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HISTÓRIAS DAS NOSSAS COPAS DO MUNDO (2)

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Silêncio total na sala: o único som era do rádio


Lúcio Albuquerque
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 Até à Copa do Mundo de 1950, o (hoje) maior evento futebolístico do Planeta não havia alcançado tal status, mas, de qualquer forma, já chamava a atenção e o futebol já se impunha como o esporte a atrair maiores multidões. Mas a cobertura jornalística apenas engatinhava, ainda mais porque o torneio daquele ano, realizado no Brasil, sofria das feridas abertas pela II Guerra Mundial encerrada pouco antes. O grande meio de se saber do que acontecia eram os despachos telegráficos enviados pelos jornalistas aos jornais.
 Em frente a jornais em São Paulo e Rio de Janeiro era comum as pessoas se aglomerarem para conhecerem os últimos acontecimentos, e isso era possível através da informação que lhes era passada pelos painéis ali existentes.
 Sem contar com a  televisão – ainda que esse veículo de comunicação tivesse feito suas primeiras transmissões esportivas em 1936, quando transmitiu para TVs em Berlim os Jogos Olímpicos realizados naquela cidade – era o rádio quem detinha o maior espaço, tanto é que, nas casas de quem tinha um aparelho desses nem falar era permitido quando estivesse ligado. O único som permitido era o que vinha do rádio.



                                                                   
Heron Domingues apresentando por cadeia  de rádio o Repórter Esso.


 A grande “estrela” do noticioso radiofônico naquela época foi o jornalista Heron Domingues, que de 1941 a 1968 apresentou o “Repórter Esso”, programa que tinha tanta credibilidade que quando em 1945 terminou a II Guerra Mundial, dizia-se que, no Brasil, ela só acabou depois que Repórter Esso noticiou.
 A BATERIA ACABOU NA METADE DO JOGO
 O jornalista Euro Tourinho, diretor do ALTO MADEIRA, chegou a jogar futebol quando estudante do colégio Dom Bosco, em Manaus. Mais tarde, quando teve de assumir a direção do seringal da família, para poder ouvir o único meio de comunicação que contava à época, em meio à selva, ele usava o aparelho de rádio herança de seu pai, só que no seringal não havia luz elétrica e o equipamento funcionava com a força gerada por bateria.
Para evitar ficar sem o rádio funcionar, Euro contava com um conjunto de 12 baterias que na “baixada” – quando ele saía do seringal e vinha para Porto Velho, trazia para recarregar, e se por acaso todas ficassem vazias quando estivesse ali o jeito era esperar a próxima vinda a cidade, e nesse tempo todo nada de se ouvir a estática e o som da rádio.
 “O som era muito ruim e às vezes ficava só o chiado do rádio, levando até alguns minutos antes de se poder entender alguma coisa, mas era muito importante ter o aparelho que dava status para as famílias que tinham um”, ele lembra.
 “E às vezes em plena transmissão de um jogo de futebol, quando a narrativa estava sendo melhor ouvida, a bateria acabava. Até trocar por outra a partida já havia acabado e não se conseguia mais saber que lado havia ganho”, recorda o decano do jornalismo rondoniense.

Amanhã: HISTÓRIAS DAS NOSSAS COPAS DO MUNDO (3)


 Muita força e trabalho duro para transmitir jogos em Porto Velho

HISTÓRIAS DAS NOSSAS COPAS DO MUNDO (1)

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1938 – O Brasil ouve o Brasil jogar na voz de Gagliano Netto

Lúcio Albuquerque, repórter
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O Brasil é o único país a ter participado de todas 18 Copas do Mundo, o maior ganhador da disputa iniciada em 1930, no Uruguai, mas tanto naquela quanto na seguinte, na Itália, os resultados só chegavam ao país através de despachos telegráficos enviados dos locais dos jogos por membros das delegações.

Hoje, quando os mais modernos meios de comunicação são mobilizados a qualquer evento, por mais simples que sejam, é quase impossível imaginar que para saber dos resultados da seleção nacional se tivesse de esperar os jornais. Só na 3ª Copa, da França, é que o brasileiro pode ouvir a transmissão dos jogos de sua seleção.
                                             


Gagliano Neto, na Copa de 1938
Mas quando o locutor Gagliano Neto, um pernambucano que migrara para o Rio de Janeiro, iniciou a transmissão da partida de abertura brasileira (6×5 sobre a Polônia, na prorrogação), não foi essa a primeira vez que se recebia pelo rádio um jogo da seleção: já acontecera na disputa do sulamericano em 1936, em Buenos Aires.

Chamado de o “Speaker Esportivo Perfeito”, Gagliano Neto é uma forte referência do rádio esportivo brasileiro. Sozinho, no meio da torcida – porque não havia cabines específicas como ocorre hoje em dia, ele narrava o que acontecia, independente que fizesse sol ou chuva, às vezes sem “retorno” (segundo o jornalista Sérgio Melo – rádio e TV Candelária – a expressão “retorno” é o som que o locutor ouve a partir da transmissão de sua voz já no som enviado ao ar pelo estúdio).

Segundo a jornalista e professora de Comunicação  Gisela Swetlana Ortriwano, “os feitos da Seleção Brasileira foram irradiados para a Cadeia de Emissoras Buynton, formada pelas rádios Clube do Brasil, Cruzeiro do  Sul e Cosmos. (http://hcnb.wordpress.com).

EM RONDÔNIA

Em 1938, e muito depois de 1943 quando o presidente Getúlio Vargas constituiu o Território Federal  do Guaporé (Rondônia a partir de 1956), não havia emissora de rádio na região. O Amazonas terminava na cachoeira de Santo Antonio e daí em diante começava o Estado de Mato Grosso. A primeira emissora aparece em 1950 com a criação em Porto Velho da Rádio Difusora do Guaporé.

                                     
O rádio tinha lugar de destaque nas salas das casas
Poucas pessoas tinham aparelho de rádio na região. O equipamento era muito caro e o som que saía dele muitas vezes deixava em dúvidas sobre o que havia acontecido – em 1958, na primeira Copa ganha pelo Brasil um grupo de rádio-ouvintes que ouvia a transmissão na sede do Bancrévea (atual Classe-A/Centro) soltou muitos fogos e vibrou muito no primeiro gol da final. O som não chegava direito e eles vibraram, mas foi com o gol da Suécia.

Havia grandes problemas operacionais para ouvir uma transmissão: o som chegava cheio de ruídos, os aparelhos eram  à válvula, dependiam inteiramente de energia elétrica ou, então, acionados com enormes baterias – cuja duração era pequena.

“Muitas vezes o som desaparecia e ficava quase um minuto sem que ouvíssemos mais que a estática”, lembrava  entre sorrisos o ex-deputado estadual Walter Bártolo. “Nós tínhamos de adivinhar o que estava acontecendo e compreender a transmissão emendando pedaços”.

