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10 de julho – 42 anos da morte da Madeira-Mamoré (1)

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10 de julho – 42 anos da morte da Madeira-Mamoré (1)

Lúcio Albuquerque
[email protected]

Consultor: Abnael Machado de Lima, professor, historiador, membro da Academia de Letras de Rondônia e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia

A ÚLTIMA VIAGEM DO TREM DA MADEIRA-MAMORÉ

Nesta quinta-feira, 10 de julho, completará 42 anos da “morte” daquilo que deu início a tudo o que hoje é o Estado de Rondônia. A extinção definitiva da ferrovia Madeira-Mamoré, fato ocorrido naquela data, em 1972, quase 60 anos depois de sua inauguração e 41 anos depois que o consórcio anglo-canadense abandonou a estrada e o coronel Aluízio Ferreira assumiu, por determinação do Governo Federal, a sua administração.
A construção da EFMM, considerada à época, de forma orgulhosa, “a maior obra norte-americana fora dos Estados Unidos” atendeu a uma velha reivindicação boliviana mas corporificada só depois que seringueiros e seus “patrões”, na região onde hoje é o Estado do Acre, invadiram aquelas terras então pertencentes àquele país. A obra, fruto do Tratado de Petrópolis, foi construída entre 1907 e1912 quando foi inaugurada.
A decisão de extinguir a ferrovia havia sido tomada em 25 de maio de 1966, por decreto do presidente  Humberto de Alencar Castelo Branco, mas ela só deixou de funcionar a 10 de julho de 1972 quando a rodovia, interligando Abunã a Guajará-Mirim, já estava pronta.
A execução da decisão do presidente Castelo Branco foi feita pelo 5° Batalhão de Engenharia de Construção, unidade cujos primeiros contingentes chegaram a Porto Velho em 1966, e isso gerou uma discussão grande que colocou de um lado o BEC e, de outro, parte importante da sociedade local, ferroviários ee seus familiares – um atrito que, passados mais de 40 anos, ainda perdura.
Em 1981, depois de um seminário sobre a ferrovia, realizado num dos galpões da estação de Porto Velho, o governador Jorge Teixeira mandou fazer um estudo e abrir dois trechos, com finalidade turística, entre Guajará-Mirim e Bananeiras e  Porto Velho a Santo Antonio. Mas isso durou pouco.
Quem assistiu aos últimos momentos da ferrovia não esquece. O comerciário aposentado Graciliano Maia (então morador de Guajará-Mirim), ainda se diz impressionado “com a frieza do coronel Oliveira (diretor da EFMM) que não se sensibilizou com o sofrimento que aquele ato iria causar a centenas de famílias de pequenos agricultores que ficaram entregues à própria sorte no meio da selva”.
“A manutenção da Madeira-Mamoré era uma necessidade para incentivar o desenvolvimento da produção agrícola da região que a ferrovia passava e onde muitas famílias produziam e abasteciam Porto Velho e Guajará-Mirim. A função social dela tinha grande importância”, disse o jornalista Euro Tourinho.

    A seguir, a poesia “A Última Viagem”, autorizada a publicação pelo seu autor, o romancista, poeta e historiador Antonio Cândido:

A ÚLTIMA VIAGEM
Do livro “Madeira-Mamoré – O vagão dos esquecidos”
Autor: Antônio Cândido da Silva
(poeta, romancista, historiador, membro da Academia de Letras de Rondônia, Cadeira nº 16)

 
Antonio Candido (newsrondonia.com.br)

Sete horas da manhãa.
Apita a máquina doze,
para a última viagem
que agora se inicia.
O sino da estação
parece dobrar finados
inundando nossa alma
de imensa nostalgia.

As casas vão se perdendo
na tristeza da distância,
os velhos carros parados
lá no desvio da estrada.
Estrada que beija o rio
assim, pela vez primeira,
Santo Antônio, lá na frente,
é a primeira parada.

A história vai surgindo
nas pedras da cachoeira,
nas ruínas da cidade,
nas curvas que o rio faz.
O trem apita e desperta
o passageiro que sonha.
O casarão vai sumindo
e tudo fica pra trás.

Alguns minutos depois
o posto de Teotônio
onde o trem bebe água
para poder prosseguir.
Para depois em São Carlos
o posto do telefone,
velha casa de madeira
que sozinha existe ali.

Depois a máquina avança
No caminho da floresta,
pra chegar a Lusitânia
lá onde uma casa há.
Assim seguindo viagem
por uma curva fechada,
o trem atravessa a ponte
chega a Jacy-Paraná.

Por volta de doze horas,
a hora de almoçar.
Depois do almoço o trem se movimenta
e Jacy vai ficando na lembrança.
Suas casas perfiladas para a linha
guardam sonhos do tempo de bonança.
 
Vamos chegar à Caldeirão do Inferno,
uma parada ao pé da corredeira.
Mais à frente a parada de Jirau
que leva o nome dado à cachoeira.
Mais uma ponte, embaixo o velho rio,
silencioso  no seu caminhar.
O trem apita, diminui a marcha,
e em Mutum-Paraná vamos parar.

O trem se move e logo a nossa frente,
“a grande reta” num traçar bonito.
Quarenta e quatro mil metros de trilhos
se perdem na distância do infinito.

O sol vai se perdendo no poente
e a Vila de Abunã vem se mostrar.
Suavemente a noite cobre a Vila
nos convidando para repousar.

O trem apita quando nasce o dia
no sorriso festivo da manhã
e a branca fumaça da caldeira
é o lenço dando adeus a Abunã.

Depois a solidão de mata virgem
que parece abraçar a ferrovia.
Breve parada em Penha Colorada
e a viagem se reinicia.

Rio Taquara, a ponte, o vilarejo,
a escola, o telefone, a solidão.
Pouco depois o trem para em Araras
casas de palha a identificação.

A próxima parada é Periquitos
cujo  nome adotou da cachoeira
com as casas de palha e de tijolos
construídas à margem do Madeira.

O trem mais uma vez se movimenta,
indo encontrar à margem do Madeira
mais um local onde deve parara.
Chocolatal em frente à cachoeira
onde descansa o trem por meia hora
antes de ir a Ribeirão chegar.

Ribeirão é mais uma cachoeira,
posto dos índios e telefonia,
aonde o trem sua parada faz.
Misericórdia, rápida parada,
depois Madeira, outra cachoeira,
sendo mais uma que ficou para trás.

A viagem prossegue, e na distância,
Vila Murtinho já pode ser vista
com a sua imponente estação.
Ali se encontram Beni e Mamoré
e o rio Madeira caudaloso,
assim começa dessa união.

Depois vem a floresta novamenete.
De repente se vê no Mamoré
a cachoeira Guajará-Mirim.
Pouco depois, na linha do horizonte
aparecem as torres da matriz
e a viagem do trem chegou ao fim.

Antigamente, em todo esse percurso,
eram quarenta e oito as paradas
que na viagem nosso trem fazia.
Hoje, porém, se vê ao desalento,
paradas recobertas de saudade do fim
ao lado de uma triste ferrovia.

Amanhã: Eu vim de carona na última viagem de litorina

O guajaramirense Graciliano Maia, filho de um dos ferroviários da EFMM, lembra a última viagem da Litorina, uma das formas de transporte usadas sobre o trilho da ferrovia e fala do vazio pós extinção, especialmente entre as comunidades ao longo da estrada.

PORTO VELHO E O 4 DE JULHO – A FARSA

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Foi publicado em 4.07.2013, neste site, um artigo do Professor Francisco Matias que começa apresentando a foto acima, como comprovação de que a cidade de Porto Velho teve início no dia 4 de julho de 1907, com o pregamento de um “prego de prata” no local do atual parque ferroviário, que simbolizaria a pedra fundamental da cidade.

Devo esclarecer que essa não é a primeira vez que fotografias são manipuladas (não estou afirmando que pelo professor) para tentar enfiar goela a baixo, através de teimosia barata, essa história que não tem consistência e comprovação lógica e histórica.

Foi publicado no jornal Alto Madeira do dia 30/09/2007, as fotos a seguir (também manipuladas) na tentativa de justificar a mesma tolice.

Como essas fotos, hoje, são bastantes divulgadas, não vou perder tempo em analisá-las.
 

  
Todos os historiadores sérios, concordam que os americanos chegaram a Santo Antônio em 21 de junho de 1907. Ver Manoel Rodrigues Ferreira, A Ferrovia do Diabo, 4ª edição, pag. 199.

