji-Paraná”. O “rápido e luxuoso paquete Rio Curuçá”, tomava o nome de um rio do estado do Amazonas que deságua no rio Javarí, cuja nascente marcava nossa fronteira com a Bolívia. O desconhecimento da nascente do rio Javari foi uma das causas da Guerra Acreana, fenômeno do primeiro surto gumífero.

Os nomes das duas embarcações que deixamos por último pode fazer aquele que acompanha esse passeio estranhar. Como explicar os nomes “Recife” e Sobral dado às embarcações? Qual a relação desses nomes com a Amazônia? Ocorre que a partir do final dos anos de 1870 enorme quantidade de migrantes nordestinos veio trabalhar nos seringais da região. Foram enxotados de suas terras pelo fenômeno da seca, que agravou o quadro de desigualdade social naquela terra. É a enorme “[…] transumância amazônica […] de que nos fala Celso Furtado. Daí o nome “Recife” capital do estado nordestino de Pernambuco. Dentre esses migrantes nordestinos, a grande maioria era composta pessoas oriundas do Ceará, onde a estiagem foi particularmente severa naqueles anos e nos anos seguintes. Daí o nome “Sobralense”, gentílico de Sobral, cidade daquele estado.

Voltemos ao nosso jornal. Por esse número do “Alto Madeira” fomos informados que o coronel Paulo Saldanha havia partido para Manaus pelo vapor “Recife”, de onde seguiria para Belém com a intenção de tratar de problemas de saúde. O coronel, que no futuro seria empresário da navegação do rio Guaporé, era naquele momento gerente da Guaporé Rubber Company naquele rio, pertencente à Madeira-Mamoré. Que o editor anterior do “Alto Madeira”, sr. Francisco R. de Queiroz, que era também um dos proprietários do jornal, estava de partida também para Manaus. Que o médico Jayme Pereira havia chegado “ante-hontem” pelo vapor “Rio Machado” e, juntamente com sua esposa, estava hospedado na residência do sr. Vivaldo Tosta. Que a comissão encarregada da construção da igreja matriz da vila havia recebido importantes doações de pessoas e do comércio local, a saber: padre Raymundo de Oliveira, Dr. Joaquim Tanajura, Fidel Claure Bacca, José Z. Camargo, Fernandes Lemos e Companhia, Rosas, Irmão e Cia.

Sabemos ainda que contatos com a Bolívia eram, como hoje, constantes. O cônsul boliviano no Abunã havia reclamado contra a invasão do território daquele país pelas autoridades policiais brasileiras que lá foram efetuar diligência. O vice-cônsul da Inglaterra em Riberalta, sr. George Liall, chegara no vapor “índio do Brazil”, de passagem para a Bolívia onde tomaria posse do cargo. Nos vapores chegados ao porto uma quantidade de volumes pequena, mas sempre presente, seguiria para a Bolívia nos vagões da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e depois em suas embarcações. Finalmente, que para a construção da matriz colaborou um residente da vila o qual, pelo nome, distinguimos ser boliviano, o sr. Fidel Claure Bacca.

Na coluna “Vida Social” eram informados os aniversariantes, evidentemente pessoas gradas, e suas festas. Também a festa que seria realizada na Associação Instructiva, Recreativa e Beneficente. Havia ainda uma seção telegráfica, mas naqueles dias não estava sendo publicada porque o telégrafo estava danificado. Interessante observar também que pela entrada de produtos no Mercado Municipal sabemos que a cidade não era tão mal abastecida assim: hortifrutigranjeiros, ovos, carnes de boi, carneiro, galinhas, porcos, peixes, farinhas. Enfim, havia de tudo, para quem tivesse posses para adquirir, mas não sabemos se em quantidade suficiente para servir a todos.

Também a Maçonaria se organizava, pois, um pequeno anúncio informa que: “Haverá hoje na casa Pai da Pátria uma reunião de diversos maçons para tratar da fundação de uma loja maçônica em Porto Velho.” O que era a casa Pai da Pátria? Uma casa comercial? O exame de outros números do jornal certamente nos responderia a essas e outras dúvidas. Mas sabemos que a reunião trataria da fundação da Augusta e Respeitável Loja Maçônica União e Perseverança, ainda hoje existente na esquina da rua Pedro II com a rua José Bonifácio, que também completará cem anos no próximo ano.

Uma notícia surpreendente para os nossos contemporâneos é que, em razão da crise da borracha, e da falta de dinheiro na praça, o Superintendente (prefeito) anunciou a prorrogação do prazo para o pagamento do imposto predial e do aforamento dos terrenos.

Do porto e das atividades tributárias, familiares e associativas continuamos nosso passeio pela vila através das páginas do “Alto Madeira”. Agora observando os anúncios de produtos e serviços. Como o anuncio do dr. M. A. Santos Junior que se apresenta como advogado e discente da universidade. Qual universidade? Talvez a Universidade Federal do Amazonas, fundada em 17 de janeiro de 1909. O ilustre advogado informava residir na redação do mesmo jornal no qual anunciava. Do Cal de Santarém, “[…] de óptima qualidade […]” vendido pela I. & Jones e Cia., instalada nessa povoação. Dos cigarros paraenses Therezita, que segundo a propaganda eram os melhores da Amazônia. A prova dessa superioridade residia no fato que sua fábrica era a maior da região, a que mais produzia e a que mais vendia.

Quanto aos estabelecimentos comerciais, a Casa Phenix, pertencente a Rosa, Irmão & Cia, promovia concertos musicais durante a semana, inclusive aos domingos, e vendia estivas em geral.

A Pharmacia e Drogaria Madeira situava-se à rua Sete de Setembro. Nela o médico Joaquim Tanajura, prefeito da vila, atendia todos os dias das 8 às 10 da manhã. A Mercearia Villar de Laureano Villar & Irmão, situada à rua da Palha (atual Natanael de Albuquerque) aviava, ou seja, adiantava mercadorias aos estabelecimentos rurais para pagamento futuro com a própria produção. Quem sabe vendia ou aviava também para o pequeno comércio do interior? A Pharmacia Americana, na avenida Floriano Peixoto, que anunciava preços sem concorrência, em franco desafio à Pharmacia e Drogaria Madeira. A Casa Formosa Syria de Elias Gorayeb, certamente uma homenagem à formosa terra de seu proprietário ou a alguma formosa conterrânea sua. Era especializada em artigos de vestuário. Aliás, outra formosa homenageada nas páginas do jornal era a Therezita, dos cigarros paraenses.