 
Amanhã:  HISTÓRIAS DAS NOSSAS COPAS DO MUNDO (2)

Silêncio total na sala: o único som era do rádio

TENENTE FERNANDO – 70 ANOS DESAPARECIDO (5) TENENTE FERNANDO – 70 ANOS DESAPARECIDO (5) HISTORIADOR DIZ HAVER OUTROS CASOS MISTERIOSOS

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Lúcio Albuquerque

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Consultor: Abnael Machado de Lima, professor, historiador, membro da Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia

 

Membro fundador da Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia, colunista do jornal Alto Madeira e do site gentedeopiniao.com.br, o professor aposentado de História e Geografia da Amazônia, Abnael Machado de Lima disse, em coluna publicada a 4 de julho de 1912, que o sumiço do tenente Fernando Gomes de Oliveira é outro “lamentável episódio” dentre outros ocorridos em nossa Rondônia, “convenientemente transformados em inexplicáveis mistérios”. E enumera:

 

PEIXOTINHO – Peixotinho era Diretor dos Correios e Telégrafos na década de 1940. Na residência do major Aluízio Pinheiro Ferreira, Superintendente da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ao sorver uma xícara de café, quando deste foi se despedir na véspera de viajar a Manaus, para depor no inquérito policial militar sobre o pagamento com dinheiro falso os serviços hospitalares prestados aos ferroviários pelo Hospital São José, denunciado pelo Padre João Nicoletti, seu diretor. O Peixotinho alardeava que iria expor a verdade. Atestado de óbito: Fulminante colapso cardíaco.

ITALIANOS – O desaparecimento, sem deixar vestígios, de 70 (setenta) italianos contratados pela empresa P & T Collyn, para a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, os quais revoltados com a empresa, a abandoná-la adentrando à noite à floresta da margem esquerda do Rio Madeira, com o propósito de alcançarem a República da Bolívia, jamais foram vistos.

JOÃO DE DEUS – O assassinato do engenheiro João de Deus funcionário da Ceron. Na véspera de viajar a Brasília, onde entregaria aos competentes órgãos um dossiê de sua autoria sobre as irregularidades nos serviços realizados em Ji-Paraná, por uma empresa contratada pela Ceron, exigindo a devolução do pagamento efetuado e o cancelamento do contrato.

OLAVO PIRES – O assassinato do Senador da República Olavo Pires, em 1990, metralhado diante de grande quantidade de pessoas, quando chegava ao prédio sede do seu comitê eleitoral situado na avenida Jorge Teixeira, uma das mais movimentadas da capital. Estava cotado para ser eleito governador do Estado. O autor do crime e os seus mandantes, tornaram-se mistério, virou novela reprisada em cada campanha eleitoral.

O desaparecimento do tenente Fernando

Em seu artigo, a seguir, o professor Abnael Machado de Lima fala sobre o desaparecimento do tenente Fernando Gomes de Oliveira: Ele era  jovem engenheiro militar, chegou em Porto Velho como membro da 2ª Companhia Rodoviária Independente, em 1945, sob o comando do Capitão Ênio Dos Santos Pinheiro, incumbida de dar prosseguimento à construção da rodovia Amazonas/Mato Grosso, iniciada em 1º de agosto de 1932, pelo então Tenente do Exército Aluízio Pinheiro Ferreira, Diretor da ferrovia Madeira-Mamoré, alcançando são Pedro do Rio Preto, à 90Km de Porto Velho, sendo paralisada na primeira década de 1940, por falta de recursos financeiros.

Para comandar o destacamento de São Pedro foi designado o Tenente Fernando, o qual numa tarde de domingo penetrou na floresta para caçar, acompanhado pelo cabo Antão e um soldado, sendo a última vez que foi visto, desaparecendo misteriosamente e para sempre no interior da densa floresta. Segundo seus acompanhantes, previamente eles combinaram que cada um seguiria uma direção e se reencontrariam na rodovia após o prazo de quatro horas de caçadas. Conforme o combinado o primeiro a sair da floresta foi o soldado, em seguida o cabo Antão. Aguardaram mais de uma hora e como o Tenente não apareceu, julgaram que ele teria ido para o acampamento sem os esperar. Dirigiram-se para este, não o encontrando, concluíram haver se perdido. Conforme narrou o Walter Bártolo que, como soldado, foi testemunha dos acontecimentos no acampamento, os dois acompanhantes entregaram suas armas para serem examinadas, comprovando não terem sido usadas. O Subcomandante comunicou o fato via telégrafo ao Comandante da Companhia em Porto Velho, onde se organizou grupos de buscas compostos por militares e civis iniciando-se a procura em todas as direções: na floresta, nas margens do rio e ao longo da estrada, retornando cada um à noite quando não havia mais visibilidade. O ambiente era de inquietação e pesar.

As buscas continuaram por conta do Exército apoiado pela Aeronáutica. Das expedições participando o Capitão Gerson Gomes De Oliveira irmão do desaparecido, militares e jornalistas norte-americanos, o Padre Jose Francisco Pucci (Padre Chiquinho) e o seringalista João Chaves sem encontrarem o menor vestígio do Tenente Fernando.

As mais absurdas hipóteses e descabidas invencionices foram aventadas para explicarem o desaparecimento, tais como:

Teria sido morto e ocultado o seu cadáver, por ordem do major Aluizio Pinheiro

Ferreira, por ter o Tenente seduzido uma das suas muitas amantes; ou por ter impedido o embarque de um dos tratores da companhia, com destino a uma mineração aurífera, no Pará, da qual o Major Aluizio era sócio; teria sido engolido por uma sucuri; teria sido transposto para outra dimensão pelos orixás em represália por ter ele ,com seus amigos, espancado os filhos e filhas de santos, furado os atabaques e conspurcado o santuário (Pegi), do Terreiro de Santa Bárbara da Mãe de Santo, Rita Esperança; teria subido numa árvore e nesta como se estivesse dopado, alheio ao tempo e aos movimentos em seu entorno, morreu de inanição (Otaviano Cabral no livro de sua autoria “História de uma Região); teria sido morto por dois irmãos agricultores moradores nas proximidades do acampamento, os quais foram presos e torturados, confessando terem matado o Tenente, o confundido com uma anta. Removidos de Porto Velho para Belém a Auditoria Militar mediante tão estapafúrdia confissão e o método empregado para sua obtenção, os inocentaram devolvendo-os livres para sua morada na floresta; teria sido raptado pelos índios Boca-Negra para servir de reprodutor.

Noticiaram os jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro que índios teriam raptado o Tenente Fernando para apurar a raça (Jornal “O Globo” em 15 de outubro de 1957); o general Ênio Pinheiro citou que o oficial teria sido vítima de uma queda num fosso dos muitos existentes na floresta, dos quais a pessoa fica impossibilitada de por si própria alcançar a superfície, como também de ser encontrada (General Ênio dos Santos Pinheiro, ex-comandante da 2ª Rodoviária Independente em um encontro informal em 1997, na Vice Governadoria Estadual no qual Abnael se encontrava.

