Início Site Página 12

SOLDADOS DA BORRACHA NOS SERINGAIS DO ATUAL ESTADO DE RONDÔNIA

0

A ocupação da Malásia pelos japoneses na Segunda guerra Mundial (1939/1945) privou as Nações Unidas de importarem borracha nativa matéria prima imprescindível à indústria bélica. A solução era obter esse produto do Brasil.

Considerando a volumosa tonelagem necessária a ser imediatamente aplicada e também de reserva estocada, era preciso a adoção de urgentes medidas concernentes a revitalização dos seringais da Amazônia, fomentando a produção de borracha em larga escala. Com este objetivo os Estados Unidos da América do Norte e o Brasil firmaram no mês de março de 1942, os Acordos de Washington, pelos quais o primeiro se comprometia a repassar recursos monetários para o segundo, e este a fornecer toda a borracha necessária ao primeiro. Para tanto, a Amazônia tornou-se zona de guerra, teatro da “Batalha da Borracha”.

A execução dessa operação de guerra ficou sob o encargo de várias empresas estatais organizadas nos Estados Unidos do Brasil, com esta especifica finalidade, as quais não se entendiam entre si. As norte-americanas eram a Board of Economic Warfare, a Recontruction Finance, a Rubiber Reserve Company e a Suplies Corporation. As brasileiras eram o serviço de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia/SEMTA, criada pela Portaria n.º 162 de 30  de novembro de 1942, subordinado ao Ministério do Trabalho, foi substituído pela Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia/CAETA, Decreto-Lei n.º 5.813, de 14 de setembro de 1943.

O governo norte-americano de uma vêz repassou para a primeira dois milhões, setecentos e cinquenta mil dólares, e para a segunda dois milhões  e  quatrocentos mil dólares. Além dessas duas foram criadas a Superintendência para o Abastecimento do Vale Amazônico/SAVA, o Serviço Especial de Saúde Pública/SESP e o Banco da Borracha. A SAVA no alto Madeira  (Porto Velho) era administrada pelo engenheiro Joaquim de Araújo Lima e o Banco da Borracha (Porto Velho), gerenciado pelo empresário Raimundo Cantuário.

O governo brasileiro (Presidente Getúlio Dorneles Vargas) por intermédio de propaganda enganosa, comprometendo-se com os voluntários a virem para os seringais da Amazônia, ser firmado um contrato de soldado da borracha, valido por dois anos, pelo qual o contratado receberia passagem, diária completa de pousada e alimentação, uniforme, equipamentos de trabalho, amparo à família, tratamento médico, assistência religiosa, o pagamento de dez cruzeiros diários, no local de trabalho, o direito de posse de 60% no mínimo, da borracha produzida, a qual livremente venderia por até vinte  cruzeiro, do mesmo modo a 50% da castanha colida e da madeira derrubada, como também a um hectare de terreno para plantar. Conseguiu recrutar cinquenta e cinco mil nordestinos  instituído pelo Decreto n.º 5.225, de 10 de fevereiro de 1943, o Batalhão da Borracha, destinado à batalha da borracha, isto, é a operação de emergência de extração de látex para os norte-americanos.

Os dispositivos do contrato não foram cumpridos, os recrutados foram entregues aos patrões seringalistas, sujeitos ao regime de trabalho e ao tratamento dado aos seringueiros nos seringais.

Na nossa Porto Velho os arigós* eram recepcionados com aparato policial e conduzidos a um espaço cercado por arame farpados e alojados em um galpão de paredes de madeira coberto de zinco, aonde atualmente fica situado o moderno prédio do quartel da PM. Ai permanecia até serem selecionados e entregues aos seringalistas seguindo para os seringais dos vales dos rios Madeira, Jí-Paraná, Jamari, Candeias, Jaci-Paraná, Abunã, Mutum-Paraná, Mamoré, Pacaas Novos, Guaporé, São Miguel e todos os afluentes desses rios. Alguns ficaram nos dois maiores núcleos urbanos de Porto Velho e de Guajará Mirim escolhidos pelos empreiteiros de obras e pelo governo, estes últimos em maioria destinados à Guarda Territorial.

