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EU QUERIA ABRIR MEU CORAÇÃO

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         Antônio Cândido da Silva

Hoje, dia dos namorados,

eu queria abrir meu coração

para dizer com frases de ternura

que você é importante para mim.

Fazer um “flashback” de nós dois

dos quarenta e seis anos que vivemos

com alguma tristeza e muito amar.

 

Rever em cada reta, em cada curva,

pedaços de felicidade

que juntos construímos

e as tristezas que a vida nos cobrou

no nosso caminhar.

 

Eu queria abrir meu coração, para mostrar

que apesar do que o tempo fez de nós,

o meu amor é só seu e eterno é o nosso amor…

Mas não consigo

porque no ano de sessenta e dois

você buscou a chave de surpresa

e a porta dos meus sentimentos se abriu.

Naquele instante caiu a minha guarda

pois você invadiu meu coração

fechou a porta e nunca mais saiu

70 anos de passagem da FEB por Lisboa de retorno ao Brasil

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Por Dante Ribeiro da Fonseca 

No dia 03 do corrente um fato histórico passou despercebido para a maioria de nós. Trata-se do retorno de um contingente da Força Expedicionária Brasileira – FEB que lutou na Itália durante a II Guerra Mundial (1939-1945). De volta da vitoriosa campanha promovida contra o nazi-facismo, o contingente militar parou em Lisboa onde foi recepcionado com festejos e honrarias ofertados pelo governo português e grande adesão popular. Conforme relata o jornal “Diário de Lisboa”, publicado naquele dia, o vaso de guerra brasileiro Duque de Caxias, que chegou à véspera a Cascais, navegou o rio Tejo acima e atracou de madrugada em Lisboa. Conduzia 162 oficiais e 1.636 praças do Batalhão de Infantaria do Depósito de Pessoal da FEB, alguns deles mutilados pela guerra.

Naquele mesmo três de setembro desfilou o batalhão em conjunto com o Exército Português pelas ruas da vaidosa alfacinha. Iniciando a parada na praça Marquês de Pombal, onde o presidente da República Portuguesa general Antonio Oscar de Fragoso
Carmona condecorou a bandeira da FEB com a mais alta condecoração militar de Portugal: a Medalha de Ouro de Valor Militar.  Conforme consta no decreto-lei que concedeu a medalha, o ato estava: “Querendo significar à nação brasileira e ao seu exército o público testemunho de alto aprêço do Governo e do povo português pelos actos de excepcional bravura praticados pelas fôrças do Corpo Expedicionário Brasileiro no teatro de guerra de Itália, em que as armas do Brasil se cobriram de glória; …”

Conforme explica o prof. dr. Adriano Moreira, durante a Segunda Guerra Mundial Portugal adotou a chamada “Neutralidade Colaborante”. O Exército Português não entrou em combate, embora seus territórios no Timor Leste tenham sido invadidos covardemente pelas tropas japonesas, aliadas ao Eixo (Itália, Japão e Alemanha). Permitiu, contudo, o governo português que as ilhas dos Açores fizessem parte da estratégia Aliada que o Brasil compartilhava com os Estados Unidos, Inglaterra e França, entre outros países.  
Presidente da República Portuguesa general Antonio Oscar de Fragoso Carmona condecorando a bandeira da FEB.

A reação efusiva da população lisboeta à chegada do contingente brasileiro, segundo especula o mesmo professor, talvez tenha sido provocada por uma identificação, ou seja, entendida como: “[…] um feito de irmãos que enobreceu toda a família.” Daí a recepção emocionada com a qual foram recebidos nossos expedicionários em Lisboa. Creio que o sentimento geral dos portugueses ao verem aqueles soldados brasileiros desfilando seja muito bem expresso em um fado (música nacional portuguesa) gravado à época pela cantora Natália dos Anjos. O título é significativo: “Nossos Irmãos” e diz assim: 

Um regimento passou./ De soldados brasileiros./ E um menino perguntou./ Minha mãe, são estrangeiros?./ A mãe sorriu de maneira./ Que ao filho pareceu de troça./ Minha mãe é que a bandeira./ Que ali vai não é a nossa./ Nas cores não se assemelha./ Tem um céu, muitas estrelas./ A nossa é verde e vermelha./ Mas são lindas qualquer delas./ Aquela nobre bandeira./ Que volta altiva da guerra./ É da nação brasileira./ Que é irmã da nossa terra./ São nossos irmãos bem vindos./ São nossas as suas galas./ E até falam português./ Tal qual eu falo e tu falas./ Marcham ali perfilados./ Como se fôssemos nós./ Os avós desses soldados./ Foram os nossos avós./ Regressam de batalhar./ Pelo direito, pela verdade./ E acabam de conquistar./ Nossa própria liberdade (bis).
 
Apenas temos a reparar à beleza desse fado o fato de que a liberdade ainda tardaria, mais para Portugal que para o Brasil, pois ambos viviam ditaduras. No Brasil o fim do Estado Novo foi quase simultâneo ao final da II Guerra Mundial, no ano seguinte já tínhamos um presidente eleito. Em Portugal o Regime Salazarista terminaria quase trinta anos depois, com a Revolução dos Cravos. Porém  entende-se a palavra liberdade contida na letra do fado como tendo o sentido de libertar o mundo do projeto totalitário nazista.

O mais importante aqui é que a música reverenciava aqueles soldados brasileiros que cumpriram seu dever, como se portugueses fossem, expressando o sentimento coletivo do povo daquele país. Nas palavras da mãe portuguesa ao seu filho os brasileiros: “Marcham ali perfilados/ Como se fôssemos nós”.

De alguma maneira é como se nós, antigos portugueses coloniais, povo cuja construção mestiça africana, indígena e europeia fora arquitetada secularmente por Portugal, os representássemos. Segundo essa identificação aquele contingente de brasileiros, caboclos em sua maioria, garbosamente representaram as duas pátrias na Segunda Guerra. Pergunta a canção do expedicionário brasileiro: de onde vinham aqueles soldados? E a mesma canção responde com incomparável e emocionada beleza: “Das selvas, dos cafezais, […]/ Venho das praias sedosas,/ Das montanhas alterosas,/ Dos pampas, do seringal,/ Das margens crespas dos rios,/ Dos verdes mares bravios./ Da minha terra natal.”