A pesquisadora Wanda Hanke, após contatar moradores dos vales dos rios Preto, Branco e Jamari, nas adjacências do funesto episódio, escreveu sobre o Tenente Fernando: “Em verdade foi vítima de vingança de certos brancos”. (Desbravadores, 2ª edição, 2º volume, página 245, autor Vitor Hugo)”.

 

TENENTE FERNANDO – 70 ANOS DESAPARECIDO (4)

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Busca nunca concluída, sempre sem resultados

Lúcio Albuquerque

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 Consultor: Abnael Machado de Lima, professor, historiador, membro da

Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia

 
Em 2005 o funcionário público Walter Bártolo (*) falou sobre o caso do tenente Fernando. E repetiu que estava no acampamento quando o oficial saiu com duas pessoas para caçar um inambu, e desapareceu. Foi a mais longa e detalhada narração sobre o sumiço, de todas que o autor ouviu.

Ele contou que a comunicação do desparecimento do oficial foi feita de imediato ao capitão Ênio Pinheiro, comandante da 2ª Companhia Rodoviária Independente, e que só dois dias depois é que chegou a primeira equipe para procurar.

“Eu ainda vejo, 60 anos depois, o Marinho (sargento Antão Marinho) virar as pedras do dominó em cima da mesa improvisada numas latas de querosene e entrar na mata acompanhado do tenente Fernando”.

Em julho de 1945, quando o tenente Fernando desapareceu, Walter Bártolo era cabo-motorista da 2a. Companhia Rodoviária Independente, dirigindo um caminhão-tanque que levava combustível de Porto Velho para a frente de serviço, então localizada a 45 KM da cidade, próximo à localidade de São Pedro.

“Era uma viagem de 45 quilômetros e quase um dia para chegar de um ao outro ponto, ficando pior ainda quando chovia”, lembra Walter Bártolo, citando que os caminhões de então estavam muito longe da tecnologia dos  veículos atuais. A narrativa a seguir é do próprio Walter Bártolo.

“O acampamento era no fim da linha, na realidade uma picada aberta na selva e o núcleo mais próximo era o seringal Caritiana, mas não havia estrada para lá”.

“As buscas foram grandes, feitas por tropas do Exército ajudadas por mateiros da região, mas tudo em vão”. Segundo ele foram feitos muitos esforços. “O governador Aluízio Ferreira conseguiu que todos os aviões que pousavam em Porto Velho fizessem sobrevoos na área onde o tenente sumira, tudo em vão”.

“Se tentou de tudo. Um grupo de índios veio fazer tratamento no hospital São José, em Porto Velho, e o jornalista Carlos Mendonça, diretor do ALTO MADEIRA, entrevistou alguns e garantiu ter ouvido deles que havia na selva um “homem das estrelas”, o que se interpretou como sendo o tenente Fernando”.

“A tripulação de um avião da “Cruzeiro do Sul” relatou ter visto, numa aldeia na região de Jaci-Paraná um homem branco e alto que poderia ser o oficial. Houve buscas e nada confirmado.

Quando a matéria saiu na Imprensa, o capitão Gerson, irmão do tenente Fernando, também oficial do Exército, veio a Porto Velho  à frente de um grupamento de buscas que contava com uma equipe do 5o. Grupamento de Salvamento do exército americano especializada em incursões na selva e praticamente passou direto para a região de São Pedro (o jornalista Euro Tourinho garante que tentou, sem conseguir, ir com o grupo, que foi para a região com enorme provisão de equipamentos e armas, especialmente metralhadoras). “O grupo do capitão Gerson matou muito índio”, narrou Walter Bártolo.

O INQUÉRITO

Walter Bártolo continuou: “O Exército abriu um Inquérito Policial Militar (IPM) para investigar o desaparecimento do oficial, tendo como presidente o major Levi. O Marinho, o Preto Pensador e um irmão do Pensador apanharam muito no xadrez da 3a. Companhia. O major batia de murro de baixo para cima no queixo deles que tiveram as unhas arrancadas com alicate, mas não contaram nada”.

Bártolo diz que dona Amatilde, mãe do tenente Fernando, tentou intervir a favor do sargento Marinho. “Ela entrou no local do inquérito e mostrando as cartas em que o Fernando dizia que o Marinho era o melhor amigo de seu filho, pedia para o major parar a tortura”.

Ela, segundo  Bártolo, mostrava as cartas e dizia: “Este homem é amigo do meu filho. Meu coração de mãe me diz que ele não tem culpa”. De nada valeu. O sargento Marinho foi mandado para Belém onde respondeu a processo na 8a. Região Militar.

(O historiador Abnael Machado garante ter ouvido de uma pessoa, há poucos anos, que o sargento Antão Marinho às vezes era visto perambulando pelas ruas de Belém, possivelmente embriagado, dizendo ter sido ele quem matou o tenente Fernando).

Já no final da década de 50 um boliviano conhecido apenas por Baltazar, apareceu dizendo ter visto o tenente Fernando vivendo com índios da tribo Paakás-Novos, na região de Guajará Mirim. “Foram feitas novas buscas e outra vez nada se comprovou. Tudo falso”, lembra Walter Bártolo.

Walter Bártolo encerra sua narrativa. Ele diz não acreditar que o governador Aluízio Ferreira tenha tido qualquer participação no desaparecimento do oficial. Prefere ficar com a tese de que o envolvimento de Aluízio no caso tenha sido obra do grupo de oposição ao então governador.

“Chegaram a dizer que o Aluízio teria intervido para retardar o envio de uma equipe de buscas, mas a demora aconteceu realmente porque estavam todos empenhados na visita do embaixador americano”, acrescenta Walter.

Bártolo não acredita na tese de que o oficial tenha desaparecido em razão da ameaça que a mãe-de-santo Esperança Rita possa ter feito a ele. Nem que tenha sido assassinado ou que haja qualquer envolvimento de uma disputa por uma mulher entre o oficial e o governador.

Para Bártolo a opção mais correta do sumiço do tentende Fernando é que ele tenha desaparecido sequestrado pelos índios boca-negra, para depurar a raça. “Há muitas citações de casos similares na nossa região”, diz ele.

 

(*) – Walter Bártolo – seresteiro, funcionário público, ex-prefeito de Ji-Paraná, ex-deputado estadual constituinte – 1983. Entrevista concedida em sua residência, ao historiador Francisco Matias, aos jornalistas Adaídes – Dadá – dos Santos, Fábio Só e ao repórter Lúcio Albuquerque

LEIA O CONTO ” A TORTURA “

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Você está preso! Qualquer  coisa que disser ou fizer poderá ser usada contra  você em juízo. Foi imediatamente recolhido a uma das celas, cujas grades se fecharam ruidosamente a sua frente, deixando-o sozinho naquele cubículo mal cheiroso e úmido. A cela não media mais que 2,0 x 3,0 m, tinha um beliche com duas camas uma em cima da outra. O vaso sanitário não tinha tampa e ficava escondido por trás de uma cortina de plástico fino e rasgado.

