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Muita força e trabalho duro para transmitir jogos em Porto Velho

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Lúcio Albuquerque, membro da ACLER
Texto faz parte do livro “O Telefone de Deus”, em fase de edição
Publicado no site gentedeopiniaao.com.br

No início da década de 1960 Porto Velho ganhava sua segunda emissora de rádio, a Caiari, hoje a mais antiga em atividade no Estado. Mas a primeira emissora foi a “Difusora do Guaporé”, que funcionou durante algum tempo na década de 1950 e depois saiu do ar, antes da Caiari ser inaugurada.
                O eletricista e radialista Enéas Martins fez parte das primeiras transmissões esportivas da Caiari, e trabalhou também como jornalista esportivo no período 1976/1979 no jornal A Tribuna, onde nos dias de jogos dos campeonatos regionais e nacionais ele ficava ouvindo rádio fora do prédio captando os resultados que depois eram transformados pelo jornalista Ivan Marrocos no resumo que sairia no dia seguinte – o jornal a Tribuna foi o primeiro local a circular de domingo a domingo.
                Enéas contava sempre como trabalhava na equipe técnica da Caiari, responsável pelo funcionamento dos equipamentos durante as transmissões. Competia a ele, contava, manter conectada a cabine de locução com o estúdio, mas não era como atualmente.
                “Nos dias de jogos, fosse de dia ou de noite, tinha de estender a fiação de poste a poste, desde o estúdio ao local dos jogos, carregando uma escada, um pacote de cabos de fios, e mais as ferramentas necessárias, era um trabalheira danada”.
                Fizesse chuva ou sol, Enéas saía esticando os fios para que a transmissão acontecesse. E quando durante a narração acontecesse qualquer problema era a hora dele pegar a escada e todo o restante do material  para verificar, poste a poste, aonde estava a dificuldade e saná-la.

Morreu o prisioneiro 46664 – o homem de sete nomes

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Lúcio Albuquerque, membro da ACLER
Texto faz parte do livro “O Telefone de Deus”, em fase de edição
Publicado no site gentedeopiniaao.com.br

Sete, não. Ele teve oito nomes, dentre os quais um número. Mas tornou-se, em sua luta contra a segregação racial, num dos líderes mais importantes da humanidade – e alcançou essa posição não por cotas ou outro artifício tão em moda no Brasil onde colocam de lado a meritocracia para se manter no poder. Seu nome? Mandela, mas pode chamar de Tata, Nelson, Madiba, Khulu, Dalibhunga e  Rolihlahla. Ou, como na prisão de Robben Island, onde ele ficou mais de 25 anos e o chamavam os carcereiros apenas como Prisioneiro 46664.

Neste dia 5 de dezembro o mundo ficou muito menor: morreu com mais de 95 anos de idade o homem que recebeu ao nascer o nome de Rolihlahla, que traduzido pode significar “aquele que traz  problemas”, mas cujo trabalho a favor da igualdade racial deu-lhe outra denominação, Dalibhunga, que significa «criador ou fundador da conciliação, do diálogo» (*).
Primeira criança negra em sua aldeia a estudar na escola normal, o futuro Prisioneiro 46664 foi também o primeiro advogado negro da África do Sul e seu primeiro presidente não branco e, apesar de quando em sua juventude ter se filiado a um partido que defendia a luta armada contra o apartheide passou a defender, ainda que em conflito com alguns antigos companheiros (leia “Mandela – conversas que tive comigo”), o diálogo e o entendimento para chegar ao bem comum.

Único ser humano que tem uma data particular concedida pela ONU (Organização das Nações Unidas) – 18 de julho, data do aniversário dele, é o Dia Internacional Nelson Mandela, quando se viu livre da prisão e foi eleito presidente de sua nação, o Prisioneiro 46664 não usou de benefícios a segmentos mais humildes para manter-se e a seus companheiros no poder e nem foi outra vez candidato a presidente, exemplo para tantos dirigentes (SIC!) mundiais que fazem da ascensão ao poder um modo de  vida e/ou uma capitania hereditária.
Mandela teve vários grandes méritos não seguido por muitos que o elogiam. Nunca mudou o discurso para beneficiar a si e seus companheiros – o que é comum em alguns que chegam ao poder; e, ainda,  comandou a transição do regime de minoria no comando, o apartheid, para o sistema do “um homem, um voto”, ganhando respeito internacional por sua luta em prol da reconciliação interna e externa.