Braga, Vieira & Cia. “Grande armazém de estivas nacionaes e estrangeiras”. O Café e Restaurante Rivas, situado à rua Floriano Peixoto em cujo anúncio dizia: “Fornece pensões para casas particulares, com esmero prontidão e asseio.” A empresa Quadros, Pessôa & Cia., à rua Quintino Bocayuva, era proprietária do vapor “Rio Curuçá”. Anunciava receber “[…] gêneros de produção do Estado que colloca aos melhores preços da praça.” Ou seja, os gêneros da produção principalmente extrativa do município de Porto Velho e adjacências, como Santo Antônio, pertencente ao vizinho município homônimo do Mato Grosso. Essa produção, segundo o anúncio era comercializada por: “Commissões, consignações e conta própria”. Mas, não somente recebia produtos extrativos para comercializar, também aviava, pois anunciava “Importação directa da Europa e do Sul do Paiz”. Lembro ao leitor que, naquele tempo, o Norte compunha-se de todos os estados das atuais regiões Norte e Nordeste e o Sul, de todos os estados das atuais regiões Sul e Sudeste. Assim, a importação do Sul deveria se compor de produtos industrializados, principalmente provenientes dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ainda, é importante lembrar que esse anúncio é prova que em 1917 já se fora o tempo em que se aviava os produtores quase que exclusivamente em Manaus e Belém.

Bem, nossas pernas (ou vistas, que nessa turnê fazem as suas vezes) já estão cansadas e devemos parar. Bom que cansaram justamente quando o  jornal acabou, afinal de contas a vila é pequena. Por aqui terminamos o passeio pela vila de Porto Velho nesse domingo de 1917. O passeio foi útil e suscitou algumas considerações da parte desse peripatético escrevinhador. Voltando ao presente, vê-se então que muita coisa desapareceu, outras coisas mudaram … ou inverteram seus rumos. Como o coronel Paulo Saldanha, ainda hoje muitos dos nossos munícipes se socorrem de centros mais avançados na ciência médica, apesar do grande desenvolvimento da medicina no estado. Talvez não houvesse ainda, como hoje há até com exagero, hotéis na cidade onde o médico dr. Jayme Pereira pudesse se hospedar com sua esposa, ou caso existisse não ofereciam condições razoáveis para hospedar tão distinta pessoa. Lembro que também o nosso advogado e professor universitário dr. M. A. Santos Junior não residia em hotel, mas na redação do “Alto Madeira”. Como antes os templos continuam a ser erguidos com a doação dos fiéis. Só que agora são em maior número, pois há muitos templos evangélicos quando antes quase que somente havia os católicos. Esses templos se reproduzem em quantidade e com a velocidade de nossa modernidade (sim, nossa, pois há outras).

Também o comércio, ainda que em estilo de propaganda mais atual, continua a gabar suas qualidades e dos seus produtos. Já o aviamento não mais existe, mas muitos de nossos conterrâneos interioranos vêm à capital para abastecer seus comércios em grandes atacadistas. Voltando aos médicos. Muito oportuno era o costume do Dr. Tanajura realizar consultas em uma das farmácias da vila. Esse era um costume generalizado na época, pois as farmácias fabricavam os medicamentos a partir das receitas dos médicos, e não apenas os vendiam já prontos, como hoje. Além dessa comodidade, havia outra, pois o consulente também poderia aproveitar a ocasião e fazer suas reclamações de munícipe com o médico. E certamente as fazia, privilégio esse que não temos atualmente. Depois do dr. Tanajura tivemos outros prefeitos médicos que, apesar das inúmeras farmácias que surgiram desde então, não davam plantão em nenhuma delas, até onde sabemos. Enfim, as farmácias não fabricam mais remédios, razão pela qual os médicos as abandonaram. Assim, ficamos sem a possibilidade de aproveitar a consulta médica para reclamar com o prefeito nas farmácias. É o sinal dos tempos, o médico prefeito de 1917 foi substituído pelos prefeitos médicos posteriores.

Aproveitando a menção aos discípulos de Hipócrates, informamos que naquele início do século XX fumar ainda não fazia mal à saúde, sendo o uso do cigarro às vezes mesmo prescrito pelos médicos para certos males. É por isso que a melindrosa Therezita aparece no maço de cigarros despudoradamente mostrando o ombro nú, com uma flor adornando seus cabelos e pitando despreocupadamente. Ontem o erro, hoje também, mas com conteúdo diferente. Hoje os maços de cigarro são obrigados a divulgar campanhas que aterrorizam os fumantes. Às voltas com os males que o hábito pode causar, os fumantes ainda têm que ver cenas pavorosas de doentes, cujas mazelas foram causadas pelo uso do fumo, estampadas em seus maços de cigarro. O prazer causado pela visão da bela Therezita foi substituído pelo horror dessas imagens. Constituem-se em sádico assédio moral, em uma campanha absurda e cruel. Isso é um claro exemplo de que a crueldade não é monopólio do passado, mudou, porém, de forma e conteúdo.

Aproveitando a menção aos políticos dizemos que naquele ano de 1917 frequentavam eles as notícias das altas esferas sociais nos jornais. Já ao povo restava quase sempre as notícias populares, estas últimas sempre confundidas com as páginas policiais. Também nesse aspecto a coisa mudou. Hoje, com mais frequência do que seria de desejar o equilíbrio das finanças públicas nacionais, vemos os políticos aparecendo com brilhantismo nas colunas policiais. Nisso acompanharam seus antigos colegas da “high society”, parte dos grandes empresários, que não somente estão frequentando esse ambiente inóspito como também estão se acostumando a fazer turismo no mundo carcerário. Sinal dos tempos, antigamente somente pobre ia para a cadeia. Será que a moda chega aqui? Será que o “Alto Madeira” terá oportunidade de anunciar essa “modernidade” nas terras dos caripunas? De outro modo, a questão social naquela Primeira República brasileira era, como já disseram os historiadores, tratada como um “caso de polícia”. Hoje, já absorvida a função social do Estado, “caso de polícia” é a política.

Continuemos, porém. Porto Velho já não pertence mais ao estado do Amazonas, mas é a capital do estado de Rondônia desde 1981. Hoje são as autoridades brasileiras na fronteira que reclamam das investidas da polícia boliviana em território nacional. Por oportuno, declaramos quanto à formosa síria que caso se tratasse de uma moça, certamente essa qualidade já teria desaparecido hoje pelo efeito do tempo. Já a Síria, que supomos terra do sr. Elias Gorayeb, também ela hoje não mais possui a propalada formosura que exibia no nome do seu comércio. É terra devastada por guerra sangrenta. Dividida entre o fundamentalismo islâmico, a oposição ao regime autoritário e o poder de um cruel ditador. Esse ditador, apoiado por parte do seu povo e por duas potências, a Rússia e a China, apenas faz aumentar o rastro da destruição. A Síria encontra-se em um impasse, um empate como se diria no Acre. Tal como a Europa, naquele domingo de 1917, que estava devastada por uma guerra fratricida, a I Guerra Mundial. A causa de tudo isso? Podemos aventar várias. Tomemos duas: o impulso que Thomaz Hobbes afirma humano e primordial de honra e riqueza e o poder, objeto essencial da política, segundo Maquiavel, o último fornece a ferramenta para a satisfação dos dois primeiros.