Observe-se, também que Charles A. Gauld, em Farquhar – O último titã, pag. 179 nos diz que “Os associados de Farquhar nas ferrovias de Cuba e da Guatemala – os veteranos Robert H. May, Arthur B. Jekyll e “King John” Randolph – chegaram no início de 1908, após terminar a linha guatemalteca já descrita”

E tem mais: Ainda no O Último Titã, pags. 182/183, lemos o seguinte: Farquhar enviou o fotógrafo Danna B. Merril, de Nova York, para uma estada de dois anos, em que tirou cerca de 300 fotos (…) Uma delas trazia 35 ianques que comemoravam o 4 de julho de 1909, posando diante de uma construção em Porto Velho…

Agora por favor, contem quantos engenheiros aparecem na foto que o Professor diz ser de 1907. Logo, a tal foto não é de 1907 e sim, de 1909.

Isso sem falar na construção. O que seria inconcebível admitir que ela fora feita em apenas 13 dias (de 21.06 a 4.07.1907)

O engenheiro chefe da primeira turma era Mr. Miller, contratado pela May & Jekill (MRFerreira-pag.199) e não Mr. May e é triste ver a afirmação de que essas pesquisas são criteriosas se a ingenuidade do nosso professor o fez utilizar-se de uma fotografia adulterada por algum ignorante histórico para comprovar a sua teimosia que não lhe deixa ver o óbvio ao ponto de não entender o que lê.

Leia professor, releia professor, até entender o que está escrito na carta de Antônio Borges até enxergar que ela não endossa o que tentou provar o Senhor Hugo Ferreira, motivo de toda essa discussão desnecessária, pois nela, em momento algum, vamos encontrar as palavras 4 de julho, ou prego de prata.

O Mais triste de tudo isso é ver o Instituto Histórico e Geográfico que devia ser o guardião da nossa história, respaldar através da sua Presidente Perpétua, essa afirmação.

Gostaria que o nosso Professor apresentasse provas da sua criteriosa pesquisa de que os americanos utilizavam um prego de prata no inicia das suas ferrovias.

Eu vou mostrar que nem sempre é assim. O Prego de prata também foi utilizado para simbolicamente pregar o “último dormente”.
 

 
Quando o Professor afirma que nesse “Nesse dia, um prego de prata foi simbolicamente cravado no km zero da ferrovia, e a povoação de Porto Velho, inaugurada ao estilo das vilas ferroviárias norte-americanas” o Professor, por acaso, está afirmando que já existia uma povoação, em Porto Velho, em 1907?

Nós sabemos que Dana Merrill não fazia anotações nas suas fotografias, além da numeração que era feita a mão. Não venha afirmar, portanto, a veracidade da sua foto.

A foto apresentada pelo professor, foi publicada no livro Trilhos na Selva, de Rose e Gary Neeleman, pag. 111, confirmado, mais uma vez, tratar-se do 4 de julho de 1909.
 


No dia seguinte, no mesmo site, o Professor publica novo artigo, utilizando a mesma foto, com o título PORTO VELHO E O 4 DE JULHO – OS FATOS.

Descreve de maneira romântica e imaginosa a ocupação a ocupação da área de Porto Velho, além da “linha divisória,” inclusive somando mais uma besteira no rol das dúvidas da nossa história de que a cidade “nascia com um nome sugestivamente nacional: PORTO VELHO DE SANTO ANTONIO.”

Ora Professor, todo mundo sabe que a Comissão Morsing/Pinkas já cita em seu relatório de 1885, o local onde se originou a cidade de Porto Velho como PONTO VELHO.

O nosso Professor declara que “Após a inauguração da estação inicial Madeira, em 1910, Percival Farqhuar encomendou um mapa para traçar as primeiras ruas e avenidas do que ele imaginava seria uma cidade, que daria a estrutura necessária para a continuidade da ferrovia. Este mapa, elaborado em inglês, foi entregue à Madeira-Mamoré no dia 10 de julho de 1912 (…) Nele constam as primeiras ruas e avenidas da povoação de Porto Velho: Avenida Mato Grosso, Avenida Pires da Veiga, Avenida 28 de Setembro, Avenida Índio do Brasil, Avenida Church, Avenida 7 de Setembro, Avenida Englesing, Avenida Collins, Boulevard Farqhuar e…. AVENIDA 4 DE JULHO.

Ora professor, o Senhor esqueceu de verificar que o mapa foi certificado pelo Eng. Princ. Da M.M. Ry Co. e Aprovado pelo Engenheiro Chefe da M. M. Ry. Co e, portanto, nenhum mapa foi entregue à Madeira-Mamoré, em 10 de julho, mesmo porque o mapa (o Senhor não viu) traz a data de 24 de agosto de 1912, logo, não poderia ter sido entregue antes de concluído.

 
 


Fiz um recorte do mapa, apenas para que se possa localizar a tão “importante Avenida Quatro de Julho citada em seu artigo. Vale lembrar que no mapa de 1917, aparece apenas a metade do que ela seria e nos seguintes ela desaparece.   

O Professor encerra o seu artigo com uma séria de informações fantasiosas, das quais eu agradeceria muito se ele informasse a mostrasse, como eu estou fazendo, as provas das suas afirmações.

O pior cego, meu caro Professor, é aquele que não quer ver. Porto Velho só começou a existir depois de janeiro de 1908.

Como podemos ver a grande descoberta do nosso Professor, não passa de um fiasco e, não sei por que ele faz tanta questão de “puxar o saco” dos americanos que, já naquela época, tinham como único objetivo explorar e solapar as nossas riquezas.

D E S A B A F O

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Antônio Cândido da Silva

Estou a pensar com os meus botões e, de repente, me vem à lembrança que dia 14 de março é o dia nacional da poesia. Assim, como uma coisa puxa a outra eu me lembrei do meu amigo Flávio Carneiro e do empenho que ele tinha para não deixar essa data passar em branco.

Flávio ligava para nós poetas para que mandássemos, com antecedência, versos da nossa lavra que, depois de multiplicados por ele através de fotocópias eram lançados, no final da tarde, de um pequeno avião sobre a nossa cidade. Tratava-se do Projeto por ele criado com o sugestivo nome de “Chuva de Poesia”.

E aí vem a lembrança do “Flor do Maracujá” do qual ele foi um dos criadores e ardoroso batalhador na execução anual do projeto, juntamente com a Nazaré Silva, Monteiro e outros funcionários da já não sei mais o nome depois de tantas mudanças.

Então me dou conta de que tudo o que representava a nossa cultura nativa, com raras exceções, ainda, foi ou está sendo riscado do caderno cultural da nossa vida cabocla, de maneira sorrateira e criminosa.

E os remanescentes dessa tradição nativa, assistem a tudo isso como se estivessem anestesiados, enquanto os aventureiros (não confundir com migrantes) e os religiosos radicais, em nome de uma falsa ética moral, batem palmas, regozijados com cada movimento cultural que deixa de existir como se isso servisse para purificar a população pecaminosa e devassa.

Tudo aqui é destruído ou mudado de maneira quase imperceptível, às vezes nos feriados prolongados, como já aconteceu, para que quando a população se der conta, nada mais possa fazer.

Eu fico abespinhado (para não dizer e já dizendo, puto da vida) quando vejo os repórteres e apresentadores de programas e notícias encherem a boca para dizer: Na Praça do Baú; na Praça da Bíblia; na Praça da Catedral; na Praça da Prefeitura e, mais ainda, como aconteceu ontem, quando um Secretário Municipal, ao ser entrevistado, declarou: “os desabrigados estão sendo alocados na Praça do Baú”.

E eu pergunto: Um elemento que não conhece a cidade e a sua história tem capacidade ou interesse para cuidar daquilo que é do povo?

A mídia, infelizmente, também é a responsável por levar essa ignorância ao povo que aprende e divulga as INdentidades e INregularidades que ouvimos por aí inclusive, na grande mídia do Sul do país.

Nas redes sociais sempre cobram uma atitude dos filhos da terra e eu asseguro que nunca ficamos calados. Hoje não existiria mais nada da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré sem a luta (entre outros) de Luiz Leite, ameaçado e processado tantas vezes, em uma época de censura e cassetete.

Não faltaram denuncias e cobranças publicadas na mídia local, como acontecem ainda hoje, onde devemos ressaltar o empenho de Manuel Coelho e o apoio que ele recebe, em grande escala, nas redes sociais juntamente com o menosprezo das autoridades que devem zelar pelos bens patrimoniais da cidade e do povo.   

