Fico curiosa com o HD de memórias que são inacessíveis à minha consciência. Sei que guardo em mim lembranças das várias fases de minha existência: a menininha que anda com sua boneca, a pré-adolescente, a adolescente problemática, a jovem adulta, a mulher de meia – idade, a mulher mais velha, enfim, um conglomerado de “personagens”, de tudo o que fui até chegar ao que me tornei hoje.
—Você gosta de passear? —Perguntei à criança. Esta então respondeu, os olhinhos brilhando:—Gosto, sim, gosto de passear de carro. — É mesmo? — Mas só tem dois carros na cidade! – Falei. Como você passeia?
—Sabe aquela rural azul e branca? — é do amigo do papai, ele leva a gente pro sítio dele; o que mais gosto de ver lá no sítio são os patinhos no lago, a gente joga farelo de pão pra eles.
E continuou a criança: —Quando eu crescer, vou ter um lago bem grande, cheio de patinhos! Eles são tão bonitinhos… A mãe vai na frente, e os patinhos seguem ela.
Depois de um salto quântico no tempo, tento lembrar-me da adolescente que fora um dia; as lembranças parecem vagas: a mais forte é aos quinze anos de idade, a terrível timidez que me torturava.
Adentro no mais profundo de minha mente e sinto o quão aquele estado de espírito me incomodava. Ficara curiosa com relação à minha persona adolescente. Até que a vejo. Está bem à minha frente.
— A senhora me conhece? — pergunta a adolescente, mascando seu chiclete de bola. —Sim, desde que nasceu; sou amiga de sua mãe—prossigo. São sete irmãs, não é?
Olhando-a melhor, percebo um ar de tristeza em seu olhar. Então, pergunto:— Você tem namorado?
Familiarizada com o impacto da lembrança cruel, olhei-a de cima abaixo: o que vi foi seu rosto harmonioso, seu sorriso bonito, seus cabelos escuros, à altura dos ombros; reparei, sobretudo, em seus grandes olhos cor de mel. Sua figura longilínea, alta e magra, encantaria as pessoas de hoje; porém, o padrão de beleza da época era muito diferente: as mulheres consideradas belas em geral eram “cheinhas”.
A conversa se estendeu um pouco mais: a mocinha falou de seu amor pelos livros e de como sua mãe parecia feliz com esta preferência. Já lera Dom Quixote, Dom Casmurro, Vidas Secas, O Pequeno Príncipe, Senhora, Vinte Mil Léguas Submarinas, Odisseia e Ilīada, e estava finalizando Os Lusíadas. Contou
que, quando era menor, conseguiu decorar quase todos os poemas de Olavo Bilac.
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Fiquei emocionada e gratificada em saber que aquela adolescente cheia de complexos já encontrara sentido para sua vida, um sentido que permanecerá até o fim de sua existência.
Nos dias subsequentes, as noites foram longas e insones; no fundo sabia por que. Era importante, àquela altura, pelo menos mais um encontro comigo mesma: o que a mulher jovem-adulta que fora em passado remoto teria a me dizer?
Penso nela e lembro-me vagamente que, naquela fase de minha vida, eu já “vencera” alguns complexos.
-— Os médicos alertam sobre os danos que o cigarro causa à saúde. — Falo à moça, preocupada.
Olhei-a com curiosidade e achei que se tornara uma bela mulher; cabelos muito longos e brilhantes, cílios enormes nos olhos delineados à la “gatinho” e um batom suave, cuja marca deixara na ponta do cigarro. Sua voz firme e agradável refletia sua personalidade forte. Lembrou-me minha mãe. Senti-me gratificada.
Já em minha cama, sorrio para ela meu melhor sorriso, mando–lhe um beijo, viro- me para o lado e procuro dormir. Estou exausta. Sinto que não preciso ouvir mais nada naquele momento; ela aprendeu a se defender e a perseguir seus objetivos. Contudo, creio que poderia ter interagido mais com “elas”.
Faltaram tantas! Uma pena. Enfim, vencida pelo cansaço e pelo sono, penso que carrego nas sombras do inconsciente todas as mulheres do mundo.
Sandra Castiel- professora, escritora, membro efetivo da Academia de Letras de Rondônia.