O odor forte de urina e fezes empestava o ambiente. Tentou ainda argumentar que tinha comparecido aquela Delegacia apenas para prestar depoimento, atendendo a uma notificação da polícia. Não tinha cometido nenhum delito, não tinha antecedentes, era judeu iugoslavo, porém a muito naturalizado brasileiro, jornalista, professor universitário. Era um cidadão de bem, nada justificava sua prisão. Mas de tudo que argumentou de nada lhe valeu. Estava trancafiado por trás daquelas grades. O calendário assinalava 23 de abril de 1975.
          Faltavam quinze minutos para meia noite e o sono quase já o dominava quando o barulho do ferrolho de encontro as grades o fez acordar. De um pulo pôs-se de pé e viu um soldado do exército entrar em sua cela, enquanto o outro ficava na porta. Ambos eram altos e fortes e empunhavam fuzis.

—Você vem comigo! Disse rispidamente  o soldado. Antes de sair puseram-lhe uma venda preta nos olhos. Foi então colocado num carro que  lhe pareceu ser uma camionete. O carro partiu em velocidade. Depois de rodar por alguns minutos em silêncio, o soldado que estava ao seu lado bateu em seu ombro e disse:

—Acho bom você dizer a verdade e tudo o que sabe, meu velho. Caso contrário poderá nunca mais voltar pra sua casinha, nem rever sua querida família.

—Quero saber o que eu fiz? Porque estou preso? Pra onde estão me levando?

—Calma velho! Aqui somos nós que perguntamos. Você só responde.

           Depois de alguns minutos o carro parou e todos saltaram. Andaram guiando-o até aonde deveria ser uma guarita, pois houve uma rápida parada e algumas vozes  foram ouvidas com ordens de comando. Continuaram andando provavelmente por um corredor, até que uma porta grande se abriu ruidosamente. Adentraram todos, ou seja, o preso e os dois soldados.

—Licença Comandante. Aqui está o homem! –disse um deles.

—Ótimo soldado! Levem-no para a sala de interrogatórios. Lá já o estão esperando.

—Ok, permissão Comandante!
          Voltaram todos pelo mesmo corredor até chegarem a uma escada. Anunciaram-lhe então que deveria descer aquela escada, guiado pelos braços do soldado.

—Não tente nenhum truque, caso contrário seremos forçados a machucar você.

           Aquilo lá embaixo parecia um grande porão. Úmido e com o odor de mofo.

 —Licença Capitão! O Comandante pediu que comece logo o interrogatório e logo mais ele próprio vai descer para interrogar esse comunista.

—Sente-o ali naquela cadeira de ferro, bem embaixo do foco do abajour. Tenha o cuidado de amarrar suas mãos e pés, pois não quero ter surpresas desagradáveis.

—Sim senhor Capitão!

          Contido e amarrado,  com o foco de luz forte em seu rosto, mesmo já sem a venda dos olhos, ele não conseguia ver nada a sua frente, a não ser vultos que se moviam em volta de sua cadeira.

—Quero saber se o senhor está disposto a colaborar conosco ou vai preferir dar uma de herói – a  voz era rude e ameaçadora.

—Não sei do que o Senhor está falando. Aliás eu nem sei porque estou aqui. Sou um profissional, pai de família, brasileiro naturalizado, professor universitário, tenho domicílio e endereço certos e não cometi nenhum delito. Exijo meu advogado.

—Preste atenção, seu vagabundo de merda! Você está sendo interrogado pelo Exército Brasileiro. Aqui ninguém brinca com os adversários comunistas. Ou eles dizem o que precisamos saber ou morrem. Entendeu? E vou adverti-lo mais uma vez: responda nossas perguntas e conte tudo que sabe. Queremos saber qual a sua ligação com Londres,  com a União Soviética ou com Cuba. Quem lá de fora está patrocinando a proliferação do comunismo aqui no Brasil? Quais são os principais nomes que formam a coluna comunista aqui no Brasil? Vamos lá seu comunistazinho de merda.

—Não sei de nada disso que você quer saber. Sou apenas um correspondente da BBC de Londres. Não tenho ligações com a União Soviética muito menos com Cuba. Não tenho também nenhum nome para lhe dar. E mesmo que tivesse não entregaria nenhum amigo. Também não nego que sou do Partido Comunista Brasileiro, o PCB. Mas isso só diz respeito a mim, é a  minha ideologia. Nunca pratiquei nenhum crime conta o meu país.
          Foi quando ele recebeu o primeiro tapa em seu rosto, que pareceu pegar fogo e seus ouvidos pareciam que iriam explodir.

—Eu lhe avisei: aqui no DOI-CODI não se brinca com adversário. Vou lhe dar mais uma chance para não se machucar tanto: quais os nomes dos ativistas desse Partido Comunista de bosta?  Prometo que se você me der uma lista mando você embora. Caso contrário…
—Já disse que não sei do nome de ninguém e mesmo que
         Recebeu a segunda bofetada no mesmo lado que recebera a primeira, só que agora escorreu um filete de sangue do nariz e do ouvido. Pareceu que sua cabeça ia ser arrancada. Sentiu seu cérebro vibrar. Sua visão ficou turva por alguns segundos.
—Já vi que vamos ter que maltratar ainda mais esse infeliz.

         Foi até sua mesa, falou ao telefone com alguém e depois chamou os soldados:
—Levem-no para a sala de choque.

         Deitado sobre a maca de ferro e a ela amarrado pelas mãos e pés, o algoz capitão se aproximou e disse-lhe:

—Espero que fale logo tudo que sabe, caso contrário vai receber algumas vibrações que o ajudarão a se lembrar. É a sua chance de não passar por isso. Portanto, seja bonzinho e vá respondendo tudo que perguntei.

—Vá-se a merda Capitão! Já lhe disse que prenderam, estão interrogando e torturando o homem errado. Eu não sei de nada, não cometi nenhum crime!

         Quase não acabou de falar quando o seu corpo foi sacudido por uma convulsão que o fez levantar a cabeça e os pés. Mais duas ou três vezes recebeu outras ondas de choque que o fizeram urinar e defecar. Como não obtiveram nenhum resultado satisfatório, ainda tentaram arrancar-lhe algumas unhas dos pés e das mãos, porém sem resultado, pois ele havia perdido a consciência. Mesmo assim, quando começou a recuperar a consciência, viu que estava deitado e totalmente imobilizado sobre a maca de ferro, com o foco de luz em seu rosto e uma goteira que vinha de bem alto, com um pingo d’água, atingindo o centro de sua testa. Não quis acreditar no que estava sendo submetido. Não quis acreditar até onde a maldade do ser humano pode ir. Não sabia que horas eram. Porém tinha certeza que estava ali absolutamente só, pois tirando aquele foco, tudo era escuridão. O único barulho era o pingo d’água caindo do alto e se espatifando no centro de sua testa.