Terminado o conflito mundial, normalizada as relações comerciais os norte-americanos voltaram a se abastecer da borracha asiática. Os seringais amazônicos entraram num processo de esvaziamento e neles relegados ao abandono os soldados da borracha. É possível que tenham perecidos mais de trinta mil, no mesmo período que morriam os soldados da Força Expedicionária Brasileira/FEB, na Itália, ambos em situação incongruente, sendo elementos de um estado de regime ditatorial fascista, afrontavam a morte em prol da prevalência da democracia, combatendo os estados totalitários nazifascistas do Eixo.

Quantos soldados da borracha vieram para Madeira, Mamoré e Guaporé, quantos morreram em seus seringais, não se sabe, não há registros estatísticos.

Restando como suas lembranças o bairro Arigolândia em Porto velho, fundado principalmente pelos arigois da Guarda Territorial. E núcleo Agrícola Presidente Dutra-Iata, em Guajará Mirim, criado pelo governo do Território para assentamento dos soldados da borracha em êxodo dos seringais.

No transcurso do centenário de Porto Velho, regozijo extensivo a todo Estado de Rondônia,  prestamos homenagem de gratidão a estes heróis anônimos integrantes da construção da sociedade rondoniense.

1 – arigó termo pejorativo dado aos  nordestinos pelos amazônicos                      

ABNAEL MACHADO DE LIMA

MEMBRO DA ACADEMIA DE LETRAS DE RONDÔNIA

Afronta Indevida à Soberania e Autodeterminação do Estado e da Nação Brasileira

0

O Departamento de Estado do governo norte-americano em sua peculiar prepotência denuncia em relatório referente ao ano de 2014, o governo brasileiro da pratica das seguintes anormalidades:

1 – uso excessivo da força e assassinatos ilegais pelas policias federais, estaduais e municipais;

2 – condições precárias dos presídios;

3 – violação dos direitos humanos;

4 – tráfico sexual de mulheres e crianças;

5 – condições exploratórias de trabalho.

Este procedimento é ato de agressão à soberania do Brasil, uma violação do direito internacional, devendo ser veemente protestado.

Que moral tem os Estados Unidos para se arvorar o direito de abusivamente censurar os procedimentos dos estados nacionais independentes. Os delitos imputados ao Brasil, acima elencados, são notoriamente por eles praticados. Seus policiais são instruídos a não terem tolerância, essa deve ser zero. Qualquer irregularidade o praticante é agredido, algemado, conduzido ao presídio no qual lhe é afixado uma corrente ligando uma perna a outra, e nessas condições obrigando a executar o trabalho lhe atribuído. A violação dos direitos humanos basta exemplificar as chacinas covardemente praticadas por seus drogados soldados matando indefesos camponeses no Vietnã, e mais recentes, centenas de prisioneiros confinados no presidio de Guantánamo, sem julgamento, submetidos à torturas físicas, psicológicas e morais.

Os estados Unidos tem histórico de agressividade e violação dos direitos humanos, citamos apenas alguns exemplos, com seu exercito regular exterminar as nações indígenas do espaço que ocupou, invadiu o México apossando-se do Texas, Arizona, Novo México e Califórnia, lançou sem necessidade duas bombas atômicas sobre o Japão, já derrotado, apenas para demonstrar seu inconteste poder bélico para os demais estados e com especial proposito de intimidar a União Soviética.

Ao governo  norte-americano que se atribui a função de policia do mundo, adverti-lo ser nossa decisão não admitir quaisquer ingerência de ente externo, em nossas questões sociais, econômicas e politicas, competindo exclusivamente, a nós brasileiros promover os meios para as superar.          

 

Abnael Machado de Lima

Membro da Academia de Letras de Rondônia

A quase guerra de Portugal contra Porto Velho

0
No transcurso do centenário de instalação do Município de Porto Velho no povoado da mesma denominação, surgido em 1907, é mister relembrar episódios de nossa história, por insignificante que pareçam, não deixam de serem importantes, embora desconhecidos pela maioria dos integrantes da comunidade portovelhense. No caso a revolta dos portugueses contra o Superintendente Municipal, major Fernando Guapindaia, em represália por haver este determinado ao tenente Aristides Leite, delegado de polícia prender um comerciante e quem o apoiou, assim como quem tentasse impedir, trancafiando-os na cadeia pública* aplicando-lhes uma corretiva surra com chicote umbigo de boi. Ordem dada cumprida à risca. Esta decorreu por ter o cidadão português e seus apoiantes detratado com descabidos impropérios, incluisiveis obscenos, a professora Teivelinda e suas acompanhantes, as quais percorriam o comércio, angariando donativos em dinheiro, destinados à construção da capela do Cemitério dos Inocentos situado em uma área de 9.900m2, limitada ao Norte pela atual rua Almirante Barroso, ao Sul pelo Mocambo, ao Leste e ao Oeste, pelas atuais ruas Treze de Maio e Prudente de Morais, respectivamente.