E, ainda, uma forte arma usada por ele para promover a reconciliação – isso pode ser considerado milagre? – foi fazer que os discriminados (não só negros, mas também membros de diversas outras etnias incluídos brancos que não concordavam com a segregação)   gostassem do esporte preferido dos brancos, o rugby, fazendo ação política com o esporte, tornando Francois Pienaar (veja o filme Invictus) o “capitão” de equipe mais famoso dentre tantos outros atletas que tenham ocupado tal função nos mais diversos esportes.
 
VEJA A SEGUIR OS MUITOS NOMES DE MANDELA:

1 – Rolihlahla (*)

Quando nasceu foi chamado Rolihlahla Mandela pelo pai (Nkosi Mphakanyiswa Gadla Henry). Em Xhosa, Rolihlahla significa «que traz problemas».
2 – Nelson
O nome Nelson foi-lhe atribuído na Escola Primária. De acordo com a Fundação Nelson Mandela foi-lhe dado pela professora no primeiro dia de aulas em Qunu,e não se sabe de alguma razão especial, apenas que era um nome muito popular na altura.
3 – Madiba
Madiba é o nome do clã Thembu a que Mandela pertence. Foi também o nome de um chefe Thembu no século XIX. Chamar Madiba a Mandela é sinal de carinho e respeito.
4 – Tata
Significa «pai» em Xhosa. Como é considerado o pai da democracia na África do Sul, Mandela é carinhosamente tartado por «Tata».
5 – Khulu
Em Xhosa, Khulu é uma abreviatura de «uBawomkhulu», que significa «avô» e também é sinónimo de grande e supremo. É mais uma forma carinhosa de se referirem a Mandela.
6 – Dalibhunga
Aos 16 anos, Mandela foi iniciado na vida adulta numa cerimónia tradicional Xhosa em que recebeu o nome de Dalibhunga, que significa «criador ou fundador da conciliação, do diálogo». Usado no cumprimento deve ser precedido por «Aaah!», «Aaah! Dalibhunga».

POR QUE A JACARÉ FÊMEA MUDOU O NINHO MAIS PARA CIMA?

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Lúcio Albuquerque, membro da ACLER
Texto faz parte do livro “O Telefone de Deus”, em fase de edição
Publicado no site gentedeopiniaao.com.br em abril de 2014, período da imensa cheia do Rio Madeira

Há coisa de dois meses ouvi dois funcionários, da área ambiental de uma construtora, conversando sobre os motivos que levaram um jacaré fêmea a mudar, “mais para cima” os ovos do ninho que construíra nas proximidades da usina. Os dois pareciam aturdidos com a situação, coisa que qualquer caboclo amazônico sabe de cor.

São fatos que acontecem na natureza e a quem não está afeito parece maluquice, como quando elefantes e outros animais fugiram em direção aos morros, uma hora antes do tsunami que destroçou e matou muita gente na Ásia, há alguns anos.
Há alguns anos, fazendo matéria sobre enchente braba, ouvi de um morador nas proximidades de Autazes, no Amazonas, uma lição que não esqueci: o caramujo vai subindo na árvore conforme o rio enche.

Quando ele sente que a água não vai passar de determinado ponto o caracol, como muitos chamam o molusco, para de subir. Fotografei o local da árvore e duas semanas depois retornei ao mesmo lugar. A marca da água na árvore mostrava até onde a cheia chegara e já começava a baixar. De outra contaram que quando a “barca” da bacaba cai com a “boca” para cima é sinal que a cheia vem forte. Tenho ouvido muitas citações, de pessoas com experiência maior na natureza, de que há muitos casos em que é só observar a reação dos animais e das plantas para saber se acontecerá verão forte ou inverno forte.