Uma vasta programação comemorativa ao evento foi organizada neste ano de 2015 em Portugal por autoridades brasileiras e portuguesas, dentre elas o lançamento de uma obra. Trata-se do livro organizado pelo coronel Cláudio Tavares Casali intitulado “Força Expedicionária Brasileira em Lisboa: a célebre passagem das tropas brasileiras em Portugal” (1ª ed. Lisboa: Aditância do Exército e da Aeronáutica da Embaixada do Brasil em Lisboa, 2015). Para orgulho da Academia de Letras de Rondônia (ACLER) participa dessa obra coletiva seu acadêmico correspondente em Lisboa Rui Santos Vargas, ao qual parabenizamos. Contribui o referido acadêmico com um artigo sobre as condecorações que foram atribuídas em Lisboa ao Batalhão de Infantaria do Depósito de Pessoal da FEB e a vários oficiais. 

CASTIGO DOS COSTUMES: O Complexo de Nabokov e a Síndrome de Demóstenes

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Por MATIAS MENDES, escritor, poeta, membro da Academia de Letras de Rondônia, colunista do ste gentedeopiniao.com.br

Se fôssemos aqui tratar de Psicologia, por exemplo, teríamos que começar falando especialmente de Complexo de Nabokov, do qual padecem algumas pessoas, aquela espécie de contraponto do Complexo de Balzac, do qual eu mesmo admito padecer em razão da atração irresistível que sobre mim exercem as mulheres no esplendor da maturidade, conhecidas no jargão popular como lobas, panteras e tigresas, felizmente, para mim, ainda não incluídas como frutos proibidos em nenhuma legislação voltada para a invasão da privacidade do cidadão, aquele tipo de legislação que levou há muito tempo um pensador francês a expressar com acentuada amargura: “Les lois sont toujours nombreuses dans une mauvaise république.”

 Destarte, no Brasil, em decorrência da herança cultural do colonialismo, há um acentuado gosto dos legisladores em produzir legislação que proíbe toda sorte de prática de costumes arraigados na cultura popular como, por exemplo, pescar um peixe na beira do rio, caçar um animal silvestre para suprir a necessidade de proteína de uma família, pegar em uma praia alguns ovos de quelônio para fazer um mujangué, possuir uma obsoleta espingarda chumbeira para proteger sua casa e sua família de eventuais abusos, pegar um tronco seco de árvore para queimar no fogão a lenha ou fazer uma fogueira num bivaque, enfim, uma série de singelos hábitos que adquirimos ao longo da vida por herança atávica são hoje punidos com o maior rigor pelas leis modernoides feitas somente para atender aos interesses alienígenas de outros povos. Em suma, as leis próprias da Natureza foram aos poucos sendo suplantadas por uma legislação pseudomoderna que, não raras vezes, vai de encontro à cultura de um povo, perverte costumes consagrados por séculos de prática, em flagrante desacordo com o próprio conceito de Montesquieu que estabelece que as leis devem regular os costumes, mas não contrapor-se a eles. Daí porque tantas leis terminam sendo burladas, terminam sendo inaplicáveis, terminam não pegando e permanecem no arcabouço jurídico apenas como entulhos desnecessários, que se prestam apenas, vez por outra, a servir de instrumento de vinganças mesquinhas para atender aos mais obscuros interesses de natureza política ou simplesmente de alguns poucos indivíduos.

Cela va sans dire que ninguém é a favor de corrupção de menores, de pedofilia, de abuso contra vulneráveis, de estupros de qualquer natureza, de lenocínio, enfim, de qualquer forma de relacionamento forçado com pessoas de qualquer idade. No entanto, quando o Estado se arvora de tutor dos costumes, sem que tenha o aparato necessário para erradicar as verdadeiras causas que têm como efeito jovens em idade precoce ainda vivendo já como se adultos fossem, exercendo já todos os atos públicos e privados que caracterizam práticas de cidadania, inclusive relacionando-se sexualmente com parceiros das mais variadas faixas etárias, não raras vezes sendo tais práticas advindas de lúdicas diversões infantis com coleguinhas também precoces, aí é uma temeridade destroçar a vida de um cidadão de boa conduta pelo simples fato de ocasionalmente se haver relacionado com alguma pessoa mais jovem, da mesma forma que não seria justo alguém querer me penalizar pela minha preferência pelas mulheres maduras que eventualmente concordam em dividir uma cama comigo por algumas horas de íntimo lazer. Não há como o Estado interferir nas relações interpessoais entre os seres humanos, qualquer atitude em tal sentido se caracteriza como uma utopia perversa e pretensiosa.

É necessário que haja muita cautela em determinados casos para que não se descambe pelo abismo da Síndrome de Demóstenes, pois em tais casos o acusador de hoje poderá vir a ser o acusado de amanhã. Lembremos que o ex-senador Demóstenes Torres, que teve o seu mandato cassado por corrupção, nem de longe cometeu os crimes que tantos outros colegas seus do Congresso Nacional já cometeram sem que tenham sido punidos, mas o que de fato pesou contra ele foi a sua anterior postura de acusador dos pecados alheios. Quando o acusador se transforma em réu dos mesmos delitos contra os quais combateu, aí a sua condenação é inevitável. Daí porque os sábios latinos ensinavam que “Corruptio optimi pessima”, ou seja, que aquilo ou aquele que é ótimo, que é impecável, que é escorreito, quando corrompido, não é apenas ruim, não é apenas mau, é péssimo.