Pensando com meus botões eu constato que a Praça Rondon virou Praça do Baú, porque um comerciante aventureiro é mais importante do que uma das figuras de grande destaque na história do Brasil; a Praça Jonathas Pedrosa, virou Praça da Bíblia, não pela importância da Bíblia, mais porque um vereador evangélico fez aprovar uma lei para se erigir um pequeno monumento ao livro santo e depois, não se sabe como, misteriosamente a estátua do criador do nosso município sumiu e, até hoje, ninguém sabe do seu paradeiro; a Praça Padre João Nicoletti virou Praça da Prefeitura e o busto do Padre escafedeu-se. Uma réplica grotesca foi colocada na Praça Osvaldo Cruz, apelidada de Praça da Catedral onde, agora, também o nome do Padre João Nicoletti montou o seu acampamento de sem terra.

Pensando com meus botões, eu busco na memória o Monumento aos Migrantes, a Feira Agropecuária, o Trem (pelo menos) até Santo Antônio, o Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré engolido pelas águas que também, escrevam, levarão os Mirantes e se Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não obrar um milagre, a sua igreja, também vai ser tragada pelas águas.

Ah! Meus botões… Vocês são botões modernos e não conheceram as nossas Escolas de Samba Diplomatas, Caiari, O Triângulo não Morreu, Castanheira, Bloco da Cobra, Blocos de Sujos, os carnavais dos Clubes Bancrevea, Danúbio Azul, Guaporé e Imperial e as tardes festivas do Porto Velho Hotel e Ipiranga.

Chega um determinado momento em que nos sentimos cansados de pregar no deserto como João Batista, como tenho feito desde a década de 1970 quando já denunciava ao falar do Igarapé Grande:

 

       Hoje, pouco mais de dois metros de largura

       é simplesmente, lugar de lama impura.

 

Nós, os nativos, fomos deixados de lado e, a nossa opinião, passou a não ter nenhum valor. Por isso, as nossas tradições, a nossa história são desmontadas e substituídas pela história que passou a ser escrita por meia dúzias de aproveitadores que se aboletaram no poder, à custa de financiamentos de campanhas escusos e ilegais e, ainda se pavoneiam em propagandas pagas a preço de ouro, de que “também somos destemidos bandeirantes”.

Pois é, meus botões. Quatorze de abril, dia da poesia, ano do centenário da nossa cidade e eu, que vivo aqui desde 10 de maio de 1945, não tenho o menor orgulho de me considerar mais um do grupo “dos destemidos bandeirantes”.

A sua competência e o seu trabalho, meu amigo Flávio, fazem falta neste Dia da Poesia…

 

CANHOTOS UNIDOS, JAMAIS SERÃO VENCIDOS!

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Antônio Cândido da Silva
 

        Como estamos em tempos de igualdades, de reivindicações das minorias, de indenizações pelo que os nossos antepassados sofreram e outras coisas mais, eu me pus a pensar: É hora dos canhotos reivindicarem seus direitos, pois, desde que o mundo existe, somos “bullingados”, chacoteados, humilhados e mostrados para a sociedade como um ser amaldiçoado desde os tempos em que Deus expulsou Lúcifer do Paraíso e lhe deu o nome de Diabo.

        Eu fui criado por minha avó, a partir dos seis anos, quando fiquei órfão de mãe e lhes garanto que ela não tinha nada a ver com as avós de hoje. Ela pertencia àquela criação dos antigamente, do castigo, da palmatória, do convencimento pelo medo do inferno. Era culpa dela? Não, essa era a “metodologia educacional” da época e, vale dizer que meus irmãos e eu, tivemos sorte, pois, quando muito chegávamos à palmatória e nunca tivemos as costas lanhadas e lavadas com água, sal e vinagre com vi acontecer com vários colegas da vizinhança.

        Diziam que minha “esquerdice” era herança genética de minha mãe e, por conta disso, aprendi a escrever com a mão direita, à custa de muitas reguadas na mão (esquerda, é claro) com a desculpa de que o colégio, principalmente o dos padres, não permitia que se escrevesse com a Mão do Diabo.

        Assim fui obrigado a aprender sozinho, na base da observação, o que minha avó ensinava aos meus irmãos, como lavar louça, lavar roupa, fazer comida, passar roupa (com aqueles ferros a carvão) e o que ela, apenas uma vez, tentou me ensinar: torrar café.

        Ao chegar ao colégio, mais um problema. Cada carteira acomodava dois alunos e, na hora da prova, se um era canhoto, ficavam um de frente para prova do outro e, a solução era o canhoto mudar de lugar, porque quem escreve com a mão direita, é claro, não ia colar.

        Assim cresci e depois de muito estudo e leitura verifiquei que o preconceito é bem maior do que se possa imaginar, como por exemplo, o que nos dizem os dicionários:

 

canhoto

(ô) [De canho + -oto1.]

Adjetivo.

1.Que é mais hábil com a mão esquerda que com a direita; esquerdo, canho, canhoteiro. [Opõe-se a manidestro.]

2.Inábil, desajeitado, desastrado.

 

        Mas, continuando a ler o significado da palavra “canhoto” o dicionário me mostra o serguinte: 6. Bras. V. diabo (2).

         A essa altura, já me benzendo, fui verificar o “pai dos burros” para saber o que ele dizia sobre o dito cujo e quase caí de costas. Comecei a ler os mais de cento e cinquenta sinônimos: …Demônio, Satanás, Satã, Lúcifer, anjo rebelde, belzebu, bruxo do inferno, dragão, espírito das trevas, espírito maligno, gênio das trevas, gênio do mal, pai da mentira, pai do mal, príncipe da treva, príncipe das trevas, príncipe do ar, príncipe dos demônios, serpente infernal, serpente maldita. [Para não enunciar o nome diabo, a superstição popular substitui-o por muitos outros, como: anhangá, anhanguera, anjo mau, arrenegado, atentado, azucrim, beiçudo, bicho, bicho-preto, bode-preto, bute, cafuçu, cafute, caneco, canheta, canhim, canhoto…

        Parei estupefato ao verificar que a minha avó fora bondosa comigo quando me ensinou que a mão esquerda era a mão do Diabo. Na verdade o canhoto inteiro era, por assim dizer, a imagem (ai meu Deus) do Bicho feio. Credo!

        Mas o vocábulo “manidestro” me fez lembrar que as embarcações usam os termos “destro e sinistro” para indicar o lado direito e esquerdo da embarcação ou a direção a navegar. Mas, o que esses vocábulos significam?

 

destro

(ê) [Do lat. dextru.] Adjetivo.

1.Direito (1). Que fica do lado direito. Dotado de destreza, hábil, ágil, desembaraçado, rápido: Nadador destro.

 

sinistro

[Do lat. sinistru, por via erudita.] Adjetivo.

1.Esquerdo (1). Que é de mau agouro, fúnebre, funesto, de má índole, mau, que infunde receio, ameaçador, temível, desastre, ruína, grande prejuízo material, dano, ocorrência de prejuízo ou dano (incêndio, acidente, naufrágio, etc.) em algum bem sobre o qual se fez seguro.
 

        E verifiquei que nada mudou. O que é direito é certo, correto, ágil, enfim, tudo de bom. Já o miserável do canhoto é tudo o que não presta e, por favor, não consultem os dicionários de sinônimos e antônimos.

Se pensarmos bem, nós os canhotos, somos objetos de preconceito em tudo o que nos rodeia. Na religião, por exemplo, vamos encontrar na Oração do Credo …está sentado (Jesus) àdireita de Deus pai todo poderoso…

        Na Santa Ceia, de Leonardo da Vinci, Judas (aquele que traiu Jesus) é justamente o terceiro apóstolo a esquerda do Mestre e, provavelmente, o Bom Ladrão fora crucificado adireita de Jesus.

        Alguém já viu uma Faculdade de Esquerdo? É claro que não e, para sorte nossa, esqueceram-se de proibir os canhotos de serem advogados.

A indústria, essa tem sido cruel com os canhotos. Alguém já viu uma serra circular para canhoto? Se o canhoto quiser usar uma dessas ferramentas, terá que aguentar o pó da madeira na cara porque a única saída do pó de serra é, justamente, para o lado direito. Se formos analisar com vagar vamos encontrar uma infinidade de objetos, feitos exclusivamente para destros, como por exemplo: tesouras, abridor de latas, tesoura de cortar grama, direção de carro e alavancas de marchas, sem esquecer as duchas higiênicas e o papel higiênico que sempre são colocados do lado errado para nós canhotos.

Mas, tudo isso, serviu para desenvolver a inteligência dos canhotos excluídos. Tornamo-nos, em muitos casos, bi destros ou nos adaptamos com facilidade às emergências, com uma rapidez incrível.

        Nos esportes, então, nos vingamos dos preconceituosos. Nenhum lutador que levar “uma esquerda” no queixo e, quero ver o goleiro que não tema uma “bicuda de esquerda” em direção a sua área.

