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DEUS E OS AVIÕES

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As notícias sobre as sucessivas quedas de aviões nos últimos meses reportaram-me ao início de minha adolescência, quando passei a estudar em um colégio religioso, era o Instituto Maria Auxiliadora, em Porto Velho. Em minha numerosa família, ouvíamos preceitos de ordem moral, porém não religiosos; minha mãe cultivava em nós a crença em um ser superior, porém não passava disto: nada de citações bíblicas, aulas de catecismo, missas, cultos etc.

Um dia, durante a aula de religião no colégio, ouvimos da professora, uma freira salesiana chamada Irmã Julieta, a seguinte sentença: “Não cai uma folha de uma árvore, sem que Deus consinta”.

 Aquela afirmação foi demasiadamente impactante para meu cérebro de 12 anos de idade, fiquei dias e noites remoendo a tal afirmação. Ora, se para que uma simples folhinha caísse da árvore, era imprescindível o consentimento divino, isso significava que Deus consentia que caísse um avião cheio de passageiros e tripulantes? Não! Não era admissível tamanha crueldade!

Assim, resolvi que precisava tirar a limpo essa história complicada; como a timidez excessiva me impedia de formular qualquer pergunta aos professores, levei a questão às minhas irmãs mais velhas e às amigas da vizinhança: as opiniões eram várias e me deixaram ainda mais confusa, iam desde castigo divino a destino de cada um.

Meio século depois, ponho-me a pensar na resposta que ouvi de meu pai que, com certo ar de melancolia, refletiu sobre a complexa questão:- Minha filha, não sabemos de nada! …

E naquele tempo a humanidade não sabia ainda da imensidão do universo (se sabia, esse conhecimento não chegava ao lugar onde vivíamos), não sabia ainda que apenas na nossa galáxia, a Via Láctea, há cerca de 200 bilhões de sóis, e a maioria dos sistemas solares “abriga” um grande número de planetas. Há que se considerar também a infinidade de outras galáxias, de sistemas solares e de planetas que os cientistas ainda estão longe de contabilizar.

Volto, portanto à questão inicial, desta vez refletindo com mais propriedade e maturidade sobre Deus, sobre as folhas que caem das árvores e sobre terríveis desastres aéreos e terrestres. Chego à conclusão que ambos estavam certos, a professora de religião e meu pai. Acredito que existe, sim, uma lei maior que rege todo o universo. Porém, somos tão insignificantes e temos tanto a aprender sobre as grandes questões da existência que, como habitantes deste pequeno planeta, realmente ainda não sabemos de nada…

A FORÇA DO VOTO DA BR-364

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(Explicação: O capítulo 6 desta série iria abordar O Legado Do Movimento Militar EmRondônia, mas a partir da eleição municipal de 1976 entrou em cena outraforça política local: o voto das comunidades ao longo da BR-364. É o tema deamanhã).

LúcioAlbuquerque

[email protected]

 

(Consultoriado historiador Abnael Machado de Lima)

 

(Ontem foi abordada a questão política rondoniense noperíodo pós-1964, até 1972, quando foi eleita a primeira mulher para mandatoparlamentar no Território)

 

Foi na eleição de 1976 que Rondônia conheceu a forçapolítica das comunidades ao longo da rodovia BR-364. Naquele ano aconteceu aterceira disputa (contadas a partir de 1969) pelas vagas à Câmaraporto-velhense, quando ainda as terras do município se estendiam até Vilhena:dos 13 vereadores, sete vieram daquele distritos, um de Vilhena, um de PimentaBueno, um de Cacoal, um de Presidente Médici, dois de Vila Rondônia (em 1977Ji-Paraná) e um de Ouro Preto.

Naquela eleição um fato chamou a atenção: A monolíticaliderança do deputado federal Jerônimo Santana, eleito em 1970 e reeleito em1974, começou a ser desafiada por um grupo do próprio MDB, formado porvereadores de Porto Velho, incentivados pelo secretário-geral do partidoEnjolras Araújo Veloso, que criticavam a forma como Jerônimo dirigia o regional– à época, quando já se falava muito na criação do Estado, houve citações de queSantana estava começando a temer a sombra representada pelo grupo.

E a razão para o problema pode ter sido como incentivado ofato do deputado ter passado a dar mais atenção a um grupo de candidatos,hostilizando os vereadores, cisão que ficou bem clara quando formaram-se duasalas, uma conduzida pelo próprio Santana e outra liderada por Enjolras contandocom os vereadores Luis Lessa Lima, Cloter Mota, Abelardo Castro e PauloStruthos Filho (dos quatro só Lessa não foi reeleito).

Nos comícios o grupo de Jerônimo realizava num bairro dacidade e a ala rebelde em outro. Contados os votos, odeputado perdeu, porque apenas um do seu grupo, o advogado Itamar MoreiraDantas, foi eleito – o restante da bancada que se tornou majoritária veio dointerior.

Jerônimo Santana tinha sido eleito duas vezes deputadofederal pelo MDB, sempre com o mesmo discurso: a favor da garimpagem manual,defesa do colono e da criação do Estado (*), além de pesadas críticas aosgovernadores. Ele poderia terajudado muito, mas só sabia criticar, atrapalhoudemais, disse em sua casa emBrasília o ex-governador Humberto Guedes (1975/1979) em conversa sobre suaadministração. Humberto Guedes foi o responsável pela estruturação do projetodo Estado, conforme assessores que trabalharam com ele e que fizeram parte daequipe do seu sucessor Jorge Teixeira.

O livro O Jantar dos Senadores (em fase de edição final, do autor Lúcio Albuquerque, presente àquela convenção) contém umcapítulo sobre a escolha dos candidatos do MDB e da ARENA em 1978. Trechos aseguir:

APRIMEIRA DERROTA DO DR. BENGALA

Em 1978 o presidente Ernesto Geisel fez aprovar mensagemque abriu mais uma vaga a deputado federal para os Territórios. Cada partidopoderia indicar até quatro candidatos. Líder do partido oposicionista, Santana,conhecido pela alcunha de Doutor Bengala, não acatou a sugestão da ala jovemque queria indicar um nome dentre os quatro candidatos, e lançou uma chapacomposta por ele próprio, Walmi Daves de Moraes, Carlos Alberto – Melhoral -dos Santos e Mário Bohemundo Braga. A ala jovem decidiu pagar para ver.

Na época as comunicações eram muito difíceis, mas mesmoassim foram feitos contatos telefônicos com os convencionais do interior queviriam para a convenção. Na noite da véspera, e na madrugada do dia da convençãodo MDB, o secretário-geral Enjolras Araújo Veloso e os vereadores Cloter Mota,Paulo Struthos e Abelardo Castro deram plantão na estação rodoviária, entãofuncionando num terreno da esquina das ruas Sete de Setembro com João Goulart,para receber os convencionais vindos dos municípios da BR e de Guajará-Mirim.