Aqui, qualquer morador mais antigo sabe que quando os Andes bolivianos têm verão muito forte, e quando chove muito no Rio Beni, aí teremos inverno pesado. Mas nada disso é colocado na pauta de quem prefere o “achismo” ou ver a coisa de uma maneira só nessa questão da cheia.

Por que não se questiona a razão dos governos estadual e municipal – que desde a metade da década passada sabiam e recebiam recursos das construtoras da usinas, por que seus gestores não se preocuparam em aplicar projetos para prevenir o que estamos vendo atualmente? Aonde foi o dinheiro?

Sim, ia-me esquecendo: a jacaré fêmea muda para mais alto seu ninho porque pressente que o inverno vai ser forte, a enchente vem grande e se deixar o ninho onde construiu inicialmente sua ninhada corre risco de ser destruída.

A LISTA DE SCHLINDER E A LISTA DE JANOT

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Há um paradoxo histórico entre a lista de Oscar Schlinder e a do Procurador Geral da República Rodrigo Janot. Enquanto o empresário alemão salvou dos campos de concentração e consequentemente da morte mais de mil judeus durante o holocausto, empregando-os em sua fábrica, a lista de Janot contem mais de setenta nomes que deverão ser julgados e processados, dentre os quais parlamentares de diferentes siglas partidárias da base governista e que, pelo contrário, poderão até ficar sem os seus respectivos empregos. Enquanto Schlinder empregava os judeus para livrá-los de Hitler, Janot os leva para a guilhotina. Entregue ontem ao STF, a lista de Janot causou  mal estar e desconforto no Concresso. Correram rumores na mídia que os chefes das duas casas, ou seja Renan Calheiros e Eduardo Cunha, estavam na lista de Janot. Imediatamente o Presidente do Senado e da Câmara se apressaram em desmentir que teriam sido avisados da inclusão de seus nomes na maldita lista de Janot.

No final da tarde um grupo de ativistas se aglomerou nos portões de Janot, pedindo justiça e moralidade para soerguer o País do caos da corrupção que se encontra. Apesar da promessa do Procurador de que os culpados serão processados até o fim e punidos  com todo o rigor da lei, ficou muito controverso quando alguns ministros do STF já se manifestaram contra a quebra do sigilo processual, impedindo assim que a sociedade tome conhecimento dos nomes de parlamentares envolvidos no esquema do petrolão. A julgar pelas decisões  da suprema corte, tudo se pode esperar, inclusive nada! Que saudades do ministro Joaquim Barbosa!                 

Mas, voltando a lista de Schlindler e a de Janot, ambas tem um ponto de convergência: enquanto a primeira abriga e salva judeus do holocausto, a segunda abriga e pode salvar o sonho do povo brasileiro, depurando o Congresso  de abutres que são eleitos apenas  para trabalhar em benefício próprio, insuflando cada vez mais as assas da corrupção. Coitada da Petrobrás!…  

Madeira-Mamoré: um patrimônio em ruínas

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Por Dante Ribeiro da Fonseca

Tenho acompanhado desde o ano passado a triste realidade do que restou do patrimônio da ferrovia Madeira-Mamoré. Vou repetir aqui as palavras do jornalista Carlos Chagas: no Brasil o dia seguinte pode ser bem pior que o anterior. A ferrovia foi desativada no início dos anos setenta, juntamente com outras ferrovias brasileiras. Mas no início dos anos oitenta um grande seminário promovido pelo SPAHN e realizado em meio a grande entusiasmo, indicou os rumos de sua reativação. No governo do inesquecível governador Jorge Teixeira de Oliveira o que restou da ferrovia foi restaurado e colocado a funcionar para finalidades turísticas. De lá para cá somente temos visto uma cruel e lenta decadência desse patrimônio que ações epiléticas e inacabadas não conseguiram conter. Incapacidade e descaso somados são poucas das qualidades que podemos evocar para descrever aqueles responsáveis por esse patrimônio que, juntamente com o Forte Príncipe da Beira, é um dos mais importantes do nosso estado. Nossos dois mais representativos patrimônios estão em condições desiguais, o Forte, mais antigo e sob a guarda da 17ª. BIS está protegido, os dois pátios da Madeira-Mamoré, mais novos, estão em condições relativamente muito piores. Parece que em pouco nada deles restará. Guardadas as devidas proporções de antiguidade, esses patrimônio constituem o cerne de nossa identidade rondoniense, são para nós como as pirâmides para os egípcios. Imaginem vocês se o governo francês permitir que o Palácio do Louvre fique no estado em que está a Madeira-Mamoré? Certamente a reação do povo seria outra.