        Mas, o que eu pretendo mesmo com esse artigo, é que os canhotos esqueçam as dificuldades do mauser, que vem programado para ser usado do lado direito, e se utilizem das redes sociais para marcarmos uma “manifestação pacífica,” em Brasília, para apresentarmos a nossa “Presidenta” a pauta de reivindicações dessa parcela da população tão injustiçada e vilipendiada, pelo que se sabe, desde os primórdios da humanidade.

        Temos que viver esse momento de exceção, quando as minorias é que estão ditando as regras, para conseguirmos uma pequena indenização por danos moral, nunca inferior a oitocentos mil reais, com juros e correção desde o começo do mundo e, para complementar, uma modesta aposentaria de cinco mil reais mensais, transformável em pensão para o cônjuge que ficar viúvo.

Vamos, depois, ao Congresso exigir uma Lei que retire dos dicionários todos os sinônimos preconceituosos imputados aos canhotos, que obrigue as indústrias a produzirem objetos adaptados para os não destros e trinta anos de prisão para quem ofender um canhoto publicamente.

Não se esqueçam de avisar aos black bloks que, se eles aparecerem para esvaziar a nossa manifestação, vamos botá-los pra correr sob “bicudas e cascudas de canhotas”

Lembremo-nos que esta é uma oportunidade única para conseguirmos os nossos objetivos, pois, pela primeira vez, temos um Partido de “Esquerda” no poder.

 

Eles passaram, nós passaremos

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Na Catedral do tempo e da vida eu vi Dom Francisco Xavier Rey e Dom Luiz Roberto Gomes de Arruda tão ativos, celebrando o trabalho e as missas, percorrendo trechos servidos por matagais. Nas corredeiras da vida e do tempo eu os vi trilhando o Evangelho, festejando o cristianismo transitando pelos mananciais.

        Nas cachoeiras dos anos e dos dias eu os observei tão cuidadosos batendo o sino despertando os povos nos matinais, levando a cultura e o saber rios acima e abaixo, formando mentes geniais.

        Nos trilhos e nas trilhas que conduzem o branco com o foco na integração com os povos tribais, eu os vi embalados pela ânsia cívica de os incluir nos estudos colegiais.

        Sob os céus lindeiros eu os vi voar em aviões próprios ou de carreira, levando a Palavra de Deus e do Cristo como se fosse remédio e gás, para impulsioná-los rumo ao progresso, através da leitura da Bíblia, de livros e jornais.

        Nos barrancos e nas praias desses limites fronteiriços foram tão abnegados salvando vidas, com denodo e sentido humano dissimulando o efeito de doenças, cujas dores não se viam nas rugas faciais, desde que a inclusão chegasse aos homens e mulheres, moradores do lugar, integrantes do entorno das terras municipais.

        Nas curvas das estradas de seringa foram observados pelos silvícolas que os acompanhavam, à distância, sem importuná-los jamais. Eles sabiam que aqueles dois só o bem praticavam a negros, vermelhos ou brancos, não faziam parte do grupo de facínoras, não praticavam atos bestiais.

        Nos crepúsculos e nas alvoradas, sempre atentos, todos os admiravam posto que desenhavam e realizavam nobres ações sociais; veio o primeiro colégio, as igrejas, as escolas, hospital, depois a Rádio Educadora, mexendo com os sonhos sonhados, que nunca foram triviais.

         Mas, num dia, um foi embora antes daquele outro. Eles passaram, porém marcaram com tintas fortes suas trajetórias neste mundo de Deus. Suas presenças foram eternas, não seriam levadas pelas corredeiras, cachoeiras, trilhos e trilhas, barrancos ou praias, pois suas pegadas, passos, ações, gestos e ensinamentos ficaram assinalados na história da vida e viraram pelo exemplo um símbolo referente ao tempo em que construíram lá atrás uma indicação que valorizaria os apóstolos que a eles seguissem o Norte demonstrado.

         E eis que outra geração assumiu o comando religioso do catolicismo nestas paragens. E, como se fosse numa procissão, aquelas palavras de ordem foram acompanhadas pelo devotamento à mesma causa por Dom Geraldo Verdier, com visão social abrangente, tentando favorecer e resguardar os direitos dos mais fracos, carentes de saúde, terra, espaço para a produção, amplitude de horizonte, como se cada ação fosse um Centro Despertar, na perspectiva da afirmação cidadã.

        Às aspirações dos homens do presente, por seu apostolado são acrescentados exemplos que hoje representam inspiração e agasalho… em cima da ação que distribuía o incenso como liturgia à criatividade e ao trabalho; mesmo porque esses três homens do passado e do presente são espelhos, por tudo aquilo que foi legado: da visão prospectiva, sim da visão de futuro, sopro criador que à nossa saudade incendeia, e que a tudo permeia, revelação divina pelas obras deixadas, conquistas materiais e espirituais, produzidas em cadeia.

        Afinal, a nenhum de nós, que também passaremos, será ofertado o direito de negligenciar, fracassando, dado que vencer é preciso, em cima do pensamento positivo e das ações idênticas que vimos praticadas por esses paradigmas, exercitadas numa fase de devoção de alma e espírito, que até então jamais havia sido escrita numa terra dadivosa, na areia do tempo ou no barro da vida, que o vento apaga,  mas que nos obriga até por questão de determinismo a VENCER, pois vencer como eles, repito, é preciso; são gritos que ouvimos aqui nas ruas, avenidas, sons que parece que escutamos a partir dos trilhos ainda existentes na ferrovia, e até nos rios, igarapés, nos lagos, na solidão de uma baia, lá onde a fonte rumoreja, perto de onde foram erguidos uma escola, hospital ou uma igreja… ali bem próximo dos mananciais, enfim nas cercanias dos verdes matagais.

AS SAUDADES QUE VOU NINANDO

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Eu jamais me envergonharei das lembranças que acalento, que se transformaram em lindas saudades de um tempo que eu vivi, ao lado de pessoas que tanto admiro e respeito.

No outono da minha vida, se ouço uma canção, o ritmo, a batida, os versos das letras, a harmonia que percebo nos sons, tudo isso me envolve e me acalma.

São recordações que me remetem à vida colegial, à juventude, ao primeiro, segundo e terceiro empregos, os colegas, meus chefes e líderes.

Ficaram os vínculos em face da minha trajetória por diversas cidades brasileiras, a serviço, por conta do exercício de minha profissão, lugares onde fiz amigos, companheiros de fé, verdadeiros irmãos com que a vida me abençoou. Fui removido muitas e muitas vezes, em cima de uma carreira da qual tanto me orgulho.

São saudades infindas que eu vou ninando neste estágio da minha existência. Agora viraram sonhos que eu gostaria de revivê-los dada a intensidade com que eu os vivenciei em 30 anos de carreira.

E aí rostos amigos se superpõem como se estivessem na minha frente, porque são pessoas tão importantes na minha formação social, profissional e humana como Dom Rey, Dom José Vieira Lima, Padre Ângelo Spadari, Walmen Hoffmann de Souza, Edmar Lima Vieira, José Avelino Gonçalves, Felipe Assad Azzi, Lourdes Bouez Azzi, Armando Borges, Araldo Bazzano, Joazir Bucair, Aquilino Arruda, Issao Kawataque, Maria Luiza Amorim, Maria Rocha, Ana Rosa Nazário, Wanderley Gomes Sardinha, Cirilo Pereira da Silva, Luziano Borges Muniz, Lenir Messias de Almeida, Alan Kardec Santos, Devaldo de Souza, Orion Klautau, Francisco de Jesus Penha, João Bosco Araujo Pinto, João Miguel de Araujo Lima, Paulo Cruz Rodrigues, José Sabino de Lima, Almério Madeira, Nelson Madeira Casara, José de Ribamar Nunes Pinto, Hermínio Silva, Militão da Silva Rufino, Everaldo Ramos Pinheiro, Mário Normando, Euro Tourinho Filho, Jorge Teixeira de Oliveira, Simão Salim, Eloy Abud, Maria Luíza Costa, Cirilo Leopoldo da Silva Neves, Adhemar da Costa Salles, Jacy de Alencar Farias, Clayton Guimarães Covas, Moacir Pontes Filho, José Nilson Guimarães e, ainda, uma lista de pessoas que seria dispensável enumerá-las, cujos nomes estão bem arquivadas no fundo da minha alma.

Às vezes me pergunto se no meu outono essa lembrança significa a chegada de mais uma transferência, a última neste teatro de guerra, posto a intensidade das saudades que não me perseguem, mas caminham ao meu lado, às vezes tão sutís, às vezes tão sorrateiras que me surpreendo rindo ou me emocionando pelas passagens, qual filme que me chegam ao cérebro e ao coração.