CloterMota (discursando) ouvido por João Bento (vereador), Sílvio Santiago (Teleron),Amizael Silva (vereador), José Gomes de Melo (Ceron), Itamar Dantas (vereador)e Sebastião Valladares (prefeito).

 

De lá levaram a maioria dos convencionais para um hotel, eno dia seguinte no pequeno espaço da velha Câmara Municipal, na ladeiraComendador Centeno, o grupo apresentou sua chapa: Enjolras, Abelardo e Struthos(a quarta vaga era do candidato natural, o próprio Jerônimo). Os rebeldesvenceram.

A disputa interna do MDB foi facilitada pelo próprioSantana que mandava entregar entrega nas casas um folheto, o Jornaldo Deputado, sobre seu trabalho em Brasília e sempre criticando osvereadores eleitos em 1972 pelo seu partido. Isso gerou uma situação de choque.

O Jerônimo fica em Brasília e nós aqui é que sentimos a pancada,porque nós é que estamos no dia a dia com a população, o governador e oprefeito, reclamava o vereador CloterMota.

Ao ser anunciado o resultado da convenção, foinotório o constrangimento de Santana. Sentado num canto, encolhido, o até entãotodo-poderoso Doutor Bengala assistiu a proclamação e à festa dos vencedores. Eainda teve de aturar os seus discursos a lhe garantir apoio, mimoseando-o,chamando-o de grande líder. Jerônimo deve ter se sentido como a rainha daInglaterra, aquela que governa, mas não manda. No dia seguinte Enjolras e Struthos desistiram, e dosrebeldes ficou apenas Abelardo na chapa.

Foi uma demonstração de força de uma ala que crescia nopartido, e que ficou pior quando Santana importou o empresário Múcio Athaídepara ser candidato a deputado federal na primeira disputa do Estado, em 1982.Ao trazer Ataíde, Jerônimo deu o troco a Enjolras, retirando-o dasecretária-geral do sucedâneo do MDB, o PMDB, o que gerou mais ressentimentos.

Na ARENA, rompido com o governador Humberto Guedes, que não queriaparticipar do processo eleitoral, o presidente regional Odacir Soares indicou aseguinte chapa: ele mesmo, os vereadores de Porto Velho Antonio Leite e JoãoBento e o bancário guajaramirense Isaac Newton. Odacir já era tratado por deputadoem suas idas à Câmara Federal antes da disputa. Na convenção um tumulto:alegando ter um documento que lhe havia sido enviado via fax pelo ministro doInterior Maurício Rangel Reis, o coronel Carlos Augusto Godoy exigia uma vagana chapa, mas ficou de fora.

COMO SE FABRICA UMDEPUTADO

(Capítulo do livro O Jantar dos Senadores que narra a política rondoniense de 1912 a 1998, em fase de ediçãofinal, do autor Lúcio Albuquerque).

Isaac Newton  era um funcionário do Banco do Brasil,semi-gago, morador de Guajará-Mirim. As chances de ser eleito eram tantasquanto à de um elefante passar num buraco de fechadura. Mas o governadorHumberto Guedes, conforme se falava abertamente àquela altura, teria recebidode Brasília a determinação de participar do processo eleitoral, mesmo contrasua vontade, e de apoiar qualquer, um menos Odacir.

Guedes decidiu encararos fatos: escolheu Isaac e colocou a máquina administrativa para trabalhar afavor dele, com o vital apoio do capitão Sílvio Gonçalves de Faria, senhortodo-poderoso do Incra que detinha, então, a melhor estrutura e o melhororçamento dentre todos os órgãos do Território, mais que o próprio governoterritorial.

Em 20 dias de campanha, levando o desconhecido funcionário doBanco do Brasil a tiracolo, Guedes ganhou a parada e humilhou Odacir que tevede contentar com uma suplência e assumir a titularidade apenas por um ano,antes de ser eleito senador em 1982.

Quem esteve envolvido diretamente naquela disputa lembra ainda dedetalhes da eleição de Isaac Newton. Um deles o técnico agrícola do INCRA PauloBrandão, o Paulinho do INCRA.

Vinte e oito anos depois, em 2006, em frente ao Hotel Nacional emPimenta Bueno, Paulinho do Incra ria muito ao contar como foi cooptado parafazer campanha por Isaac, que ele nem conhecia e de quem nunca tinha ouvidofalar.

Um dia fui convocado para uma reunião em Porto Velho com ogovernador Humberto Guedes e o capitão Sílvio Farias, meu chefe no Incra. Osdois me comunicaram da decisão. Eu nem pude opinar, lembrou Paulinho.

E continuou: Euera responsável pela ação do Incra na faixa de Pimenta Bueno a Vilhena e atéPimenteiras. Fui informado que iria ser o coordenador da campanha do Isaac eque ele nem iria lá. Ganhar ali era responsabilidade minha, disseram.

Eu nunca havia feito discurso e estava em Colorado para a estréia.Não saía nada da minha garganta até que alguém da platéia jogou uma piada e eudisse que era para votar no nosso candidato. Peguei um papel qualquer ebalancei no ar, lembrando que se ele não ganhasse os colonos não receberiam odocumento que lhes dava direito à terra que ocupavam. Meu discurso acabou aí.No final, o candidato que a gente nem conhecia ganhou de lavada. Ordem dada eexecutada.

Encerrada a contagem de votos de 1978 o MDB reelegia JerônimoSantana. Isaac Newton, autêntico azarão político, com apoio do governadorHumberto Guedes e do INCRA, foi eleito pela ARENA e ganhou seu espaço napolítica local.



Isaac (de óculos, vibrando) em meio aos deputados logo após aaprovação do projeto que criou o Estado de Rondônia. No meio, Santanaque Isaac acusa de não ter votado a favor do Estado.

 

Odacir ficou fora e teve de contentar com assumir depois, comosuplente durante um ano, mas ele não queria sair e eu tive trabalho parareassumir meu mandato, lembrou Isaac Newton 30 anos depois, em sua casa, em Manaus.

Em 1981 foi criado o Estado e a primeira eleição nessacondição em Rondônia foi em 1982, mas a partir de agora é outra Históriapolítica.

 

(*) O governador do Território era nomeado pelo presidenteda República, por indicação do ministro do Interior.

(**) Em entrevista concedida ao autor desta série, oex-deputado federal Isaac Newton (ARENA, 1979/1983) repetiu que Santanaabsteve-se na votação do projeto de criação do Estado, mesmo com o apelo queIsaac diz ter feito para que votasse a favor. Depois da votação – Isaac Newtonafirmou – Santana tentou mudar seu voto, mas a questão já estava encerrada.

2014: ANO DO CENTENÁRIO DE PORTO VELHO

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NÃO É CEDO PARA RELEMBRAR que no dia 2 de outubro deste ano nossa Porto Velho completará 100 anos. Já tratei deste assunto em texto publicada no ano passado, a exemplo de outros articulistas desta região. Todavia, nunca é demais considerar que a comemoração do centenário de uma capital deve merecer, além de solenidades oficiais, eventos variados compatíveis de proporcional envergadura. Fazer isso acontecer a contento, requer planejamento antecipado, como é do conhecimento daqueles que buscam realizar com competência.

