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Porto Velho, 101 anos entre a ordem e o caos

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Por Dante Ribeiro da Fonseca

O município de Porto Velho fez cem anos de instalação no dia 24 de janeiro e cento e um anos de criação em dois de outubro. A criação se deu através de lei sancionada pelo governador do estado do Amazonas e a instalação ocorreu no momento da posse do seu primeiro superintendente (hoje prefeito) municipal, major do exército Fernando Guapindaia de Souza Brejense. Mas não vou ocupar o tempo do leitor com informações que ele pode encontrar aos milhares na internet e que qualquer pessoa que saiba ler e escrever pode repetir à exaustão, mudando apenas as palavras.

Creio que o principal papel da História, portanto dos profissionais dessa ciência, é fazer-nos compreender o presente.  Mas como, a História não se ocupa de estudar o passado? Perguntaria o leitor surpreso. Não exclusivamente, pois selecionamos naquele conjunto infinito de eventos passados apenas aqueles que pensamos façam-nos compreender o presente.

Assim, o tema dessa pequena digressão não será o “passado”, nem ficarei aqui repetindo informações que vocês estão já cansados de saber ou, se não sabem, encontrarão facilmente, com maior ou menor precisão factual. Não falarei dos personagens, nem dessas famosas datas que parecem ocupar obsessivamente alguns. A rigor sequer falarei do município, mas de sua cabeça, a cidade de Porto Velho. Explico, falar do município seria completar uma análise de Porto Velho debruçando-se sobre os seus distritos. O tema “histórico” que escolhi para falar dos cento e um anos do município de Porto Velho foi o caos em oposição à ordem. Sem dúvida nenhuma dialeticamente eros e tanatos complementam-se, em outras palavras o impulso criador não existe sem o impulso destruidor, o novo sobrepõe-se ao velho. Mas, nesse caso a espessura dessa camada de novo muitas vezes mal dá para encobrir o passado naquilo que ele possui de essencial, não aparente.

Nossa cidade já nasce caótica no sentido de uma confusão generalizada tanto no sentido urbano como social. Inicia por ocupar uma área contígua ao pátio ferroviário da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré contrariando as pretensões dos norte americanos construtores da ferrovia de manter afastado do seu pátio aquela horda de trabalhadores indesejáveis.  Conforme já escrevi em outro lugar, Porto Velho é em sua origem enquanto pátio ferroviário, quando comparada a Santo Antonio, Eros, o princípio ordenado e criativo, enquanto aquela tanatos, o princípio desordenado e destruidor.  Com o tempo uma povoação faz com que seu caráter sobreponha-se à outra, Porto Velho torna-se então Uma cidade à Far West.

A esse respeito, julgo pertinente reproduzir abaixo parte de meu estudo intitulado Uma cidade à Far West tradição e modernidade na origem de Porto Velho (FONSECA, Dante Ribeiro da.Estudos de História da Amazônia. 2ª. Ed.Vol. I. Porto Velho: Nova Rondoniana, 2014, pp. 13-82), como segue:

“Com surgimento da cidade de Porto Velho, no alvorecer do século XX, estabeleceu-se um núcleo de povoamento que viria revelar-se estável, apesar das crises econômicas cíclicas que depois abalaram a economia Amazônica. Como os poucos núcleos de colonização do Madeira àquela época, esta povoação agregou uma população que resistiu à débâcle do primeiro ciclo da borracha, sua razão de ser original.

Contudo, o nascimento da cidade comportou um movimento contraditório. Ao surgir, nascer e crescer, Porto Velho fez com que desaparecesse Santo Antônio do rio Madeira, povoação mais antiga, situada sete quilômetros rio acima, defronte a cachoeira de onde tirou o seu nome. Até a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré era essa a localidade de descanso das pessoas e transbordo de mercadorias dos navios a vapor para as embarcações menores, que já haviam trilhado ou iriam trilhar o trecho encachoeirado do rio Madeira.

Ao contrário das expectativas, porém, foi aquele local preterido como ponto inicial da ferrovia quando da última e bem sucedida tentativa de sua construção iniciada em 1907. A empresa concessionária decidiu iniciar o empreendimento em outro ponto, rio abaixo, pouco distante daquele povoado, alegando várias dificuldades como insalubridade, problemas com o porto, falta de espaço e, acrescentamos, aquilo que poderíamos chamar o “ambiente social” da vila.

Porto Velho era para ser o oposto de Santo Antônio. Enquanto nessa última localidade existiam estabelecimentos comerciais, que abasteciam aos passantes daquelas diversões mais antigas da humanidade: o jogo, a bebida e a prostituição; naquela nada disso deveria existir. Porto Velho deveria ser um asséptico estabelecimento industrial. Deveria ser dotado de todos os confortos e da infraestrutura necessária para manter, dentro do possível, em uma região insalubre como a do Madeira, as condições de produtividade do trabalho. Para isso seria necessário que o contingente de trabalhadores da ferrovia estivesse afastado daquele tipo de diversão que oferecia o porto rio acima. Seriam evitados assim transtornos para a administração do empreendimento.

De fato, Porto Velho era anunciada como uma cidade moderna, planejada. Mas, ao lado do espaço controlado pela ferrovia surgiu uma aglomeração que, desde o início, revelou ser o avesso de seu embrião.

A história tem os seus reveses. Se a decisão da Company fez despovoar Santo Antônio, aquela Sodoma tropical, essa povoação ao mesmo tempo em que era abandonada, transferia sua população para o Porto Velho. Tradição e modernidade superpuseram-se em uma cidade com duas faces. Houve evidente vantagem para a primeira, em função do meio ambiente circundante ao espaço urbano. Assim, o fato de a cidade ter surgido a partir de um empreendimento industrial conduz a várias confusões, dentre elas a de considerar uma cidade predominantemente moderna em seus pródromos.

Porto Velho transformou-se, conforme morria Santo Antônio, em uma cidade com duas personalidades. Sua fisionomia industrial revelou-se tão distinta daquela que se formou fora dos limites do pátio ferroviário quanto de Santo Antônio, exatamente porque a Porto Velho de fora da ferrovia parecia-se mais com Santo Antônio.

A articulação desses espaços, o moderno e o não moderno, subjugava-se, por sua vez, aos objetivos empreendedores, nada românticos, porém, de expansão do mercado mundial. A corrida dos países capitalistas centrais, nesse período, buscava incorporar os “espaços sombrios”, aptos a se tornarem mercados fornecedores de matérias-primas para suas vorazes indústrias, e consumidores dos seus produtos industrializados. Ao sonho com um mundo “homogêneo e unificado” chamava-se então imperialismo econômico, frequentemente substituído em sua “romanticidade” pela face militar, que também pode possuir uma face “romântica”, se assim o imaginarmos. Hoje, ávidos de novidade em um mundo que quanto mais se transforma mais continua o mesmo, chamamos a esse fenômeno globalização.”

Ao contrário da ilusória interpretação deixada por uma parte da historiografia, Porto Velho em sua origem apresentava um brutal choque entre modernidade e arcaísmo. Não era uma cidade moderna na Amazônia, mas possuía um moderno pátio ferroviário, frequentemente confundido com a cidade. Deixo então o leitor entregue a si mesmo. Deves, caro amigo, tirar suas próprias conclusões. Afinal, depois das usinas, do shopping e outras tantas modernidades o que prevaleceu em Porto Velho? O que subsiste sob a camada de modernidade, como as antigas demãos de tinta teimam em subsistir sob a nova pintura? A ordem ou o caos? Eros ou tanatos?

ANACONDA: A Cobra-Grande do Forte do Príncipe

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Por razões que os biólogos ainda não se preocuparam de pesquisar e explicar, embora constituindo fato corriqueiro na cultura do povo ribeirinho do Guaporé, desde o mês de agosto do ano passado, segundo o testemunho de várias pessoas, uma gigantesca cobra-grande vem aparecendo com inusitada frequência no rio Guaporé, nas cercanias do porto do Forte do Príncipe da Beira, no trecho compreendido entre o Estirão de Puerto Ustárez e a boca da Baía Redonda, já havendo sido avistada também passando em frente ao quartel do Forte do Príncipe, segundo testemunho de militares não identificados. Esses animais aquáticos de grande porte são tidos como mitos pelos cientistas do ramo, que atestam que as sucuris da Amazônia não atingem mais que dez metros de comprimento e pouco mais que uma centena de quilos, tese que os numerosos casos de avistamentos de cobras de grande porte no Guaporé desmentem frontalmente.