O telégrafo já não é mais usado. Nem o teletipo. Mesmo o telefone hoje é pouco utilizado, pois agora existe o emeio, que já está sendo abandonado em favor do zap. Carta então, nem se falar. O jornal impresso em papel, único meio de comunicação de massa existente no Brasil em 1917, passou nos anos seguintes a sofrer a constante e crescente competição do jornalismo radiofônico, depois do jornalismo televisivo. Esses dois últimos trouxeram a informação a um novo público: os analfabetos e aqueles que sentem sono com a leitura. A internet, com seus recursos modificou não somente a comunicação interpessoal, mas está ameaçando seriamente o jornal impresso. A atual modernidade também se diferencia daquela de 1917 por ser muito mais veloz em suas mudanças, pelos menos naquelas mudanças aparentes. De qualquer modo, a internet também “quebra” de vez em quando, deixando seus usuários sem notícias.

Ficamos sabendo no nosso passeio que naquele tempo a prefeitura se apiedava dos cidadãos no momento de crise, procurando facilitar as condições para o pagamento dos impostos. Estávamos já na decadência e consequente crise do chamado I Ciclo da Borracha. Hoje, em plena crise derivada do desgoverno (ao que parece maior do que nunca) a que nos submete o sistema político em conluio com aquela parte corrupta do grande empresariado, ficamos satisfeitos quando não os aumentam. E estão já ameaçando aumenta-los. Viajava-se para outros estados nos vapores de diversas empresas que partiam de Porto Velho. Hoje a navegação fluvial serve apenas às localidades ribeirinhas entre Porto Velho e Manaus. Já se foram os tempos dos vapores. Foram substituídos pelos barcos movidos pelos motores diesel, pelas estradas de rodagem, automóveis e aviões.

O comércio, os hábitos, a forma de dar notícia, tudo mudou, desapareceu ou foi substituído, pelo menos em sua forma, pois sempre se mantém algo essencial na mudança. Isso nos conduz ao fragmento daquele grego do século V a.C., Heráclito de Éfeso, que declarou: “No mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos”. Nesse fragmento, pioneiramente acusou o movimento dialético das coisas. Apesar de tantos séculos passados a luta entre a dialética e a metafísica continua. Tudo mudou? Ou a vida é sempre a mesma? Mudou a forma? O conteúdo? Ambos? Mudou a humanidade em sua forma de pensar o Mundo? Mudou e não mudou, diria Heráclito. Entre o século passado e o presente, não mudou naquilo que é essencial, pois, para essa mudança das mentalidades nem a modernidade produziu mais velocidade. É hora de parar por aqui, pois o repouso ao final da caminhada tornou-me mais filosófico do que é recomendável.

Para finalizar, afirmo com certeza, que se tudo desapareceu daquele tempo, duas instituições particulares permaneceram. Com o passar das décadas, entre ganhos e perdas, se mantiveram invictas, pois driblaram Cronos, aquele que, afinal, tudo devora: o “Alto Madeira” e a Loja Maçônica União e Perseverança. Mudaram para manterem-se. Se fosse esse um artigo de jornal daquele ano de 1917 manifestaríamos nossos “encômios”, utilizando aquelas palavras que hoje são julgadas antiquadas, embora pertençam à mesma língua que ainda usamos. Mas, como estamos no século XXI manifestamos nossos louvores ao “Alto Madeira” e a todos aqueles que, com seu trabalho permitiram sua existência. Com a sua existência permitiu ainda esse jornal a possibilidade de se conhecer uma parte do passado e, dessa forma, enriquecer o presente. Fez isso como o diário serve à lembrança de seu autor. Nossos preitos ao seu primeiro proprietário o médico Joaquim Tanajura; a outro proprietário Assis Chateaubriand e ao seu proprietário atual, o jornalista Euro Tourinho, que com sua equipe formam a tropa defensora dessa trincheira da imprensa e da História de Rondônia.

ENTRONIZAÇÃO DA ESPADA DO CEL. JORGE TEIXEIRA AO ACERVO DO MEMORIAL

0

* Yêdda Pinheiro Borzacov

O escritor espanhol, Ortega y Gasset, afirmava: “Negar o passado é absurdo e ilusório, porque o passado é o natural do homem que volta a galope”. E o tempo, buscando o antigamente, retornou no dia 17 de março quando o coronel de engenharia, João Chrisóstomo de Moura, militar da reserva, entregou a espada que pertenceu a Jorge Teixeira, padrinho, na cerimônia de sua formatura na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende – Rio de Janeiro, em 1984.

Ao ter conhecimento que o Cel. Chrisóstomo possuía o valioso objeto que Teixeirão carregara em sua vida militar, o General Costa Neves, solicitou para que ele entronizasse em ato solene a espada ao acervo do Memorial.

Não há dúvida, participamos de significativo encontro de beleza espiritual na casa histórica situada na rua José do Patrocínio – Centro, que expõe e conta a História do eterno governador Teixeirão. Com o ambiente lotado, cercado dos familiares que vieram de Costa Marques, dos oficiais da 17ª Brigada de Infantaria de Selva, de membros da Academia de Letras de Rondônia e ex-assessores, professores de História e parceiros de ideal e luta que carregam o anseio justo de preservar a memória do homem que nos faz sentir a História – ligada a uma filosofia que nos conduz à compreensão de múltiplos acontecimentos que a edificam, a espada, com muita emoção foi entronizada ao acervo.
É-nos difícil descrever Jorge Teixeira de Oliveira. Sobre ele muitos autores escreveram textos, deixando-se mesmo assim, muito a se dizer a respeito de sua tenacidade, lealdade e dignidade moral.

Não havia e não há em Rondônia quem não tenha sentido o calor do seu nome. Era um homem raro, desses que o tempo não conseguia quebratar-lhe a ousadia e o destemor. Mesmo quando adoeceu, portava-se como forte: espírito lúcido, ereto no físico e altivo nas atitudes. Sabe-se, pelos que lhes eram íntimos, como o médico Viriato Moura, que sob nenhum pretexto quis sair de Rondônia para se submeter ao tratamento da doença cruel. Desprezava a fadiga que lhe minava o organismo. Não se deixava derrear lentamente como seria natural pela doença.

Quando ocorreu sua partida para o Mundo Maior, o povo de Rondônia e do Amazonas, estremeceu, surdamente gemeu, abafando os soluços, próprios às grandes dores.
Preservar e divulgar a obra de Jorge Teixeira de Oliveira é preservar nossas raízes culturais que sustentarão as épocas vindouras dentro de acontecimentos específicos e cronológicos que ilustram a existência de Rondônia.
Já dizia Cora Coralina: “É preciso rever, escrever e assinar os autos do passado, antes que o tempo passe tudo a raso”.

Cerimôniade Entronização da Espada do Cel. Jorge Teixeira de Oliveira. Foto: R. Machado


* Yêdda Pinheiro Borzacov, da Academia de Letras de Rondônia, do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia, vice-presidente do Memorial Jorge Teixeira, da Academia Histórica Militar Príncipe da Beira, colunista do site Gente de Opinião e do jornal Alto Madeira.