Por mais que nos últimos tempos datas importantes e festividades populares não tenham recebido atenção devida de nossos gestores públicos, creio que um acontecimento dessa relevância, num ano de eleições, dificilmente será subestimado a ponto de passar em brancas nuvens: candidato tem tropismo por momentos pirotécnicos, principalmente em ano eleitoral, o que é perfeitamente compreensível e aceitável: quem não é visto não é lembrado.

Logo, esperamos que esse gosto de aparecer sirva para alguma coisa boa que venha atender expectativas populares de alegria e satisfações diversas. Outro detalhe que deve merecer consideração diz respeito às ações dos gestores públicos para que nossa capital se torne mais aprazível e que a qualidade de vida dos que aqui vivem, melhore — governos estadual e municipal devem estar juntos nesse propósito. Não basta, portanto, promover festas: é preciso agregar motivos para festejar. Só assim a alegria estará verdadeiramente justificada.

Ao testemunharmos o centenário de Porto Velho, que se avizinha, é importante refletirmos como transcorreram essas dez décadas de modo a podermos aprender e colocar em prática as lições vivenciadas nesse período. Esse tempo, para uma cidade, não é muito para que todos os seus problemas tenham sido resolvidos, mesmo porque na dinâmica a que é submetida sempre há algo por fazer. Convenhamos, entretanto, que ao final das nossas análises chegaremos a conclusão que andamos a passos de tartaruga. E ainda há pedaços esquecidos de nossa terrinha que não saem de onde estão ou até caminham para trás há muitos e muitos anos.

Tomara que 2014 seja um ano de muitas realizações tanto promovidas pelo poder público como pela iniciativa privada — esta que em muito vem contribuindo para que nossa cidade e nosso estado tenham crescido e se desenvolvido. Quanto às comemorações, que tenham sejam compatíveis com a capital de um estado que esbanja oportunidades e afaga a todos com abraços solidários — até quem não merece.Hoje e sempre, viva Porto Velho!

Na Fronteira as festas cívicas aconteciam assim

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CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES

E eu me lembro muito bem! Ah! se me lembro! Entre o primeiro e o seis de agosto a fronteira se engalanava!

Na véspera da festa da independência da Bolívia, no dia cinco de agosto, nós, meninos ainda em busca de emoções, vestíamos o uniforme de gala de nossas escolas, o sapato era o TANK e uma boina adornava as nossas cabeças.

Uma velada disputa impulsionava a competição entre os alunos do Colégio Nossa Senhora do Calvário e do então Grupo Escolar Simon Bolívar.

Um barco do Serviço de Navegação do Guaporé nos levava, após desviar das duas ilhas, no rio Mamoré, e nos desembarcava nos barrancos das terras bolivianas.

Íamos em fila indiana até o local da solenidade, lugar onde as autoridades dos dois países já estavam instaladas.

Segundo o cerimonial previsto, quando chegava a hora de desfilarmos, com o peito estufado, todos garbosamente envolvidos pela excelsa honra de representar não apenas Guajará-Mirim, mas o nosso país, nas terras irmãs do Oriente boliviano, nós engolíamos o grito que gostaríamos de explodir com a força do nosso orgulho e da nossa vibração em face da vaidade de representarmos as nossas tradições cívicas na nação castelhana.

O sol inclemente nos fazia suar, mas nem ligávamos para a poeira que amarelava a nossa indumentária. Depois, voltávamos felizes como quem retorna de uma batalha.

Na parte vespertina sucediam-se os jogos de futebol, normalmente com as seleções das cidades fronteiriças e de Porto Velho.

À noite um festival a céu aberto, em plena Calle Frederico Roman, em La Banda, a partir da primeira praça da igreja, premiava os amantes do jogo carteado, (totalmente franqueado, aberto, liberado) e da rica culinária, com oferta das comidas típicas, da Paceña “estupidamente” gelada, de pães, doces, dos sucos, da famosa chicha e do mocotinte.

Os crupiês constantemente reembaralhavam as cartas, e as distribuiam e, depois as reorganizavam para as novas partidas. Noutras mesas, as roletas favoreciam as apostas e o Bacará corria solto.
Brasileiros insolentes gritavam bem alto. Os anfitriões, mais contidos, riam dos nossos nacionais irreverentes.

30 dias depois, já no dia 5 de setembro recebíamos a comitiva boliviana que devolvia a visita por nós cumprida no seu seis de agosto com o fraterno gesto de reciprocidade e vinha para ajudar-nos na celebração de nossa data magna.

O ponto culminante, ainda durante a manhã, era o desfile militar, cujos acordes e batida da banda permeava a fantasia juvenil.

Normalmente após os desfiles um ato cultural sempre se promovia nas escadarias do Grupo Escolar Simon Bolívar, com declamações de poemas, canto orfeônico e ligeiros autos teatrais.

Depois, a exemplo do que se acalentava como exaltação ao esporte, o Estádio João Saldanha recebia um torneio de futebol disputado entre as seleções de Riberalta, Guayaramerin e desta cidade.

À noite, as quadras de esporte recebiam os jogos voleibol, basquete e futebol de salão; mais tarde, naquele tempo, a Prefeitura realizava o baile municipal, encerrando a semana da Pátria.
 

A POLÍTICA PÓS-CUTUBAS E PELES-CURTAS

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Lúcio Albuquerque

[email protected]

 

(Consultoria do historiador Abnael Machado de Lima)

Na edição de ontem viu-se uma
síntese da vida política na região desde a criação dos primeiros municípios,
Santo Antonio e Porto Velho, até a cassação do mandato do deputado federal
Renato Clímaco de Medeiros, em 1964.

 

Dois fatos contribuíram para a
mudança de rumo político da região rondoniense a partir de 1964: o fato de o
governo federal ter voltado suas atenções mais para essa área, o que trouxe
centenas de milhares de famílias de outros estados, muitos já com experiência
política, para explorar a última
fronteira agrícola
e se beneficiar do que o eldorado podia oferecer e, também, porque a aposentadoria  do coronel
Aluízio Ferreira e a cassação do médico Renato Medeiros, causaram um
esvaziamento das velhas práticas políticas e isso representou o ocaso das
correntes cutuba e peles-curtas.

Quando Renato Medeiros foi cassado
o seu vice, o funcionário do Banco da Amazônia (atual Basa) Hegel Morhy, de
Guajará-Mirim, foi convocado e tomou posse, mas não tinha a força de Renato. Em
1966 a ARENA lançou candidato o ex-governador coronel Paulo Nunes Leal, que foi
eleito, derrotando Hegel Morhy, pelo MDB. Paulo Leal assumiu e logo depois se licenciou,
indo para a vaga o seu suplente, seringalista e jornalista Emanuel Pontes
Pinto, que em 1970 tentou a reeleição e perdeu.