—Meu Deus, vou enlouquecer – pensou.

          Aos poucos ouviu gritos de pavor que vinham de bem longe, mas que logo foram abafados pelo som bem alto  de um carro.

–Certamente estão torturando outros companheiros—pensou.

           O dia ainda não amanhecera quando  ouviu barulho nas portas. Alguém estava entrando. Ouviu então a voz de seu algoz, o Capitão. Vinha acompanhado  de outros militares:

—Comandante, esse recurso do pingo d’água é infalível. Caso não dê certo, só nos resta…

—Calma Capitão! Vou eu mesmo interrogá-lo: Sou o Comandante Geral do DOI-CODI –disse  olhando para aquele infeliz todo amarrado e recebendo o maldito pingo d’água sobre sua testa. Vai agora colaborar com o Exercito?

—Não sei de nada do que vocês querem saber, não tenho ligações clandestinas com ninguém nem no Brasil nem no exterior. Não sou bandido, nunca fiz nada contra o meu país. Só quero a liberdade e a soberania do meu povo. Deixem-me em paz!

          O Comandante puxou o Capitão pelo braço e falou alguma coisa inaudível ao seu ouvido. A seguir saiu da sala, acompanhado por todos. Na sequência entraram na sala dois homens fortes, sendo um negro e outro com traços nipônicos. Puseram-se a desamarar o preso. Uma esperança de liberdade chegou a ser vislumbrada em sua mente. Foi quando o homem negro pegou seu pescoço por trás, dando-lhe uma “gravata” até asfixiá-lo e sentir o seu corpo inerte.

            Era o dia 25 de outubro de 1975, 8:45h.

             O ministro da Justiça entra apressado no Gabinete do Presidente da República, General Giesel, e pede permissão para ler a mensagem que acabara de receber:

             “ O Comandante do DOI-CODI, do quartel General do II Exercito, informa que o comunista Vladimir Herzog, convocado para depor naquele Comando, cometera suicídio em uma das celas nas dependências daquele Comando, tendo sido encontrado enforcado com o próprio cinto de suas vestes”

—Permita-me comentar, Senhor Presidente, apressei-me em vir comunicar tal fato a Vossa Excelência porque certamente vamos ter manifestações nas ruas. Teremos que ficar atentos.

—Esses comunistas de merda!!! O imbecil do nosso Comando arrumou não só alguns problemas para nós como as manifestações de rua, os abutres da mídia nacional e internacional caindo em cima de nós, mas também criou e deu vida a um mártir.

PVH-RO, 23/04/14

TENENTE FERNANDO – 70 ANOS DESAPARECIDO (3)

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A selva engole o oficial, caçando um inambu

Lúcio Albuquerque
[email protected]

Consultor: Abnael Machado de Lima, professor, historiador, membro da
Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia

Domingo, 29 de julho de 1945. São 15 horas e em Porto Velho todos seus habitantes, à frente o governador Aluízio Pinheiro Ferreira e o capitão Ênio Pinheiro, primo do governador, comandante da 2ª Companhia Rodoviária Independente, estão na margem do Rio Madeira para receber, com toda a pompa, o embaixador norte-americano Adolpho Bergory, cujo hidroavião vai amerissar em frente à cidade.
 
Getúlio (paletó na 1ª fila. Ao fundo o hidroavião em que viajou.

Para a população era um momento muito especial, só superado por outro, cinco anos antes, quando o presidente Getúlio Vargas e comitiva amerissaram em frente ao então município de Porto Velho. Agora era o representante do Tio Sam e da recepção constavam a tradicional visita às instalações da ferrovia Madeira-Mamoré, o desfile cívico-militar e outras atividades do gênero para bem impressionar o ilustre visitante.
A 50 quilômetros dali no sentido Ariquemes, na localidade de São Pedro, onde está a vanguarda dos trabalhos de abertura da rodovia Amazonas/Mato Grosso, vai acontecer um fato que se transformará num emaranhado e, por extensão, colocar um personagem que praticamente passaria em branco na História de Rondônia, no centro de um drama que envolve um enredo de versões e levantar suspeitas sobre a biografia do principal líder político que já existiu na região, o coronel Aluízio Pinheiro Ferreira.
Naquela hora desapareceria o 1º tenente engenheiro do Exército Fernando Gomes de Oliveira, comandante do grupamento mais avançado da 2ª Companhia Rodoviária Independente.
Setenta anos depois, apesar da varredura feita pelo Exército, com apoio de tropas norte-americanas especializadas em busca na selva, uma pergunta ainda está sem resposta:
Que fim levou o tenente Fernando?
As versões para o sumiço são várias: sequestrado por índios, devorado por alguma fera, sumido num buraco na selva, vítima da vingança de uma mãe-de-santo ou simplesmente teria se perdido na mata.
Mas, talvez até por injunções políticas, o maior envolvido foi o então governador do Território Federal do Guaporé Aluízio Ferreira, e há duas versões para esse envolvimento: 1) a de que o tenente teria se envolvido na disputa por uma mulher que seria do agrado do governador; 2) porque o oficial teria ameaçado denunciar Aluízio sobre o suposto desaparecimento de um trator da 2ª Rodoviária Independente durante o transporte fluvial de Belém a Porto Velho.
Aluízio, no entanto, conforme documentos diversos,  chegou a ser elogiado por autoridades militares pelo empenho demonstrado, mobilizando meios disponíveis no Território para tentar encontrar o tenente Fernando, sem sucesso.
 
Bártolo estava no acampamento quando o tenente desapareceu

O historiador Esron Penha de Menezes, por diversas vezes, e o funcionário público Walter Bártolo, esse em entrevista concedida ao autor, ao historiador Francisco Matias e ao jornalista Adaídes – Dadá – dos Santos, repetiam sempre a mesma coisa: que o envolvimento de Aluízio Ferreira com o sumiço do oficial só teria surgido durante a disputa política a partir de 1947 quando se formaram dois grupos, o aluizista conhecido por cutubas e a oposição, chamada pele-curta.
Bártolo,  várias vezes garantiu que estava no acampamento quando do desaparecimento do tenente Fernando.

Amanhã:  TENENTE FERNANDO – 70 ANOS  DESAPARECIDO (4)
Uma busca nunca concluída, mas sempre sem resultados
 

TENENTE FERNANDO – 70 ANOS DESAPARECIDO (2)

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Porto Velho, 1945. O Território tem seu primeiro escândalo

Lúcio Albuquerque
[email protected]

Consultor: Abnael Machado de Lima, professor, historiador, membro da Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia

Criado pelo Dec/Lei 5.812/13.9.1943, o Território Federal do Guaporé (*), composto por terras dos estados do Amazonas e de Mato Grosso, completara 18 meses de instalação (janeiro de 1944), contando dois municípios, Porto Velho (ex-AM) a capital, e Guajará-Mirim (ex-MT), e já enfrentava em julho de 1945 seu primeiro grande escândalo – um escândalo que se transformou em várias versões e 70 anos depois não foi esclarecido, o sumiço do tenente Fernando Gomes de Oliveira.