São viagens que o meu imaginário tão saudoso faz, de forma espontânea, fixando paradas nos portos da vida, revivendo cenas vivenciadas alhures, como se tivessem acontecido ontem pela manhã. E rio e lacrimejo recordando-as de maneira mais intensa daquela em que aconteceu.

Podem até ser flores ou poemas que me auto ofereço emocionado e agradecido por ter tido a excelsa chance de conviver com pessoas do mais elevado quilate espiritual, que, certamente me elevaram como homem, como colega, amigo, enfim, como ser humano, à imagem e semelhança de Deus, Pai e Criador.

A eles, se pudesse eu erguia, como na música antiga, uma igreja, e dentro dela diversos altares, com a indicação de que foram santos e santas, arcanjos e querubins de quem me vali, como auto-defesa para jamais sucumbir.

E, assim, na minha imaginação tão fértil, quando penso neles, presto-lhes a minha genuflexão, como forma de lhes dizer o quão foram imprescindíveis para que as vitórias por mim alcançadas, pudessem superar as derrotas que me abraçaram até aqui, quando, na maturidade eu as recebo como pedras necessárias para que eu possa erguer um templo espiritual que me possa gratificar como o amigo leal que tenta por todos os meios, via superação, não decepcioná-los.

Senhor Costa, o jovem de 85 anos ou o velho lobo do rio

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O Senhor Costa – Costinha para aqueles que já o conhecem há décadas (meu caso) -, apesar da baixa estatura, é um gigante ser humano, descomunal criatura, a serviço do bem, da virtude, da lealdade, da pertinácia e do cumprimento das leis ambientais, inclusive. É pescador profissional.

          Toda vez que o vejo lembro-me do personagem de “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Para mim, ele é o sempre jovem do Mar… do Mar…moré.

          Filho de João Cristóforo, grego, com dona Adélia Dourado Cristóforo, boliviana, seu apelido nada tem a ver com o nome de batismo – Constantino Cristóforo. Casado com a senhora Maria Silva.

          Disse-me que age sempre dentro do que lhe é exigido como cidadão, pois sentirá vergonha se for admoestado.

          Mais velho – dezoito anos nos separam do seu e do meu nascimento -, diz do seu orgulho de ser (não foi) afilhado do meu tio-avô, o coronel Saldanha, a quem visitava e ganhava atenção, mimos, balinhas e outros presentes.

         Antes de ser pescador profissional, foi seringueiro ali nos rios Pacaás Novos, (seringalista Conrado Farias, seringal Maloca) e Ouro Preto (Manoel Manussakis, seringais Petrópolis, São Pedro e Macaxeiral), atividade sofrida, insalubre, tediosa, logo desgastante.

         A profissão de pescador deu início com uma canoa, dois remos e um varejão. Com uma poupança feita com essa ocupação pôde comprar um motor 10-12 da marca Archimedes, e prosperou. Sua casa é ali na Praia do Valentin (em frente daquela corredeira que é conhecida como Guajará-Mirim; a outra corredeira, ali na Praia do Acácio, é chamada de Guajará-Açu).

          Seu pai possuía uma venda no médio rio Guaporé nos anos 30 (século XX), quando comercializava de tudo e, algumas vezes, aviava seringueiros que trabalhavam o látex naquele entorno.

          Quando tinha 5 anos, a violenta morte do pai trouxe à família toda uma má sorte de improvisações, perdas físicas e espirituais, a partir de umas facadas que recebeu de um libanês por conta de uma briga estéril em cima de uma discutível dívida contraída.

           Com três irmãos e a família já liderada apenas pela mãe, Adélia, seu grande esteio, com a atenção do padrinho, o Cel. Saldanha e gerente da empresa de navegação, embarcaram todos na “Horta Barbosa”, barco tipo gaiola de ferro movido à lenha (caldeira), com grandes rodas instaladas na popa, e se fixaram em Guajará-Mirim.

            Pasmem! Guajará-Mirim há quase cem anos tinha embarcações desse tipo. Era, na época, a modernidade flutuante. Mas só saía do barranco no período invernoso.

            Foi difícil, mas a matriarca criou todos os filhos dentro dos princípios católicos e de amor à virtude. A humildade e a decência são marcas daquela família! Até que o Costinha, já com 25 anos, se definiu optando pela profissão de pescador, e lá se vão 60 anos… Mas pescar era seu hobby desde os 15.

           Quando começou a pescar a cidade não tinha gelo para vender. Então, vendia a produção recolhida devidamente salgada. Eram surubins, jatuaranas, tambaquis, pirapitingas. Ou se valia dos peixes vivos, guardados em calhapos[1].

             E algumas pérolas dele extraí numa conversação para mim “por demais satisfatória”. E me foi dito:

– Que, numa madrugada, acordou e, descendo da rede, abriu o mosquiteiro para reacender o fogo, quase acabando, quando sem querer pisou na cabeça de uma surucucu de fogo; sem ação, embora sabendo que pisara numa cobra, não sabia qual, permaneceu com o pé no dorso do réptil, com medo de receber uma mordida, até que tomando coragem pegou a lanterna e focou. Arrepiou-se todo, mas continuou esmagando-a mais pesadamente ainda, até que “pegando num arpão pinicou a bicha toda até vê-la estrebuchar-se no chão”. Ainda teve idéia e agradeceu a Deus por não ter sido ofendido como em duas vezes anteriores.

– Nessas vezes anteriores foi picado por uma jararaca e bebeu álcool puro no trajeto de descida do seringal Macaxeiral, do Manoel Manussakis, após o que recebeu competente tratamento durante13 dias no antigo Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (hoje Regional); depois, no sitio Laranjal, próximo a Sete Ilhas, no rio Mamoré, uma baita Surucucu de Fogo o pegou em cima do pé. Ele sozinho assumiu o tratamento e mascou muito fumo, engoliu parte dele e a compressa mastigada colocou na ferida, mais tarde bebeu o fel da paca e espalhou o resto no local do ferimento. Salvou-se!

– Garantiu-me ainda que foi ferrado por arraia e que jamais viu sucuri superior a 7 metros. Mas o velho Serapião já tinha visto “bichas” bem maiores.

– “Paulinho, nasci aqui no barranco do Guaporé e já sou pescador dos mais antigos nos lagos, baías e rios afluentes do Mamoré e jamais vi uma cheia como essa aqui. Já vi muita inundação, mas veramente lhe digo: nenhuma como a deste ano” (2014).

– Adora pescar no rio Pacaás Novos, aprecia o clima reinante na foz desse rio e despreza o da cidade. “Não como nada envenenado”, afirmou ele, dizendo que os produtos químicos colocados na bebida, nas conservas e nos pães só mal produz. Por isso não bebe refrigerante, por exemplo. Mas aprecia um café da hora e o requentado também.

    Quando lhe mostrei que a nossa estrada interna estava intrafegável em mais de 200 metros por conta da cheia, ele me afirmou de forma contundente: “mas essa água toda aí é a saída da ‘Gulosa’”. Para quem não sabe, ‘Gulosa’ é a baía que recebe as águas do Pacaás Novos e está localizada nos limites entre o Hotel Pakaas e a fazenda de minha família.

              E arrematou: “essa Gulosa fazia o velho Serapião, antigo morador do lugar e a valentia em pessoa, ter medo em atravessá-la, porquanto ele me confirmou: tem sucuri da grossura de um barril de diesel, de diâmetro e cumprimento de mais de 13 rifles papo amarelo, além de jacaré com tamanho superior a 6 metros”.

              O sol já se debruçara a oeste e um multicolorido de tons indicava o fim da tarde. Costinha, pedindo licença, foi despedindo-se, pois precisava chegar ainda com o dia no projeto Tanque-Rede, três quilômetros rio acima, para pousar.

               Volte sempre, amigo Costinha! É ótimo papear com você!
 

No Oeste de Rondônia somos todos Noé

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E eis que um arco-íris multicolorido raiou no céu, dando-nos a impressão de que aquele quase dilúvio iria ter fim, ainda que temporário. Embora esperançosos e otimistas, acreditamos que, em face das agressões contra a natureza, os homens de boa e má vontade irão ver a sua repetição em 2015.