O polêmico assunto das serpentes aquáticas de grande porte no rio Guaporé já foi objeto de uma publicação de minha autoria intitulada Lendas do Guaporé, livro editado no ano de 2007 pela Editora Scortecci. Em tal obra, procurei resgatar os mais antigos relatos de avistamentos e de contatos acidentais com tais monstros e questionei as teorias dos biólogos que atestam que as serpentes amazônicas não ultrapassam os dez metros de comprimento, registrando inclusive a história do abate de uma dessas cobras com vinte e um metros de comprimento e de uma outra que devorou um rapaz na região do rio Blanco, na Bolívia, que mediu dezessete metros de comprimento quando foi abatida com o corpo da sua vítima nas entranhas. No entanto, como tais episódios sempre acontecem em regiões ermas, a documentação fotográfica não aparece, dando margem à descrença dos cientistas.

 Mas agora os biólogos têm uma boa oportunidade de saber se existem ou não cobras de grande porte no Guaporé, basta que se disponham a cair na pesquisa de campo nas proximidades do Forte do Príncipe da Beira munidos dos modernos equipamentos atualmente disponíveis. É quase certo que poderão estabelecer contato com a gigantesca serpente que por razões desconhecidas resolveu simplesmente ficar à vista de muitas pessoas, inclusive já tendo causado o naufrágio da canoa de um ribeirinho que esbarrou inadvertidamente no seu corpo submerso, causando o emborcamento da embarcação.

Como os pesquisadores de origem urbana dificilmente têm coragem para enfrentar situações reais de grande risco, seria o caso de instalarem câmeras de vigilância com dispositivo fotográfico para capturarem as imagens da grande serpente, já que pelos relatos do seu porte é inviável uma captura do monstro, a não ser que seja permitido o seu abate pelo IBAMA. De qualquer maneira, permita ou não o IBAMA, como a aproximação da grande serpente constitui de fato um perigo real, certamente que mais dias, menos dias a grande cobra será mesmo abatida por algum bom atirador destemido que a surpreenda nas proximidades da margem do rio.  Consta até que ela já foi espingardeada por um atirador temeroso que, aparentemente, não lhe causou dano algum, o tiro saiu errado, não havendo atingido a grande serpente.

A pergunta que se impõe agora é a seguinte: Por que a grande serpente está quebrando um paradigma dos animais da sua espécie, cujo avistamento ocorre somente em ocasiões esparsas, de anos em anos, sem regularidade nenhuma? Qual teria sido o impacto ambiental que trouxe o monstro das profundezas onde costuma ocultar-se à superfície? De que ponto exato do rio teria saído a grande serpente para perambular à superfície? Pelos mapas tradicionais das crenças dos ribeirinhos, há cobras moradoras em Porto França, no Estirão de Puerto Ustárez, em Conceição e no Polo Norte, locais relativamente próximos dos pontos onde a grande serpente aquática vem sendo avistada. As razões, ou melhor, as condições que levaram a enorme serpente a abandonar seu antigo esconderijo subaquático jamais serão conhecidas, considerando-se que a região do seu aparecimento é muito bem preservada e não sofreu nenhum grande impacto ambiental que pudesse explicar a sua estranha inquietação, pois até mesmo a navegação no rio Guaporé atualmente é muito escassa depois da abertura da BR-429 e da sua pavimentação quase total. Mas é certo que a serpente está de fato aparecendo com frequência por meses consecutivos, na estação da vazante e na estação do rio cheio, e quem quiser confirmar tal relato basta fazer uma breve visita ao Forte do Príncipe da Beira e conversar com as pessoas da comunidade. Agora não se trata mais de nenhum relato muito antigo, trata-se de assunto atualíssimo, que inclusive demanda providências do próprio poder público antes que alguém seja vitimado pelo monstro.

De qualquer modo, com alguns anos de atraso, é chegada a hora de os céticos tirarem suas dúvidas a respeito do porte das serpentes aquáticas da região do Guaporé, buscando estabelecer contato com esse raro exemplar da espécie que está ao alcance dos pesquisadores que tenham a coragem bastante para procurá-lo, pois muito provavelmente em algum momento a grande serpente vai sumir novamente nas profundezas do rio e decorrerão muitos anos antes que seja vista novamente. A hora de comprovar a inexistência delas é agora ou simplesmente renderem-se a evidência incontestável a presença de serpentes descomunais nas águas do rio Guaporé, tal como eu mesmo sustentei no livro Lendas do Guaporé

OS PRACINHAS

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Acadêmico Esron Penha de Menezes (in-memorian)

Deu-me enorme satisfação receber, logo cedo, na segunda-feira, uma relação dos nomes dos nossos heróis que, lutaram pela implantação da Democracia, nos campos da Itália, onde obtivemos inúmeras vitórias contra as aguerridas e bem armada forças nazistas, entre elas as de Fuornouvo Coccino, Castelnouvo, Monte Castelo, no vale do rio pó.

A relação trás 28 nomes: Armando Veiga, Antônio Guedes de Moura, Antônio Felipe Néri, Antenor Luiz do Nascimento, Álvaro Caetano Reis, Elisberto Fernandes Leite, Jovelino Francisco de Carvalho, João Gomes de Araújo, João Caetano da Silva, João Evaristo de Mendonça Neto, João Fabrício Matias dos Santos, José Pereira de Amorim, José Roberto da Silva, José Rodrigues, José Araújo Viana, Jair Cordovil, Jáiro de Freitas Saraiva, Joaquim Teixeira da Silva, Leopoldino Pinto de Araújo, Luiz Pereira de Alencar, Manoel Ângelo Sarmento, Manoel de Souza Braga, Pedro de Souza, Pantaleão Siqueira Lobato, Raimundo José Argolo, Rubens Joventino da Silva, Salomão Garcia Correia de Araújo e Wilson Haider do Couto.

A vocês, HEROIS BRASILEIROS, o meu respeito e a minha gratidão aos feitos da FEB e a minha saudade a outros dois heróis que mourejaram conosco na Guarda Territorial: Morvan Freire Brasil e Wanderley Lessa de Oliveira. Ambos tiveram fim trágico. O primeiro morreu afogado na cachoeira CRIMlNOSA de Jí-Paraná e o segundo no Rio de Janeiro, quando seu Volks enguiçou numa passagem ferroviária e foi colhido por um elétrico da Central do Brasil.

Lembro-me também de um desses heróis, um homem de cor escura, desequilibrado mental que foi barbaramente assassinado no bairro do Mocambo.

Quem não lembra dos destacados Coronéis Paulo Nunes Leal e Paulo Eugênio Pinto Guedes, do João Bem Dias de Moura Filho, do Barroso que foi gerente do Banco do Brasil e do Ex-governador General, Jaime Araújo dos Santos.

Também em destaque os Generais Leônidas Freire e Heitor Rodrigues que serviram na 3ª Cia. quando ainda éramos Amazonas. Na Marinha tivemos o Flodoaldo Pontes Pinto e Otavio Feliz dos Santos.

Andou por aqui tempos atrás um outro herói, o General Araken Ararê Cunha Torres e conheci no Rio, no Grande Oriente do Brasil, o General Luiz Braga Muri.

Os nascidos depois de 1945, os jovens de 40 anos não sabem nem lhes ensinam nas escolas a veneração que devemos votar a esses heróis que foram oferecer suas vidas em holocausto pela salvação da humanidade.

Quem assistir ao filme “The day after” – O dia seguinte – tem uma pálida idéia do que foram os horrores da II Grande Guerra, onde proliferavam os campos de concentração, melhor chamados de a ante-sala do inferno.