Houve tempos em que o fato de amar jovenzinhas não constituía delito algum. Vladimir Nabokov consagrou suas preferências por Lolitas em festejados romances, tanto quanto Honoré de Balzac consagrou com a sua pena magistral a sua preferência pelas mulheres maduras, dando a origem às expressões Complexo de Nabokov e Complexo de Balzac. Como se dizia lá pelo Guaporé que quando a barba do vizinho arde devemos colocar a nossa própria barba de molho, eu já começo a desconfiar que a qualquer momento algum legislador vai encontrar justificativa para criminalizar a atração pelas mulheres maduras, dizendo muito provavelmente que se trata de tara abominável, de atentado contra os bons costumes, de vício abjeto tão nocivo quanto o tabagismo que atenta contra a pureza das mães e avós, enfim, já temo ser transformado a qualquer momento em famigerado criminoso, proscrito como tarado irrecuperável, talvez até condenado à castração química para que não me seja mais possível cometer o delito hediondo. Temo até mesmo ser condenado ao mutismo… e não me perguntem por quê…

ESRON: Pioneiros..

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Esron Penha de Menezes (In memorian), professor, jornalista, membro fundador da Academia de Letras de Rondônia, falecido em janeiro de 2009

Uma jovem perguntou-me dias passados se eu já havia escrito alguma crônica sobre os primeiros habitantes de Porto Velho e quais desses pioneiros têm descendentes ainda aqui. Para responder a minha jovem interlocutora, tenho que remontar aos meus anos de juventude e fazer um esforço de memória para desandar a máquina do tempo, fator que certamente provocará algum esquecimento, algum engano. Devo lembrar aos leitores e internautas que dentro de poucos dias estarei completando três quartos de século de vida terrena e as incompreensões, as desilusões preponderam decisivamente na mais fecunda das inteligências. Vamos rememorar o passado. Vejo Porto Velho de 1922, com duas farmácias, que naquele tempo se escrevia PHARMACIA, do gordo Arthur Napoleão Lebre de quem só conheço descendentes a esposa do Celso Marques Mendonça e a do raquítico José de Lima Thales, de quem não conheço nenhum descendente por aqui. Naquele tempo era Superintendente o Pe. Dr. Raimundo de Oliveira e presidente da Intendência (Câmara) meu pai que tinha um ordenado fabuloso de duzentos mil réis por mês. Na Superintendência, apesar de ter apenas oito anos, lembro que era Secretário Geral o jovem Álvaro Botelho Maia, meu coestaduano e meu conterrâneo, que foi Interventor e Governador do Amazonas, Senador da República, cidadão de inteligência muito fértil sem falsa modéstia – dote dos filhos de Humaitá: Álvaro Maia, Almino Afonso e…eu. O tesoureiro, um português, João Soares Braga, misto de contador (economista ou técnico em contabilidade) e ator cênico, que foi mestre da arte de Dona Labibe Bártolo do seu ex-marido Carola e do ex-marido de Dona Lígia Guimarães, o Alexandre. Havia também um marchante chamado José Pontes que construiu para suas filhas Olívia e Odete aquelas casas da Prudente de Moraes, onde foi o Fórum. No comércio lembro do George Resky que era ourives e relojoeiro, numa porta na José de Alencar, o Milede Chalfoun onde foi o Bazar das Miudezas, o Au Bon Marché do Chucre Jacob & Irmão – esse irmão era meu saudoso amigo Abdon, pai dos Drs. Jacob e José, residentes aqui. Existia o Miguel Chaquian, que não posso identificar onde tinha seu estabelecimento comercial e na 7 de setembro existia a Formosa Síria, do meu padrinho de casamento Elias Goraieb, tio do Dr. Constantino, Emil, da Ex-Deputada Marlene, da funcionária América e do economista Anizinho, e o Dib Mutarey, que acabou como macumbeiro e carregador, depois de ter sido um próspero comerciante. Já existia, naquele tempo, uma representação da casa J.G. de Araújo, sob a gerência de José Centeno, que foi apelidado de Comendador e por sinal existe esse prolongamento da rua José Bonifácio que a Câmara Municipal denominou de Ladeira Comendador Centeno. Dele existe por aqui uma filha, Dona Luiza, que foi funcionária do Território. Na Barão do Rio Branco, existiu a funilaria do João dos Santos Reis, do qual por aqui existem ainda muitos de seus descendentes, entre eles o veterinário Dr. João Reis (Careca), e Dona. Lucinda Morais esposa do Dr. Walmi Davies de Moraes, destacado político das hostes do PTB, e ali também morava o meu padrinho e cunhado Eng. Francisco Alves Erse, avô do Ex-Prefeito Chiquilito e do Ex-Secretário da SEMPLA, Luiz Guilherme. Nessa mesma rua estava localizada a redação do jornal A Gazeta, do Promotor José Matheus Gomes Coutinho, que faleceu no Ceará, faz muitos anos, e não deixou descendentes por aqui. Nesse tempo o Alto Madeira era do Dr. Tanajura, 2º Superintendente de Porto Velho e o lº eleito e se situava naquele edifício construído pelo seringalista Jovino Lemos, esquina da Prudente de Moraes com a 7 de setembro, e era dirigido pelo Cincinato Elias Ferreira, que de parentes por aqui só o afilhado, Ex-Juiz classista José Ferreira da Costa mais conhecido como Zé Paca. Na Madeira Mamoré havia muita gente que deixou descendentes que hoje são orgulho da tradição pioneirista de Porto Velho. Os Shockness, as Maloney, as Heron, as Bassalo, os Trivério, os Maia {(Amadeu), o Davy (Sany e Alex, os Martins (Dona Olga e Eugênio) os Paes, os Cantanhêde, os Câmara Leme, estes os de quem lembrei). 

OS CHATOS DE GALOCHA

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CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES

Paulo Cordeiro Saldanha, advogado, empresário, membro da Academia Guajaramirense de Letras e da academia de Letras de Rondônia, colunista do site gentedeoiniao.com.br e do jornal Alto Madeira

  Bem, essa expressão é antiga, pode significar um tipo de calçado que se usa por cima do sapato que não se deseja sujar nem danificar. A melequeira deverá ficar na galocha, não na peça de couro de estimação.