A agressividade dos lusos foi a forma de externarem seus protestos contra a obrigatoriedade de pagamento de impostos à Comuna. Liderados por seus patrícios Antônio Pinto da Silva, Antônio Rodrigues da Silva e Antônio José Machado, decidiram aliciar empresários, comerciantes, contratistas e populares como ativos apoiadores uma sedição a fim de pela força libertar os prisioneiros e destituir de seus cargos as autoridades estaduais e municipais. Não houve dificuldade de arregimentar aliados, em vista da maioria do empresariado está insatisfeita com o governo do Guapindaia em decorrência da sujeição do pagamento de impostos. Em conluio com o mister W. Little e João da Silva Campos, Superintendente da Madeira-Mamoré Railway e engenheiro chefe da 1ª Divisão Federal de Fiscalização, respectivamente, obtiveram destes o repasse de armas (rifles 44 papo amarelo) e munições de forma velada intermediadas pelo português chefe do almoxarifado da empresa.

Os sediciosos se considerando superiores em número e armamentos, por um parlamentar, o senhor Felinto da Costa diretor da Agência Postal (Correios), intimaram o Major Guapindaia, a libertar os prisioneiros, no prazo de 48 horas, findo o qual, não só os libertariam pela força, assim como ocupariam os órgãos públicos. Em resposta ao ultimato, refutando-o expondo que a força repeliria pela força.

Com os Intendentes membros do Conselho Municipal e correligionários se entrincheirou em sua residência, providenciou a segurança da Superintendência armando seus funcionários, tudo ultimando para o confronto bélico.

O parlamentar voltou comunicando-lhe que os revoltosos haviam sequestrado um funcionário da comuna, e o delegado de polícia tinha fugido. E mais que esses se propunham a negociar um acordo. Mediante tal situação, mesmo contrariando seus brios de valoroso soldado, vencedor de batalhas contra o exercito peruano nos confrontos bélicos no alto Rio Juruá expulsando-o da vila brasileira de Amônea, sem alternativa concordou em dialogar com os adversários, ficando estabelecido que o senhor Felinto da Costa agora delegado de ambas as força beligerantes supervisionaria a libertação dos portugueses e do funcionário municipal. Os revoltosos assumiram renunciar de quaisquer ações bélicas contra o governo do município, e a depor as armas, entregando-as ao delegado dos conflitantes. Firmando o acordo, foi restabelecida a paz.

Entre mortos e feridos escaparam todos. Em 1º de janeiro de 1917, o major Guapindaia empossava o primeiro Superintendente eleito pelo Partido Republicano Conservador, Dr. (médico), Joaquim Augusto Tanajura, com mandato de janeiro de 1917 a 31 de dezembro de 1919. Sendo eleito novamente, com mandato de 1º de janeiro de 1923 a 31 de dezembro de 1925.

Dinâmico e competente administrador, ex-integrante da Comissão Rondon (1907/1912), primeiro prefeito do município de Santo Antônio do Rio Madeira.

Duas vezes eleito Superintendente do município de Porto Velho, entre suas realizações estruturais, econômicas e sociais, destaca-se a compra de um sobrado de propriedade do empresário João Soares Braga, neste instalando no doa 13 de maio de 1924, a sede administrativa do governo municipal. Restaurado em 2014, nenhuma alusão lhe é feita, quando por mérito o prédio deveria ostentar o seu nome. Edifício, Memorial, seja lá o que fôr, “Dr. Joaquim Augusto Tanajura”.

(*instalada numa casa situada na rua Júlio de Castilho esquina com a rua Dom Pedro II, na época subúrbio).