Os 21 navios que foram torpedeados nas Costas brasileiras provocaram desespero para os viajantes. Mas, Mascarenhas de Moraes, Castelo Branco, Nélson de Melo, Sagadas Viana, Cordeiro de Farias, Zenóbio da Costa, Sizeno Sarmento Falconieri, e outros escreveram nas paginas da história gestos magníficos de bravura e de amor a espécie humana, enquanto Nero Moura rasgando os ares com o famoso 1º Grupo de Caça- O SENTA A PUA mostrava aos alemães o valor da raça brasileira.

Eu sou do tempo desses heróis. Por isso os venero.

Falando com o Diretor Euro Tourinho, do jornal Alto Madeira, também daqueles idos, incentivou-me ele a escrever esta pagina para saudar os heróis da II Grande Guerra que moram em Porto Velho.

“A cobra esta fumando ainda…”.
Brasileiros de ontem, nosso respeito!

Porto Velho Boêmio

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Porto velho desde seus primórdios surgida em 1907 implantada na barranca da margem direita do Rio Madeira por pioneiros anônimos e os estrangeiros construtores da ferrovia Madeira-Mamoré, era cosmopolita nela convivendo gente oriunda de todos os recantos do Brasil e do mundo com suas virtudes e seus defeitos, seus idiomas e credos religiosos, seus cardápios alimentares e suas formas de lazer.

Dividida em dois setores, o povoado dos norte-americanos e o povoado dos brasileiros. O primeiro, em 1913 com destituição de Farquhar da presidência da empresa passou ao controle dos anglos canadenses maiores acionistas, sob a presidência do Mr. Cameron Forbes. Primava pela organização e a moralidade, não sendo admitidos desvios de conduta comportamento imposto, a ser cumprido pelos contratados trabalhadores e funcionários subalternos. Era, entretanto o núcleo dos hipócritas puritanos prevalecendo a regra do “faça o que mando, não faça o que eu faço” visto que a elite administrativa e empresarial a noite se divertiam no cassino Panigai do italiano Marcos Panigai, jantando cardápios variados regados a finas bebidas, em companhia de formosas mulheres francesas, italianas, polonesas, espanholas e brasileiras da equipe do cassino, com essas dançando ao som dos ritmos em moda, até a madrugada chegar. Os trabalhadores se divertiam nos fins de semana na vizinha Santo Antônio.

O segundo, o povoado de Porto Velho dos brasileiros, reinava a desordenada improvisação. Porém neste não havia a falsa ética da decência dos lobos transfigurados em cordeiros. Cada qual vivia como entendia, agindo de acordo com o que lhe convinha. O polo de diversão era o Teatro Fênix funcionando 24 horas, com restaurante, carteada, cinema, apresentações de peças teatrais e festas dançantes com muitas mulheres e bebidas a vontade, desde que pagas.

O povoado dos brasileiros, Porto Velho, em 1914 passou a sediar o município da mesma denominação, e em 1919 elevado à categoria de cidade.

A boemia acompanhava a evolução urbana e econômica se sofisticando. O Café Central com pianista peruano eximo executor de musicas clássicas e de ritmos populares dançados por sua equipe de mulheres com sua promiscua freguesia constituída por cassacos, estivadores, seringueiros, operários, advogados, engenheiros, comerciantes, seringalistas e desocupados, todos ávidos por prazeres e sexo. Tomou o lugar do Fênix.

O Panigai se transformou no clube Internacional frequentado pela elite social, os categas e as selecionadas moças casadouras filhas das distintas famílias. Era ilha de fineza, intelectualidade e cultura.

Também surgiram casas especializadas de atendimento à demanda com música, bebidas danças e aprazíveis noitadas nos aconchegos das jovens mulheres importadas de Manaus, Belém, Rio Branco e da Bolívia.

Em julho de 1931 os gringos abandonaram a Madeira-Mamoré, o governo federal assumiu sua administração, a ferrovia sempre foi brasileira, era apenas arrendada por um prazo de 60 (sessenta) anos a Farquhar. As Porto Velhos unificaram-se expandindo o espaço urbano da brasileira e o de sua boemia. Na segunda Guerra Mundial com a revitalização dos seringais, ocorreu a circulação de um vultuoso capital, ensejando a ampliação das casas comerciais de todos os seguimentos, os investimentos em construções civil e outros diversos empreendimentos empresariais inclusive em cabarés apelidados por pensão¹ financiados pelos seringalistas, aumentando em quantidade para o prazer dos boêmios e outros aficionados. As jovens cuiabanas, goianas, sulistas, além das nordestinas e nortistas começaram achegar a Porto Velho enriquecendo as equipes das pensões. No quadrilátero compreendido entre as atuais avenidas Carlos Gomes (ao norte), 7 de Setembro (ao Sul) Marechal Deodoro (ao Leste) e Campos Sales (ao Oeste), atravessando pela rua Tenreiro aranha no sentido norte/sul e as ruas Dom Pedro II e Afonso Pena no sentido leste/oeste, ficam as pensões grã-finas, a da Maria Eunice na rua Tenreiro Aranha esquina com a Dom Pedro II; a da Anita na rua Dom Pedro II, a Paranaense (transferida para a madame Elvira famosa Tatá) na Afonso Pena esquina com a Marechal Deodoro. Era a quadra do pecado, morada dos devasso, como lhe alcunhavam as pudicas beatas. Outras casas do prazer sendo instaladas nos subúrbios, a Iracema, a Delicia, o Tambaqui de Ouro, o Seringal, a concorrida Nara, as boates Casa Amarela, Céu, Taba do Cacique, Araríboia, Seresteiro e outras. Os bares proliferaram, porém o Central do João Barril mantinha sua tradição e preferência.

Entre os boêmios havia os seresteiros, os quais nas noites enluaradas de plenilúnio faziam suas serestas em frente as moradas de suas prediletas, inclusive do Colégio Maria Auxiliadora repleto de belas jovens internas provenientes de diversas localidades.

Dedilhavam os seus plangentes violões, entoavam harmoniosas e românticas canções, fazendo pulsar acelerados os corações de suas emocionadas ouvintes.

A provinciana e bucólica Porto Velho transformou-se em próspero centro econômico, politico e social.

A sociedade evoluiu estruturalmente e em postura cultural. As manifestações boêmias em suas formas também, as pensões foram substituídas pelos motéis, os clubes sociais com suas festas e bailes de gala, por casas populares de dança de ingresso pago, predominando o forró. Os seresteiros emudeceram substituídos pela televisão.

O que passou, passou, não volta mais. Não adianta chorar sobre o leite derramado.

1- Apelido originado em decorrência das mulheres residirem no cabaré, em apartamentos individuais e fazerem suas refeições no local de trabalho.

DIRETO DA CÁPSULA DO TEMPO

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Professoras e formandas em Magistério. A terceira da esquerda para a direita na frente é a professora Marise Castiel

Parece que há tão pouco éramos aquelas jovens cujos rostos sorridentes reconheço na foto de época que um amigo postou há alguns dias nas redes sociais. Reconheço-lhes o olhar vivaz, o sorriso franco, o semblante sereno de quem não sabia o que estava por vir; tínhamos todas a inocência dos ignorantes: Glorinha, Márcia, Ana, Célia, Vanilde, Goianir, Nazaré e tantas outras; havia em nossa turma apenas um rapaz, o Ademar.

Éramos jovens do nosso tempo e, seguindo os costumes, namorávamos no portão de casa, reuníamo-nos na pracinha do bairro para ouvir, numa vitrola de plástico, os sucessos de Chico Buarque e Roberto Carlos, os ídolos de então. Embalávamos nossos sonhos românticos ao ritmo dos Beatles e da Jovem Guarda.

Cultivávamos carinhosamente um hábito da época: manter, guardado a sete chaves, um objeto que era motivo de mimo e de grande orgulho, o Álbum de Recordações. Ali, os colegas escolhidos registravam palavras doces e pensamentos filosóficos sem se dar conta de que estavam participando do que, na verdade, era uma verdadeira cápsula do tempo. E não é que a imagem de nossos rostos jovens na foto antiga levou-me a vasculhar a velha caixa de madeira que protege algumas das relíquias de minha vida, dentre as quais o meu Álbum de Recordações?