A INSTALAÇÃO DO MUNICÍPIO DE PORTO VELHO, EM LITERATURA DE CORDEL

0

a instalação do município de porto velho, em
literatura de cordel, EM HOMENAGEM AOS 103 ANOS DE INSTAÇÃO DO mUNICÍPIO.

 

                        SE
JÁ NÃO BASTASSE A SAGA

                        DA MADEIRA-MAMORÉ,

                        DOCUMENTADA POR DANNA

                        MERRIL – um HOMEM DE FÉ,

                        EM MAIS DE 2000 FOTOS,

                        INCLUINDO O GUAPORÉ,

                        NÃO HAVIA ESTA CIDADE

                        E UM VIVENTE SEQUER.

 

                        A LEI SETE, CINCO SETE

                        QUE CRIOU O MUNICÍPIO,

                        NÃO DEFINIU OS LIMITES

                        E NEM SEQUER SUAS ZONAS,

                        SÓ DIZIA PERTENCER

                        AO ESTADO DO AMAZONAS,

                        CRIANDO A
SUPERINTENDÊNCIA

                        E TAMBÉM A INTENDÊNCIA,

                        COMO SE ELAS FOSSSEM
DONAS.

 

                        mas em seguida um
decreto,

                        decreto 1063,

                        definiu bem os limites;

                        os limites de uma vez,

                        pra resolver o problema

                        de problema nosso?talvez.

 

                        foi prefeito nomeado,

                        para a primeira gestão

                        nosso major guapindaia,

                        naquela ocasião,

                        por Dr. jonathas
pedrosa,

                        governador do amazonas,

                        um homem de decisão.

                       

                        A PREFEITURA INSTALOU-SE

                        EM UM GRANDE CASARÃO,

                        ERA UM PRÉDIO DE
MADEIRA,

                        vejam a situação,

                        BEM ao LADO DOS
CORREIOS,

                        PARA O INÍCIO DA GESTÃO.

 

 

 

                       

                        LOGO, O major guapindaia

                        Fez um discurso bonito,

                        na hora da sua posse

                        Não levou nem uma vaia,

                        Estrangeiros cochichavam,

                        Cada qual mais se
retorce,

                        Como se fossem ferrados,

                        Ferrados por uma arraia.

 

                        SUPERINTENDÊNCIA ERA

                        O MESMO QUE PREFEItURA,

                        A CÂMARA ERA A
INTENDÊNCIA,

                        COM TODA SUA ESTRUTURA,

                        MAS NINGUÈM MADAVA EM
NADA,

                        A NÃO SER COM
INTELIGÊNCIA

                        e bom jogo de cintura.

                                  

                        Mas o major Guapindaia

                        Tinha jogo de cintura,

                        Mesmo com poucos
recursos

                        Arrumou a prefeitura,

                        Mandou projetos pra
Câmara,

                        Com a sua assinatura.

 

                        Na Madeira-Mamoré

                        Comemorou-se a façanha,

                        Os norte-americanos

                        Viraram uma piranha,

                        De tanto enciumados,

                        Inventaram até campanha.

 

                        CUTUBAS E PELES CURTAS

                        brigavam pela gestão

                        mas o major guapindaia

                        resolveu logo a questão,

                        sendo o primeiri
prefeito,

                        que se chamou de
“tampão”.

                       

                        NAS RUAS DE PORTO VELHO

                        HOUVE ATÉ CAÇAMBADA,

                        MARCHINHA CARNAVALESCA

                        PARA ANIMAR A MOÇADA,

                        DESAFIANDO OS CUTUBAS,

                        CHAMANDO-OS PARA A BRIGADA.

 

 

 

 

 

 

                        os
nossos barbadianos,

                        que
vieram pra ficar,

                        solteram
dúzias de fogos,

                        para
o povo despertar,

                        isso
sim, gente que ama;

                        que
ama este lugar.

 

                       a praça das caixas
D´agua

                        é
a maior atração

                        da
nossa população;

                        cartão
postal da cidade,

                        onde
ficam as três marias,

                        atrai
muitos brasileiros

                        e
também os estrangeiros

                        trigêmeas
que nunca morrem,

                        ficam
pra posteridade.

 

                        pra
substituir guapindaia,

                        primeiro
prefeito eleito

                        foi
o médico tanajura,

                        que
em primeiro de janeiro

                        de
1917,

                        assimiu
a prefeitura.

                       

                        com
mandato de três anos

                        o
médico Joaquim tanatura

                        ganhou
fama na cidade,

                        foi
bom administrador,

                        tanto
que foi reeleito

                        para
a mesma prefeitura.

 

                       
no segundo mandato

                        construiu
a nova sede,

                        a
sede da prefeitura,

                        o
médico joaquim augusto,

                        o
famoso tanajura,

                        para
uma gestão segura.

 

                        foi
na josé bonifácio,

                        que
o médico tanajura

                        construiu
a nova sede

                        para
nossa prefeitura,

                       
pensando, com certeza,

                        numa
capital futura.

 

 

 

 

 

 

                        para
acabar com o impasse,

                        entre
a nova gestão

                        e
os norte-americanos,

                        que
tinham a concessão

                        da
madeira-mamoré,

                        fizeram
uma divisão:

 

                        pelo
acordo firmado,

                        criam
a rua divisória

                        mesma
Presidente Dutra,

                        prestem
atenção à história,

                        será
que isso é forma,

                        de
se resolver problema?

                       

                        assim
nasceu porto velho,

                        no
centro da amazônia,

                        tem
ilhas paradisíacas,

                        igualmente
à patagônia;

                        é
a nossa capital

                        do
estado de rondônia

 

 

 

 

 

 

 

           

 

O BARBA

0

Samuel Castiel Jr.