Publicado no jornal O Alto Madeira de 22/02/2015

Passado e Presente: O Entrudo

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Corria o ano de 1846 quando certo comerciante inglês desembarcou no Rio de Janeiro para visitar seu irmão, que ali vivia. Em dado momento de sua estada começou a observar no comércio a exibição de estranhas mercadorias. Tratava-se de bolas e frutas coloridas de cera. Havia também cilindros de papel contendo polvilho de macaxeira. Dias depois, sentado à mesa do café viu um residentes aproximar-se sorrateiramente por trás de um senhor e despejar sobre sua cabeça o conteúdo de dois daqueles cilindros. Durante todo aquele dia presenciou pessoas enfarinhadas por aquelas bombas de polvilho ou molhadas por artefatos coloridos cheios de liquido. Estranhamente notou que além dos jovens, senhoras e cavalheiros já maduros riam às gargalhadas daquele estranho ritual. Depois de admoestadas, essas pessoas prometiam com toda seriedade não repetir, mas quase que imediatamente atingiam com seu projéteis ao primeiro incauto que estivesse à mão.
No dia seguinte soube que haviam costurado a noite as saídas das pernas da calça de um senhor que ali morava. Ao corresponder ao cumprimento matinal esmagaram em suas mãos as tais bolas. Ao sentar-se à mesa passou a ouvir reclamações de que faltava o açúcar no café de um, já no de outro haviam colocado sal. Completamente atônito o inglês passou a presenciar, ou tomar conhecimento, de outras loucuras. Determinado indivíduo roubou várias aves de um vizinho e depois o convidou para janta-las. O outro convidou amigos para uma refeição, na hora de se servirem perceberam que o pernil era de madeira e os pastéis recheados com areia. E as brincadeiras eram infindáveis. Uma delas consistia a enviar portador de um recado cujo conteúdo desconhecia, o destinatário ao abrir o bilhete lia: “Envie o tolo para o senhor B. e peça-lhe para enviá-lo a outro, com o mesmo pedido!” Ficava assim o pobre para cima e para baixo.
A cidade estava enlouquecida, a algazarra e a hilaridade tomavam conta de todos. Soube então o nosso comerciante inglês, que se chamava Thomas Ewbank, que aquilo era o entrudo, antepassado do nosso carnaval. De entrudo para carnaval muito mudou, mas não a essência. Como naquela época o carnaval ainda hoje é o momento para colocar de lado as convenções sociais. No entrudo pessoas sérias poderiam mentir por diversão, assim como hoje homens sérios podem se fantasiar de mulher. Também o entrudo era festejado na Amazônia nessa época, pois informa Walsh que no Rio de Janeiro se usavam algumas seringas de lata para esguichar água nos passantes, mas no Pará já naquela época esses artefatos eram fabricados com borracha utilizados por todos: índios, negros e brancos.

Publicado no jornal O Alto Madeira de 15/02/2015

Esron Penha de Menezes e a História de Rondônia

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Por Dante Ribeiro da Fonseca