Letras manuscritas tão delicadas, arabescos bordados em linho branco no lencinho em ponto de cruz, pérolas dos meus dezoito anos, sonhos tão inocentes…

Prefiro lembrar-me de como éramos a pensar no que nos tornamos ou nos efeitos das vivências e do tempo sobre nós. Que continuemos com a imagem umas das outras do jeitinho que éramos nos idos de 1970. É melhor que façamos de conta que somos todas inocentes e que vamos nos manter livres das maldades do mundo; é melhor que façamos de conta que temos uma vida inteira pela frente, que vamos todas nos casar com o príncipe dos nossos sonhos, que formaremos uma família perfeita e que seremos felizes para sempre…

Acriânia: a Revolução do Acre e a Ferrovia Madeira-Mamoré por Emanuel Pontes Pinto

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Coube-me a distinta honra de prefaciar a obra que agora segue. Porém a escolha do autor atribuiu-me uma responsabilidade enorme. Não é tarefa fácil prefaciar Emanuel Pontes Pinto por ser ele um profundo conhecedor das coisas da Amazônia. Embora a tarefa seja difícil vou intentar realizá-la da melhor maneira que minhas possibilidades permitem. Agradecendo ao autor pela sua escolha peço antecipadamente desculpas, assim como aos leitores, por qualquer deslize que venha eventualmente este prefaciador cometer. Como iniciar esse prefácio? Comecemos falando do autor e de sua obra. Mestre duas vezes: por merecimento e esforço pessoal como dedicado pesquisador da História da Amazônia, particularmente de Rondônia, e mestre por titulação obtida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A essa maestria une a experiência de vida. Prova-o a forma como gosta de ser reconhecido: paroara ou marupiara, em outras palavras elemento profundamente adaptado à vida amazônica. Dessa experiência, a vida no seringal e a militância política, dotam-no de um instrumental privilegiado para a análise da nossa História que une ao conhecimento acadêmico. Acriânia é a sua mais recente obra de um conjunto sobre o qual falaremos a seguir.

Após abordar com profundidade temas como a formação histórica de Rondônia, as minas de Urucumacuã, o plano de navegação do rio Madeira no final do século XVIII, os quais são encontrados nos seus livros já publicados, oferece-nos agora sua Acriânia. A obra do autor revela a busca incessante do trabalho bem acabado. Lembra Profissão de fé, de Olavo Bilac:

E horas sem conta passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.
Porque o escrever – tanta perícia,
Tanta requer,
Que ofício tal… nem há notícia
De outro qualquer.

Da mesma forma que o ourives/escritor de Bilac, quando escreve o autor dá a palavra o alto-relevo que a torna uma flor ou a transmuta em pedra preciosa, que engasta na jóia de sua inteligência desta nossa querida Amazônia. Essa jóia iniciou sua confecção, sob a forma de publicações, há coisa de trinta anos quando escreveu Caiari: lendas, proto-história e história, publicado em 1986. Três anos depois publicou Forte Príncipe da Beira: símbolo da conquista e dominação do vale do Guaporé. A essas, seguiram-se outras obras como Rondônia, evolução histórica: a criação do Território Federal do Guaporé‚ fator de integração nacional (1993 e 2003), Hidrovia do Grão-Pará a Mato Grosso: projeto de integração da Amazônia colonial entre os rios Madeira, Mamoré e Guaporé (1797-1800) (1998) e Urucumacuã: a utopia de Rondon (2004). A toda essa produção deixaremos de mencionar pormenorizadamente, por ser longa, a vasta quantidade de artigos publicados em conceituadas revistas acadêmicas e de associações de pesquisa.
Acriânia tem como tema central a Rebelião Acreana, evento ocorrido na Amazônia, na região dos rios Purus e Acre, entre o final do século XIX e início do século XX. A rebelião teve papel fundamental na formação de dois atuais estados amazônicos: Rondônia e Acre. Trata a obra de buscar a gênese daquele conflito ocorrido entre o Brasil e a Bolívia em disputa pelas terras que hoje compõem o estado do Acre e, da análise do evento, estabelecer suas relações com duas das principais consequências do conflito: a criação do Território Federal do Acre e a construção da Ferrovia Madeira-Mamoré que, segundo determinado autor, foi a mãe dos posteriores territórios federais.

Na origem mais remota está o desconhecimento de um território que portugueses e espanhóis julgavam-se no direito de possuir por conquista-lo aos povos nativos que já o ocupavam. O Tratado de Tordesilhas (1494) dividiu arbitrariamente o Novo Mundo entre as duas potências ibéricas. Esse ato causou espanto nos reis das demais nações européias, de tal forma que o rei da França, Francisco I, questionou sua validade, ao perguntar onde estava o testamento de Adão e Eva que deixava o Novo Mundo como herança aos reis peninsulares.

De certo modo a pretensão dos reis ibéricos encontrava fundamento em sua liderança no expansionismo marítimo e comercial europeu do século XV, no qual os portugueses foram particularmente destacados. Para esse pequeno povo, espremido na península oriental européia entre o mar e uma Espanha frequentemente hostil, a necessidade de navegar superava a própria necessidade de viver ou correspondia mesmo a ela, conforme canta o poeta Fernando Pessoa. Lançaram-se então à conquista do mar oceano e da rota marítima para as Índias Orientais. Outro poeta, Luiz de Camões, com justiça engrandeceu essa epopéia:

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

Mas ainda assim, apesar de toda a valentia a qual se deve a conquista do mar oceano, a Portugal coube pelo Tratado de Tordesilhas uma pequena parte nesse latifundio sul americano, uma nesga situada a leste daquele meridiano. Camões cantou soberbamente as glórias das  “ …armas e dos barões assinalados que da ocidental praia lusitana …” realizaram a epopéia marítima. Mas talvez seja necessário que o poeta levante-se de seu belo sarcófago manuelino no mosteiro dos Jerônimos em Lisboa, onde descansa tendo em esquife vizinho o mais renomado dos navegantes portugueses: Vasco da Gama, para completar sua obra e cantar as glórias da epopéia promovida em outro oceano desconhecido do europeu à época: o oceano ignoto das terras do interior do continente Sul Americano.

Essa foi a segunda grande obra da expansão portuguesa, a conquista e a neocolonização do Brasil. As duas palavras completam o entendimento do fenômeno: conquista porque foi uma guerra contra os ocupantes da terra e neocolonização porque iniciou a implantar nessas terras uma sociedade diferente daquela existente anteriormente a qual, daí por diante, intentaria crescentemente transformar. Assim foi que a partir do século XVII os portugueses iniciam a avançar mais firmemente para além de Tordesilhas. Dois vetores desse avanço podem ser detectados: o primeiro a partir de São Paulo, passando pelas Minas Gerais e ocupando o interior de Goiás e Mato Grosso; o segundo, ao longo do rio Amazonas e seus afluentes. O segundo vetor de penetração nos interessa particularmente, pois é para o rio Madeira que confluem os rios fronteiriços Mamoré e Guaporé. Apesar de os espanhóis fincarem os pés nessas terras, que no futuro seriam fronteiras entre as duas potências, antes dos portugueses, criando missões religiosas na região guaporeana já no século XVII, diversos atos dos súditos de Portugal neste continente firmavam a posição de ser a parte oriental daquele rio território português. Esse foi o caso da Expedição Palheta (1722-23).