Eu, particularmente, desejaria fazer uma aliança com Deus para que essa adversidade climática, gerada pela mão de dirigentes desfocados, jamais mostre a sua cara de novo. É muita angústia, é sofrimento atroz que ninguém merece…

E em verdade lhes digo como esse quase dilúvio começou: primeiro, os engenheiros das usinas hidrelétricas do Madeira deixaram de fazer estudos técnicos competentes alhures, no altiplano boliviano e peruano; segundo, depois os administradores destas se excederam nas projeções gananciosas, fixando-se nos ganhos de capital e nos exacerbados lucros financeiros, deixando uma população à mercê de dividendos sociais negativos, à deriva, perplexa e em desespero: abandono das empresas, firmas e botequins, casas, lares e residências, todos atingidos pela inundação; terceiro, subestimaram as cotas das cheias do rio, em face de deficitárias e desconcertantes análises falhas, por sua vez derivadas de negligentes estudos de topografia e de engenharia. Jamais se viu um dilúvio aqui na região com tamanha gana enfurecida, com agigantada goela e fúria assassinas.

Sou descendente de uma das famílias mais antigas da região. Nenhum fato me foi transferido pelos meus ascendentes referente a uma enchente de tão grande dimensão. Entrevistei pessoas mais velhas que eu, e todas elas me afirmaram que cheia grande igual a esta, sem que alarde maior tenha sido gerado, jamais tomaram conhecimento ou vivenciaram.

“Então Deus abriu todas as fontes do grande abismo e uma chuva torrencial caiu durante 40 dias e 40 noites”.  E os nossos rios transbordaram a níveis jamais imaginados pela população estabelecida há mais de um século. Até peixes morreram asfixiados… Quem não tinha “arca” abandonou a vida, seus bens e seus sonhos… E por pelo menos durante 70 dias as águas invadiram a terra, antes tão pródiga, reprodutiva e tão dadivosa, adentrando-se nos igapós.

E não me venham com churumelas! Não foi uma punição divina aos viventes regionais por eventuais pecados, pela devassidão que impera, nem pela perversão de valores que campeia nesta e noutras terras.



 

Fomos punidos pela imprevidência dos dignitários do poder, pela vontade empresarial fratricida de se obter ganhos, legais e ilegais; fomos castigados pela incúria da pseudo-engenharia moderna, que, por sua soberba, não liga para as mensagens anteriores da natureza…

E houve até um debochado depoimento do representante da ESBR, ao dizer que eram “crendice” as afirmações que botavam na conta das usinas as alagações deste ano…

Fizeram-se esquecidos da geologia e da biogeografia! Até porque um dado que se impõe (?) leva-nos a supor, em face das nefastas conseqüências do que se vivenciou a partir de fins de janeiro a até abril de 2014, que os estudos e análises das vertentes hidrológicas, ambientais, topográficas e geológicas não foram realizados de forma prudente, competente, racional e sem achismos, nos devidos termos correspondentes exigidos até durante as prévias de qualquer estudo fundamental para essa área, a serem verificados por analistas preparados, mormente durante a fase preliminar daquelas exigências na perspectiva de todas as bacias envolvidas dos rios tributários do Madeira (Beni, Madre de Dios, Guaporé e Mamoré).

Aliás, descuido fenomenal, detalhe importante que acarretou mortes, danos psíquicos, perdas materiais enormes, doenças, enfim, tragédias monumentais, sem que nos fosse oferecida uma única chance de, pelo menos, fazer cada um uma pequena arca que fosse, para a proteção das  nossas famílias e retirar dos quintais galos e galinhas, mudas de tangerinas, laranjas, limões, capim santo, alface, couve e jambu.

 


 

Pobre do pobre! Infelizes dos moradores que ficaram isolados, banidos da vida nacional, sem rodovias, sem acesso, privados da relativa capacidade de ir e vir, sem rumo, desorientados, sem remédios, gêneros diversos, gás, combustíveis, etc., etc.

E pior: pagando preços elevadíssimos para não deixar faltar o mínimo necessário a ser direcionado para a sua sobrevivência e dos seus familiares. Sem esperanças, posto que não supunham, tampouco desconfiavam mediante a ausência de condições para prever o dia seguinte, se teriam ou não de abandonar seus antigos aconchegos, produto de anos e anos de sacrifícios, muitas vezes purgando uma sub-vida para tentar preparar-se para a velhice. Essa incerteza gerava toda uma sorte de fragilidades.

Mas o que se deplora, por conta dos inumeráveis danos sofridos, é a certeza de que preocupação alguma ligada aos aspectos sociais com ênfase no meio ambiente, do qual os seres humanos fazem parte, foi dispensada realmente; até porque, depois da implantação total ou parcial das duas usinas do rio Madeira, o que se viu foi um “nefasto e catastrófico” dano a homens e mulheres, habitantes das cidades de Porto Velho e adjacências, Jaci-Paraná, Nova Mutum, Araras, Nova Mamoré (e distritos) e Guajará-Mirim.

Afinal, até agora não foram observadas ações e intenções reais para se reparar ou compensar os prejuízos decorrentes da falta de previsão anterior, e muito menos aquelas que pudessem preventivamente ter mitigado ou evitado todos esses atropelos que, como assinalado, jamais foram vistos nestas paragens do poente.

99 ANOS DA INSTALAÇÃO DO MUNICÍPIO DE PORTO VELHO

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 Em 24 de janeiro de 1915, com inicio as nove horas da manhã, cra realizada na residência do Intendente Manoel Felix de Campos situada na rua dos Portuguêse (atual Barão do Rio Branco), no povoado de Porto Velho, a sessão solene de instalação do Município da mesma denominação, presidida pelo Superintendente Major Fernando Guapindaia de Souza Brejense. O qual definiu sua postura na condução administrativa e política dos bens e dos interesses públicos, assim pronunciando-se:

“É com grande desvanecimento que tenho a honra de, nesta longínquas paragens vir inaugura o Município de Porto Velho, trazendo para este remoto rincão nacional uma das grandes conquista da democracia – o governo do povo pelo próprio povo – na soberana autonomia Municipal assegurada pelos preceitos constitucionais. O que sobre tudo me desvanece é a certeza de que será, digo, que não será difícil a tarefa atendendo ao acolhimento gentil que de todas as classes sociais aqui representadas tenho recebido……………………………..”.

Dr. Jonathas de Freitas Pedrosa, governador do Estado do Amazonas um estrategista político, enquanto aguardava a solução judiciária definindo a quem pertencia Santo Antônio do Alto Rio Madeira se ao Amazonas ou a Mato Grosso, prestava apoio ao povoado em desenvolvimento, surgido em 1907, próximo ás instalações da Madeira – Mamoré, a jusante sete quilômetros do povoado de Santo Antônio. Em 26 de julho instalou a Agência Postal. O Tribunal de Justiça Federal concedeu a Mato Grosso a posse de Santo Antônio, o governo deste Estado instalou em 02 de julho  de 1912, o Município e a Comarca criados pela Lei nº 494, de 02 junho de 1908. Jonathas Pedrosa com vista compensar a perda territorial e assegurar a posse do alto Madeira, incrementou ações de presença do Estado nesse espaço, instalou no povoado de Porto Velho a Coletoria de Rendas, em 21 de agosto de 1913; o Termo Judiciário, em 30 de janeiro de 1914, criado pelo Lei nº 741, de 30 de outubro de 1913; o Município de Porto Velho, em 24 de Janeiro de 1915, criado pela Lei nº 752, de 02 de outubro de 1914, que assim dispunha:

“ Art. 1º – fica criado o município de Porto Velho, com  sede na povoação do mesmo nome, á margem direito do rio Madeira, tendo os limites estabelecidos pelo Decreto nº 1063 de 17 de março do corrente anno para aquele Termo Judiciário.

Art. 2º – O poder executivo fica autorizado a entra em acordo com o Governo Federal, a Madeira Mamoré Raylway Company e os proprietários de terras para a função imediata da povoação, aproveitando, na medida do possível, as obras do saneamento feitas ali por aquela companhia, e abrir os créditos necessários á execução da presente lei.

Art. 3 – O primeiro governo do município será constituído por nomeação do governo do Estado e o seu mandato se estenderá até 31 de Dezembro de 1916.

Art. 4 – Revogam-se as disposições em contrário. Manda, portando, a todas autoridades a quem o conhecimento e execução desta Lei pertencer que a cumpram e façam cumprir fielmente. O Sr. Secretário do Estado a mande imprimir, publicar e correr”

Palácio do Governo, em Manáos, 2 de outubro de 1914.

Dr. JONATHAS PEDROSA

 

Foram nomeados para implantares e administrarem o Município, ate 31 de dezembro de 1916, pelo Decreto S/N, de 24 de dezembro de 1914, os cidadãos: Fernando Guapindaia de Souza Brejense (Superintendente), Antônio Sampaio, Lucitano Barreto, José Jorge Braga Vieira; Manoel Felix de Campos; José Z. Camargo (Intendentes) e José Ponte; Achilles Reis; Horário Bilhar; Aderico Castilho; Alfredo Clinico de Carvalho (Suplentes de Intendentes).