 Sempre detestou usar barba. Quando suava, coçava e dava alergia. Tinha que mantê-la sempre aparada. Dava trabalho. Preferia o martírio de um barbeador todas as manhãs. Além do mais, sua esposa sempre lhe dizia preferir homem de barba feita. Sentia coceira durante os  carinhos no conchego da cama.  Foi quando o Banco em que trabalhava anunciou que iria fazer demissões em massa com o objetivo de contenção de despesas, pois a crise estava se aprofundando. Entrou em pânico. E se ele fosse demitido?  O que iria fazer? Só tinha o curso médio. O que sabia mesmo fazer era a rotina daquele  Banco. Pensou, pensou. Conversou com a Carmita, sua esposa, passou algumas noites sem dormir e, finalmente,  ela decidiu que iria  fazer uma promessa. Caso ele não fosse demitido, deixaria sua barba crescer durante os próximos cinco  anos. Ele ainda argumentou, porque a barba?
__ Alfredinho, a promessa pra ser atendida tem que ser pra valer, ou seja, tem que ser exatamente com aquilo que priva  você, que  representa  pra você  um sacrifício! Entende?
__ Mas porque tanto tempo? Cinco anos!…
__ Pelo mesmo motivo, Alfredinho. Tem que ser pra valer!…
              Apesar de relutar, acabou concordando. Fez e sacramentou a promessa:  caso não fosse demitido do Banco,  deixaria sua barba crescer durante cinco anos, apenas mantendo sua higiene e aparando-a periodicamente.
              Para sua alegria, a relação dos demitidos saiu e seu nome não estava lá. A Carmita tinha razão, promessa tinha que ser pra valer!…
             Olhava-se todos os dias no espelho e via sua barba crescendo. Já não estava tão negra, pois alguns fios brancos começavam a surgir. Aos poucos foi mudando seu visual. No início achava-se esquisito. Parecia ser uma outra pessoa. Mas aos poucos foi se acostumando ao ponto de achar que sempre convivera com aquela barba. Por sua vez, Carmita já não o tratava como antes no aconchego da cama. Parecia um tanto fria, desinteressada no sexo. Mas, aquilo era perfeitamente compreensível. Agora ele era um homem barbado e ela sempre lhe dizia de sua preferência por homem bem escanhoado.
             O tempo foi passando,  até que completou o período prometido. Mas nem ele nem a sua esposa Carmita deram conta. Quando revirando sua gaveta no Banco, deparou-se com um rascunho que marcava a data da promessa. Exatamente cinco anos se passaram. Nada melhor então do que fazer uma surpresa  para a  Carmita. Preparou-se para ir a barbearia e tirar aquela promessa, ou melhor, aquela barba. Chegaria em casa de surpresa, sem aqueles pelos incômodos no rosto. Quando estava saindo do Banco, seu gerente o chamou e disse-lhe:
— Alfredinho, vou precisar dos seus serviços hoje a noite. Vamos ter que fazer um serão, pois o pagamento do Governo chegou agora, e precisamos fazer esses lançamentos ainda hoje, pois amanhã  teremos que lançar esses créditos.
__ Mas…
__ Não tem mas nem menos. Sei que você gosta e precisa de umas horas extras, não é?
__ Ok. Vou só almoçar e vou também a barbearia tirar essa barba. Depois volto direto pro Banco.
     Pegou seu celular e ligou para Carmita, avisando o imprevisto e que teria que fazer aquele serão, pois foi um pedido direto do seu chefe.
     O serão acabou realmente tarde, quase meia noite, quando Alfredinho voltou para sua casa.
     A casa estava em absoluto silêncio. Estacionou seu carro na garagem e entrou. Carmita estava dormindo profundamente, pois roncava que ele podia  ouvir antes de entrar. Não quis acordá-la. Foi direto para o banheiro. Tomou uma ducha fria e, cuidadosamente, no escuro,  acomodou-se na cama, ao lado da esposa. Quando já estava quase a pegar no sono, Carmita  acordou-se  com o próprio ronco e aconchegou-se ao corpo do marido. Quando acariciou seu rosto, de sobressalto sentou-se e disse quase gritando:
__ Zezão, o que você ainda faz aqui home!!! Vaza, vaza, vaza que o barbudinho tá pra chegar!…
— Heim?…

SALA DE ESPERA

0

Samuel Castiel Jr.

 
   

     Ninguém gosta de esperar. Mas esperar na sala de médico ainda é pior. Talvez se equipare a sala de dentista quando você fica ouvindo aquela broca comendo solta. Mesmo sabendo que a anestesia evita a dor, aquele ruído de alta rotação parece que tem a propriedade de queimar os nervos!
    Fazendo essas conjecturas e comparações, totalmente absorto com meus pensamentos, encontrava-me na sala de espera do proctologista para o exame anual do novembro azul. Foi quando a batida em minha costa tirou-me dos meus pensamentos. Era o Jurandir, um velho amigo da época ginasial.
–Ei rapaz! Quanto tempo! Vais fazer também?…–e mostrou-me o dedo médio em riste.
–Não, quer dizer, vim só pra uma consulta de rotina.
–Já sei!  –exclamou triunfal o Jurandir! Estás com Hemorroida, não é? Dizem que esse médico  é muito bom!
    Parecia que o Jurandir se deliciava com o meu desconforto.
–Não Jura, não é hemorroida não!
    Ele não me deixava falar:
–Já sei então: é só fissura anal.
    Não tive mais dúvidas que o Jura queria mesmo era infernizar minha vida. Sabia que todos os pacientes daquela sala estavam se esforçando para segurar o riso. Ele falava alto, gesticulava,  não dava tempo pra defesa!
–Tive um amigo que sofreu muito de fissura anal e depois de hemorroida. Dizem que pode virar câncer…
–Calma Jurandir, não tenho nada disso! É só uma consulta de rotina.
–Eu sei, eu sei. Ninguém assume que tem hemorroida. Mas quando começa sangrar meu caro, não tem mais jeito, só o bisturi.
    O Jurandir continuou a falar até que a porta do médico se abriu e, sorrindo, o médico apareceu. Vestia um jaleco branco e meus olhos logo buscaram  suas mãos: eram enormes! Um frio correu minha espinha dorsal. Dirigiu-se a todos:
–Quem está na vez?
    Todos se entreolharam mas todos sabiam que a vez era minha.
–Pode ir Jurandir –disse-lhe eu apressado.
–De jeito nenhum! Você chegou primeiro, a vez é sua!
–Vocês vão ficar discutindo até quando? –falou o médico. Não posso ficar esperando. A recepção está cheia.
    Finalmente o Jurandir decidiu-se a entrar na minha vez. Mas antes que a porta se fechasse ainda fez um comentário em voz alta como sempre:
–Não fique nervoso Valfrido, esse medico é muito jeitoso!…
    A vontade que eu tinha naquele momento era uma mistura de vergonha e desejo de esganar o inconveniente Jurandir. Precisava fazer ou dizer alguma coisa.
–É isso aí gente! O Jurandir sempre foi assim, muito brincalhão, extrovertido!…
    Quando o médico novamente abriu a porta e anunciou:
–O próximo por favor!
    Houve um silêncio que foi quebrado pela voz do próprio Jurandir que vinha lá de dentro ainda arrumando a roupa e fechando o cinto:
–Agora é você Valfrido, não tem escapatória!
    Como não viu mais o amigo no recinto, comentou com o médico e com os demais pacientes:
–Eu sabia, doutor! Esse cara sempre foi um frouxo! Vai ver que fugiu com medo do seu dedo!…
Mas tinha me garantido que era apenas uma fissura anal…
–Próximo –chamou o médico.

INSEGURANÇA AÉREA

0

O avião é o meio de transporte mais seguro, é o que se pode comprovar estatisticamente. Mas diferente dos acidentes que ocorrem com os outros, quando uma aeronave cai o número de mortos, por óbvio, é sempre proporcionalmente maior.

Na madrugada desta terça-feira 29, um avião de companhia boliviana, com 77 passageiros à bordo, caiu próximo à cidade de Medellín, na Colômbia, matando quase todos. O acidente ganhou grande destaque no mundo esportivo, em particular do futebol, porque transportava a delegação da Associação Chapecoense de Futebol, time sediado na cidade de Chapecó, em Santa Catarina, que iria disputar a final da Copa Sul-Americana com a equipe local, o Atlético Nacional de Medellín.