Se vivo fosse Esron Penha de Menezes completaria no dia 27 próximo passado cem anos de idade. Essa data merece ser lembrada em justa homenagem a um cidadão que no curso de sua longa vida muito contribuiu para a formação do Estado de Rondônia. Contudo, queremos aqui ressaltar aquele que foi, talvez, seu maior legado: o registro de eventos relativos à História de Rondônia.
Esron iniciou a escrever sobre o assunto nos jornais aqui existentes na época: o Alto Madeira e O Guaporé. Intitulou essas crônicas de História Antiga. Em 1980 lançou sua obra Retalhos para a História de Rondônia (Manaus: Imprensa Oficial do Estado do Amazonas, 1980). Nessa obra, Esron uniu-se ao grupo de pioneiros no registro de nossa História. Eram pioneiros pois constituíam-se em, homens radicados e publicando no então Território Federal de Rondônia/Guaporé. Seus retalhos foram publicados no ano anterior à transformação do Território em Estado. Dizemos que se uniu aos pioneiros porque a primeira obra publicada sobre essa temática por indivíduo aqui radicado é de iniciativa oficial. Foi o livro Achegas para a história de Porto Velho, de Antonio Cantanhede (Manaus: Seção de Artes Gráficas da Escola Técnica de Manaus, 1950), feita a pedido do governador do então Território. A segunda obra foi Reminiscências da MADMAMRLY e outras mais do ferroviário Hugo Ferreira (Porto Velho: s/ed., 1969). Em meados da década de 80, mais precisamente no ano de 1985, o então deputado estadual Ângelo Angelim fez aprovar uma lei que instituía a obrigatoriedade do ensino de História e Geografia de Rondônia nas escolas de 1º. e 2º. Graus. Naquele ano, de obra aqui escrita e publicada, apenas essas três e mais No Rastro dos Pioneiros: um pouco da história rondoniana Amizael Gomes da Silva, lançada em 1984 (Porto Velho. SEDUC, 1984).
A circunstância em que o livro de Esron foi escrito diz muito do ambiente intelectual de Rondônia daquela época, pois como vimos pouco se escrevia sobre a História dessa parte do Brasil, e menos ainda se publicava. Tanto assim é que tanto Cantanhede como Esron escreveram estimulados pelo poder executivo, territorial e municipal respectivamente. Em 1978 a prefeitura de Porto Velho instituiu um concurso de monografia sobre a História do Município. Concorreu somente Esron, porém, não conquistou o prêmio. A comissão encarregada de julgar os trabalhos do concurso avaliou a monografia de Esron em termos depreciativos.
Contudo, estimulado por outras pessoas, passou a preparar o trabalho para publicação. O título da obra é assimilado de uma crítica recebida pelo autor, onde o crítico dizia que aquele trabalho não passava de meros retalhos, não se configurando obra de História. Isso ouvi do próprio Esron. Apesar do desestímulo encontrado em alguns a obra foi publicada. Esron Menezes nunca se pretendeu historiador, reconhecia suas carências nessa área. Esperava apenas que sua obra fosse útil aos professores e alunos das escolas de Porto Velho. A realidade foi mais além do que os seus desejos. Retalhos, apesar da crítica esnobe de alguns é um livro de História, mas não daquela História acadêmica. O fato é que não existe somente uma forma de História, mas várias. Ao determinar-se a registrar alguns eventos legou-nos um trabalho que cumpriu a principal tarefa de toda obra publicada, foi útil. Dizemos que foi útil não apenas no sentido das pretensões do autor, mas também porque serviu como fonte de informações para inúmeros trabalhos, inclusive acadêmicos. Assim é que Retalhos continua presente e atual, e continuará a ser consultado.
Considerada sua obra jornalística, dizemos que representa também um valioso contributo para a nossa História naquela parte onde o autor é testemunha ocular, da percepção subjetiva de um homem que viveu nossa história por quase um século. A propósito dessa sua contribuição penso que seria de bom alvitre compilar esses artigos jornalísticos em livro, pois essa obra seria de utilidade para professores e pesquisadores. Hoje, quando muito se escreve em Rondônia sobre sua História, devemos nossas homenagens e pleito de gratidão a homens como Esron Menezes. Esses homens, sem as comodidades de acesso à documentação, sem a possibilidade de um treinamento qualificado, enfim, em quase absoluta carência de meios, mas não de vontade, registraram de forma autodidata e do melhor modo que podiam, a História de Rondônia.

Publicado no jornal O Alto Madeira de 18/01/2015

Passado e presente: Um povo indolente?