Os Intendentes e os seus suplentes constituíam o Conselho Municipal (equivalente á Câmara).

Instalado no dia 24 de janeiro de 1915, o Município de Porto velho, no povoado da mesma denominação, surgido em 1907, iniciava sua trajetória política administrativa que hoje 24 de janeiro, completa 99 anos, destacando-se os eventos de maiores relevâncias:

Conclusão de construção da ferrovia Madeira – Mamoré, em 1 de agosto de 1912, em Guajará Mirim, iniciada em 4 de julho de 1907, em Porto Velho:

Criação da Delegacia de Policia, em 1 de fevereiro de 1915, Delegado, Tenente Aristide Leite;

Organização institucional, expedições de decretos regulamentando código de postura; proibindo a Madeira – Mamoré Railway a prática de poderes públicos privativos da União, dos Estados e Municípios;

Organização estrutural, decreto ordenando o espaço físico urbano observando a planta mandada elaborar pelo mestre de obras José Ribeiro de Souza Junior, aprovada pelo Conselho municipal;

Criação pela Lei nº 5, de março de 1915, da Escola Municipal Jonthas Pedrosa; (1ª escola pública de Porto Velho)

Construções do mercado público, da cadeia e do Cemitério dos Inocentes (este com área 9.900 m²);

Fundação do jornal o Município, em 12 de dezembro de 1915, pelo senhor João Alfredo Mendonça;

Instalação do diretória Municipal do Partido Republicano Conservador, em agosto de 1915, presidido pelo senhor José Vieira Braga, sendo a primeira agremiação política de Porto velho;

Realização da primeira eleição Municipal, em 1 de dezembro de 1916, presidida por Fernando Guapindaia, para os cargos de Superintendente, Intendentes e Suplentes de Intendentes, com Mandatos de 1 de janeiro de 1917 a 31 de dezembro de 1919. Sendo eleito pelo Partido Republicano Conservador Dr. Joaquim Augusto tanajura (Superintendente) assim como os Intendentes e seus suplentes;

Elevação do Termo Judiciário á categoria de Comarca, pela Lei nº 900, de 31 de agosto de 1917;

Elevação do povoado de Porto Velho á categoria de cidade pela Lei nº 1011, de 7 de setembro de 1919;

Deposição do Superintendente Joaquim Augusto Tanajura Pelos revolucionários de 1924. Reempossado no cargo, em setembro desse citado ano;

Instalação de residência do Padre Carlos Antônio Peixoto Secretário Geral da Prelazia de Porto Velho, em 9 de novembro de 1926;

Inauguração no dia 7 de setembro de 1929 do Hospital São José da Prelazia de Porto Velho, construído pelo Padre João Noceletti;

Expedição do Decreto nº 20.200, de 10 de julho de 1931, repassando a administração da estrada de Ferro Madeira – Mamoré para o controle do governo brasileiro, extinguindo-se a duplicidade administrativa da cidade de Porto Velho, que era no espaço compreendido entre o Rio Madeira e a Avenida Divisória (atual Presidente Dutra), administrada pela empresa estrangeira, e o a partir desta até o limite com o Estado de Mato Grosso, pela prefeitura Municipal, até então vigente.

Instalação em 1932 do Contingente de Fronteira criado pelo aviso ministerial nº 516 de 23 de setembro de 1932;

Inauguração da Agência do Banco do Brasil em 19 de julho de 1934 (1º gerente, Ambrósio Rosa de Farias Nobre);

Circulação de dinheiro falso, em 1934 de graves consequências e repercussão política e social;

Inauguração da rota aérea Rio de Janeiro, Cuiabá, Porto Velho, Rio Branco/AC, pelo avião “Taguary” da empresa alemã Condor, aquatizando no Rio Madeira, em Porto Velho, no dia 3 de maio de 1936.

Excursão do Presidente da República, Dr. Getúlio Dornelles Vargas, de visita a Porto Velho, de 11 a 13 de outubro de 1940. No seu discurso de despedida jubiloso pelas homenagens lhes prestadas, e o progresso observados disse: Isto aqui, já é um território federal;

Criação de Câmaras Municipais pelo Decreto Lei nº 411 de 8 de janeiro de 1969, em substituição aos Conselhos municipais extintos pela Constituição Federal de 1969.

Inauguração da Agência da Capitania dos Portos, em 11 de dezembro de 1941;

Inauguração da Agência do Banco da Borracha ( atual da Amazônia), em 17  de abril de 1943 (1º gerente, Raimundo Cantuário);

Criação do Território Federal do Guaporé por intermédio do Decreto-Lei nº 5.812 de 13 de setembro de 1943, tendo a cidade de Porto Velho como sua capital e 1º governador, Aluízio Pinheiro Ferreira;

extinção pelo Decreto-Lei nº 7.420 de 17 de abril de 1945, do Município de Alta Madeira com sede em Santo Antônio, sendo as terras do seu espaço físico, integradas as dos municípios de Porto Velho e de Guajará Mirim;

Eleição (1ª) de deputado representante do Território do Guaporé na Câmara Federal, eleito Aluízio Pinheiro Ferreira com mandato de 1946 a 1950;

Descobrimento de cassiterita com 70% de teor de estanho S/N, em 1956, no vale do Rio Ji- Paraná (Angustura), pelo garimpeiro José Motorista contratado pelo empresário Joaquim Pereira da Rocha para pesquisar ouro e diamante em seus seringais;

Construção da Rodovia BR 29 em 1960, iniciada em fevereiro, total desmatamento concluído em 29 de junho e a derrubada em vilhena, da última árvore no eixo da estrada, no dia 4 de julho pelo Presidente Juscelino Kuvitsechek de Oliveira, interligando Brasília a Porto Velho num percurso de 2.796 Km de extensão, dada por concluída em 13 de janeiro de 1961. Sendo totalmente asfalta em 13 de setembro de 1984, com sua sigla mudada para BR 364.

Instalação do 5º Batalhão de Engenharia e Construção- 5º BEC, em 21 de fevereiro de 1966;

Instalação na segunda década de 1960, do INCRA organizando o assentamento dos migrantes em seus projetos de colonização direcionados as atividades de produção agrícolas e pecuária;

Construção da hidroelétrica UHE de Samuel (216 MW), iniciada em 1968.

Criação de Câmaras Municipais pelo Decreto Lei nº 411, de 8 de janeiro de 1969, em substituição aos Conselho Municipal extintos pela Constituição Federal de 1937.

Elevação do Território Federal de Rondônia á categoria de Estado, por intermédio da Lei complementar nº 41 de 22 de dezembro de 1981, sancionada pelo Presidente da República, General João Batista de Figueiredo, tendo a cidade de Porto Velho como a sua capital.

 Esta síntese histórica objetiva prestar homenagem aos homens e as mulheres que no labor de suas atividades contribuíram para o surgimento e desenvolvimento social e econômico de Porto Velho, nas diversas etapas do seu percurso, iniciado na século XIX.

Seu espaço físico foi ocupado pela primeira vez por uma ala de soldados do Regimento do Jamari, sediado em São Carlos, os quais permaneceram nesse, no período de 1866 á 1870, em vigilância preventiva se precavendo de uma invasão da Bolívia simpatizantes do Paraguai, em guerra com o Brasil. O local passou a ser conhecido como Porto dos Militares.

Ao se retirarrem os soldados, estiveram no agora, Porto Velho dos militares os padres franciscanos, em 1871 e 1872, pretendiam instalar uma missão para catequizar os indígenas caripunas, desistiram retornando a São Carlos do Jamari. Seguindo-se a ocupação por sitiantes e fornecedores de lenha aos navios que trafegavam entre Belém/PA e Santo Antônio. O sitio e porto de lenha de um deles, o velho Pimentel, era conhecido como Porto velho, e  também Ponto Velho o qual foi indicado pelo engenheiro Carlos Morsing, em 1883 para ser o ponto inicial da ferrovia por ele projetada a ser construída contornando o trecho encachoeirado do alto Rio Madeira. A área compreendida entre os igarapés Milagres ao Norte e Boeiro ao Sul, foi vendida pelo governo do Estado do Amazonas para o Coronel José da Costa Crespo, sendo esta integrada ao seu seringal “Crespo”. Esta em 1907 foi invadida pela May, Jelyll and Randolpoh, empresa norte – americana, contratada por Percival Farquhar para construir a Estrada de Ferro Madeira – Mamoré. Em 4 de julho deste citado ano, deram inicio a sua construção fixando um trilho no dormente do Marco Zero Ponto inicial da ferrovia, em área parte do Seringal Crespo perdida por seu proprietário para Farquhar por decisão judicial. Próximo as instalações do povoado ferroviário, além dos seus limites, surgiu outro ainda em 1907, um aglomerado desordenado de barracas habitadas por pessoas desvinculadas da empresa estrangeira. Era o povoado de Porto Velho dos brasileiros, o embrião da cidade progressista capital do município de Porto Velho, o qual completou 99 anos de sua instalação, no dia 24 de janeiro de 2014.