Mas poderá ser uma pessoa chata, invasiva, desconhec
edora de limites; quando chega num ambiente, as pessoas fogem dela.

A galocha é construída para ser resistente, igual aos chatos que subsistem no tempo e se fixam nos ambientes de trabalho, nos clubes, nos eventos sociais. Tentam ser sócios e parceiros instigantes e intrigantes numa sociedade.

É como se os chatos vestissem ou, no caso, calçassem as galochas virtuais para impor suas presenças desagradáveis num evento, numa solenidade, reunião ou serviço, sempre com tiradas inconvenientes, fora de hora e de propósito, fugindo às regras da boa convivência social. É figura que resiste ao tempo, igual uma galocha faz protegendo o calçado que se deseja resguardar.

Mas ninguém deseja guardar para si um chato de galocha… Nem no ambiente onde labora, muito menos no círculo social, religioso; nem no colégio, muito menos na universidade… Mesmo nas zonas do baixo meretrício o chato não será aplaudido.
No meu tempo de estudante eu ouvia as coleguinhas desabafando, por exemplo, por causa do comportamento desajustado de alguns a quem já alcunhavam de chatos de galochas, fosse porque se achavam galãs e “cantavam” todas as meninas que estivessem passando, com as frases já ultrapassadas no grupo dos poetas de quinta categoria, fosse porque, com aquele “bafo de onça”, desejavam conquistar aquelas princesas falando barbaridades que jamais as enterneciam, ao contrário. Inclusive provocavam reações hilárias, desconcertantes, culminando com o abandono do “mocinho” no salão de festa.

Outros se achavam dançarinos profissionais e faziam piruetas como se estivessem num palco de circo, provocando risos e recolhendo vaias e impropérios.

Alguns poucos, em função da bebida ingerida, partiam cambaleando para o sacrossanto momento do convite para a dança, falando frases desconexas que irritavam a moça escolhida para o rodopio no salão.

Uma noite, no Helênico Libanês de Guajará-Mirim, presenciei um chato de galocha dançando com uma socialite local, comendo uma coxa de galinha enquanto a fazia deslizar na pista reservada às danças. Imagino as mãos sujas de óleo e com as laterais dos “beiços” todas melecadas em nome do amor!

Péssimo gosto dela ao aceitar esse acinte! E dele por cometê-lo, depreciando-a como mulher e partner.

O chato ou o chatonildo, via de regra, deseja agradar. Mas cada gesto que move traduz-se como aborrecimento e desagradabilidade, ainda que possa eventualmente tentar ser pessoa carinhosa, afetuosa e simpática. O enfadonho não convence: tem estampada na face e nos gestos a chatice mais profunda, aquela que agride, aquela que fossiliza…

Havia os chatos que nos visitavam após o almoço. Chegavam impedindo que a família curtisse a folga do sábado e do domingo. Apareciam sem marcar hora e nos “alugavam” durante parte da tarde.

E há ainda aquele chato que é o inventor de tudo que já fora criado antes mesmo dele nascer! Na sua resoluta opinião é sempre o mais sábio, o mais inteligente e o mais pragmático… Na sua visão muito própria e abalizadíssima, é o mais preparado sempre!

Enfim, o chato de galocha é criatura muito maçante, inconveniente, insuportável e irritante! (não gosto do termo, mas a televisão já mostra descaramento ao se referir a ele: é um pentelho!)

Sim, pentelho, falado e repetido pelos chatonildos que apresentam os programas televisivos. E é nesse segmento que os chatos de galocha viram unanimidades locais, regionais e nacionais.

O INTRÉPIDO Zé BOSSA

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Hugo Evangelista da Silva*

Qualquer referência criteriosa que se faça a respeito de pessoas que vivem ou viveram no bairro Santa Bárbara esta passará, inexoravelmente, por um morador muito especial: o Sr. José Ferreira, popularmente conhecido por Zé Bossa ou Bossinha, como era chamado pelos mais íntimos, exceção feita à sua mãe d. Maria Ferreira que, no trato maternal dispensado ao seu único descendente varão, preferia chamá-lo de uma forma bem mais carinhosa: Zézinho!

Bossinha e sua mãe moravam ali na Rua Almirante Barroso numa casa modesta edificada em meio a tantas árvores frutíferas, em um grande terreno localizado entre a Rua Marechal Deodoro e a Avenida Joaquim Nabuco, onde costumavam ser apontados pelos demais moradores da vizinhança por suas distintas qualidades: Ela, d. Maria Ferreira, uma excepcional benzedeira, a quem recorriam mães aflitas em busca de cura aos males que atormentavam suas crianças, notadamente o quebranto, o mau-olhado e as tantas erisipelas tão comuns às nossas gentes, conseqüência de uma precária política de saúde pública então dispensada à nossa população pelas autoridades de saúde do Território Federal. Ele, o Zé Bossa, por suas irreverentes e incorrigíveis atitudes.

Jota Ferreira, como o Bossinha se autodenominava, era, sem dúvidas, uma figura singular dentre os moradores do bairro Santa Bárbara. Cultivava hábitos comuns às gentes de seu tempo, notadamente o prazer pela caça e pesca que praticava com alguma regularidade, vez que não existindo ainda o rigoroso controle hoje observado pelas autoridades ambientais com vistas à preservação de nossa fauna e flora. Desenvolveu algumas habilidades mecânicas, porém, sua especialidade era mesmo os serviços de soldas que realizava com indiscutível qualidade, o que lhe rendia convites e remunerações privilegiadas provindas das diversas empresas de extração do estanho por aqui estabelecidas.