A descoberta do ouro no rio Guaporé ainda naquela primeira metade do século XVIII foi o fato que estimulou o impulso colonizador lusitano naquela região. Atraiu em poucos anos dezenas de milhares de aventureiros em busca da riqueza, nem sempre fácil, nas lavras e faisqueiras de ouro. A par desse evento, em Portugal inúmeras reformas promovidas pelo Marquês de Pombal a partir de meados daquele seculo já legislavam sobre o território circunscrito, situado entre o oeste de Tordesilhas até o Guaporé, ainda pertencente à Espanha. Esse é o caso da criação da capitania do Mato Grosso, em 1748, portanto em torno de dois anos antes da assinatura do Tratado de Madri (1750), tratado esse que reconheceu o direito português às terras ao leste do rio Guaporé.
Apesar de que com o final da União Ibérica (1580-1640), período em que Portugal foi regido pelos monarcas espanhóis, fossem reconhecidas algumas capitanias portuguesas a oeste de Tordesilhas, é a partir do Tratado de Madri que iniciam as difíceis negociações com a Espanha para delimitar a nova fronteira oeste da possessão portuguesa delimitada por Tordesilhas. Essas negociações refletem os avanços e recuos diplomáticos que refletem outros tratados assinados sobre o mesmo tema no período colonial: El Pardo (1761) e Santo Ildefonso (1777). Todos esses tratados de limites resultam, no norte da colônia, na ocupação portuguesa da região começada por Francisco Caldeira Castelo Branco em 1616. Esse militar português inicia a construção do Forte do Presépio no lugar onde hoje está situada a cidade de Belém do Pará de onde nas décadas seguintes partirá o impulso colonizador português na Amazônia. Curioso é que a conquista diplomática dessa fronteira se deu, em parte, pelo argumento de que ali residiam os súditos do rei de Portugal (Uti possidetis), ou seja, em sua esmagadora maioria os índios, que tiveram essas suas terras expoliadas pela conquista. É que os conquistados conformaram parte da população neocolonial. Essa situação, quase ininteligível, absurda mesmo para o homem moderno, era perfeitamente aceitavel pela mentalidade do homem europeu do século XVIII.

Apesar do abandono a que foi relegada a região guaporeana após o esgotamento do ouro, manteve-se a aquela fronteira. Havia porém um problema. É que o rio Guaporé nasce no Mato Grosso e corre em direção à Bacia Amazônica. Em seu percurso une-se ao rio Mamoré, que nasce no interior da Bolívia e corre para o norte, continuando seu percurso com esse último nome. Mais adiante une-se o rio Mamoré ao rio Beni, que também nasce no interior da Bolivia, transformando-se em novo rio, do qual conforma a nascente, o rio Madeira. As complicadas negociações das fronteiras entre Portugal e Espanha adquiriam nesse trecho novas dificuldades. Inicialmente, não havia consenso sobre onde seria a nascente do rio Madeira e o Tratado de Madri definia que do ponto médio desse rio a fronteira correria em linha reta (geodésica) até encontrar a nascente do rio Javari. Sem consenso sobre a nascente, seria difícil encontar o ponto médio de qualquer rio. Essa questão foi definida no Tratado de Santo Ildefonso, onde foi estipulado que a nascente do rio Madeira era a confluência dos rios Mamoré e Beni. Outro problema, que foi um dos fatores que ocasionaram a Rebelião Acreana, consistia na dificuldade de encontrar a nascente do rio Javari, sem a qual não seria demarcada a fronteira. A descoberta dessa nascente, que permitiria uma demarcação inequívoca da fronteira, somente realizada em 1901, tarde demais, pois a população brasileira no Acre se encontrava em estado de revolta contra a Bolívia desde 1898.

Na primeira metade do século XIX os movimentos de independência eclodiram em diversos pontos do Vice-Reino do Peru, fragmentando em várias Repúblicas independentes a antiga colônia espanhola. A parte correspondente a antiga Audiência de Charcas, divisão judiciária daquele vice-reino, tornou-se independente adotando o regime republicano em 1825 sob a designação de Bolívia. Já desde 1822 o Brasil separara-se de Portugal, adotando porém o regime monárquico. Tornou-se, assim, um império entre repúblicas. A partir da segunda metade daquele século, já sob o comando de seu segundo imperador, inicia a crescer na amazônia o extrativismo da borracha. É desse período, conhecido no Brasil como Segundo Reinado, a assinatura do Tratado de Ayacucho (1867) entre a República da Bolívia e o Império do Brasil. Por esse tratado a Bolívia cedeu ao Brasil uma  grande área de terra adjascente ao Acre e concordou em recuar a fronteira do ponto médio do rio Madeira à nascente desse rio. Perdeu assim o condomínio daquele curso d’água que possuía com o Brasil. Em compensação, pelo mesmo instrumento de acordo, fez compromenter-se o Brasil a abrir uma estrada que contornasse o trecho encachoeirado do rio Madeira e liberasse a navegação daquele rio aos navios de bandeira boliviana.
Denota-se aqui a grande importância do rio Madeira para o comércio do Oriente Boliviano. Em poucas palavras, aos cidadãos daquele país instalados nas terras baixas da bolívia: composta das savanas situadas entre o pé dos Andes e a floresta amazônica, a qual também é compartilhada com o Brasil, tinham dificuldades em subir os Andes para exportar e importar produtos pela via do oceano Pacífico. Mais acessível para os moradores dessa região era a via do rio Madeira, através da qual ganhariam o rio Amazonas e o oceano Atlântico. Nessa região, que abrangia as antigas províncias jesuíticas de Moxos e Chiquitos, explorava-se àquela época a quina, produto farmacêutico para combater as febres, que era exportada pela via do rio Madeira.

 A defumação da goma elástica para produzir artefatos de borracha era já conhecida pelos nativos da Amazônia. Desde os séculos iniciais da colonização foi divulgado esse produto na Europa, principalmente no século XVIII através do naturalista francês Charles Marie de La Condamine. O naturalista francês anunciava o produto como a maravilha cuja pelota contrariava a lei da gravidade porque, aparentemente, quando jogada era expulsa e não atraída por um corpo maior, no caso a superfície terrestre (Lei de Newton: matéria atrai matéria na razão direta das massas e na inversa do quadrado das distâncias). Contudo, dificuldades técnicas provenientes da maneira como a goma elástica era transformada em borracha impediam a utilização comercial do produto de forma mais ampla. Na primeira metade do século XIX uma série e experiências foram levadas a cabo para resolver os problemas derivados da excessiva rigidez do produto quando submetido ao frio e, contrariamente, quando submetido ao calor o produto se tornava pegajoso. Notabilizou-se o processo denominado vulcanização desenvolvido por Charles Goodyear em 1839, que abriu à borracha as portas da indústria moderna. Inventos posteriores vieram a dotar o produto de maior utilidade em vários ramos da indústria. De forma que a partir dos anos de 1850 a demanda por essa matéria prima foi constantemente aumentada, assim como seus preços, como sói acontecer nos casos onde a procura é sempre maior que a oferta.

A goma elástica, como matéria prima para a fabricação da borracha, pode ser encontrada em várias árvores existentes no Brasil. Há contudo uma espécie nativa da Amazônia que a produz em maior abundância e melhor qualidade: é a Hevea brasiliensis. Também é conhecida como seringueira, pois esse é o nome popular de um produto fabricado a partir de sua matéria prima: a seringa. Após a Independência as antigas capitanias coloniais foram incorporadas ao Império Brasileiro pela constituição de 1834 tendo como estrutura política e administrativa a forma de Província. Na Amazônia foi criada, já no momento da Independência, a Província do Pará, ficando a ela subordinada a antiga Capitania de São José do Rio Negro como comarca do Alto Amazonas. A Lei 582, de 5 de setembro de 1850 elevou essa comarca á cathegoria de Provincia, com a denominação de Província do Amazonas. Chamo o leitor à atenção para o fato que foi criada aquela província justamente nos albores daquele evento histórico que costumamos denominar Primeiro Ciclo da Borracha.
Está a seringueira difundida em manchões pelo solo amazônico e, na época, exclusivamente nele e em abundância. Na Província do Pará, porém, um secular processo predatório havia destruído muito daqueles manchões nativos da seringueira. Houve assim, com o aumento da demanda internacional, uma corrida as reservas ainda inexploradas da seringueira existentes na Província do Amazonas. Essa província se tornou a maior exportadora da matéria prima na Amazônia e, cumpre dizer, no Mundo, pois o abastecimento mundial de goma elástica foi praticamente monopolizado pela Amazônia até aproximadamente 1912.