Em 1960 o presidente Juscelino
Kubistchek mandou abrir a rodovia BR-29 (BR-364), começando um novo e muito
importante capítulo na história rondoniense. Aquela década de 1960 foi marcada
por uma mobilização que juntou estudantes, dirigentes de entidades
comunitárias, jornalistas e praticamente toda a sociedade, o movimento
Pró-Rondônia Estado.

Já em 1962 chegou a ser apresentado
projeto de lei na Câmara Federal pelo então deputado federal Aluízio Ferreira,
propondo a criação do Estado de Rondônia, mas ela não foi considerada – talvez
em função de, na mesma ocasião, estar sendo aprovada a criação do Estado do
Acre.

Aluízio (paletó) com lideranças cutubas

Mas o fato do projeto não ter sido
considerado pela Câmara Federal não inibiu a mobilização local. Isso talvez
tenha dado até mais força para a mobilização do Pró-Estado, realizando-se
debates, discussões, fazendo crescer a ideia que pode ser sintetizada pela
frase do governador Humberto da Silva Guedes, em entrevista ao jornal A
Tribuna, em 1976: Sou favorável aos que
entendem que o crescimento da região faz com que Rondônia não caiba mais na
condição de Território.

Em 1969 um novo fato reacendeu a
luta pelo fim do Território e a criação do Estado: durante o desfile da
Independência, estudantes do colégio Carmela Dutra fizeram uma manifestação em
frente ao palanque das autoridades, na Rua Carlos Gomes. O contingente escolar
deu alto e ficou marcando passo.

Um
pelotão de estudantes –
a escola era dirigida pela professora Marise
Castiel – saiu do grupo e deslocou-se até
ao governador Marques Henriques, entregando-lhe um manifesto pedindo que ele
insistisse no Ministério do Interior (*) solicitando seu empenho a favor da
criação do Estado e, também uma sugestão de bandeira do novo Estado
, lembra
o historiador Abnael Machado de Lima.

A bandeira, conforme Abnael,foi
elaborada pelo engenheiro José Otino de Freitas, professor do Carmela Dutra. O historiador recorda
ainda daquele momento: Pegou a todos nós
de surpresa, mas, ao mesmo tempo, serviu para fortalecer a nossa luta a favor
do Estado.

Em 1969 o presidente Costa e Silva
determinou a realização de eleições para vereadores nos Territórios
(Decreto-Lei 411, de 8.1.69), e na eleição daquele ano aparece um fato curioso:
dentre os eleitos em Porto Velho pelo partido do governo, a ARENA, estava o
jornalista e dirigente comunista Dionísio Xavier da Silveira, o Velho Dió.

 

Dió, comunista, eleito
vereador pela ARENA

Aquele período também foi marcado
pela entrada em campo de um
importante cabo eleitoral do partido do governo: o INCRA, aplicando o Projeto
de Colonização Rondônia, sob a coordenação do capitão agrimensor Sílvio
Gonçalves de Faria, que se tornou uma espécie de liderança do Território, tal a
força que o INCRA, na época, representava aqui.

Responsável pela implantação do
Projeto Fundiário Rondônia – O único caso
de reforma agrária no Brasil que deu certo
, afirmou o advogado Amadeu
Guilherme Matzembacker Machado, que fez parte daquela equipe– o INCRA tinha
enorme força política, o maior orçamento do Território, mais que do próprio
governo, e havia um fator de destaque: O
capitão Sílvio tinha o forte respaldo do Conselho de Segurança Nacional.

O DR BENGALA EM CENA

No ano do tricampeonato mundial
brasileiro, um novo discurso entrou em cena, trazido pelo advogado goiano
Jerônimo Garcia de Santana (MDB), reeleito em 1974 derrotando o médico Leônidas
Rachid Jaudy, da ARENA. Ele havia chegado um ou dois anos antes e se filiado ao
MDB, partido formado em maioria pelos remanescentes da ala política local
conhecida por peles-curtas.

Tornou-se o mais ferrenho crítico do
que vinha acontecendo no Território e dois eram seus alvos prediletos, o
governador – fosse quem fosse, e o INCRA. Em 1970 foi candidato à única vaga de
deputado federal e ganhou fácil. Repetiu a dose em 1974, agora contra o médico
Leônidas Rachid, pela ARENA.

Naquela época – até 1977 – só havia
dois municípios em Rondônia, Porto Velho, criado em 1914 (que em 1945 absorvera
o município de Santo Antonio criado em 1912), e Guajará-Mirim, criado em 1928.
Porto Velho estendia suas terras até Vilhena. Guajará-Mirim ia por toda a
região dos rios Mamoré e Guaporé, até Pimenteiras e Cabixi.

Em 1972, nova disputa municipal e
em Guajará-Mirim a professora Eliete Matha Morhy esposa do ex-deputado federal
Hegel Morhy, foi eleita, tornando-se a primeira mulher a ocupar um parlamento
em Rondônia, e reeleita em 1972, enquanto em Porto Velho a primeira
representante feminina só seria eleita em 1976, a professora Marise Castiel.

Amanhã

1964 em RO (6)

A FORÇA DO VOTO DA BR-364

(Explicação:
O capítulo seguinte desta série iria abordar O Legado Do Movimento Militar Em Rondônia, mas a partir da eleição
municipal de 1976 entrou em cena outra força política local: o voto das
comunidades ao longo da BR-364. É o tema de hoje)

 

MINHAS LEMBRANÇAS DE 1964

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(Paulo Saldanha, membro da Academia de Letras de Rondônia e da Academia Guajaramirense de Letras, colunista do site gentedeopiniao.com.br)

Ninguém pediu, mas vou dizer: eu ainda iria fazer 18 anos e lembro que, na qualidade de Secretário Geral do CESGM (Centro Estudantil Secundarista de Guajará-Mirim) fui “cassado” pelo então Comandante da Sexta Companhia de Fronteira, ocasião em que o Centro foi fechado, mesmo porque o então Presidente, com pé e corpo na ideologia comunista, havia pronunciado, em fins de fevereiro de 1964, contundente discurso numa de nossas assembléias, em que denegria o Exército, sem que esse episódio representasse a opinião dos demais integrantes da pequena sociedade estudantil.

Já no dia primeiro de abril o Capitão Carlos Augusto Godoy fazia desfilar a tropa pelas ruas da cidade de Guajará-Mirim, e, depois, no coreto da Praça Mário Correia, afirma de forma tonitruante que a contrarrevolução estava presente neste lugar, visando a afastar das nossas perspectivas um modelo político que logo ficaria vencido pelo tempo, cujos tentáculos alguns afoitos desejavam implantar no País.

Lembro-me que a população das terras mamorenses, que tinham o Godoy (FOTO) em elevado conceito, aprovavam o ato cívico-militar celebrado no logradouro público.