Duas “histórias” relacionadas ao Bossinha são particularmente hilárias: Uma contou-me seu grande amigo e companheiro de pescarias e caçadas Raimundo Marinho, o “mano velho”, assim: Certa vez, chegado a Porto Velho depois de uma longa permanência de trabalhos em alguma mineradora, botou sua melhor roupa – calça e camisa em puro linho “hj” caprichosamente engomadas por sua mãe – e se mandou rumo ao baixo meretrício que, naquela época, ficava ali na Rua Afonso Pena, entre a Rua Marechal Deodoro e a Avenida Joaquim Nabuco, onde esperava encontrar os amigos de sempre e recuperar o tempo perdido relacionado aos “prazeres da carne” do qual há muito estivera privado, mormente, a ausência de mulheres “profissionais do sexo” em locais onde ele exercia o seu labor. Entre tantos tragos e muita conversa com os amigos no afamado “Tambaqui de Ouro”, Bossinha já um tanto “alto”, resolveu patrocinar suas graças invocando de pronto suas inconvenientes atitudes.

Insultou a um e outro frequentador que o ignoraram, até chegar num crioulo de estatura avantajada, no melhor estilo quatro por quatro, que ele não conhecia e foi agindo: enfiou o indicador, com alguma força, no peito do moço e falou: – Ei você que eu não conheço, vá logo dizendo seu nome, de onde veio e para onde vai! O rapaz quedou-se imóvel. Bossinha deu uma volta pelo ambiente, tragou mais uma pinga de um só gole ao pé do balcão e voltou-se para o moço, repetindo a cena: – Ei você que eu não conheço, vá logo dizendo seu nome, de onde veio e para onde vai! O rapaz manteve-se inerte. Crente que estava a fazer enorme sucesso com suas peraltices, Bossinha rodopiou pelo salão tomou mais uns tragos e veio em direção ao moço, fazendo a mesma indagação: – Ei você que eu não conheço, vá logo dizendo seu nome, de onde veio e para onde vai! O rapaz, já possesso com as graças do Bossinha, desferiu-lhe uma bem aplicada “bolachada” que fez o Zé passar lotado pela porta do boteco, levando várias mesas e uns tantos clientes de roldão, caindo estatelado no meio da rua, só recobrando os sentidos por completo alguns minutos depois. Levantou-se ainda um tanto grogue, bateu a poeira, deu uma cusparada ao chão, limpou aos beiços e foi em direção ao crioulo que o esperava em posição nada receptiva. Zé Bossa parou, olhou ao moço e logo percebeu a dificuldade da empreitada, se acaso resolvesse encarar o “bicho”. À falta de recursos físicos mais eficientes, disse: – Pois é, comigo não tem choro não, chegando aqui tem que dizer logo qual é o nome, de onde veio e para onde vai! Entendeu? Deu meia volta e se mandou!

Aoutra história me foi contada por meu primo Francisco de Assis, o Tico, sobrinho do Bossinha pelo lado materno. Aconteceu assim: Numa das curtas temporadas que passava em Porto Velho, após longa permanência nas minerações, Zé Bossa conheceu, no baixo meretrício, uma “garota” de habilidades indescritíveis e predicados inconfessáveis, de quem logo se apaixonara perdidamente. Viveu, com a moça, momentos de desmedida paixão, até que exauridos seus recursos financeiros, viu-se obrigado a retornar ao trabalho, à busca de mais numerários. Permaneceu em seu trabalho na mineradora o tempo suficiente para acumular uns tantos “trocados”, numa espera angustiante e na expectativa do momento de voltar aos braços da amada que, supunha, estaria à sua espera.

Aqui chegando foi direto à procura da moça e, para sua surpresa, ficou sabendo que sua grande paixão estava, agora, repousando em outros braços e não pretendia mais qualquer relacionamento amoroso com ele. Foi o caos: Bossinha mergulhou, de pronto, em profundo desconsolo, recorrendo, nessa hora, a cachaça. Tragou sua bebida em sofrível lamento até que, esgotadas suas forças físicas, resolveu voltar para casa, amargando sua derrota, assaz inconsolável. Até a chegada já estava em prantos. Adentrou ao lar – onde o esperava sua mãe – em estado lamentável, gemendo e gritando, a reclamar de uma dor insuportável. Dona Maria Ferreira, aflita com o estado do filho quis saber logo o que o incomodava. Ele disse-lhe: – Estou com uma dor horrível, mamãe! Ela, um tanto aturdida, insistiu na pergunta: O que é que você tem Zezinho? A resposta foi a mesma: Estou com uma dor horrível, mamãe! D. Maria sem saber que providências tomar, perguntou-lhe: E que dor é essa Zézinho? Respondeu: É a dor mais doída do munnnnnnndo, mamãe! D. Maria, na busca desesperada de encontrar um paliativo para a dor do filho, quis saber mais, perguntando: E qual é essa dor mais doída do mundo, Zezinho? Ele com voz embargada, pela dor ou pelo álcool, respondeu: É a dor de corno, mamãe!!!

 

* Advogado, escritor e memorialista, membro da Academia de Letras de Rondônia conta histórias que viu ou ouviu sobre nosso estado, nossa cidade e do bairro em que nasceu e reside: o Santa Bárbara. e-mail: [email protected]   

Os primeiros jornais do rio Madeira

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Dante Ribeiro da Fonseca, professor de História da Unir, membro da Academia de Letras de Rondônia, colunista do jornal Alto Madeira e do sitegentedeopiniao.com.br, historiador e escritor

 

A liberdade de expressão, os direitos civis e a urbanização como expressões típicas da modernidade encontram uma de suas manifestações no jornalismo. Essa afirmação, contudo, deve ser relativizada no Brasil entre o Segundo Império e a Primeira República. Nessa época, os direitos civis não passavam de uma fantasia e a liberdade de expressão uma abstração. No Brasil, a modernidade se diluía, em meio ao arcaísmo de nossas instituições sociais. Todavia, de um fenômeno não podemos desvincular o jornalismo em qualquer época: a cidade e desta o comércio.