 
Jovem declama em honra a Vargas (paletó branco)
na escadaria do Cine Teatro Resky (Foto cedida pelo
 historiador Esron Penha de Menezes ao autor)

O presidente Getúlio Vargas, em 1940, atendendo convite do superintendente da Madeira-Mamoré Aluízio Pinheiro Ferreira,  com uma comitiva de ministros, assessores e jornalistas deixou Manaus, onde pronunciara o “Discurso do Rio Amazonas” e veio a Porto Velho, para ficar por três horas, mas permaneceu do dia 10 a 12 de outubro, conheceu a cidade, e até visitou o trecho da rodovia “Amazonas/Mato Grosso”, à altura do KM 8 da atual BR-364 sentido sul), obra que vinha sendo tocada a mando do próprio Aluízio.

Aluízio Ferreira não era só o primeiro brasileiro administrador da ferrovia. Para usar uma expressão generalizante, conforme diziam os daquele tempo, literalmente “aqui ele casava e batizava”. Sua palavra era a lei, e são muitos os casos e causos contados sobre essa figura a quem Rondônia deve muito, mas que precisa ser analisado dentro de dois focos distintos, “o homem” e “o mito”.

Desde 1912, quando foi inaugurada a ferrovia e houve a queda da venda da borracha, Porto Velho, ainda município amazonense, tivera reduzida sua atividade econômica. A criação Território dera à região um novo oxigênio, retomando o desenvolvimento e aumentara sua população, fruto do Acordo de Washington que garantiu meios para o Brasil explorar a borracha amazônica necessária para abastecer as tropas Aliadas na II Guerra Mundial, depois dos japoneses terem conquistado os seringais de cultivo no Extremo Oriente.
A cidade ganhara sua segunda agência bancária, a do Banco da Borracha (atual Banco da Amazônia) – a primeira agência fora do Banco do Brasil, e o Segundo Ciclo da Borracha, de curta duração porque acabou quando os japoneses se renderam em agosto de 1945, serviu para dar outra feição aos dois municípios de então.

Porto Velho e Guajará-Mirim tinham como grande fonte econômica o extrativismo vegetal e a ferrovia Madeira-Mamoré. Àquela altura aviões da empresa Condor – depois Cruzeiro do Sul, já incluíam as duas cidades em suas rotas, com seus hidros descendo nos rios Madeira e Mamoré.

Nas duas cidades ainda não havia uma efervescência política, até mesmo porque os partidos estavam proibidos desde a Revolução de 1930, apesar de algumas lideranças guajaramirenses não terem ainda absorvido bem o fato de o Território ter sido feito com partes de terras do Amazonas e de Mato Grosso, contrariando o documento encaminhado pelos líderes da “Pérola do Mamoré” ao presidente da República, em 1937, reivindicando a criação de um Território só com áreas matogrossenses e a capital em Guajará-Mirim. O presidente determinou aos órgãos ministeriais a análise e a emissão de um parecer sobre a proposta encabeçada pelo líder Paulo Saldanha.


 
Aluízio Ferreira fora comandante do Forte de Óbidos na Revolução de 1924  (em razão de seu grupo ter perdido, fugiu e homiziou-se na região do Rio Guaporé e, depois, foi reintegrado ao Exército) e o primeiro brasileiro a administrar a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
Numa época em que praticamente não havia Justiça local, os governadores e empresários cometiam arbitrariedades e desmandos, porque o Tribunal funcionava no Rio de Janeiro, muito distante haja vista não haver meio de comunicação afora o
telégrafo ou o avião que passava, talvez, uma vez por semana. Não havia rádio local e o único jornal era o Alto Madeira, criado em 1917 sucedendo O Município, de 1915, mas que em 1936 o AM foi adquirido pelo magnata das comunicações Assis Chateaubriand.
Naquele ano de 1945 o contingente do Exército era representado pela 3ª Companhia de Fronteiras, cujo comandante era o capitão Antonio Carneiro de Albuquerque Maranhão, e o capitão Ênio Pinheiro ,parente próximo do governador Aluízio Ferreira, era comandante da 2ª Companhia rodoviária Independente.
Em Porto Velho a luz elétrica era desligada às 23 horas. Era comum as famílias ficarem conversando nas calçadas, h, funcionavam alguns bordéis,  e os notívagos e os que gostavam de conversar se encontravam nos clíperes, pequenos bares localizados no meio da Avenida Sete de Setembro.


 
Lazer como se conhece atualmente praticamente não existia. Quem tinha um aparelho de rádio vivia assediado pelos que não tinham para saber o que estava acontecendo no mundo, e a recepção do sinal nos aparelhos era muito dificultada pela variação das ondas que conduziam a voz dos locutores, mas todos queriam saber como estava a cotação da borracha ou como andava a Segunda Guerra Mundial.
Aos domingos a grande pedida era ir a um cinema ou, para os jovens, ficar circulando nas calçadas da Praça Rondon, no exercício milenar da paquera. Os clubes eram poucos, mas muito ativos. O mais cotado era o Internacional (depois Ferroviário) onde a festa exigia traje passeio e só se começava a dançar depois que o coronel Aluízio Ferreira chegava e abria a noitada.

(*) O Território foi criado com quatro municípios: Porto Velho, Guajará-Mirim, Santo Antonio e Lábrea. Em 1945 Lábrea havia sido devolvido ao Amazonas e Santo antonio foi absorvido como bairro de Porto Velho.

Amanhã: A selva engole o oficial, caçando um inambu

 

TENENTE FERNANDO – 70 ANOS DESAPARECIDO

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Um caso típico de tabu na história de Rondônia (1)

Lúcio Albuquerque
[email protected]

Consultor: Abnael Machado de Lima, professor, historiador, membro da Academia de Letãs e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia

Eu era garoto em Manaus e, além de fazer o que todos os garotos gostam de fazer, instigado pelos meus pais Délio e Zélia, eu também gostava de outra coisa: ler. E foi assim que eu soube, na primeira metade da década de 1950, que um ano antes de eu nascer, num lugar chamado Território Federal do Guaporé, um tenente do Exército chamado Fernando Gomes de Oliveira havia desaparecido. Não lembro nas páginas da revista O Cruzeiro ou se foi no Jornal do Commercio, cuja primeira edição foi em 1904, o mais antigo jornal da Amazônia,.
 