 

Abnael Machado de Lima

Membro da Academia de Letras de Rondônia

O Mercado Cultural

0

Fincado no centro da antiga Porto Velho, o Mercado Cultural inicialmente denominado Mercado Municipal, representa um dos símbolos da nossa Capital. Criado em 1913, pelo Superintendente Major Guapindaia, passou por reformas e adaptações na administração do Prefeito Joaquim Augusto Tanajura, porém só foi consolidado e inugurado oficialmente pelo Prefeito Ruy Brasil  Cantanhede, em 1950.    Construído no estilo colonial, abrigou no passado  um comércio forte de estivas e mercadorias em geral, peixarias, açougues, frutas,  legumes e verduras, etc. Podia-se encontrar ali também material de construção, botecos, sorveterias, barbearias e também muitas guloseimas como açaí, tacacá, sandubas de “boi-ralado”, cachorros quentes, pasteis e mingaus dos mais variados sabores. Lá também podia-se encontrar  materiais para caça e pesca, peles de animais selvagens, armas e munições.

                 Era um verdadeiro shopping Center de sua época. Esse comércio forte existente no Mercado Municipal, atraía comerciantes e empresários de secos e molhados dos mais variados  setores. Assim é que relembramos alguns dos comerciantes e estabelecimentos que ali se instalaram e marcaram sua época:  Casa Flora, de Luiz Lemos, Casa Pará, de Samuel Castiel, Casa Girão, de José Girão Machado,  Casa de Ferragens de Eneas Cavalcante, Casa das Noivas, de Albertino Lopes,  Loja A Motorista, de Wilson Queiroz, Casa das Peles, de José Oceano Alves, Bar do Zizi e tantos outros. Lembramos ainda do ambulante Dega e dos mingaus da Dona Chiquinha.

                Assim é que o Mercado Municipal foi atravessando o tempo e escrevendo sua história. Foi parcialmente destruído por um incêndio na década de 50.  Sofreu especulação imobiliária, perdendo parte de sua configuração  arquitetônica.  Chega finalmente ao século 21 recebendo uma restauração que o transformou em Mercado Cultural. Um espaço público aberto as artes culturais, principalmente a música. Uma programação semanal apresentada a cada dia da semana,  leva as suas dependências e entorno, centenas de pessoas que são adeptas da boa música.  Apresentadores como Heitor Fecundo apresentando as quintas feiras a Seresta Cultural, Ernesto Melo, as sextas feiras, levando o Grupo A Fina Flor do Samba,  Beto Cezar com a Roda de Samba, aos sábados, etc. Enfim, o Mercado Cultural passou a ser o ponto de encontro de sambistas, pagodeiros, compositores, artistas, escritores e todos os boêmios notívagos da cidade.

                Para a surpresa de todos, paira  agora no ar, a ameaça de que essa programação cultural do Mercado vai acabar no próximo dia 30 deste mês. O motivo é que os contratos com essa programação não serão renovados. Ainda não se sabe quais os motivos  alegados pelo gestores municipais. Mas, seja lá quais forem, certamente vão frustrar um dos poucos momentos de lazer gratuito, numa cidade onde é cada vez mais raro e caro para que o contribuinte possa desfrutar desses momentos. Esperemos que prevaleça o bom senso desses gestores municipais de plantão.

PVH-RO., 26/04/15

As praças coloridas

0

Sempre as praças me inspiram a sensação de lazer, paz e relaxamento. Os mais atrativos brinquedos, fontes luminosas etc são usados para chamar a atenção das crianças e também dos  adultos. No centro da antiga Porto Velho, lembro-me de todas elas, pois foi nesses espaços que corri de peito aberto, joguei peteca, tomei sorvete e comi pipoca; foi nessas praças que vadiei, escorreguei nos escorregadores, namorei e vi a banda passar. Quantas vezes a noite ficava na praça  Aluizio Ferreira com meu violão, esperando a luz apagar para fazer seresta na casa das meninas do Caiari. O blackout era programado: começava meia noite e terminava as 5:00h. Assim que cortavam a energia, saía com outros amigos para cantar e tocar na porta das minas. Quando era noite de lua cheia a seresta ficava ainda mais romântica. Na praça Mal.Rondon, a paquera seguia rodando nas calçadas, antes do  Cine Resky iniciar sua 1a. sessão de cinema com um forte e imponente sinal sonoro. Muitas vezes a Banda de Música da Guarda Territorial tocava no coreto da praça.