Os raros exemplares dos jornais do rio Madeira, do século XIX até a segunda década do século XX, que sobreviveram até o nosso tempo mostram esse crescimento comercial nas vilas e cidades do rio Madeira. Era ainda o comércio limitado à pequena população urbana e, talvez, aos poucos sítios agrícolas próximos. A clientela rural dos seringais não se servia do comércio urbano próximo, mas do barracão do seringal. Da limitação do comércio local derivava a limitação dos seus jornais: pouca população urbana e poucos leitores, também em razão do analfabetismo.

Salvo melhores pesquisas, o primeiro jornal do rio Madeira foi o “Rio Madeira”, que se definia como folha crítica e noticiosa. Temos dele cópias digitalizadas de dois exemplares datados de Manicoré, dias 18 de dezembro de 1881 (no. 5) e 18 de junho de 1882 (no. 28), ambos do seu primeiro ano de circulação. A não ser que encontremos título com exemplar mais antigo, fica esse sendo o primeiro ancestral dos jornais do rio Madeira.

Como estou interessado na vida comercial das cidades do rio Madeira no século XIX, procurei nesses exemplares anúncios comerciais. Não conseguiram mudar a opinião anterior de que o comércio local era restrito. Soube que naquele ano o Bazar Manicorense estava liquidando seus estoques porque seu proprietário ia retirar-se para a Europa, por motivo de doença. A pechincha consistia em vender o estoque aos preços do Pará. Abraham S. Israel, também estava se retirando do comércio local pelo mesmo motivo. Também de mudança de firma: um por falecimento de um dos sócios e outro por rompimento de sociedade.  Porém não pudemos saber a que ramo do comércio era dedicado essas firmas.

A Loja Flora, a se acreditar no anúncio, vendia “muito baratos” tecidos e peças de vestuário aos clientes a quem chamava “compadres”. A Loja Lealdade também trabalhava no ramo de modas. Interessante é que essa casa propunha em seu anúncio abastecer outras casas comerciais naquele rio e delas comprar gêneros (agrícolas ou extrativistas certamente). Dois aspectos aqui devem ser ressaltados: é possível que o comércio urbano local promovesse uma espécie de escambo com a área rural e que em alguns casos havia uma relação direta de compra e venda desses produtos entre casas comerciais locais. A esse propósito, há um anúncio da Casa de Comissões e Consignações de Domingos de Almeida Souto, de Manaus. Esse ramo de comércio, ao que tudo indica, intermediava a compra de gêneros dos estabelecimentos rurais do rio Madeira e a compra de gêneros para esses estabelecimentos mediante comissão. Essas duas últimas casas comerciais parecem realizar uma atividade mercantil diferente das casas aviadoras, pois uma comercializava a troco de comissões e a outra comprava gêneros da produção rural e vendia suas mercadorias. Finalmente, digno de nota é um anúncio que trata de uma promissória referente à venda de uma escrava, demonstra que embora a escravidão africana fosse muito pouca na Província do Amazonas, ela existia também no rio Madeira.

Assim, entre comerciantes judaicos, escravos de origem africana, doenças, mortes, fim de sociedades, comissões, aviamentos e intermediações vão se alinhavando nos jornais do rio Madeira do século XIX interessantes sugestões de pesquisa.

Também em Manicoré surgiu o segundo jornal do rio Madeira, “Commercio do Madeira” no ano de 1884, era semanal e intitulava-se órgão especial do comercio. Apesar do título, apenas três notícias ligadas ao comercio local no quinto exemplar desse jornal: anuncia gratificação pelo paradeiro de um comerciante que explorou uma padaria e taverna naquela cidade; informa que a loja de João Francisco Dias & Cia. (coronel e proprietário também do mesmo jornal) recebeu pelo vapor Marajó tecidos e artigos de armarinho para homens, mulheres, crianças e gêneros de alimentação; a terceira informa os artigos à venda no estabelecimento comercial de Pedro Luiz Sympson: vestuário, cama e mesa, gêneros alimentícios, armas, munições e ferramentas, bebidas, papelaria e tabacaria.

Em 1887 surgiu a “Gazeta de Manicoré”, órgão do partido conservador. Pelo número de 16 de janeiro de 1887, soubemos da existência de um médico residente na povoação e um advogado. Ainda nesse mesmo número anuncia os últimos preços dos produtos na praça do Pará. Dentre esses, alguns artigos da produção do rio Madeira: azeite de andiroba, borracha fina, entre fina e sernambi, castanha da terra (do Pará?), couros, cumaru; estopa de castanheira, guaraná, óleo de copaíba, tabaco do sertão, ucuúba, manteiga de tartaruga, mixira  e pirarucu seco. Alguns desses gêneros eram produzidos na vazante nas sazonais feitorias do rio Madeira, como a da praia do Tamanduá, onde se produzia manteiga de tartaruga e mixiras. Também em feitorias para a salga do pirarucu. Eram certamente destinados aos mercados consumidores locais, inclusive urbanos, pois eram nessa época gêneros de alimentação diária na Amazônia. Outros porém, certamente obtidos na praça de Belém para o abastecimento do rio Madeira como: farinha de mandioca e o sabão de cacau.

Em 1891 foi fundado na cidade de Humaitá o jornal semanal “Humaythaense” que ainda circulava em 1912. Por iniciativa da Madeira & Mamoré Railway Co. surgiu em Porto Velho em 1909 o jornal The Porto Velho Times, escrito em inglês. Em 1912, em Santo Antônio do Rio Madeira, pertencente ao município mato-grossense de mesmo nome, foi instalado o jornal “O Extremo Norte”. Naquele ano iniciou a irremediável decadência do negócio da borracha, derrotada pelas plantações inglesas do oriente. No ano da instalação do município de Porto Velho,  1915, surgiu aqui seu primeiro jornal: “O Município”, que depois foi comprado por políticos e empresários locais e assumiu o nome de “Alto Madeira” em 1917.