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Por Dante Ribeiro da Fonseca

Em 1867 D. Pedro II convidou aos engenheiros alemães Joseph e Franz Keller para investigar como facilitar a navegação entre o Brasil e a Bolívia nas cachoeiras do rio Madeira. Foi a primeira comissão que realizou esse estudo. Resultou daí a obra: Os rios Amazonas e Madeira: esboços e descrições do caderno de um explorador, de Franz (filho de Joseph), publicada em inglês na Filadélfia em 1875.
Conta Keller que ele e o pai seguiram de navio a vapor para Manaus. Dali não havia linha de vapores para o Madeira, sendo esse trajeto feito por ubás, canoas feitas de um só tronco de árvore. As dificuldades em adquiri-las iniciaram a exasperar a Franz. Como era comum aos estrangeiros que nos visitavam no século XIX, Keller passou então a emitir opiniões sobre o caráter do amazônida, para satisfazer suas frustrações.
Surpreendia-o ver uma região naturalmente tão rica possuir povo tão pobre. Ao ter dificuldades em encontrar mantimentos para a expedição, culpa aos caboclos e tapuios, que nada plantavam. Reconhece que pescam, mas até o pirarucu considera alimento abominável. Para piorar, não encontra naquela Manaus indígena remadores, nem oferecendo “altos salários”. A razão é a preguiça dos índios e mestiços, comprova-o um eterno balançar deles nas redes em “estado de torpor”. A situação piora quando, ao oferecer um “bom salário” para um mestiço, gente que Keller considerava sumamente atrevida, além de indolente, o topógrafo da expedição recebeu como resposta desafiadora: Volta amanhã, depois que eu vender meu peixe na cidade, e eu lhe darei o dobro se você me deixar em paz no futuro. O alemão, quando soube, ficou furioso. Não compreendeu nosso viajante a racionalidade dessa gente tão desprezada por ele. Porque iriam arrostar canseiras e perigos se estavam vivendo como sempre? Em troca de um “alto salário”? O que significaria isso para essas pessoas? Muito pouco, certamente.
Finalmente, os viajantes conseguem canoas e remadores … bolivianos, mojos e canichanas, cedidos por um comerciante de Santa Cruz de La Sierra e deixam os nossos mestiços e indígenas de Manaus em paz sem mesmo que aquele atrevido mameluco tivesse que pagá-lo para isso.
Essa visão negativa sobre o nosso povo predomina ainda hoje. Ainda hoje nossa pobreza é explicada pela preguiça. Contudo, encontramos nesse raciocínio insuficiências, assim como naquele de Keller. A primeira está em explicar como um país rico, não por causa da natureza, mas do trabalho, abriga um povo tão pobre. A segunda está em explicarmos como um povo tão indolente construiu uma economia que está entre as dez primeiras do Mundo.

Publicado no jornal O Alto Madeira de 15/022015

Major Emanuel Silvestre Amarante

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Desbravador de Rondônia

Ao ser rememorando o centenário de Porto Velho, núcleo que originou o Estado de Rondônia, mister se faz homenagear, os seus construtores rememorando suas realizações, entre essas personalidades destaca-se o Major Emmanuel Silvestre Amarante, ilustre militar do exército brasileiro, engenheiro, geografo, cartografo, explorador e sertanista. Exerceu o cargo de Diretor do Serviço Geológico e Mineralógico do Ministério da Agricultura. Ingressou como tenente na Comissão Rondon em 1907, designado auxiliar da construção da linha telegráfica de São Luiz de Cáceres a  cidade de Mato Grosso (ex-Vila Bela).

Participou das expedições de construção da Linha Telegráfica Estratégica de Mato Grosso ao Amazonas, a 1ª em 1907, entre Diamantino e o Rio Juruena (24 de junho a 20 de outubro); a  2ª em 1908 entre o Rio Juruena e a Serra do Norte (saindo de Aldeia Queimada em 24 de julho, chegando ao Rio Juruena, deste seguindo no dia 10 de setembro para Serra do Norte, a qual alcançada no dia 12 de outubro, retornando ao Rio Juruena, aí chegando no dia 29 de outubro, prosseguindo para São Luiz de Cáceres, chegando nessa cidade, no 11 de novembro).

A 3ª em 1909 entre a Serra do Norte e Santo Antônio do Rio Madeira, como encarregado do levante topográfico e abertura de picadas. Saindo da Serra do Norte no dia 12 de junho e chegando a Santo Antônio no dia 31 de dezembro.