Depois, um inquérito fora aberto e o Carlos Teixeira, Presidente do CESGM e o Lourival Diniz Dias foram interrogados, e, depois de algumas horas, liberados.

Eu, que jamais admitiria, por formação familiar, ter passagem alguma pela doutrina vermelha, assim como milhões de jovens daquela geração, jamais fui importunado. Mas, lamentei o fechamento do Centro Estudantil.

E fui observando, com a substituição dos dias pelos anos, em que a maturidade simboliza a sabedoria, que o Território Federal de Rondônia, passo a passo, sob o comando dos militares, ia prosperando e, de conquistas em conquistas, foi transformado em Estado.

Nesse interregno meu pai, na condição de Superintendente do Serviço de Navegação do Guaporé, Prefeito Municipal ou de administrador do Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que já se relacionara anteriormente a 31 de março de 1964 com diversos coronéis do exército, entre eles, Paulo Nunes Leal e Ênio Pinheiro, seus amigos, nas conversas nos dizia afirmando a sua inequívoca opinião sobre as virtudes morais, cívicas e gerenciais desses líderes, a quem passei a admirar e a respeitar, à distância.

Com o advento da contrarrevolução, com outros governadores militares ele, o meu pai, se ombreou como Executivo, assessorando-os, respeitando-os e enaltecendo-os em face dos mesmos predicados que observava nos homens que tiveram na mão e no cérebro a responsabilidade de conduzir os destinos das terras rondonienses, anteriormente.

Recordo que João Carlos dos Santos Mader, João Carlos Marques Henrique Neto e Humberto da Silva Guedes marcaram as lembranças de meu pai, todos eles como gestores prudentes, sérios, obstinados, voluntariosos e competentes, a partir da forma como escolhiam seus colaboradores, em cima do quesito mérito. Administradores adiante do seu tempo!

Eu, que anos depois, já nos idos de 1980, recebi missões dadas por um intrépido militar, jamais abdicarei da excelsa honra de ter trabalhado sob as ordens do saudoso Coronel Jorge Teixeira(foto), o líder que transformei em ídolo, porque, para mim, continua sendo hors concours como chefe, amigo leal e irmão, camarada.


Paulo Saldanha ao lado do saudoso Governador Jorge Teixeira de Oliveira e sua esposa, em cerimônia pública

Os militares, além do desmedido nacionalismo, decorrente da formação profissional que os inspira e impulsiona, são idealistas (raríssimas as exceções) e, tomam suas decisões em cima do necessário e imprescindível instrumento de atitude gerencial, chamado de planejamento, fonte de inspiração das ações que se traduzem em retumbante sucesso. Em cima do planejamento o Coronel Humberto Guedes deu o primeiro start para a fundação do Estado; por conta do planejamento eficaz o coronel Jorge Teixeira implantou de forma determinada, acertada e promissora “a mais nova estrela no céu do Brasil”.

Dinâmico e audacioso plantou sementes políticas e sócio-econômicas que nem a mais desastrada gestão civil poderia acabar.

Mas, sobretudo plantou decência, realizações, competência, entusiasmo, devoção de alma e de espírito ao nosso País, razão da respeitabilidade que, até hoje, 27 anos depois da sua morte, vai desfrutando perante a sociedade que viu a maneira como ele soube dignificar-se perante a história da região que liderou.

No plano federal vimos que a escolha de ministros, quase todos civis, por parte dos Presidentes eleitos pelo Congresso, recaia em cima do elevado quilate profissional e moral dos selecionados. Pouquíssimos fatos de corrupção emergiram (um deles, no caso, um Governador do Sul foi rechaçado) e o desenvolvimento abençoava todos os pontos cardeais do País. Presidentes austeros, generais absolutamente fichas limpas, se sucediam deixando marcas de progresso e afirmação social.

Naquele tempo o INCRA, com sua ação distributiva bem socialista, entregava, sob critérios, lotes rurais, neutralizando preventivamente movimentos psicossociais fundamentalistas que temerários desejavam fazer eclodir no Sul maravilha; o BNH produzia as primeiras moradias, conjuntos residenciais populares eram implantados, dentro de conceitos urbanísticos e paisagísticos e, ainda, gerava seus impulsos no rumo da oferta de água e esgoto à população. O setor de energia pululava, fervilhava, daí a construção das hidrelétricas de Itaipu e Tucuruí (as principais), além do lançamento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool); nessa fase ocorreu o aumento das exportações de produtos agrícolas e a indústria brasileira expandiu-se, inclusive aquelas derivadas do polo da SUFRAMA, criada em 1967.

Com propostas de relevância social foram instituídos o FGTS e o FUNRURAL, entre outros.

O governo investiu em grandes projetos (construção de estradas e hidrelétricas) e estimulou a exploração econômica da Amazônia e do Centro-Oeste, através de programas – POLAMAZÔNIA e POLOCENTRO– e a Petrobrás se agigantava, sem que Pasadena alguma, no Texas ou alhures, lhes surgisse no horizonte moral. E a ligação rodoviária (iniciada no governo Juscelino Kubistchek) avançava, no ritmo de progressão via a telefonia, que unia o país e favorecia a comunhão do nosso com os mercados do mundo. Universidades federais realizavam o sonho de alunos e de seus familiares, mediante a chance do bacharelato.

Apenas uma minoria desejou num tempo fazer uma revolução para implantar o comunismo cubano ou qualquer outra coisinha, tivesse o nome que tivesse, visando introduzir aqui no Brasil, a exemplo do que ocorreu no Caribe, a ditadura que ali se eternizou, com uma proposta que pudesse derrubar outra ditadura, a de Fulgencio Batista, mas que, sem alternância pura no poder, só favorece os mandatários de plantão (os irmãos Castro e seguidores apreciadores das delicias do capitalismo), já que é duradoura tanto quanto sanguinária, como aconteceu na URSS, quando milhões de fraternos russos foram mortos ou submetidos às mais fétidas das masmorras pelos seus irmãos na nacionalidade soviética.

É de Newton a Lei que nos ensina: “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade”, no campo das ideologias, logo na vertente política da vida, houve uma reação à violência da tentativa de se tomar o governo brasileiro, na marra. Em 1935 Prestes já matara irmãos de armas com esse objetivo macabro. O Governo militar, representante do povo, agiu de forma enérgica e não permitiu a transferência de comando para as mãos de guerrilheiros baderneiros, terroristas, matadores, bandidos, facínoras, enfim, para as mãos do que seria considerado como uma escória. Lamenta-se que a tortura tenha maculado em termos a trajetória dos militares no poder nacional. Mas e o derramamento de sangue, as mortes ceifadas pelos terroristas contra seus irmãos nacionais e estrangeiros no auge da luta armada?

Como admiro os governos militares, que tanto nos legara, do qual honrosamente fui integrante, como civil consciente de suas responsabilidades, posso afirmar que, naquele tempo, não haviam os Mensalões, imoralidades outras tipo Ambulância/Sanguessuga, Anões do orçamento, Abreu e Lima, a Refinaria, Rosegate, aparelhamento do Estado, o propinoduto, os vínculos do Governo com as FARCs e outros escândalos que nem seria cansativo decliná-los.