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À Memória de Nadir Ivo Albuquerque

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* Yêdda Pinheiro Borzacov
 

Quando um amigo parte para o Mundo Maior, leva consigo uma parte de nós mesmas. Amigo completa nossa existência, alimenta nosso cotidiano. É com ele que dividimos os nossos encantos. Não existe medida maior para a grandeza de um caráter do que o poder de saber fazer amigos. E a professora Nadir Ivo Albuquerque, a mãe Dina das crianças do Educandário Belisário Penna, sabia ser amiga. Amiga, amicíssima, leal e de uma extrema fidelidade às suas amizades. Fomos amigas desde 1960, ela e o seu marido, Pedro Olímpio foram padrinhos de meu casamento, em 1965, com Eduardo Borzacov. Por uns anos, eu e Lindomar Soares, tivemos o privilégio de ajudá-la no seu magnífico trabalho no Educandário. Depois, com a chegada de filhos, afastei-me da tão abnegada obra realizada pela mãe Dina, mas a amizade foi sustentada pelo respeito mútuo.

Ao ter conhecimento da passagem de mãe Dina para a vida espiritual, lembrei-me que a morte para aqueles que viveram bem é como o desgarrar de um pantanal tenebroso para a sublimidade das planícies celestes.

Lembro-me de uma história ocorrida com um dos maiores escritores conhecido mundialmente. Ele amava com um amor terno e imenso a sua mãe, magrinha, suave, já atingindo o anoitecer da existência. Ela faleceu, como todos nós faremos um dia. Inconsolável, ele abandonou sua terra natal, não pretendendo jamais retornar. Achava impossível voltar ao velho casarão onde passara sua infância e adolescência. Andar pelas ruas, ver as mesmas praças, quem sabe, encontrar as mesmas pessoas e não encontrar sua mãe que fora também a sua melhor amiga.

Os anos passaram, e um dia não suportando a saudade que o invadia, retornou à cidade. Foi direto ao cemitério, onde supunha que sentiria a presença da mãe. Entrou. Rangeu sob os gongos, o velho portão de ferro. Havia um completo silêncio por entre os túmulos. Procurou o de sua mãe, sentando-se nele. Parecia-lhe incrível que ela, sua mãe, ali estava, debaixo daquela pedra fria, naquele lugar ermo, sozinha, sem poder falar, sem poder segurar suas mãos, acariciar-lhe os cabelos, beijá-lo, e dizer-lhe: “Meu filho querido!” Onde estava ela? Por que partira?

Impiedosa e amarga é a morte, pensava. Vem quando e como quer, e leva aqueles que passam por suas mãos. Chorava.

Percebeu nesse momento, um vento suave que balançava as folhas do coqueiro, ao lado do túmulo da mãe amada. Com um lenço enxugou os olhos e no auge do seu desespero “sentiu” e “ouviu” que alguém estava ao seu lado e lhe falava:

— Filho querido, ânimo! Eu não estou onde tu pensas. Não te desesperes! Já atingi um plano muito além e acima da vida térrea. Estou alegre e trabalhando no exército de Cristo. Deixa de lado este apego às coisas terrenas que se destroem e nada deixam. De que valem meus ossos, meus restos? Nada. Apega-te naquilo imortal: o espírito. Filho, não lamente a minha partida. Tuas lágrimas serão as minhas. Teu desespero, o meu. Deves renovar tuas forças e procurares a verdadeira vida. Jesus a dá à todos nós. Vai e não penses que estou aqui.

Ele saiu. Seu estado de espírito era outro. Abandonara-o aquele abatimento moral, aquele apego ao que não mais existia de sua mãe. Olhando o sol poente, a quietude dos arredores, ele teve a certeza absoluta do lugar maravilhoso onde ela estava, e de que, não ele, mas ela, é que deveria lamentá-lo, enquanto se encontrasse naquela escuridão de espírito. Reagiria, na convicção que ela encontrara a paz. Ela estava muito bem. Ela vivia a outra vida.

Um conforto imenso invadiu seu coração. Poderia sentir saudades da mãe, sua falta, sua ausência. Amara-a muito, era humano. Contudo, como uma homenagem à mãe que viera ajudá-lo, ele iria viver sabendo de que a morte para os bons é como um sono tranquilo e a passagem para o Mundo Maior “dos que dormem no Senhor”.

Márcia, Maria de Fátima, Sílvio, Nelson, Sérgio e todos os filhos do Educandário Belisário Penna, da mãe Dina: Não existem aqui princípios outros religiosos que não um sentimento de profunda solidariedade com a dor que ora paira sobre vocês.

Sentimos e choramos juntos. Mas, juntos também enviamos nossa mensagem de vida, de conforto, de consciência plena de que ela está viva no plano espiritual. Atingiu o sublime, onde há primavera constante, amor e paz dando-se as mãos. Vida verdadeira e abundante.

 
* Yêdda Pinheiro Borzacov, da Academia de Letras de Rondônia, do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia, vice-presidente do Memorial Jorge Teixeira e colunista do site Gente de Opinião, colunista do jornal Alto Madeira.

Até quando se tratará diferentes como iguais?

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Lúcio Albuquerque, repórter, membro da ACLER
 