Essas praças coloridas com matizes de lembranças foram ponto de encontro de muitos casais, que tiveram seus primeiros beijos testemunhados por elas. São o testemunho remanescente de uma época lúdica, dourada, onde não havia lugar para a violência. Acho que todo mundo queria mesmo era ver a banda passar para tocar nos coretos, ou ir assistir aos filmes de Tarzan, as chanchadas brasileiras com Oscarito e Grande Otelo, Costinha e Zé Trindade. Os filmes de faroeste também faziam grande sucesso, com os mocinhos como John  Wyne, Kirk Douglas, Dean Martin, Your Briner, etc. A troca de gibis era também uma atração a mais para nós adolescentes. Com o cabelo penteado, armado com glostora, lá estávamos nós aos domingos trocando aquelas revistas com os colegas.

–Você já leu essa? É a ultima do Jesse James!
–Não. Mostra aí!
–Troco por 2 do Mandraque.
    E assim prosseguia o troca-troca das revistinhas.

     São reminiscências de uma época dourada, onde as praças quase sempre contribuíam para o bem-estar das pessoas que nela iam buscar o relaxamento e o prazer. Hoje muitas delas estão abandonadas, servindo apenas para viciados e assaltantes espreitarem suas vítimas. Longe vão aqueles anos dourados das praças coloridas…

10 de julho – 42 anos da morte da Madeira-Mamoré (3)

0

Lúcio Albuquerque
[email protected]

Consultor: Abnael Machado de Lima, professor, historiador, membro da Academia de Letras de Rondônia e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia

Para historiador, Brasil descumpriu o Tratado de Petrópolis

    A extinção da Madeira-Mamoré, com sua substituição por uma estrada sem as exigências estabelecidas pelo Tratado de Petrópolis representou um desrespeito a um acordo internacional, isso a par dos prejuízos que essa situação gerou para o então Território Federal de Rondônia, e quem afirma isso é o mais respeitado historiador estadual, o professor Abnael Machado de Lima.
    Ele lembra que o último trem apitou dia 10 de julho. “O pátio de estacionamento e manobras do marco zero (a estação ferroviária de Porto Velho) estava ocupado pelos moradores, convidados pelo comando do 5º BEC, aqui chegado em 1966 tendo como principal missão restaurar a rodovia BR-29 (atual 364). O Batalhão assumiu a administração da ferrovia, militarizando-a”.
    Abnael continua: “O objetivo do convite era cientificar solenemente a definitiva desativação, o que foi feito através de discursos vazios a uma plateia silenciosa, apática e em meio a muitas pessoas chorando”. O historiador lembra “esse ato do Governo Federal, feito sem procedimentos de estudos e de planejamento sobre as medidas compensatórias em prol dos habitantes principalmente dos povoados e vilas situados ao longo da ferrovia, cuja produção agrícola, sua atividade extrativista, o corte de lenha para as composições da ferrovia, representavam sua base econômica e sua estrutura social”.


 
Abnael Machado, historiador (gentedeopiniao.com.br)

    “A inoportuna paralisação do tráfego ferroviário ocasionou um caos econômico e social, fez muitos moradores abandonarem pequenas localidades e inteiramente desassistidos os que ficaram, desestruturando famílias, economias com fortes prejuízos aos empresários então instalados nas duas cidades das extremas da EFMM, Porto Velho e Guajará-Mirim”.

 
Guajará-Mirim: A locomotiva e a velha estação do trem

    O historiador, autor de vários livros sobre a região, diz ainda: “O cumprimento da determinação presidencial pelo 5º BEC gerou um desastre econômico e social de imensurável repercussão negativa para o Território. Cas as de alvenaria, prédios da própria ferrovia, armazéns, escolas, igrejas localizadas ao longo da estrada se deterioraram da mesma forma que os equipamentos abandonados e que se transformaram em galinheiros, em abrigos para animais diversos e para árvores. Os roçados, as hortas e os pomares foram transformados em estéreis capoeiras”.
    “Nem houve preocupação real com a preservação histórica daquela que foi a maior epopéia norte-americana fora daquele país. O abandono gerou enorme prejuízo para a história e para o patrimônio público. Isso além do desrespeito a um acordo internacional, porque a extinção da estrada de ferro só poderia acontecer mediante acordo entre os signatários, e a substituição do caminho de ferro teria de ser por uma rodovia com quatro pistas, de primeira classe, totalmente pavimentada, o que não aconteceu”, concluiu o historiador Abnael Machado.