Até porque o que diferenciava os militares desse deformado poder dominante era o estilo republicano, profissional e competente como, eles os militares, gerenciavam a coisa pública com idealismo, amor ao Brasil, valendo-se do pragmatismo com ênfase no planejamento estratégico, nos planos de ação integrada e nos programas sociais abrangentes.

Naquele tempo, todavia, o estilo diferentemente de hoje, premiava a forma de planejar, organizar, controlar, coordenar e, sobretudo comandar com eficácia, eficiência e efetividade uma nação, em que as palavras de ordem eram cumpridas, em que o direito de propriedade era respeitado, vândalos eram punidos, as famílias e os professores educavam filhos e alunos, quando as soluções eram buscadas em nome da cidadania, do crescimento e do desenvolvimento sócio-econômico, quando o direito de ir e vir era assegurado, quando o mérito elevava os escolhidos para as funções públicas, quando a progressão social alcançava a todos de forma igual, mediante a oferta de cursos universitários, desde que se quisesse estudar e evoluir, porque as universidades eram implantadas para que negros, brancos, amarelos, ruivos e índios, se desejassem, pudessem chegar ao topo segundo o sonho de cada um…

            Ante o triunfo da iniquidade, só posso encerrar dizendo: Que pena! Mas, que valeu o 31 de março de 1964, valeu! E, eu, ainda que estivesse sozinho, celebrarei a data.

UM AMIGO PRESO PELO OUTRO AO DESCER DO AVIÃO

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1964 em RO (3)

 

No capitulo 2 desta série o homem misterioso se apresenta e destitui o governo, formando outro, o capitão engenheiro do Exército Anachreonte Coury.

 

No dia 1º de abril Porto Velho literalmente amanheceu já tomada pelos militares, os da 3ª Companhia de Fronteiras com apoio dos membros da Guarda Territorial, em patrulhas mistas, em pontos estratégicos, mas apesar da vida continuar e não haver manifestações contrárias ao novo regime, instalou-se o medo e houve pessoas que preferiram se esconder.

O interventor Anacrheonte tomou a decisão de mandar prender pessoas suspeitas, lideranças sindicais e estudantis e membros do governo e das prefeituras, de Porto Velho e de Guajará-Mirim.

No dia 31 eu estava em casa quando chegou um amigo que participava das reuniões comigo na casa do jornalista Dionísio Xavier. O camarada chegou e me chamou de lado dizendo que ele iria dar uma sumida e era bom eu fazer o mesmo para evitar ser preso, mas eu disse a ele que não iria me esconder. Que se me quisessem prender que viessem me buscar em casa, lembrou o professor Abnael Machado de Lima, que acabou nem sendo perturbado pelo governo novo.

Mas houve prisões. Eles em grande maioria chegavam sempre à noite, disse uma vez o dirigente comunista Cloter Mota, quando era deputado na primeira legislatura da Assembléia Legislativa. Ele foi um dos presos.

Um fato que chamou a atenção foram as prisões membros do governo e da prefeitura, pessoas que tinham ligação com o Partido Social Progressista, capitaneado nacionalmente pelo governador paulista Adhemar de Barros, que era uma das lideranças civis na deposição do governo João Goulart.

Outro fato que acabou virando espécie de folclore foi que enquanto os membros do  governo e da prefeitura foram levados para p quartel da Guarda Territorial, no bairro da Arigolândia, onde atualmente funciona a sede do 1º Batalhão de Polícia Militar.

Ali as instalações eram bem modestas, enquanto nós, que éramos apontados como comunistas, fomos levados para a 3ª Cia., instalados no cassino dos oficiais, onde havia muito mais conforto, disse ao projeto testemunha da História o então líder estudantil João Lobo. Era como se nós fôssemos  presos de primeira categoria e eles de segunda.

Cloter Mota, que já como deputado estadual chegou a ser preso numa reunião em São Paulo com um núcleo do Partido Comunista em 1985, dizia que a qualidade da comida no cassino da 3ª Companhia era melhor do que na casa de alguns presos e fomos bem tratados.

Para o jornalista Euro Tourinho, em cuja sala de direção do jornal Alto Madeira o capitão Anacrheonte reuniu com os novos dirigentes e decidiu as primeiras prisões, o mundo virou de cabeça para baixo.

UM AMIGO PRENDE O OUTRO

Cidade pequena, onde praticamente todos se conheciam e conviviam socialmente, um dos pontos de encontro e de trocas de informações eram as bancas do mercado municipal (que em 1966 pegou fogo e foi reconstruído parcialmente em 1909 agora com o título de Mercado Cultural), as divisões aconteciam nos períodos da política, quando o Território escolhia seu único deputado federal, nas disputas entre cutubase peles curtas (*) ou nos jogos do campeonato de futebol.

E foi nesse quadro que o delegado Orlando Freire recebeu a ordem de ir ao aeroporto e prender, na escada do avião da Panair (leia-se Paner), seu amigo, o ex-prefeito, demitido por Anacrheonte, Jaime Rafael Castiel. Tenho certeza que deve ter sido difícil cumprir essa missão porque o delegado era amigo pessoal do Rafael, recordou o professor Abnael Machado de Lima.

Ele continuou: A população sabia da chegada e muita gente foi recebê-lo, lotando o pequeno saguão do aeroporto do Caiari, mas um contingente reforçado da Guarda Territorial tomou posição porque havia citações de que o povo iria resgatar o Rafael, o que acabou não acontecendo e ele já seguiu dali para o quartel da Guarda, localizado a menos de 500 metros da pista de pouso.

Dentre outros, além do prefeito Jaime Rafael Castiel, foram presos (**): os dirigentes comunistas Cloter Saldanha da Mota, Dionísio Xavier, o dirigente estudantil João Lobo, além de Otávio Félix, o secretário da prefeitura José Carmênio, o capitão Távora Buarque, o médico Rafael Vaz e Silva, o engenheiro Harry Covas, o empresário Miguel Chaquian, o médico Floriano Riva.

Alguns dos presos foram levados para julgamento perane um tribunal formado na 8ª Região Militar, em Belém mas, conforme o historiador Abnael Machado de Lima todos retornaram absolvidos ou não enquadrados.

O capital Anacrheonte Coury permaneceu no cargo a que assomou por si mesmo durante pouco mais de três semanas, quando passou o governo ao coronel José Manoel Lutz da Cunha Menezes. Depois Anacrheonte, que mandava prender, desapareceu como chegou, sem que ninguém prestasse atenção. Ele não consta da lista oficial de governadores do Território.

 

 

(*) – Cutubas – Aliados do coronel Aluízio Pinheiro Ferreira. Peles-curtas  aliados do médico (em 1964 deputado federal) Renato Borralho de Medeiros.