            Há algo de muito errado com a aplicação da legislação brasileira quando o assunto seja “crime de trânsito”. Observe-se não tratar de “infração no trânsito”, mas de crime capitulado no Código Penal, porque refere-se à morte de outra pessoa.
            É preciso entender bem quando acontece um acidente, o que lamentavelmente qualquer de nós que dirijamos veículo podemos estar sujeitos a nos envolver. E muitas vezes não por culpa direta do condutor, haja vista que outros fatores, até a falta de educação de pedestres sobre o uso de seu espaço no trânsito, influenciam para que acidentes aconteçam.
            No entanto, quando o condutor se dispõe a dirigir embriagado, então, em meu entendimento, a coisa muda de figura e não deve ser tratada da mesma forma como o do cidadão que sai para o trabalho e de repente se vê envolvido num caso que vá parar nas manchetes policiais. Aí o enquadramento como “crime culposo”, no qual o envolvido não teve a intenção é entendível.
            Agora, no Rio de Janeiro, o Ministério Público pediu o enquadramento de um condutor de veículo na condição de “crime doloso”. O “doloso” representa quando o autor concorre para criar condições ao resultado final de sua ação, no caso o que seria possível chamar claramente de “assassinado premeditado”.
            Mas uma juíza decidiu que não, que o autor deve ser enquadrado como “culposo”, quer dizer, que não teve intenção de matar, concedendo-lhe ainda o direito de pagar uma fiança e ir para casa.
            E por que entendo que a juíza errou? O acusado estava bêbado, carro em alta velocidade e já tinha um passado de infrações que, no mínimo, já deveria ter provocado a cassação de sua CNH. Vejamos: “A ficha de Ivo Nascimento de Campos Pitanguy no Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RJ) tem 23 folhas, com 70 multas aplicadas nos últimos 5 anos, o que dá mais de 240 pontos na carteira. Do total de multas, 14 são por dirigir embriagado”. Ele é uma situação única? Não, mas enquanto autoridades continuarem com a leniência com que o caso presente vem sendo tratado, vamos ter de registrar muitos outros casos semelhantes.
            Ainda mais porque magistrados como a juíza carioca certamente há muitos por aí, colocando na vala comum todos os que se envolvam em acidentes, tanto aqueles que o fazem sem intenção alguma quanto os que, como o caso presente, sejam contumazes causadores da violência no trânsito, e decisões assim como a desta senhora é que causam a – justificada – revolta da sociedade contra a maneira como a palavra Justiça é aplicada neste país.

CARTA ABERTA AO DEPUTADO MAURÃO DE CARVALHO

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Excelentíssimo Deputado Estadual Maurão de Carvalho

DD. presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Rondônia

 Considerando Vossa Excelência um cidadão democrata, comprometido com a prevalência do estado democrático de direito, permita-me na condição de integrante da comunidade rondoniense sugerir-lhe promover a realização de plebiscito para a escolha da denominação do prédio sede de nossa Assembleia Legislativa, em consonância com o principio basilar constitucional, dispondo que: “Todo poder emana do povo, que o exerce diretamente ou por meio de representantes eleitos, nos termos da Constituição Federal e desta Constituição.” (Parágrafo Único do artigo 1º, da Carta Magna do Estado de Rondônia).

Antecipando-me, caso nossa indicação seja acolhida, na relação dos nomes submetidos à seleção popular, inclua-se o do major do exército Fernando Guapindaia de Souza Brejense, o qual após destacar-se na campanha militar de retomada do povoado brasileiro Amônea, ocupado por tropas militares peruanas, expulsando-as. Solicitou em 1909 reforma do exército, fixando residência em Manaus.

Por intermédio da Lei n.º 752, de 2 de outubro de 1914, sancionada por Dr. Jonathas de Freitas Pedrosa, governador do Estado do Amazonas, foi criado o município de Porto Velho, com sede no povoado da mesma denominação, surgindo a partir de 1907, próximo as instalações ferroviárias da empresa construtora Norte-Americana May, Jekyll and Randolfh, contratada pelo empresário Percival Farqhuar para construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré Railway, os quais consideravam os habitantes do povoado brasileiro, marginais invasores de espaço de sua propriedade, exigiam serem expulsos. Não lhes permitiam trânsito em sua área privada, para tanto mantendo uma guarda de seguranças armados. Situação que perdurou até julho de 1931.

Em dezembro de 1914 o major Guapindaia foi nomeado Superintendente (prefeito) do município de Porto Velho, instalando-o em 24 de janeiro de 1915. Providenciando a implantação da infraestrutura urbana, abertura de ruas, alinhamento das residências, construção de pontes sobre os igarapés interligando-as, construção do cemitério municipal, do mercado e da cadeia pública, inauguração da escola primária municipal. Expedição da Lei Orgânica de organização estrutural e institucional do município, expediu decretos regulamentando a cobrança de impostos, implementando o Código de Postura; regulamentando o serviço de construções, suas posturas e a concessão de terrenos públicos; ordenando o espaço físico do povoado, urbanizando-o; proibindo a empresa Madeira-Mamoré Railway Company a exercer a prática de poderes públicos privativos dos governos Federal, Estadual e Municipal, vedando-a de cobrar impostos, inclusive de embarque; expedir títulos de propriedade e licença para construção de imóveis residenciais e comerciais; extrair madeiras em florestas municipais; determinando que o terreno da Madeira-Mamoré, era o situado entre o Rio Madeira e a transversal no sentido Norte/Sul, separando-o do terreno do povoado de Porto Velho, denominando-se Avenida Divisória (atual Presidente Dutra).

O gerente geral da Madeira-Mamoré, o qual não reconhecia as autoridades legais dos governos dos Estados do Amazonas e de Mato Grosso, praticando ingerência indevida em matérias privativas do município. Mediante as coibições de Guapindaia, reagiu, tumultuando a sua administração, mandando-o desocupar as casas lhes concedidas para sede municipal e para a sua residência, cancelou o passe-livre nos trens da ferrovia e prestou apoio aos amotinados contra o alcaide, lhes fornecendo armas de fogo e munições. Porém a prepotência do administrador estrangeiro, não o demoveu de fazer valer a prevalência da lei e as prerrogativas legais da municipalidade.

Em 1916 presidiu a primeira eleição municipal, dando posse aos eleitos, em 1º de janeiro de 1917. Árdua missão cumprida, com denodo cívico e patriotismo.

A Guapindaia de fato e de direito, se deve a consolidação do povoado de Porto Velho dos Brasileiros, do qual se irradiaram as ações politicas, econômicas e sociais originando o Município, o Território Federal,  o Estado.

Portanto, se for escolhido para emprestar o seu nome para denominar o prédio da Assembleia Legislativa “Palácio Major Fernando Guapindaia”, será uma honrosa e merecida homenagem ao ínclito homem público, preservando e perpetuando sua memória.

 Atenciosamente,

 Abnael Machado de Lima