Na Província do Amazonas os rios que mais produziam goma elástica eram aqueles da região acreana (Purus, Juruá e Acre) e o rio Madeira, ou melhor dizendo as bacias desses rios. De crescimento acelerado, a produção da borracha consumia cada vez mais mão de obra. Inicialmente essa mão de obra foi alocada  no corte da seringa através da transferência de trabalhadores da Província do Pará para a do Amazonas. Contudo, após os anos de 1870 dois eventos permitiram a liberação dos trabalhadores de outras regiões para o corte da seringa, tanto no Acre como no Madeira. O primeiro evento foram as secas no Nordeste brasileiro que se iniciaram naqueles anos prolongando-se até a década seguinte. Essas secas flagelaram os nordestinos, mas foram particularmente severas no Ceará, província que mais enviou migrantes para o corte de borracha na Amazônia no período. Na fronteira Guaporé-Mamoré-Madeira um fenômeno específico é observado. A par do avanço brasileiro sobre as reservas nativas de seringueiras do baixo rio Madeira, uma outra onda humana formada pelos cidadãos bolivianos penetrava o território conquistado pelo Tratado de Ayacucho. Evidentemente que o crescente preço obtido pela borracha nos mercados internacionais atraiu esses comerciantes, porém a queda dos preços da quina extrativa no mercado internacional, quando colocada em competição com a quina agrícola produzida nas colônias inglesas da Ásia, fez com que essa produção se tornasse pouco proveitosa. Muitos desses produtores de quina bolivianos tornaram-se produtores da goma elástica e alguns atravessaram a fronteira estabelecendo-se no rio Madeira, particularmente em sua parte alta. Com o tempo, o comércio boliviano dominou todo o curso do rio, refluindo a partir do último quartel do século XIX.

Ocorreu então um processo inverso. Enquanto bolivianos abriam pioneiramente seringais no rio Madeira brasileiros, cearenses em sua grande maioria, ocupavam as terras do Acre. Recordemo-nos que aquelas terras, embora fossem consideradas pelo governo brasileiro como pertencentes à Bolívia, possuíam um reconhecimento precário. Isto porque as fronteiras não haviam ainda sido demarcadas definitivamente. Assim, davam motivo para querelas entre membros das comissões de limites de ambos os países em razão da incerteza quanto localização da nascente do rio Javari. O fato é que, com o tempo, essa população brasileira passou  representar a maioria dos habitantes da região do Acre, superando a população boliviana. A riqueza produzida pela borracha atraía para a região não somente a população brasileira e boliviana, mas também o interesse do governo do Estado do Amazonas. Ocorreu então que em 1898 o governo boliviano pretendeu instalar uma alfândega no local conhecido como Porto Acre que rebatizou como Puerto Alonso. Seguiu-se a imediata reação dos brasileiros ali instalados, que violentamente tomaram de assalto o posto boliviano e expulsaram os agentes do governo daquele país. É nesse início da Rebelião Acreana que destaca-se a figura quixotesca de Galvez de Arias. Espanhol e aventureiro, que como funcionário do consulado boliviano em Manaus tomou um documento confidencial a ser enviado pelo governo boliviano ao governo dos E.U.A., o qual fora encarregado de traduzir do espanhol pra o inglês,  e leva-o ao conhecimento das autoridades do Estado do Amazonas. Transfere-se então para o Acre, onde quase que imediatamente toma o comando da rebelião e proclama o Estado Independente do Acre. Não é apoiado pelo governo brasileiro que desloca para a região alguns navios da armada nacional para contribuir com o final da revolta.

De 1898 até 1903 a população acreana viveu em constante estado de rebelião sem que a fronteira fosse definitivamente demarcada, apesar da descoberta da nascente do rio Javari em 1901. Um fato que vem a mudar toda a situação foi o conhecimento pelos acreanos da concessão do governo boliviano que entregava as terras do Acre a uma entidade particular, um consórcio de capitalistas norte-americanos denominado Bolivian Syndicate. Tratava-se de uma concessão que dotava ao ente privado de amplos poderes na região, inclusive alguns reservados à soberania do Estado como: coleta de impostos e poder de polícia. Nesse momento é um gaúcho com formação militar, Plácido de Castro, que toma o comando da rebelião que recrudesce no Acre.  O governo brasileiro, que sempre reconhecera difusamente o direito boliviano àquelas terras, mudou sua posição. Através de seu chanceler, o Barão do Rio Branco, declarou aquele território como área em litígio. Evidentemente contribuiu para essa mudança de posição a possibilidade de instalação, em nossa fronteira, de um povo que já àquela época demonstrava-se tão expansionista e agressivo para com seus vizinhos.

Prudente mudança de posição da nossa chancelaria. Não existe o “se” em História. Mas não podemos deixar de especular. Quem sabe que consequências poderia trazer a instalação de uma concessão a empresa norte americana no solo amazônico? Quem sabe não teríamos logo adiante um “protetorado” estrangeiro, arrogante e expansionista em nossa fronteira? Não poderemos nunca saber. Mas embora não exista um “se” em História, comportamo-nos com os países pelo mesmo critério das nossas relações interpessoais, ou seja: avaliamos as pessoas e países pelo que sabemos do seu passado. Destarte sabemos o que ocorreu onde os empresários norte americanos estabeleceram seus interesses econômicos naquela época. Sabemos dos protetorados e repúblicas de bananas que produziram para defender os interesses de seus capitalistas. Portanto, não é de todo irreal aventar a possibilidade de que tanto Brasil como a Bolívia teriam muito mais a perder, caso se consolidasse a concessão ao Bolivian Syndicate. Em todo caso a prudência manda que em situação de potencial ameaça os países se protejam. Foi o que fez o Estado Nacional Brasileiro com base no conhecimento do comportamento imperialista norte americano. Aliás Plácido de Castro verbaliza essa ameaça, vislumbrando nossa pátria enxovalhada caso o consórcio capitalista tomasse posse do Acre. Em outras palavras o “se” entrou aqui como possibilidade levada a sério por muitos na época, inclusive pelo governo brasileiro, do risco que representaria a instalação de uma concessão norte americana na região do Acre, o que o levou a mudar de posição quanto à questão.

O governo brasileiro deixou de concordar que aquelas terras eram bolivianas passou a considerar a região “em litígio” e ordenou que fossem impedidas em Belém de continuar, rumo ao Acre, as embarcações a serviço do Bolivian Syndicate, que com com homens e suprimentos ia tomar posse da concessão. Enquanto isso negocia com o governo boliviano. Acordado com a Bolívia a permuta do Acre por outros territórios ficou também estabelecida a indenização a ser paga pelo governo brasileiro de dois milhões de libras esterlinas ao governo boliviano. Acresça-se ainda a indenização que o Brasil pagaria ao Bolivian Syndicate pelas eventuais perdas derivadas da não realização do contrato de concessão. Foi então a região anexada ao Brasil sob a forma jurídica de departamento do Acre.

Assim então o livro do mestre Emanuel Pontes Pinto traça, buscando fulcro no passado colonial, o conjunto de fenômenos históricos que deram origem aos atuais estados do Acre e de Rondônia. Em resumo, ambos umbilicalmente vinculados aos nossos intercâmbios com a Bolívia. Pelo Tratado de Petrópolis, assinado em 1903, em troca do Acre, além das reparações em terras e libras esterlinas dadas em compensação pelo governo brasileiro, comprometia-se este último ente a promover a construção de uma ferrovia que contornasse o trecho encachoeirado do rio Madeira. A ferrovia Madeira-Mamoré (ou Madeira & Mamoré Railway Company), que já sofrera duas tentativas de construção (1872 e 1878) antes do Tratado de Petrópolis, teve sua última tentativa iniciada em 1907 e concluída com sucesso em 1912. Muitos podem dizer que foi uma obra inútil já que seu término coincidiu com a queda internacional do preços da borracha amazônica no mercado internacional, resultado da competição com a borracha agrícola inglesa procedente de suas colônias asiáticas. Mas a Madeira-Mamoré revelou-se aí muito mais do que ela fora projetada para ser. Desaparecida sua função comercial aflora e salta às vistas sua função social e patriótica, a saber: ser elemento fundamental de apoio a população fronteiriça instalada na bacia dos rios Madeira, Mamoré e Guaporé e do Oriente Boliviano. É da identidade fundamental desse espaço, reconhecida por diversos projetos para a criação de um território  nessa região desde meados do século XIX, que surgirá em 1943 o Território Federal do Guaporé. Já anteriormente, em 1904, surgiu o Território do Acre.