 

(**) Acusado de corrupção o coronel Alvarenga Mafra, governador do Território, foi preso no Rio de Janeiro e teve seus direitos restabelecidos em 1980, com a patente de general-de-brigada, conforme o historiador Francisco Matias, em Pioneiros.

 

1964 em RO – Amanhã

A POLÍTICA NAS TERRAS DE RONDON

MADEIRA-MAMORÉ – O “EFEITO GOEBBLES” NA NOSSA HISTÓRIA

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Lúcio Albuquerque
[email protected]

 
Quando cheguei aqui, já vão quase 40 anos, era comum eu ouvir algumas coisas que, hoje, sei serem invencionices sobre a ferrovia Madeira-Mamoré e como nada conhecia da História tive a tendência de acreditar, até que, ouvindo mestres da área e lendo sobre o assunto comecei a verificar que, ainda hoje, há muitas coisas ditas que não condizem com a realidade, havendo pelo menos um caso em que basta o interessado fazer uma conta para verificar que a coisa é muito distante do enunciado.

O duro é que de tanto o enunciado ser repetido que acaba entrando naquela teoria do ministro da Propaganda de Hitler, o nefasto Joseph Goebbles cuja frase mais famosa certamente foi aquela que dizia “Uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade”.

A coisa me assustou ao ser questionado por um estudante que disse ter ouvido durante palestra em sua escola que “cada dormente da ferrovia representa um homem morto na construção”.

São apenas alguns dos muitos mitos criados em derredor da Madeira-Mamoré e que acabaram sendo repetidos, e, pior, passados a estudantes que ao absorverem tal informação como verdadeira correm o risco de, em uma prova escolar ou num concurso se houver uma pergunta relativa a qualquer dos mitos, dar a resposta ouvida e perder pontos importantes tudo por causa do “efeito goebbles”.

Segundo o professor e historiador Antonio Candido (“Enganos da nossa História”) em cada um dos 366 quilômetros, a distância da ferrovia, foram usados 1.500 dormentes. Multipliquemos agora 1.500 vezes 366 e teremos a fantástica soma de 549 mil dormentes. Francamente, dá para acreditar que cada dormente represente um homem morto na construção? Outros autores, como Abnael Machado e Samuel Benchimol, citam que as mortes ficaram entre 5 e 7 mil. O resto seria fantasia dita a primeira vez pelo senador João Palmério.

Outra balela muito citada é que a Madeira-Mamoré foi a responsável pelo primeiro empréstimo externo brasileiro. Não foi. O “primogênito” foi logo depois da proclamação da Independência, quase um Século antes do início da construção da EFMM, quando o Brasil pagou uma quantia como forma de indenização a Portugal (*).

O presidente Campos Sales, em 1898 foi À Europa em busca de negociar o empréstimo tomado pelo Brasil para financiar a Guerra do Paraguai e o primeiro empréstimo externo na República ocorreu em 1906 para dar lastro financeiro a produtores de café  do eixo Minas/São Paulo.

Há muita balela citada por aí sobre a Madeira-Mamoré. E o pior é que estão passando isso para os estudantes, talvez na crença do “efeito goebbles”.

(*) http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=211

GUAJARÁ-MIRIM, BERÇO RONDONIENSE DA CULTURA E TRADIÇÃO

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Yêdda Pinheiro Borzacov

Membro da Academia de Letras  de Rondônia

Nascida em razão de ser porto de estocagem, embarque e desembarque de produtos de exportação, sendo escolhida para ponto terminal da Madeira-Mamoré, em território mato-grossense; crescendo como uma cabocla ribeirinha sapeca, embalada como uma embarcação na oscilação das águas do Mamoré e sentindo o aroma da floresta; presenciando o revoar dos bandos de pássaros exóticos que constroem os seus ninhais, estrategicamente distribuídos pela mãe natureza; ouvindo a melodia do ir e vir das águas dos rios e igarapés e aninhada no regaço da serra dos Pacaás-Novos, Guajará-Mirim, cidade símbolo da tradição de Rondônia, tem um ar de encantamento e mistério.

Cidade símbolo, porque representa o estado e é guardiã dos percalços de sua História.

Cidade tradição, porque desfralda no seu dia-a-dia, a cultura – húmus fértil que alimenta e amalgama o sentimento que, a nós rondonienses, nos marca e nos une: o da rondonidade.

Revisitando a História nas suas fontes, nos registros documentários, encontramos referências básicas que nos ajudam a desenhar o perfil histórico e cultural da bela Guajará-Mirim.

O seu nome Guajará (antigo Quadro e posteriormente Vila de Espiridião Marques), recebeu-a devido a existência da cachoeira Guajará-Mirim, no rio Mamoré, a poucos quilômetros do terminal portuário da cidade, e cujo topônimo, de origem tupi, significa, para alguns, “cachoeira pequena” e, para outros, “campos das yaras ou sereias”.

Em termos de pioneirismo, Guajará-Mirim desponta destemida, guerreira, valente, em um feito inédito ocorrido em 1937, quando um grupo idealista, que fazia conviver dentro de si o realismo e o sonho, encaminhou manifesto ao Presidente Getúlio Vargas, reivindicando o desmembramento da área, visando à criação de um território federal, dando ênfase ao desprezo que os governos de Mato Grosso e do Amazonas tratavam as regiões do Guaporé, Mamoré, do alto e parte do baixo Madeira. Nada faziam para propiciar o desenvolvimento dessa área que atravessava períodos difíceis. A memória dos nomes que assinaram o manifesto não pode ser esquecida… Paulo Cordeiro da Cruz Saldanha… Pedro Struthos, o Grego… Alkindar Brasil de Arouca… Emílio Santiago… D. Francisco Xavier Rey… Manuel Boucinhas de Menezes… os jovens irmãos Paulo e Christina Struthos… Vitor Arantes… Ary Tupinambá Penna Pinheiro… Almerindo Santos… Graciliano Maia… Omilio de Melo Sampaio… Tancredo Lopes Braga, Promotor Público… Eliezer Nunes Arouche… Teófilo Nicolau… Omar Morhy… Sandoval França… Alberto Chama… Fares Mesrala… Antonio Peres… Manoel Magno Arsolino… Moacir Pontes… e os irmãos Toufic, Abdon, José e Tanuz Melhem…

Cidade onde era comum escutar nas ruas, no domingo da Ressurreição, a saudação grega:

— Cristós Anéste… (Cristo ressuscitou).

— Alithós – Anéste… (Sim, Ele ressuscitou).

E nas casas gregas havia distribuição de xerotigzna (símbolo da Páscoa), massa de farinha de trigo fina, com 1 cm, cortada e frita, com canela, mel, nozes ou amêndoas raladas, uvas e vinho. Lembro-me que meu avô, Pedro Struthos, não esquecia a tradição da sua terra.

Mosaico cultural de raças, Guajará-Mirim é uma referência não só para o rondoniense, mas para todos que lá vivem e que por lá passaram, memória e história – representação dos valores que ali são cultivados e repassados de geração a geração.