 
Acidentes com aeronaves sempre causam grande repercussão porque dão razão ao temor que, de certo modo, todos temos de viajar num veículo mais pesado que o ar.

O fato me motivou a reiterar uma denúncia que já fiz pelo menos duas vezes através de sites e da televisão. Encaminhei correspondência nesse sentido também a órgãos oficiais do setor aeroviário. A primeira vez que agi assim foi quando Nelson Jobim, então recém empossado no Ministério da Defesa do governo Lula, em 2007, reclamou dos espaços exíguos entre as fileiras de assentos de alguns aviões brasileiros. Achei que por ser uma autoridade relevante, denunciar o descaso naquela ocasião contaria com seu endosso, o que levaria a sua solução mais rápida. Ledo engano!

De fato, há alguns anos, com objetivo de transportar mais passageiros, e, por consequência, faturar mais em cada voo, empresas de aviação privadas aumentaram algumas fileiras de assentos em seus aviões sem aumentar as dimensões dos aparelhos. Em decorrência disso, entre uma fileira e outra, com exceção das que eles chamaram inicialmente de assento conforto, e, mais recentemente, de espaço conforto (assentos cobrados à parte), ao sentar, o passageiro fica comprimido, com os membros inferiores quase que imobilizados, e os joelhos praticamente em contato com a fileira da frente. Isso impossibilita a entrada ou saída dos passageiros que fiquem mais próximos às janelas, obrigando os que estão mais próximos ao corredor a levantar-se para que esses circulem nesse corredor quase que virtual. Mais ainda: quando se tenta ler uma revista ou livro (jornal, somente se dobrá-lo mais de uma vez), por exemplo, temos que colocá-los numa posição inadequada para conseguir a  “proeza”. Fazer as “refeições” (que por sinal são ridículas porque mesmo sendo um lanche não precisaria ser “aquilo” que normalmente servem) é um exercício de contorcionismo. Agora, senhoras e senhores passageiros, se quem estiver sentado à sua frente  resolver reclinar o encosto do seu assento, nós, que viajamos nessas latas de sardinha, sabemos muito bem o que acontece: se não tomarmos cuidado teremos os joelhos pressionados, com sérios riscos de lesão.

Até aqui relatei apenas as questões referentes aos incômodos devido a disposição dos assentos. Vamos ao que é mais grave: o fator segurança. Destaque-se, logo, que a chamada posição de segurança para pousos de emergência, em que o tronco dever ser fletido em direção ao encosto do assento da frente (posição fetal), é impossível de ser realizada por falta de espaço. Nesses casos, mesmo que o avião não sofra maiores estragos, a desaceleração abrupta certamente que causará sérios danos aos passageiros (Princípio da Inércia), inclusive podendo provocar-lhes a morte por esmagamento. Um absurdo! Absolutamente inaceitável que se finja não se estar vendo uma situação dessa gravidade, que perdura há anos. Culpo até a mídia por não ter desenvolvido uma campanha mais enfática contra esse abuso de companhias aéreas que expõem vidas humanas a riscos para se beneficiarem financeiramente.  Repito: um absurdo!

Ao afirmar que nas condições hoje existentes em muitas das aeronaves brasileiras nesse mister (certamente que também de outros países com mesmo perfil irresponsável do nosso), como especialista há décadas em tratamento de vítimas de acidentes, asseguro que essas condições de alto risco é algo inaceitável sob todos os aspectos. Por isso insisto:  havendo pouso forçado, mesmo que o avião não exploda ou incendeie, a chance de algum passageiro escapar vivo é mínima. Mais uma vez isso se confirma com o lamentável  acidente que tivemos hoje. Os que sobreviveram, tiveram segmentos amputados, e graves lesões por todo o corpo. Se sobreviverem, é quase certo que ficarão com sequelas importantes o resto de suas vidas.

Penso que já está mais do que na hora de nossas autoridades serem mais humanas, mais responsáveis, colocando a vida acima de qualquer interesse e em posição prioritária. Fico indignado quando vejo esse tipo de coisa abominável que ainda parece ser vista como normal por quem tem poder para coibi-las. Essa atitude coloca essas pessoas na condição de coniventes, por isso também diretamente responsáveis por tudo de ruim que disso decorrer.

Não é cidadã, por isso também inconcebível, ficarmos na cômoda posição de “assistir de camarote” as mazelas do mundo a espera que o tempo, por si, às resolvam. Quem, de fato, quer fazer acontecer precisa ter atitude proativa. Caso contrário, sofrimentos além da conta e mortes continuarão a acontecer antes da hora. Fiodor Dostoieviski, eminente escritor russo, escreveu:  “Todos somos responsáveis por tudo, perante todos”. Todos: eu, você, todos!
 

NOTA DO AUTOR– Sugiro uma campanha nacional, através de todas as mídias, no sentido de exigirmos, por direito cidadão, mais segurança em todos os níveis em nosso país, inclusive no transporte aéreo. Do jeito que está é que não pode continuar.
(*)  Viriato Moura, médico, jornalista, escritor, artista plástico, membro da Academia de Letras de Rondônia
 

ACADÊMICO FALA DAS TRAJETÓRIAS DE SUA FAMÍLIA E DELE PRÓPRIO EM RONDONIA

0

ACADÊMICO FALA DAS TRAJETÓRIAS DE SUA FAMÍLIA E DELE PRÓPRIO EM RONDONIA

Em entrevista ao jornalista Sílvio – Zé Katraka – Santos, o acadêmico Paulo cordeiro Saldanha fala da trajetória de sua família e dele  próprio na construção de Rondônia.

OLHO

‘Minha família chegou por aqui em 1912/13 a cidade ainda nem existia e ajudou junto com outras pessoas no desenvolvimento do que hoje é o município de Guajará Mirim’

 

‘Por que vamos brigar por migalha, estamos aqui no último lado da geografia, então vamos nos unir para que nossa pobreza seja menor’

 

Paulo Cordeiro Saldanha

Eterno presidente do Beron e outras histórias

 
Domingo dia 9 passado, cobrindo a XX edição do Festival Folclórico de Guajará Mirim – Duelo na Fronteira aproveitamos a folga matinal e fomos até o Hotel Pakaas Palafitas Lodge com o intuito de entrevistar o seu Paulo Saldanha. De cara o gerente nos informou que ele não se encontrava, mas, perguntou sobre o assunto e após nos identificarmos e dizer sobre o objetivo da nossa visita, resolveu chamá-lo. Foi então que fomos recebidos (eu e o fotografo Roni Carvalho) com um sorriso do tamanho do Vale do Mamoré/Guaporé e aquele abraço longe de ser de tamanduá. Após alguns minutos de conversa Paulo pediu licença, foi lá dentro e ao retornar, nos entregou os exemplares dos livros de sua lavra: “Crônicas Guajaramirenses” e “O Alferes e o Coronel” recém lançado, mais o livro escrito pelo seu pai Paulo Saldanha Sobrinho, “Fatos, Histórias e Lendas do Guaporé” alertando: “Quando for a Porto Velho vou cobrar a leitura desses livros”. Daqui a pouco chega o motivo da preocupação do gerente do hotel, Euro Tourinho Filho o Eurinho que estava visitando o empresário historiador, agora a conversa ficou mais interessante, pois estávamos diante de dois conhecedores das histórias da região do Madeira/Mamoré e Guaporé.