Amanhã: Ninguém protestou, ninguém podia protestar, lembra jornalista
 

10 de julho – 42 anos da morte da Madeira-Mamoré (2)

0


Lúcio Albuquerque
[email protected]

Consultor: Abnael Machado de Lima, professor, historiador, membro da Academia de Letras de Rondônia e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia

Eu vim de carona na última viagem de litorina
    O comerciário aposentado Graciliano Maia é filho de um dos muitos ferroviários da Madeira-Mamoré que viviam e trabalhavam em Guajará-Mirim, ponto terminal dos mais de 300 quilômetros que interligavam aquela cidade ao ponto inicial, Porto Velho.
    Ele costumava viajar no trecho, o que faziam também uma grande parcela de moradores das duas cidades e dos que residiam e trabalhavam ao longo da ferrovia, com uma diferença: seu pai era chefe da estação do trem em Guajará-Mirim, função que o fazia ser representante da administração da estrada de ferro e, por isso, ele sempre se deslocava numa das litorinas, um veículo sobre os trilhos, mas muito mais confortável e, ainda, quatro vezes mais rápido.


 
Litorina: mais conforto e velocidade que o trem
(amantesdaferrovia.com.br)

A litorina, conforme muitos jovens da época em que ela funcionou, era muito usada não só pelos funcionários “categas”(*) da Madeira-Mamoré, mas também por outras pessoas e para os jovens que arrumavam namoradas ou iam a festas realizadas nas pequenas comunidades à margem da estrada. Era uma questão de status.
    “O coronel Oliveira, diretor geral da Madeira-Mamoré àquela época, todos os meses saía de Porto Velho até Guajará-Mirim, leando uma enorme caixa dentro da qual, bem arrumados, iam os envelopes de pagamento, com dinheiro dentro porque não havia bancos, dos funcionários das estações do trem e do pessoal da estação de Guajará-Mirim”.
Era um serviço comum, mais um apenas desde quando a ferrovia começara a funcionar, há 60 anos passados, só que o pagamento daquele mês de junho trazia uma orientação diferente no olerite dos ferroviários: eram informados sobre seus direitos trabalhistas e orientados sobre aposentadoria ou remoções.
Graciliano recorda que, depois de feito o pagamento dos ferroviários em Guajará, o coronel Oliveira mandou que cortassem vários pedaços de dois metros de comprimento de trilhos e embarcar um soldador e sua máquina de soldar, além de dois funcionários, e todos viajaram na litorina dirigida pelo ferroviário Afonso Johnson, cujo pai, o mestre Norman Johnson tinha sido implantador do sistema de telefonia entre as estações da EFMM.
“A partir de quando a litorina saiu, em meio à consternação geral na cidade, ele mandava parar o transporte e soldar atravessado nos trilhos um pedaço de vergalhão, para evitar que alguém quisesse sair com uma composição, isso até no bairro do Triângulo em Porto Velho”.
Ele recorda que quando a litorina parava os moradores do entorno se reuniam e muitos choravam ao saberem que o trem nunca mais iria voltar. “Uma coisa que me chamou a atenção foi a frieza do coronel Oliveira, mesmo sabendo que muitas daquelas famílias ficariam isoladas e nem poderiam vender mais seus produtos, porque dependiam do transporte do trem”.
Ao chegar a Porto Velho o clima era de imensa tristeza. “Parece que todos moradores estavam avisados. Os ferroviários fizeram apitar as máquinas durante muito tempo, e era um lamento muito triste, não dá para esquecer”.
O fim da ferrovia, conforme Graciliano Maia, representou também o fim de muitas comunidades cujos moradores eram responsáveis pela produção de bens de consumo que abasteciam os dois maiores centros urbanos da estrada, Porto Velho e Guajará-Mirim, que recebiam o “trem da feira”, vagões onde viajavam o gado a ser abatido, a produção de verdura, legumes, grãos e outros.

(*) – Categas – expressão usada para identifica funcionários da administração superior da Madeira-Mamoré.

Amanhã: Jornalista lembra: fim da EFMM fez milhares de pessoas infelizes

    O jornalista Elvestre Lyman Johnson ainda lembra sua mãe chorando e da tristeza que tomou a cidade, além do desabastecimento e do aumento da carestia.
 