Com mais essa obra o mestre Emanuel Pontes Pinto enriquece o firmamento estrelado de inúmeras obras sobre a Amazônia e realizada por amazônidas, ao lançar suas luzes sobre eventos tão significativos para essa nossa história froteiriça. Devemos-lhe pelo feito nosso pleito de gratidão.
Dante Ribeiro da Fonseca

Departamento de História da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
Academia de Letras de Rondônia (ACLER)
Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia (IHGR)

SÍNTESE HISTÓRICA DA CONQUISTA E COLONIZAÇÃO DO ACRE 116 ANOS

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SÍNTESEHISTÓRICA DA CONQUISTA

E

COLONIZAÇÃO DOACRE

116ANOS

PROLÓGO

Aoser festejado o centenário de Porto Velho, o qual originou o Estado deRondônia, não poderia se avidar a conquista do Acre e a Revolução Acreana,cessada com o Tratado de Petrópolis comprometendo o Brasil a construir umaferrovia no vale do Alto Madeira, a Madeira-Mamoré, originando dois núcleosurbanos, o de Porto Velho na margem direita do Rio Madeira eo de Guajará Mirimna margem direita do Rio Mamoré.

Assim,a de se convir que são não tivesse havido a Revolução Acreana, não teria sidofirmado o Tratado de Petrópolis, sem o qual não teriam surgidos Porto Velho eGuajará Mirim, assim como o Território Federal do Guaporé (Rondônia) e o Estadode Rondônia.

Aonosso regozijo pelo decurso dos cem anos de nossa história ressaltamos aparticipação do audaz povo acreano rememorando seus feitos como segue.

  

OSPERCURSORES:

 

Exploradores do Vale do RIO PURUS

 

 

Manoel Nicolau de Melo e João Gabriel de Carvalho instalaram seringais………………………..

 

João Batista tenreiro Aranha presidente da Província do Amazonas organizou expedições exploratórias do Vale do Rio Purus, a 1ª Chefiada por João Rodrigues Cametá – 1852, a 2ª sub o comando de Serafim Salgado e a 3ª por ordem de Clementino Carneiro da Cunha, Presidente da Província do amazonas, chefiada por Manoel Urbano…………………………………

 

O engenheiro João Martins da Silva Coutinho fez pesquisas no Purus………………………………­­­

 

O geógrafo inglês W. Chandless acompanhado por Manoel Urbano com a finalidade de constatarem a existência da propaladas ligação fluvial do Rio Madeira com o Purus, o percorreram em todo o seu curso, não encontrando-a……………………………………………………..

 

 

Antônio Rodrigues Labre com seus acompanhantes, instalou na margem do Rio Purus um seringal no local que originou a atual cidade de Lábrea/AM……………………………………………

 

O Rio Purus em 1865 a partir de sua foz rumo a nascente, numa extensão de 612 Km, exis-

tiam 240 colocações habitadas por famílias brasileiras.

 

Exploradores do Vale do RIO JURUÁ

 

Os droguistas do sertão iniciaram o comércio de escambo com os indígenas do vale do Rio Juruá, esses não permitiram a eles e a outros exploradores se estabelecerem……………………….

 

João Batista Tenreiro Aranha, Presidente da Província do Amazonas organizou duas expe-

dições exploratórias do Rio Juruá a 1ª chefiada por Romão José Oliveira e a 2ª por João da

Cunha Correia…………………………………………………………………………………………………………..

 

Os extrativistas Francisco Manoel da Cruz Flores, Nicolau José de Oliveira, Francisco F. de Carvalho, Antônio Petrónio Albuquerque, João Dourado e Balduino Oliveira, resistindo

a hostilidade dos indígenas, se instalaram em seringais alcançando o alto Juruá já em território peruano, a partir de ………………………………………………………………………………………

 

Francisco F. de Carvalho também instalou seringais no Riozinho da Liberdade…………………

 

Antônio Petrônio Albuquerque, Miguel Fernandes e João Busson instalaram seringais no Vale do Rio Taraucá…………………………………………………………………………………………………..

 

 

Coronel Hermínio Rodrigues Pessoa explorou e colonizou o vale do Rio Iaco………………….

 

Exploração do Vale do RIO AQUIRI (ACRE)

 

João Gabriel de Carvalho e Melo, chefiando uma expedição composta por famílias nordestinas instalou um pouco acima da foz do Rio Acre, o seringal Inajás, o primeiro no Vale desse rio (03 de abril) seguindo-se as instalações dos seringais:…………………………………

 

Boca do Acre pelo Coronel Alexandre de Oliveira Lima;………………………………………………..

 

Silêncio e Desterro, ambos pelo Coronel Caetano Monteiro da Silva;……………………………….

 

Empresa (originou a cidade de Rio Branco) pelo Coronel Neutel Maia;……………………………

 

Iracema pelo Coronel Raimundo Vieira Lima;……………………………………………………………….

 

Ao findar-se a última década do século XIX, a região dos vales desses citados rios estavam habitados por povoadores brasileiros. (barracas de palha moradia dos seringueiros).

 

Revolução Acreana – 1899 a 1903

(Síntese). – Em novembro de 1898, o Cel. Da Guarda Nacional Manoel Felício Maciel Subprefeito  de Segurança do alto Acre, obrigou o major do exército boliviano, Benigno Gamarra a se retirar com seus soldados da Vila de Xapuri por ele ocupada;

 

– Os acreanos liderados por José Carvalho, no dia 09 de maio de 1899 obrigaram o ministro boliviano Dom Móises Santivanez com seus auxiliares e a guarnição militar a se retirarem de Puerto Alonso, na qual instalaram a sede da Junta Revolucionária, mudando sua denominação para cidade do Acre. Assumindo o controle do governo do Acre.

 

– Os acreanos liderados pelo espanhol Dom Luiz Gálvez Rodrigues de Arias, sigilosamente apoiado pelo governo do Estado do Amazonas, Dr. José Cardoso Ramalho Júnior, no dia 14 de julho de 1899, proclamaram a República Independente do Acre, tendo como capital o Puerto Alonso, com denominação mudada para cidade do Acre, e como presidente da república, provisório, Luiz Gálvez. Posteriormente deposto por Souza Braga, aclamado presidente no dia 28 de dezembro de 1899.

 

– Em 12 de janeiro de 1900, Souza Braga expulsou do Acre os bolivianos que sob o comando de Ladislau Barra apoiado pelo Capitão Leite Barbosa extrativista brasileiro, haviam em sua ausência invadido a Cidade do Acre. Após o que renunciou a presidência a repassando para uma junta governativa, e esta para Luiz Gálvez, reempossando-o no cargo de presidente, em 30 de janeiro de 1900.

 

– A marinha de guerra (Flotilha do Amazonas), financiada pelo governador do Estado do Amazonas, Dr. José Cardoso Ramalho Júnior, depós Luiz Gálvez em 15 de março de 1900, e no dia 23 declarou extinta a República Estado Independente do Acre, reestabelecendo a posse pela Bolívia de acordo com o Tratado de 1867.

 

– Os bolivianos sob a chefia de Dom André Muñoz Delegado Nacional da Bolívia nos Territórios do Purus, Acre e Iaco, no dia 22 de agosto de 1900, tomaram posse desse espaço estabelecendo a sede administrativa em Puerto Alonso ex-cidade do Acre.

 

 

– Em Manaus organizou-se manifestações de protesto contra a ocupação do Acre pela Bolívia, foi decidido formar uma força expedicionária para expulsar os bolivianos. Esta foi denominada “Expedição Floriano Peixoto”, apelidada de “Dos Poetas”. Era apoiada pelo governador do Estado do Amazonas, Silvério José Neri. Deslocou-se para o Acre, atacando no dia 24 de dezembro de 1900, Puerto Alonso, sendo fragorosamente derrotada recolhendo-se à Manaus, municiando os bolivianos com fuzis, metralhadoras e um canhão abandonados no campo da batalha.