Bem melhor do que isso, é acompanhar a entrevista com o eterno presidente do Beron Paulo Cordeiro Saldanha.

 

ENTREVISTA

 

Zk – A família Saldanha chega a região do Vale do Mamoré/Guaporé quando?

Paulo Saldanha – Meu tio avô veio a primeira vez aqui, quando nossa Estrada de Ferro de saudosa lembrança, chega a Bananeiras pelo lado onde estavam construindo a ponte de ferro e ele veio acompanhando um cidadão que era amigo do Percival Farquar, chamado Geraldo Rocha engenheiro e dono de um jornal chamado “A Noite” no Rio de Janeiro. esse cidadão veio fazer uma matéria sobre a construção da ferrovia e outras informações. Isso aconteceu em 1911. Acontece que meu tio avô depois Coronel Paulo Cordeiro da Cruz Saldanha (meu nome é em homenagem a ele), era militar com a patente de Alferes porém licenciado, e tinha sido deputado estadual pelo Amazonas. Esse homem – eu queria ter sido 2% do que ele foi. Rondônia comete algumas injustiças em relação a ele porque se nós nos transformamos em Território Federal, deve-se a liderança dele. O professor Abnael Machado conhece essa história, mas, os neos historiadores se negam creditar a liderança dele à criação do Território Federal do Guaporé. O movimento nasceu em Guajará Mirim em 1937. É claro que ele foi o líder, porém, muita gente, a população pequena assinou maciçamente o manifesto.

Zk – O senhor falou em 1911 veio pela primeira vez e definitivamente?

Paulo Saldanha – Acontece que antes de assumir o parlamento, mas, já eleito, ele se envolveu num duelo com um cara em Manaus bem na esquina da avenida Eduardo Ribeiro com a Henrique Martins, onde eu trabalhei como gerente do Banco da Amazônia. Ele atirava muito bem e matou o cara. Em consequencia acabou não sendo reeleito e ficou a procura de desafio e o desafio foi dado pelo Percival Farquar que lhe deu a incumbência de criar, instalar e implantar a Guaporé Rubber Company. Foi então que ele voltou nos anos 1912/13 para implantar, segundo Matias Mendes, a segunda empresa de navegação, a primeira teria sido de Balbino Antunes Maciel e eu acho que o Matias tem razão, porque o Balbino já desde 1905 de Vila Bela até aqui de motor. Só que Guaporé Rubber transportava mercadoria e transportava gente e o Balbino só mercadoria e aí ele foi ficando e criou a primeira escola: Coronel Saldanha, primeira igrejinha que está la até hoje. Quando Dom Rey chegou em 1932, encontrou a igreja pronta, ele fez a torre e pois o sino, até hoje tem a cruz que foi implantada pelo tio avô Coronel Saldanha. Ele ajudou Dom Rey na construção do primeiro hospital, eles eram uma dupla muito produtiva para beneficiar Guajará, ele trouxe pra cá o professor Carlos Costa que foi também um benfeitor da cidade. Bem! Ele acabou ficando com a Guaporé Rubber por força da amizade dele com o pessoal do Percival e com Geraldo Rocha e depois ele vendeu pro governo federal implantando a linha Guajará Vila Bela.

Zk – É verdade que ele receitava medicamentos para os enfermos?

Paulo Saldanha – Nas horas vagas, quando ele ia ao Rio de Janeiro, se “internava” num hospital, pra recolher as últimas informações sobre medicina, de lá trazia remédios. Lembro que minha família falava na Tebrina e Paludam. Ele procurava curar as pessoas sem cobrar nada, aprendeu a fazer pequenas incisões e também era dentista. Naquele época não tinha, só depois chegou Mendonça Lima, Rocha Leal que tinham formação acadêmica.

Zk – A Guaporé Rubber era especializada no transporte de que?

Paulo Saldanha – Ela foi criada para transportar borracha, mas embarcava também Ipecacuanha, Castanha, Poaia e Couro. Na época esses produtos davam o lucro que ela precisava para se auto-sustentar.

Zk – Como foi o relacionamento dele com o Cândido Mariano da Silva Rondon?

Paulo Saldanha – Nesse meio tempo, ele que já conhecia Rondon e o recebeu em Guajará. Ele usava o poder político que tinha, por exemplo, para unir os dois países Brasil/Bolívia, pois, sempre tinha conflito por conta da alfândega. Ele cunhava a seguinte frase: “Por que vamos brigar por migalha, estamos aqui no último lado da geografia, então vamos nos unir para que nossa pobreza seja menor”. Ganhou em função do apoio que dava a saúde do outro lado, a maior comenda do governo da Bolívia a Medalha “Condor dos Andes”, eu soube que ele se emocionou muito com o discurso do presidente boliviano que veio a La Banda entregar a medalha.

Zk – Qual o envolvimento da família com esporte, já que existem dois estádios de futebol com o nome Saldanha. Em Guajará o João Saldanha e em Porto Velho o Paulo Saldanha?

Paulo Saldanha – Você vai para a história do Clube Ypiranga e ver que meu tio avô Paulo Saldanha foi presidente não lembro se em 1916 ou 17 e mandou construir o muro e as arquibancadas do estádio de futebol que depois recebeu o seu nome.  Ele tinha influencia em Guajará Mirim, na Bolívia, no Amazonas, no Mato Grosso e em Porto Velho.

Zk – Como foi a história da primeira eleição para deputado federal do Território Federal do Guaporé. É verdade que ele ganhou mais não levou?

Paulo Saldanha – Se você se dar com o Luiz Tourinho ou com o Euro Tourinho que estão aí vivos, eles vão lhe dizer que houve fraude naquela eleição em cima da ingenuidade do meu tio avô, que acreditava que não haveria fraude na eleição. Um personagem muito respeitável participou da troca de cédula (votos).

Zk – Tem alguma coisa de antes dessa eleição que o senhor quer acrescentar?