Nossos aplausos a Assembleia Legislativa

0

Cumprimentamos e agradecemos aos senhores legisladores, representantes de nosso Estado de Rondônia, por haverem aprovado na sessão do dia 13 de maio, o projeto de resolução proibindo o uso de chapéu, boné e qualquer outros adereços destoantes do traje protocolar exigido aos parlamentares frequentes aos atos em plenário, de autoria do deputado estadual Ribamar Araújo. Parlamentar de destaque politico e cívico, comprometido com a ética no desempenho das funções de seu cargo, e em corresponder a confiança de seus correligionários e o acatamento da sociedade em geral.

Coincidentemente, o projeto foi aprovado do dia da extinção da escravatura negra no país, ato que libertou a nação do infame opróbio, que a envergonhava perante a comunidade internacional. A proibição aprovada, coíbe a transgressão ao decoro regimental, a seriedade do parlamento, ao ter assente em plenário, indivíduos ostentando adornos complementares ao traje próprio. Integrantes do silogeu optem em trajarem as indumentárias dos seus respectivos afazeres de origem, montando grotesco cenário circense divulgado pela internet. Resguarda Rondônia e nós seus habitantes, do ridículo, da zombaria e do rotulo de imbecis.

Anteriormente, após a sessão solene realizada pela Assembleia Legislativa para outorga de comendas de Honra ao Mérito, ao padre Zenildo Gomes da Silva e ao jornalista João Ciro Pinheiro de Andrade, postei um comentário no jornal eletrônico www.gentedeopniao.co.br, sobre a insólita ocorrência da presença de um deputado em traje não condizente à solenidade, intitulado “Ridicularizar tem limites”.

Aos senhores Deputados, em especial ao autor do projeto de relevante alcance politico e social, reestabelecedor da ética e da seriedade do Parlamento, os nossos cumprimentos.

 

Abanel Machado de Lima

Membro da Academia de Letras de Rondônia

HISTÓRIAS DAS NOSSAS COPAS DO MUNDO (4)

0

HISTÓRIAS DAS NOSSAS COPAS DO MUNDO (4)


A  TV toma o lugar do rádio a partir da Copa do México


Lúcio Albuquerque, repórter
[email protected]


Como em 1962, no Chile, os jogos do Brasil durante a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, também foram vistos pelos brasileiros ainda pelo sistema de VT, em partidas gravadas e que em alguns casos, como na região Norte, só eram mostrados quatro a cinco dias depois de realizados.
Até então as transmissões eram em preto-e-branco, a captação da imagem apresentava algumas deficiências, apesar da primeira Copa televisionada, ainda que só para oito países da Europa, fora a de 1954, ganha pela Alemanha Ocidental (então aquele país era dividido em duas faces, Ocidental, pró-americana e Oriental, pró-soviética).
                                 
                                    1ª Copa ganha pela Alemanha, 1954



Ainda na Copa de 1966 o rádio era soberano na transmissão dos jogos para o Brasil, o que aconteceria até 1978 para Rondônia. Mas quatro anos depois da final em que a Inglaterra ganhou seu único título, vencendo a Alemanha na prorrogação, a TV colorida daria outra visão para os jogos.


Para transmitir os jogos de 1970 no México, foi feito um “pool” de empresas de emissoras brasileiras,  e surgiu na tela o time que acabou tricampeão e a partir daí passou a ser chamado “seleção canarinho”, dístico criado pelo locutor da Globo Geraldo José de Almeida, que se tornaria a “voz da Copa” e que gritava gol com um bordão inesquecível: “Olha lá, olha lá, olha lá, no placar!”.

O MOTO CLUBE, DE RONDÔNIA, NO MARACANÃ



Mas para um grupo de jogadores do Moto Clube porto-velhense, e membros da delegação chefiada pelo jornalista e advogado Rochilmer Mello da Rocha, a Copa de 1970 deixou uma lembrança que nenhum deles esquece. O time jogou no Maracanã, na preliminar de uma das partidas eliminatórias para a Copa do México. O resultado foi 3×3 contra uma equipe formada por profissionais de times menores do Rio de Janeiro, com a camisa da Petrobras. E o túnel que ocuparam foi o mesmo em que a seleção, com Pelé e companhia usaram.


“Eles foram muito gentis e ficaram olhando o nosso time jogar, elogiando alguns jogadores. Foram dois momentos inesquecíveis, o de jogar no Maracanã e nossos atletas estarem junto aos que, algum tempo depois, seriam tricampeões mundiais”, lembrou várias vezes Rochilmer.
                                  