(Descendo o Rio Jamari até sua foz e prosseguimento subindo o Rio Madeira). A partir de 1909 no espaço atual do Estado de Rondônia desenvolveu intensivas atividades entre as quais: a pacificação dos índios Kepi-Kiri-Uats habitantes do Vale do Alto Rio Comemoração de Floriano, um dos formadores do Rio Ji-Paraná; a construção de um caminho de 140 Km de extensão interligando Vilhena ao Rio Guaporé, no trecho navegado por lanchas, facilitando alcançar Guajará Mirim e Santo Antônio do Rio Madeira, este distante 762 Km de Vilhena pela Linha Telegráfica; explorou o Rio Comemoração descobrindo em seu vale áreas de extensos campos, essas da mais relevante importância por facilitar a passagem da linha telegráfica obstaculizada pela densa floresta; procede a exploração e estudos dos rios Ji-Paraná e Jamari para a correção de suas posições nas cartas geográficas, localizando-os com as devidas precisões; contestou as hipóteses de ser o Rio da Dúvida afluente dos rios Ji-Paraná e do Guaporé, defendendo ser o Rio Madeira, tese comprovada em 1914 pela expedição cientifica Roosevelt/Rondon. Explorou no período de 1912/1914, a região situada entre os postos telegráficos José Bonifácio (em Vilhena) e Presidente Afonso Pena (Ji-Paraná); procede explorações e levantamentos dos rios Candeias em 1914, Jacy Paraná em 1917, Marmelos e Maici em 1920, e Cabixi em 1921.

Em 1927 assume a Chefia da Zona Norte da Comissão Rondon, sediada na cidade de Santo Antônio do Rio Madeira, reconstruiu os postos e as estações da linha telegráfica até Pimenta Bueno.

Em 1929 realizando uma viagem de inspeção, acompanhado pelo tenente Aluízio Pinheiro Ferreira, em Cachoeira do Samuel no Rio Jamari, foi acometido por violento acesso de febre o debilitando, sendo transportado a Santo Antônio via fluvial, descendo Rio Jamari até sua foz no Rio Madeira, por este subindo até a referida cidade. Conforme transcorriam as horas o seu estado moribundo se agravava. Foi internado no hospital da Candelária, sendo diagnosticado tifo. Não resistindo, faleceu. Sendo sepultado no cemitério dos Inocentes em Porto Velho, no dia 8 de agosto de 1929.

O Major Amarante é ilustre personalidade de nossa História, pelos intestimáveis serviços prestados a Rondônia.

Abnael Machado de Lima               

ORIGEM DE PORTO VELHO – EVOLUÇÃO HISTÓRICA

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 Cronologia

1866/1870 –    Na margem direita do Rio Madeira a jusante sete quilômetros da cachoeira de Santo Antônio, foi instalado um acampamento de soldados do Regimento do Jamari, preventivo a uma invasão da Bolívia, simpática do Paraguai em guerra contra o Brasil. O local passou a ser conhecido por Porto dos Militares, retirando-se os soldados, por Porto Velho dos Militares.

1871/1872 –    Os padres franciscanos Jesualdo Macchett e mais três companheiros, vindo de São Carlos do Jamari onde residiam, estiveram por poucos dias no Porto Velho dos Militares, pretendiam instalar uma missão para catequizar os indígenas Caripunas. Porém desistiram.

         1872 –    O local foi ocupado por agricultores sitiantes e fornecedores de lenha aos navios movidos a vapor d’agua que trafegavam entre Belém/PA, Manaus/AM e Santo Antônio/MT, o denominando Ponto do Velho e Porto Velho de lenha.

        1883 –     O engenheiro Carlos Morsing chefe da Comissão Morsing indicou o Ponto Velho para ser local inicial da ferrovia a ser construída contornando as cachoeiras do Alto Madeira. O relator da Comissão , jornalista Ernesto Matoso registra o local com os nomes de Ponto Velho, Porto Velho dos Lenhadores, Porto Velho das caçadas.