Até então eu só me interessava pelo Território do Guaporé porque minha mãe dizia que fora em Porto Velho que meu pai havia arrumado uma noiva quando viajava como agente postal dos Correios; porque o Fast Club foi jogar uma vez numa cidade chamada Guajará-Mirim onde viviam índios que atacavam seringueiros. Ou (o que considerava mais importante): quando a seleção de futebol do Guaporé ia a Manaus para jogar no Campeonato Brasileiro de Seleções de Futebol no estádio do Parque Amazonense – e como eu morava na rua atrás do campo tinha duas opções para entrar, pulando o muro ou esperar a bola ser chutada para fora do estádio e disputar a pegada dela para me apresentar ao porteiro e usar a devolução como moeda de troca do ingresso.

Em 1975 quando vim trabalhar em Porto Velho, o diretor do jornal A Tribuna, jornalista e advogado Rochilmer Mello da Rocha, passou uma pauta de assuntos para o primeiro número e, dentre eles, estava o caso do tenente Fernando. A muitas pessoas antigas aqui perguntei: “Você ouviu falar do tenente Fernando?”.


 
Houve pessoas que disseram saber, mas que não comentavam. “Tem coisa que a gente não fala”, disse um cidadão que, depois, vim saber serviu na 2ª Companhia Rodoviária Independente, à época do desaparecimento.

Nesses quase 40 anos ouvi e li muita coisa sobre o assunto. De mestres da História local como a professora Yêda Borzacov, o jornalista Esron Menezes, o professor Abnael Machado de Lima (os três historiadores), do jornalista Euro Tourinho e do poeta e típico exemplar da própria história rondoniense Walter Bártolo, de muitas outras pessoas, em Porto Velho, Guajará-Mirim, Ariquemes e Candeias, ouvi versões diversas, algumas conflitantes, mas sempre agregando algo novo.

Sei que dificilmente a verdade-verdadeira sobre o sumiço do oficial virá à tona, mas procurei reunir nesta série o máximo de informação que consegui, sempre usando o que tenho praticado em um bocado de anos como repórter: pesquisar, ler, ouvir o máximo de fontes possíveis e, ainda que haja acusações contra alguém, não tomar partido.

O TENENTE

Fernando Gomes de Oliveira era jovem. Oficial engenheiro do Exército, os que o conheceram garantem que ele era alto, forte, bonito. Citam-no como jogador de basquete e atleta de remo de um clube carioca.

Numa cidade com menos de 10 mil habitantes, sua presença certamente foi logo notada e, lógico, para as mães de jovens casadoiras da Porto Velho de então, certamente era o que se dizia àquela época, “um bom partido”, aliás, “o partido ideal” para qualquer daquelas jovens.

O oficial desapareceu quando saiu do acampamento da 2ª Companhia Rodoviária Independente, criada para abrir uma rodovia, de Porto Velho no sentido de Ariquemes, idealizada em 1937 pelo superintendente da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, e principal autoridade local, o coronel Aluízio Pinheiro Ferreira.

Por volta das 15 horas daquele domingo, oito dias antes de um avião dos Estados Unidos lançar uma bomba atômica sobre a cidade japonesa de Hiroshima, o tenente Fernando saiu do acampamento para caçar uma inambu e nunca mais foi visto.

Começava ali um drama para sua família, um clima de terror imposto pelos que vieram investigar o desaparecimento – e muitos foram torturados, a inclusão do oficial na cena política do Território – por causa das versões envolvendo o governador Aluízio Ferreira, de sequestro por índios………….
E até uma ameaça velada feita ao autor desta série: “Veja o que você vai publicar sobre o coronel Aluízio…..”

Amanhã: Porto Velho, 1945, o Território tem seu primeiro escândalo

 

CAUSOS DO GUAPORÉ/RONDÔNIA A CONJURAÇÃO GUAPORENSE/BENINEANA

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Em Porto Velho apareceu em 1952, um cidadão boliviano de vistosa aparência, elegante, da complexão física atlética, comunicativo dizendo ser ex-centro avante da seleção boliviana de Futebol, e revolucionário estando sendo perseguido pelo atual governo do seu país, refugiando-se no Brasil em busca de asilo político. Encontrando-se em difícil situação financeira sem condições de custear sua hospedagem e alimentação. Isto comentado num grupo seleto, no qual se encontrava o médico Dr. Ary Tupinambá Pena Pinheiro, como todo caboclo amazônico hospitaleiro e de magnânimo coração, o convidou a se abrigar no hospital São José até regularizar sua permanência no país, na condição de asilado.

Sua primeira afirmativa foi imediatamente acreditada, pois por coincidência na seleção da bolívia na copa do mundo de 1950, tinha um Gutierez muito bom de bola, nome com o qual se apresentava. O Dr. Renato Clímaco Borralho de Medeiros o recrutou para integrar a equipe de futebol do Ypiranga Clube, o famoso “Leão Azul”. A noticia da contratação do talentoso craque se espalhou célere por todos os recantos da cidade, ultrapassando-a chegando a Santo Antonio, Teotônio, Jaci-paraná, Mutum-Paraná, Abunã, Vila Murtinho, Yata e Guajará Mirim levada pelo trem. São Carlos, Assunção, Vitória, Calama e Humaitá pelas embarcações rio abaixo. Cachoeira do Samuel e Vila Rondônia pelo telégrafo.

Sua esperada estréia, marcada para vinte de Junho, um domingo no clássico futebolístico, Ypiranga contra seu arqueadversário, não menos famoso Ferroviário Esporte Clube. Na tarde do confronto o estádio Paulo Saldanha ficou lotadíssimo, assim como as copas das arvores e os telhados das casas em seu derredor. Logo nos primeiros segundos do inicio da partida, num levantamento de bola, Gutierrez de costa para a trave adversária deu um coice na pelota a colocando no ângulo esquerdo dessa, fazendo um golaço, levando ao delírio a galera azulina e ao silêncio apreensivo à ferroviária com o que aconteceria no desenrolar do embate com o seu time. Para seu regalo nada aconteceu, porque daí em diante a atuação do craque foi um fiasco, totalmente perdido sem saber o que fazer com a bola, vaiado pelos azulinos não retornou para o segundo tempo e o Ypiranga sofreu uma goleada. Sua desculpa foi que estava há dois anos sem jogar.

Frequentando as reuniões etílicas da elite empresarial e governamental no Café Central do João do Barril e no Bar do Raul, este famoso pelos salgadinhos que servia, entrou em contato com os agentes do DIVA* do Governo pedindo-lhes para conseguirem que ele fosse recebido pelo governador do Território Federal, Dr. Jesus Bularmarque Hozannah, para o cientificar sobre um gravíssimo fato comprometedor da segurança do Brasil e do próprio continente Sul-Americano. No dia seguinte reservadamente, um dos agentes lhe comunicou que o governador o receberia em audiência, as 20 horas daquele dia, em seu gabinete. A hora marcada se apresentou ao comandante do corpo de segurança do palácio, este previamente instruído o conduziu ao gabinete, no qual encontravam –se apenas o governador, o secretario geral, Dr. Moacir de Miranda e o chefe da casa civil. Feitas as apresentações protocolares, lhe foi concedida a palavra. Revelou aos presentes ser um agente secreto do Serviço de Inteligência do Governo da Bolívia, enviado aos Departamentos de Pando e Beni, para identificar os comunistas e suas atividades. Descobriu que esses juntamente com seus camaradas de Porto velho, conspiravam realizarem uma revolução armada destituindo os respectivos governantes, assumindo o poder anexando o Território do Guaporé aos dois citados Departamentos bolivianos instalando uma república socialista. Repassou ao governador a relação nominal dos camaradas comunistas de Porto Velho, líderes da conjuração. Este agradeceu, o despediu recomendando a manter rigoroso sigilo, e o mantivesse informado sobre o que mais desvendasse.