Congratulo-me com todos que contribuíram no passado e contribuem no presente na sua construção urbanística, econômica, política e social.

Abnael Machado de Lima

Membro do Instituto Histórico e Geográfico/RO

A MURALHA BEIRA RIO

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 O Jornal Alto Madeira em sua edição de 16 de junho de 2004 publicou o artigo intitulado Projeto Madeira – O Renascimento do Novo “El Dourado” de autoria do senhor Rocco Eduardo Hurtado, fazendo referência ao Plano Plurianual de Investimento/ PPA – 2004/2007, projetando investimentos de um trilhão, oitocentos e cinquenta bilhões de reais, encaminhado ao Congresso Nacional submetendo-o a sua aprovação. Entre os Projetos programas, o articulista destaca o Projeto Madeira orçado em treze bilhões de reais, a serem aplicados na instalação do complexo energético constituído por duas Usinas Hidrelétricas a de Santo Antônio e a de Jirau com capacidade de gerarem 7.480Mw de energia elétrica suficientes para abastecerem 38.000.000 de habitantes, sendo estas componentes de um grande programa de Infraestrutura Nacional, construções a serem executadas por Furnas e a Eletrobrás.

Elenca os benefícios econômicos e sociais que proporcionarão para a Amazônia em Geral e em especial para Rondônia, assim as destacando:

1.    Geração de vinte mil empregos diretos e cem mil indiretos;

2.    Arrecadação de 1 bilhão, 560 milhões de reais equivalentes a 12% sobre 13 bilhões de reais, o valor do investimento, pelo físico estadual;

3.    Transformação do Rio Madeira numa das maiores Hidrovias do Brasil, constituída pelos rios Madeira/Mamoré/Guaporé, formando um corredor de exportação até os portos do Oceano Pacífico (Peru), integrado a rede Rodoviária da Bolívia e do Peru, os citados rios tornar-se-ão francamente navegáveis durante todo o ano, possibilitando o escoamento de 50 milhões de toneladas de grãos do Brasil, Bolívia e Peru para a Ásia e o ocidente dos Estados Unidos da América do Norte pelo porto de Ilo;

4.    Conservação da Flora e da Fauna, consolidando e implantando  unidades de conservação ambiental;

5.    Recuperação do patrimônio arqueológico, pré-histórico, histórico e cultural.

O então Governador do Estado Ivo Narciso Cassol entusiástico apoiador da realização desses empreendimentos, declarou ser prioriotário as construções das duas hidrelétricas no Rio Madeira por serem imprescindíveis para o desenvolvimento econômico e social da Amazônia e em especial o de Rondônia, sem prejuízos ao meio ambiente visto a energia produzida ser um produto não poluente de potencial renovável.

Concordavam em gênero e número com o Governador, os senhores então: Deputado Federal Miguel de Souza; ministro da Previdência Social Amir Lando; presidente da Assembleia Legislativa Carlos Oliveira; Prefeito Municipal/PVH Carlinhos Camurça; presidente da Câmara de Vereadores/PVH Sílvio Gualberto; Presidente da Federação das Indústrias/RO Júlio Miranda; presidente da Federação do Comércio/RO, Francisco Teixeira Linhares, em pronunciamentos publicados no Jornal Alto Madeira, edição de 27 de Julho de 2004. Simples balelas sem embasamentos técnicos ou científicos, aplaudidas por mais de 80% da população ludibriada pela propaganda enganosa alardeando só os bens propiciados ao Estado.

O Jornal Alto Madeira, edição de 13 de maio de 2007 publicou um artigo intitulado “Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau do Rio Madeira”, sobre a contestação à exposição de dois conferencistas das empresas, reiterando os benefícios supramencionados, em evento especial realizado pela Escola do Legislativo. Artigo republicado na edição de 06 de Janeiro de 2009, do mesmo Jornal, tendo acrescido no seu título os termos “O Novo El Dourado Começou”, fazendo referência à mortandade de seis toneladas de peixes em Santo Antônio, consideradas pelos empreendedores como simples acidente, sem agravante à natureza, assertiva acatada pela conivência dos órgãos oficiais competentes. Entretanto, na mesma ocasião era preso um agricultor por prática de crime inafiançável, agressão ao meio ambiente, sendo prova do delito os restos mortais de uma cotia numa panela, e uma espingarda velha encontrada  na sua barraca no interior da floresta.

Em resumo, os dois artigos, contradiziam as afirmações divulgadas em debate oral, posteriormente publicado, contestando-as por suas improcedências e falta de transparência nas suas informações de esclarecimento ao público em geral, tais como que:

1-    Os milhares de empregos previstos em sua maioria serão destinados a mão-de-obra não qualificada  e a especializada será importada;

2-    A arrecadação monetária gerada de ICMS e royalty como prevista, provavelmente não compensará os danos causados à natureza (solo, flora, e fauna), assim como a tradicional população ribeirinha;

3-    A propalada construção da hidrovia tornando o Rio Madeira totalmente navegável, não passa de balela, visto as construções das hidrelétricas afirmarem que o nível de suas águas será mantido permanentemente no máximo da cheia. Assim sendo sua navegabilidade permanecerá como atualmente, sem obstáculos, no trecho entre Santo Antônio e sua foz na margem direita do Rio Amazonas;

4-    A comprometida conservação da flora, da fauna e o mínimo impacto ambiental não passam de intenções porque se o Rio Madeira tiver suas águas mantidas no nível da enchente, basta isto para ocasionar irreparáveis danos ambientais extinguindo a floresta ciliar de suas margens e sua fauna programadas a viverem um período de tempo na água e outro na seca, correspondentes à enchente e á vazante do rio. O mesmo ocorrendo com os meios de sobrevivência dos moradores de suas varzeas.

No decorrer da exposição da minha contraditória ressaltei a necessidade de serem conhecidos e avaliados as características do rio Madeira, dos seus formadores, e de seus afluentes, a constituição do solo de seus vales, o volume e o regime das precipitações atmosféricas entre outras condições fisiograficas, para a realização de qualquer construção no rio.

Por exemplo , o Rio Madeira no período da vazante (abril/setembro) o volume do seu débito se reduz a 4.000 m³ de água por segundo, no da enchente (outubro/maio) o volume cresce dez vezes mais, atingindo o débito de 40.000 m³ por segundo ( 4.000m³ x 10 = 40.000m³). Assim se for mantido o volume de 40.000m³, quando ocorrer o período regular das enchentes, este atingirá 80.000m³ (40.000m³ + 40.000m³ = 80.000 m³). As suas água, as quais nas maiores enchentes, no máximo atingiam a rua Rogerio Weber, com o novo regime, atingirão a rua Prudente de Morais, na área central da cidade. O conferencista discordou, sugeri-lhe gestionar junto à empresa patrocinar a prefeitura ou o governo estadual, a modificarem o projeto da construção da avenida Beira Rio no trecho entre o Museu da Madeira-Mamoré e Santo Antônio, substituindo-o pela da Muralhar Beira Rio, da contenção das águas das futuras enchentes do Madeira.

Sete anos após as publicações destas matérias, o Rio Madeira tendo sua enchente coincidindo com as dos rios bolivianos, Mamoré e Beni, e a do Peruano, Madre de Deus, afluente do segundo, todos com nascentes na Cordilheiras dos Andes, com desgelo  do verão e mais as chuvas, torrenciais do ano atípico de 2013, no qual não teve estio, prosseguindo com os do início deste ano, somando-se as àguas do Rio Guaporé, todo este aguaceiro direto ou indiretamente, escoando para o Madeira, além da redução da velocidade de sua corrente (31 milhas marítimas) pelas barragens das hidrelétricas, avolumando suas águas e o fazendo transbordar, alagando suas margens. Em Porto Velho chegando a rua Campos Sales, por falta da construção da muralha Beira Rio. Plagiando Drummond, e agora Dilma? Quem paga os prejuízos.
 

ABNAEL MACHADO DE LIMA

Membro do Instituto Histórico e Geografia/RO.