1890/1907 –    O espaço do Porto do Velho compreendido entre a margem esquerda do igarapé Milagres (ao norte) e margem direita do igarapé Bueira (ao sul), o Rio Madeira (a oeste) e o limite com o Estado de Mato Grosso (ao leste), foi comprada por seiscentos mil reis, pelo coronel José da Costa Crespo, do governo do Estado do Amazonas.

         1907 –    A empresa construtora norte-americana May And Jekyl contratada por Percival Farquhar para construir a ferrovia Madeira-Mamoré, no dia 25 de junho de 1907, se instalou no Porto do Velho, local por ela escolhido para ser o ponto inicial da ferrovia. O coronel Crespo seu legitimo proprietário, protestou, contra a apropriação indevida. A questão foi submetida a decisão judicial sendo esta favorável à empresa, perdendo o coronel Crespo parte de área do seu seringal, sem nenhuma indenização monetária. Os americanos deram inicio a construção das instalações ferroviárias. Ainda em 1907, próximo a essas começa a surgir um aglomerado de barracas habitadas por pessoas sem vínculo com a empresa. Era o surgimento espontâneo do povoado de Porto Velho, não tendo este fundador individual, mas sim, fundadores anônimos.

        1913 –     Foi criado o Termo Judiciário de Porto velho por intermédio da Lei n.º 741 de 30 de outubro de 1913, sancionada pelo Dr. Jonathas de Freitas Pedrosa, governador do Estado do Amazonas. Sendo instalado no povoado de Porto Velho, no dia 30 de janeiro de 1914.

        1914 –     O Decreto Estadual n.º 1.063, de 17 de março de 1914, estabeleceu os limites do Termo Judiciário de Porto Velho, os quais extensivo para o município.

        1914 –      Foi criado o Município de Porto Velho por intermédio da Lei n.º 757, de 02 de outubro de 1914, sancionada pelo Dr. Jonathas de Freitas Pedrosa, governador do Estado do Amazonas, com sede no povoado da mesma denominação. Não passou pela condição politica/administrativa de DISTRITO.

        1915 –     Instalação do Município de Porto Velho no dia 24 de janeiro de 1915, no povoado de Porto Velho.

        1917 –     Foi criada a Comarca de Porto Velho por intermédio da Lei n.º 900, de 31 de agosto de 1917 sancionada por Dr. Pedro Alcântara Bacellar, governador do estado do Amazonas.

        1919 –     Foi  o povoado de Porto Velho, elevado à categoria de cidade por intermédio da Lei n.º 1011, de 07 de setembro de 1919, sancionada por DR. Pedro Alcântara Bacellar, governador do Estado do Amazonas. Não passou pela condição politica de VILA.

        1931 –     O governo federal expede o Decreto n.º 20.200, de 10 de julho de 1931, assumindo a administração da Madeira-Mamoré. O povoado ferroviário dos anglo/canadenses, gradativamente foi sendo absorvida pela cidade de Porto Velho, integrando-se ao município, extinguindo-se a duplicidade administrativa.

         1943 –    A cidade de Porto Velho foi escolhida para ser a capital do Território Federal do Guaporé, constituído por áreas desmembradas dos estados  do Amazonas e de Mato Grosso, por intermédio do Decreto –Lei n.º 5.812, de 13 de setembro de 1943, expedido pelo Presidente da República DR. Getúlio Dornelles Vargas.

        1981 –     A cidade de Porto Velho transforma-se em capital do Estado de Rondônia instituído pela Complementar n.º 41, de 22 de dezembro de 1981, sancionada pelo Presidente da República General João Batista de Figueiredo.
 

Conclusões:

                        A cidade de Porto velho, originária do povoado de Porto Velho dos brasileiros surgido a partir de 1907, elevado à categoria de cidade, no dia 07 de setembro de 1919, completou 107 anos no mês de junho de 2014.

                        O município de Porto Velho, localizado no espaço geográfico do Termo Judiciário da mesma denominação, criado em 1913, foi instituído pela Lei n.º 752, de 02 de outubro de 1914 e instalado no povoado de Porto velho, sua sede, no dia 24 de janeiro de 1915. Completou 100 anos de sua criação e em 2015, cem anos de sua instalação.