O governador disse aos seus assessores que precisavam tomar imediatas providências, mediante a gravidade da denúncia. Os dois opinaram que o boliviano era um leviano, um lunático, devendo ser sigilosamente preso e recambiado à Bolívia. O governador discordou, enfatizando que os ativistas do comunismo internacional se infiltravam e subvertiam a ordem em todos os continentes, em especial na América do Sul. Lembre-se que “aonde tem fumaça há fogo”, temos que apurar veracidade ou a invencionice da denúncia. E mais, é uma ótima oportunidade de eliminar os opositores à nossa administração, a maioria constante dos relacionados. O governador resolveu agir por conta própria, sem participar a ocorrência aos comandantes militares, aos juizes de direito, aos promotores e ao deputado federal Aluízio Pinheiro Ferreira. Precipitadamente mandou prender os médico Ary Tupinambá Pena Pinheiro e Renato Climaco Borralho de Medeiros, o engenheiro Wadih Darwich, os senhores Omar de Oliveira, Manuel Bezerra, Sadi, Elizer, Barrada e outros denunciados. Comunicou as prisões e seus motivos ao Ministro do Interior e Justiça ao qual eram subordinados os Territórios Federais;

Constada a tramóia urdida pela mente lunática do Gutierez, este escafedeu-se sem deixar vestígios. Os cidadãos presos postos em liberdade e o governador diante da absurda gafe, solicitou demissão do cargo, imediatamente concedida, para o bem de todos e felicidade geral do Guaporé.

*Departamento de Informação da Vida Alheia

Abnael Machado de Lima
Membro fundador da Academia de Letras de Rondônia.  

CORREÇÕES FEITAS POR QUEM LEU

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1964 EM RO

Lúcio Albuquerque

A série 1964 em Rondônia certamente
foi do que escrevi o mais comentado, cobrado e debatido comigo. O que
está ali é fruto daquilo que tomei conhecimento através de não sei
quantas entrevistas, muitas conversas e leitura de assuntos sobre o
tema. Pedi a algumas pessoas que fizessem correções. Três delas
responderam.

Sobre a lendária figura do capitão
Sílvio Gonçalves de Faria, que coordenou a equipe responsável pela
implantação do projeto Fundiário Rondônia, e seu envolvimento na eleição
para deputado federal em 1978 o agrônomo e escritor José Lopes de
Oliveira disse:
Em
abril de 1977 quando cheguei no INCRA, o Capitão Silvio já tinha deixado
o órgão. Não sei se ele saiu ou foi dispensado nos primeiros meses do
ano de 1977 ou se foi ainda em 1976. Mas, quem era o chefão do INCRA em
1977 quando cheguei era o senhor BERNARDES MARTINS LINDOSO, irmão do
senhor JOSE LINDOSO, este, me parece que na época Governador do Estado do
Amazonas.

Em
1977 o INCRA em Rondônia era uma Divisão Técnica subordinada a
Coordenadoria do INCRA do Acre. E em 1978 ainda era o LINDOSO, ano em que
foi criada a Coordenadoria Especial do INCRA doTerritório Federal de
Rondônia – CTR, onde o LINDOSO foi o 1º Coordenador.

Então meu caro Lucio, em 1978 quem chefiava o INCRA não era o Capitão Silvio.
Aliás, é até preciso conferir o ano que faleceu o Capitão (acho que foi
em 1978 – a choque quando o Teixeirão assumiu em 1979 o Capitão já tinha
falecido).


Livro de José Lopes é a principal
obra o trabalho capitão Sílvio
          
Em 1978,
eu recebi do LINDOSO o comando para apoiar o ISAC NEWTON, igualmente
todos os executores do INCRA, na época, dos Projetos Fundiários Gujara Mirim;
Jarú Ouro Preto (Ji Paraná), Corumbiara (Pimenta Bueno onde o executor era o
Paulinho), bem como dos Projetos de Colonização: PAD´s Burareiro e Marechal
Dutra com sede em Ariquemes; dos PIC’s: Gy Paraná, com sede em Cacoal e
que eu era o Executor; Sidney Girão hoje no Municipio de Nova Mamoré;
Padre Adholpho Rohl com sede em Jarú; Ouro Preto, com sede em Ouro Preto do
Oeste; Paulo Assis Ribeiro, com sede em Colorado D’Oeste. Então, foram 10
executores do INCRA no interior do TFRO que foram intimados a apoiar o
ISAC.

Em Cacoal, eu e o Reginaldo Joca fizemos uma maratona
percorrendo a área rural do PIC GY PARANÁ, cujo território tinha cerca de 500
mil hectares e quase 5 mil famílias assentadas. Assim, percorremos muitos
quilômetros de estradas, eu e o Prefeito Joca, pedindo voto para o ISAC, com
uma diferença, eu não fazia ameaça aos colonos, de que não receberiam os
títulos das terras se não votassem no ISAC.
O Odacir perdeu a eleição com essa mobilização do Guedes
que se juntou ao INCRA, isso é pacífico entre nós que vivemos o processo.
 
                Nota: a citação do nome do capitão Sílvio na coordenação
da eleição de 1978 foi feita pelo funcionário aposentado do INCRA Paulo
Roberto, o Paulinho do INCRA,
coordenador do órgão na região de Cacoal a todo o cone sul rondoniense.
                O advogado Amadeu
Machado esclareceu a data da morte, por malária, do capitão Sílvio: no dia 9 de
outubro de 1978.
 
 
                Citei que as
prisões de membros do governo foram feitas durante o dia. O comerciante José
Oliveira Barroso, o Carmênio, que
estava à frente da prefeitura porto-velhense no final de março de 1964, disse
que ele e outros membros da administração foram detidos em sua casa na
madrugada de 31 de março a 1º de abril.
Carmênio, um dos
prejudicados por 1964 em Rondônia
 
Uma
patrulha mista de policiais da Guarda Territorial e da 3ª Companhia de Fronteiras
foram me buscar em casa eram 3 da manhã. Fui levado para o Palácio do Governo e
ali fiquei detido até 10 horas da manhã. Respondi a três IPM – Inquérito
Policial Militar.