 

– Os acreanos decidiram retornar a luta armada para reestabelecer a República do Acre e impediram a instalação do Bolivian Syndicate empresas econômica colonialista, anglo-americana para a qual o governo boliviano arrendará o Acre. Os empresários comandantes da Junta Revolucionária convidaram o agrimensor José Plácido de Castro,  major reformado do exército para comandar com plenos poderes à revolução. Aceitou, iniciando as ações bélicas tomando a Vila de Xapuri no dia 06 de agosto de 1902, prendendo o Intendente Juan de Dios Barrientos, seus auxiliares civis, militares e os soldados da guarnição, permitindo-lhes se retirarem para a Bolívia. No dia 07 proclamou o restabelecimento da República Estado Independente do Acre. Organiza e treina o seu exército de seringueiros. No dia 14 de outubro (1902), derrotou o coronel Rosendo Rojas, no seringal Volta da empresa. Prossegue sua campanha vitoriosa, no dia 24 de janeiro de 1903, derrota Dom Lino Romero, Delegado Nacional das Colônias e seus comandados, ocupando Puerto Acre, ex-Puerto Alonso, todo o espaço do Acre passa para o domínio dos acreanos.

 

– Em fevereiro de 1903, o presidente da república, Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves de acordo com a nova politica do chanceler Barão do Rio Branco, deslocou tropas do exército sob o comando do general Olímpio da Silveira, para ocuparem o espaço compreendido entre a linha Cunha Gomes e o paralelo 10º 20” agora denominado Acre Setentrional litigiosa. O referido general foi nomeado seu governador com ordem expressa de se manter dentro dos limites desse território, descumprindo, sendo exonerado. Plácido de Castro permanecia presidente da República do Acre(Acre Meridional).

 

– O presidente da Bolívia, general Manuel Pando no comando o 5º batalhão e o Ministro da Guerra, Ismael Monte o 1º batalhão se deslocaram de La Paz para esmagar os acreanos, retomar o Acre e repassa-lo ao Bolivian Syndicate, o qual se comprometera a fazer um adiantamento de alguns milhares de libras referentes ao pagamento das prestações do contrato.

 

– Os batalhões bolivianos alcançaram o Rio Abunã , acampando em Porto Rico margem do Rio Tauamanu, no qual as tropas de Plácido de Castro, no dia 21 de abril de 1903 o atacaram iniciando o envolvimento de cerco, só não os derrotando, por ter recebido uma correspondência oficial avisando que o Brasil e a Bolívia haviam firmado um modos vivendi no dia 21 de março (1903). As hostilidades de ambas as partes foram cessadas. Porém Plácido de castro manteve-se nos espaços conquistados com vista garantir suas posses no tratado de paz.

 

– Agora a batalha era no terreno diplomático entre os plenipotenciários Fernando Guachali e Cláudio Pinilla da Bolívia, Assim Brasil e o Barão de Rio Branco do Brasil, de cujo consenso resultou o Tratado de Petrópolis aprovado no dia 17 de novembro de 1903, definindo os limites fronteiriços entre o Brasil e a Bolívia, solucionando em definitivo o litígio do Acre.

 

 

O governo brasileiro anexava imensa área geográfica, em uma imediata situação geopolítica sem ter condições legais de determinar a identificação administrativa do novo ente integrando-o à comunidade nacional, visto nada a respeito constar na Constituição. Embora não sendo prevista a situação jurídica foi decidido organizar o Acre como território subordinado ao governo da União, sendo expedida a Lei n.º 1.181 de 25 de fevereiro de 1904. E o Decreto n.º 5.188 de 7 de abril de 1904, de organização administrativa, dividindo os 152.000 Km² em três Departamentos: Alto Purus, Alto Juruá e Alto Acre, administrados por prefeitos com amplos poderes, nomeados pelo Presidente da República.

 

Na Constituição de 1934 na ordenação do espaço geográfico, constava o Território. O Acre teve sua administra politica unificada, substituindo a departamental por centralizado sob o mando de governadores nomeados pelo Presidente da República.

 

Artigos publicados*     – jornais – unificado, substitui o governo departamental por central,

– 100 Anos do Tratado de Petrópolis – Alto Madeira – Ed. De 08 de dezembro de 2003 na condição de Território Federal.

Anatomia de Uma Revolução

– Brava Gente Acreana

101 Ano do Tratado de Petrópolis     – Rio Branco/AC – Ed. de 15 de novembro de 2004.

– Epopeia dos Valentes Nordestinos  – Rio Branco/AC – Ed. de 02 de agosto de 2008.

                                                           – Livros

– Apontamentos Sobre a Revolução Acreana – Aut. José Plácido de Castro – Ed. Valer (2003) Email: [email protected]

– O Espirito Militar na Questão do Acre          Aut. Luis Felipe de Castilhos

                                                                                  Goycochea ………… Ed. Biblioteca Exército Editora (2007).

                                                                                  E mail:[email protected]

– Formação Histórica do Acre                        – Aut. Lendro Tocantns    Ed. Conquista – Rio de Janeiro (1961).

                                                                                                                 Av. 28 de setembro, 17.

* Artigos de minha autoria.

Em 14/09/2015.

 

Abnael Machado de Lima

 

 

 

 

 

 

 

 

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1892

 

 

 

 

 

 

NÓS, O RIO E O TEMPO

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         Antônio Cândido da Silva

 

Fico olhando Maria, o nosso rio,

o Madeira da nossa Juventude.

Na enchente, em constante inquietude

vencendo a cada curva um desafio.

 

Para depois, no decorrer do estio,

com a ribanceira em sua plenitude

toda plantada pelo braço rude

de quem espera o fruto do plantio.

 

Mas o tempo, Maria, nos comprova

que a cada instante o rio se renova

e nós a cada instante envelhecemos.

 

Por certo ele será sempre criança

e o seu poente um canto de esperança

na saudade daquilo que vivemos.

 

         Para Maria no dia dos namorados de 2014.

CAIXA DE RETRATOS

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         Antônio Cândido da Silva

 

Revirando a gaveta de memórias

encontrei uma caixa de retratos

e dentro dela uma fotografia

onde você e eu somos lembrança.

E assim, como num passe de magia,

fui para o ano de sessenta e seis

refazendo o caminho percorrido

e revendo os momentos dessa andança…

 

 Do mês de julho era o dia trinta

e eu, nervoso, esperava ao pé do altar

naquela tarde quente de verão

quando você apareceu sorrindo,

caminhou pela nave da Matriz,

fazendo disparar meu coração.

Depois a festa, a fuga às escondidas

no Jeep sem capota do compadre,

arrastando um cordel com latas velhas

pelas ruas calçadas da cidade.

Depois a vida a dois, os filhos

e um futuro sonhado a conquistar…

 

Quarenta e cinco anos se passaram

depois daquele julho de sessenta e seis.

Muitos castelos construímos juntos,

caminhos percorridos de mãos dadas

e subidas onde um no outro se amparou.

E foi assim que fomos descobrindo

todo o segredo do passar do tempo

e aprendemos a plantar sementes

pra sombrear as margens do caminho

por onde um dia o nosso amor passou…

 

Vejo, agora, na imagem de nós dois,

no fragmento de um segundo

que alguém eternizou neste papel,

a nossa vida desfilar na passarela

das minhas emoções.

Momentos de conquistas,

instantes de tristezas

e a solidez do nosso amor

como morada erguida sobre a rocha

vencendo os vendavais.

E eu percebo, depois de tanto tempo,

que a cada dia eu te amo mais…

 

Para Maria no 30 de julho de 2011. (45)

I S Q U E M I A

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Antônio Cândido da Silva

 
Hoje é o dia dos namorados

e devo ter cautela ao te falar

pois o meu velho coração

acostumado as nossas emoções

ameaçou parar.

Devo, portanto, a partir de hoje,

medir minhas palavras,

tomar o meu remédio

e esquecer o verbo emocionar.

Hoje é o dia dos namorados…

Eu quero te dar uma rosa,

um sonho de valsa

e palavras para reavivar

do nosso amor a eterna fantasia.

Mas, eu não devo me emocionar…

E não sei como fazer,

pois só pelos caminhos da emoção,

eu posso te dizer do amor que sinto

pelos meandros do meu coração.

Eu este ano vou ficar calado

pois o Doutor falou, minha Maria,

que existe um problema de isquemia

neste meu coração de trovador

que de tanto te amar

se obstruiu de amor…

                  Para Maria no 12 de junho de 2010