                                  Gervázio e o memorial em sua casa

O zagueiro Gervázio, que atuava pelo Flamengo porto-velhense e foi emprestado para aquele jogo pelo Moto, mantém em sua residência no bairro da Arigolândia, um painel com fotos daquela partida, incluindo jornais, e de outras atividades que desenvolveu como atleta e funcionário público, como sua participação na Carvana Ford – a primeira de uma comitiva de veículos a passar pela BR-29 (364) três meses depois da rodovia ser aberta.



Outro que esteve naquela jornada, e foi autor de um dos gols motenses, o jornalista Walter Santos, também não esquece. “Fiz um gol de falta. Coloquei a bola lá onde “a coruja dorme”. Walter ainda lembra outro fato recente. Ele foi um dos atletas locais convidados – além dele a fundista Marinalva – para representar os desportistas locais quando a Taça Fifa esteve exposta em Porto Velho, há alguns dias.
“O Rivelino – atleta tricampeão que veio com a taça – conversou comigo e eu lembrei a ele que no túnel depois da nossa partida no Maracanã eu o cumprimentei. Não dá para esquecer”, disse Walter Santos.

HISTÓRIAS DAS NOSSAS COPAS DO MUNDO (5)


Amanhã:
 RO GANHA UMA TV PARA VER OS JOGOS DE 1974

HISTÓRIAS DAS NOSSAS COPAS DO MUNDO (3)

0

No início da década de 1960 Porto Velho ganhava sua segunda emissora de rádio, a Caiari, hoje a mais antiga em atividade no Estado. Mas a primeira emissora foi a “Difusora do Guaporé”, que funcionou durante algum tempo na década de 1950 e depois saiu do ar, antes da Caiari ser inaugurada.


 O eletricista e radialista Enéas Martins fez parte das primeiras transmissões esportivas da Caiari, e trabalhou também como jornalista esportivo no período 1976/1979 no jornal A Tribuna, onde nos dias de jogos dos campeonatos regionais e nacionais ele ficava ouvindo rádio fora do prédio captando os resultados que depois eram transformados pelo jornalista Ivan Marrocos no resumo que sairia no dia seguinte – o jornal a Tribuna foi o primeiro local a circular de domingo a domingo.
 Enéas contava sempre como trabalhava na equipe técnica da Caiari, responsável pelo funcionamento dos equipamentos durante as transmissões. Competia a ele, contava, manter conectada a cabine de locução com o estúdio, mas não era como atualmente.


 “Nos dias de jogos, fosse de dia ou de noite, tinha de estender a fiação de poste a poste, desde o estúdio ao local dos jogos, carregando uma escada, um pacote de cabos de fios, e mais as ferramentas necessárias, era um trabalheira danada”.
 Fizesse chuva ou sol, Enéas saía esticando os fios para que a transmissão acontecesse. E quando durante a narração acontecesse qualquer problema era a hora dele pegar a escada e todo o restante do material  para verificar, poste a poste, aonde estava a dificuldade e saná-la.

 O BRASIL VENDO O JOGO PELO VT


 Em 1962 o Brasil sagrou-se bicampeão mundial, no Chile. Àquela altura poucas cidades brasileiras já contavam com emissoras de TV e as redes, como as conhecemos hoje, ainda estavam engatinhando, mas o título canarinho foi visto na televisão.


 Só que não era transmissão direta, como acontece desde 1970 – em Rondônia só em 1978.  “O único detalhe é que ainda não havia a transmissão ao vivo e sim através de vídeo-tapes. Com isso, as fitas vinham de avião e os jogos eram exibidos dois dias após terem acontecido”. (http://www.travinha.com.br). 
                                                           


 1962: O Brasil via o Brasil jogar dois dias depois

 Para o torcedor, no entanto, o rádio trouxe no ato cada lance de jogo, seguindo a trajetória iniciada em 1938, na França. O cinema também  mostrava os jogos, que eram exibidos durante as sessões normais, com enorme presença de público que vibrava a cada gol brasileiro, e um programa que mostrava os jogos, especialmente os campeonatos regionais era o “Canal 100” que passava pouco antes do filme previsto para a sessão cinematográfica começar.


Amanhã:
HISTÓRIAS DAS NOSSAS COPAS DO MUNDO (4)


 A  TV toma o lugar do rádio a partir da Copa do México