Paulo Saldanha – Em 1932 meu tio João Saldanha veio pra Guajará e ficou ajudando Paulo Saldanha na navegação, 1934 ele foi servir o exército em Manaus em 1935 meu pai Paulo Saldanha Sobrinho e aí chegou a Núzia Saldanha minha tia que foi secretária por muitos anos da prefeitura, minha tia Corina que está viva aos 96 anos em Porto Velho e a família foi se consolidando, meu pai casou com minha mãe Eremita Cordeiro Saldanha, João Saldanha casou com uma moça do Pará se separou e casou com a Dalila que era prima da minha mãe que era professora. O Lúcio Albuquerque escreveu sobre isso e você também “As quatro professorinhas do Guaporé”: Tia Estela, Tia Antônia Quintão, Eremita Cordeiro e Paula Gomes as quatro primeiras professoras preparadas por Dom Xavier Rey. Desceram de Pedras Negras de Rolim de Moura e outros lugares do Guaporé, aprenderam a lecionar, se tornaram mestres educadoras, catequistas e enfermeiras. Depois outras professoras como minha querida Izabel e a turma dela foram saindo e outras escolas sendo implantadas por Dom Rey. Guajará teve a sorte de ter benfeitores como Manoel Alípio da silva o Capitão Alípio depois já mais recente o padre Alexandre Bendoraite pra mim, um injustiçado. Ele e Dom Rey implantaram a Rádio Educadora de Guajará, o Hospital Bom Pastor, o Barco pra levar saúde aos indígenas e ribeirinhos.

Zk – Em fim?

Paulo Saldanha – Minha família chegou por aqui em 1912/13 a cidade ainda nem existia e ajudou junto com outras pessoas no desenvolvimento do que hoje é o município de Guajará Mirim.

Zk – Agora vamos falar do Paulo Cordeiro Saldanha o bancário e empresário?

Paulo Saldanha – Sou ex-aluno do colégio Nossa Senhora do Calvário, das irmãs calvarianas, depois fui pro colégio Dom Bosco em Porto Velho em 1956. Foi quando vi o Bacu, o Ney Simões, Chafon, Mário Teixeira jogar bola, isso na primeira vez que fui a Porto Velho. Quando fui estudar no Dom Bosco viajei de Litorina. O Fio Maravilha tinha uma arcada dentária mais bonita que a minha e eu tive que fazer um tratamento ortodôntico no Rio de Janeiro e lá estudei no colégio salesiano chamado Santo Agostinho foi quando minha mãe morreu e as coisas ficaram difíceis e tive que voltar e fui trabalhar na Pernambucana e depois fiz concurso em Porto Velho para o BASA passamos dois de Guajará Mirim eu e o Luiz Rodrigues da Cruz e ai comecei minha carreira de bancário. Quando entrei no Basa o nome era Banco de Crédito da Amazônia, na realidade ele começou como Banco da Borracha e hoje é Banco da Amazônia S/A – BASA.

Zk – E a presidência do Beron chegou como?

Paulo Saldanha – Quando estava como gerente do Basa em Manaus, fui convidado pelo Coronel Jorge Teixeira para ser diretor do Beron, aceitei na hora, pois viria trabalhar na minha terra e sob as ordens do Texeirão. No dia da implantação do banco o Teixeira me chamou em seu gabinete e disse com aquele vozeirão: Paulo Saldanha decidi que o Presidente do Banco vai ser você e eu falei: e o Janes? E ele, eu não o convidei pra ser presidente, convidei pra ele organizar a empresa. Então respondi: Coronel estou surpreso, só quero que o senhor saiba, que tenho orgulho muito grande em trabalhar sob suas ordens.

Zk – Depois do Beron?

Paulo Saldanha – Saí quando ele saiu, voltei para o Basa, nesse meio tempo fui chefe de departamento em Belém, depois recebi uma missão difícil, que foi liquidar o banco de Roraima e nossa equipe conseguiu fazer o banco dar lucro e ele foi ressuscitado com o nome de Banco do Estado de Roraima e eu fui seu primeiro presidente.

Zk – Qual sua opinião sobre o fechamento do Beron?

Paulo Saldanha – Deveria ser federalizado ou então privatizado nunca liquidade. A tônica da política do presidente FHC era acabar com os bancos estaduais, sob argumentação de que nos Bancos estaduais tinha corrupção. Eu acabaria com a corrupção. O Beron financiava a Micro empresa, agricultura, pecuária, comercio, habitação. Quando há desvios, tem que se punir os desvios e não punir a sociedade encerrando as atividades das empresas que foram criadas para gerar as oportunidades que são socioeconômicas.

Zk – No governo Piana?

Paulo Saldanha – Quando o Oswaldo Piana assumiu o governo me convidou e eu aceitei retornar a presidência do Beron o banco já estava com muita dificuldade, mas, nós administramos quatro anos pra salva-lo. Nós tínhamos um programa que ganhei de presente do Unibanco através do vice-presidente Israel Cablin, só o Unibanco e talvez o Itaú tivesse esse programa através do qual, eu sabia quanto custava um cliente para o Banco. Criamos um centro de micro filmagem no Ulisses Guimarães onde instalamos uma micro agencia. Eu partia da idéia de que, valorizar o parceleiro de Extrema a Cabixi era valorizar nossa economia emergente. Tínhamos que chegar à frente porque se não, os bancos aventureiros podiam tomar o nosso espaço. Chegamos aos cinquenta e poucos pontos. Lamentei que o banco não tivesse sido privatizado ou federalizado.

Zk – E a dívida que até hoje o governo estadual paga ao Banco Central?

Paulo Saldanha – Você fez uma pergunta oportuna. Tenho gravado na Assembléia Legislativa de Rondônia uma entrevista com o Hercules Góes perguntando de uma forma até meio esquisita: Qual é o rombo do Beron? O Beron na minha gestão não teve rombo, teve déficit. Um dos diretores disse que o banco precisava de R$ 11 milhões. Eu tinha pedido e o governo Piana orçamentou 15 Milhões de Dólares. Eu trabalhava com planejamento prospectivo, se a inflação fosse X precisaríamos do capital Y, se a inflação fosse Z precisaríamos de um DX a mais. Concluímos em maio ainda de 1994 que precisaríamos de 12 a 15 milhões em janeiro, porque estava havendo perda sobre o Plano Real. Todo banco perdeu dinheiro. O governo que sucedeu o Piana não cobriu o orçamento que era capitalizar o banco em 15 milhões de dólares ou 15 milhões de reais na época era um por um. O Banco Central estava tomando conta do Beron aceitou candidamente e deixou o Banco morrer a míngua. Se eu não dou água, oxigênio para o corpo, ele morre.

Zk – Uma das histórias transformadas em crônicas?

Paulo Saldanha – Outro dia estava sozinho, não tinha hospede no hotel e vieram dois sanhaçus (passarinhos) que estavam construindo o ninho, publiquei a crônica “O ninho do sanhaçu”. Aí transitei pela bíblia, pela teologia porque vi que eles eram organizados inclusive, eles podem servir para as obras do governo brasileiro. Saia um chegava o outro com o ramo no bico para montar o ninho. Não os vi pedindo bolsa escola, bolsa família e nem um desses programas sociais, de repente, eles pararam de trabalhar, fui ver a hora e era meio dia (eu estava a mais de duas horas observando), eles foram almoçar. Tem uma passagem na bíblia onde Jesus fala: “Vejam os pássaros, eles não se preocupam em acumular riqueza nem comida, porque o criador vai dar pra eles”, foi aí que lembrei que tinha que almoçar também.