Cidade que espelha a diversidade de sons e interpretações folclóricas, como atestam os bois-bumbás, a festa da solidariedade do Divino Espírito Santo, a romaria fluvial de São Pedro, no Mamoré; o auto de resistência da raça negra – o batuque; a diablada (dança boliviana introduzida na cidade); o pitoresco das rezas da pajelança; as parodias do “Sarará”; as histórias dos pescadores e seringueiros; os mitos e as lendas do boto, caapora, matinta-perera, curupira, mãe d’água, boiúna, mapinguari, tamba-tajá…

Cidade de terras férteis para a castanheira… seringueira… caucho… balata… sorva… massaranduba… açaizeiro… piquiazeiro… sapucaieira… uxiseiro… andirobeira… tucumanzeiro… copaibeira… bacabeira… pupunheira…

Cidade dos quintais onde proliferam plantas e raízes medicinais ao alcance das mãos… o pião roxo… a erva cidreira… a vassourinha… a jurubeba… o mastruço… a arruda… o amor crescido… a mamona… a alfavaca… a chicória… o agrião… a babosa… o sabugueiro… o capim santo… a cabacinha… o quebra-pedra… a erva doce… a salsa… a mucuracaá… o jurubeba… o hortelã… o manjericão… o caruru… a lombrigueira… e sei lá quantas outras que formam a imensa e variada farmácia cabocla amazônida.

Cidade dos povos indígenas… Pacaás-Novo… Jabotis… Canoés… Arauás… Araras… Agurus… Macurapes… Massacás… Tuparys…

Cidade onde acontece o encontro das águas, acidente geográfico em que as águas barrentas do Mamoré se encontram com as águas escuras e límpidas do Pacaás-Novo, provocando paisagem prazerosa e pitoresca…

Cidade de rios onde os botos fazem a sua festa e de matas em que o uirapuru canta soberano, encantando todos os pássaros e animais da floresta…

Cidade fortalecida pela fé depositada em Nossa Senhora do Seringueiro, sua padroeira e protetora…

Cidade de gente boa, generosa e trabalhadeira… descendente de gregos… libaneses… bolivianos… espanhóis… barbadianos… granadenses… trabalhadores da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, monumento que conta a História do Estado…

Cidade que aceitou a divisão do município, entendendo que o espírito de Guajará-Mirim permanecerá latente, vivo, em Nova Mamoré… Costa Marques…

Cidade provinciana e romântica, iluminada no início do século XX por lampiões a querosene…

Cidade de fraternal convivência com Guayaramerín, cidade boliviana, ouvindo-se no dia-a-dia, tanto no comércio, como nas festas de salão, um falar pitoresco de português e espanhol, compreendido por todo mundo… Nosotros somos hermanos…

Vim cantar sobre esta terra e, antes de mais nada, aviso

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Se fosse violeiro e cantador eu jamais me cansaria de gritar bem forte o quanto me encanto com a pujança de minha terra. Pujança histórica, manancial dos homens intrépidos que plantaram entusiasmo e fé, certeza e vontade cívica, ainda nos primórdios, deixando um legado de realizações e afirmação cidadã. Pujança econômica, como caminho para a redenção social, via ação distributiva da riqueza, que tarda, mas chegará…

Antes, já nos idos de 1647 Antônio Raposo Tavares já descia pelo sagrado rio Guaporé. Depois, o Real Forte Príncipe da Beira, entre 1776 e 1783 era construído mantendo-se altivo e contemporâneo. Com o advento do Tratado de Petrópolis ao Brasil coube a obrigação de construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (1907/1912) tida e havida por muitos como a abençoada Mãe.

Rondon, o desbravador, o maior sertanista, desde 1906 passou a transitar fazendo a integração deste solo (então amazonense e matogrossense) à Nação da qual fazia e faz parte.

Da febril atividade gumífera seringalistas e seringueiros (muitos soldados da borracha) concorreram para a formação cultural da nossa sociedade e  legaram progresso e conquistas; da castanha extraíram vendas e exportações; da ipeca (ipecacuanha a ou poaia) enviaram raízes salvadoras para a indústria farmacêutica estrangeira.

Da incandescente extração da cassiterita aqueles e outros pioneiros afirmaram a liderança desta geografia no cenário nacional, fazendo-nos unir –particularidade ímpar desse mineral– como liga aos maiores centros de comercialização desse produto.

Depois chegou a hora da atividade agrícola e a vez da agricultura de mercado passou a reinar; o café e o cacau foram dignificados e a economia prosperada se diversificou. E aquela geografia então extrativista se modificou.

O Governador Humberto Guedes, tão competente e prudente, iniciava a estruturação para a transição de Território para a figura idealizada do que viria a ser o Estado de Rondônia.

A população crescia, o campo demonstrava a que veio, a pecuária vicejou na dimensão em que crescia a oferta maior de arroz, feijão, milho, banana e mandioca. Novos municípios foram criados. E a aspiração pela “independência” da vida rondoniense era exaltada e pedida veementemente.

No dia 10 de abril de 1979 assumia os destinos do então Território o emérito coronel do Exército Jorge Teixeira de Oliveira.

Na vertente político-administrativa o Estado foi concebido e suas estruturas abriram as asas sobre nós, sob o pálio e o comando do Governador Jorge Teixeira, exemplar brasileiro e vencedor administrador público, focado no futuro e nas mais idealistas aspirações do povo que vivia ou que escolhera esta terra para crescer e vencer. A nova estrela no Azul da União brilhou… O Hino “Sob os Céus de Rondônia”, a bandeira e o brasão brotaram de dentro das nossas almas.

Os migrantes continuavam a chegar de todas as partes, a hidrelétrica de Samuel se apresentou demonstrando que ainda precisaríamos de mais energia para suportar a vertiginosa expansão das nossas estatísticas. A Indústria madeireira e o garimpo do rio Madeira com os seus pró e contra se agigantavam! A BR foi asfaltada.

Nem todos governantes que o sucederam inspiraram-se nos exemplos dignificantes, progressistas, inovadores e criativos desse grande líder.

O crescimento e o desenvolvimento ninavam as aspirações populares nas cidades e nas áreas rurais. A capital tomava a configuração exigida pelos novos tempos e edifícios erguiam seus braços para o céu portovelhense. Novos instrumentos e equipamentos demonstravam que Rondônia se transformava.

Um dia a soja raiou tão forte! Até a uva, algodão e a citricultura tornaram-se palavras de ordem como chamamento para a agroindústria fulgurante. A Indústria diversificada do leite gritou de maneira tonitruante.

E Rondônia, homenagem dada ao brasileiro Cândido Rondon, tornou-se o terceiro estado mais populoso da Região Norte, com seus quase 1 800.000 habitantes em 2014, terra de gente que sabe o que quer, por isso vai mostrando ao mundo a sua face altaneira, vigorosa e renovadora.