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O AGENTE FUNERÁRIO

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 SamuelCastiel Jr.













         Geólogo argentino, pesquisador de jazidas de pedras preciosas na reservaRoosevelt, em Rondônia, a serviço de uma mineradora multinacional, concluiu suamissão, elaborou minuncioso relatório falando da qualidade do solo, jazidas,aluviões e ocorrência das pedras preciosas naquela reserva. Falava também deconflitos sangrentos entre índios e garimpeiros, bem como da ausência da forçapolicial, gerando insegurança para quem se aventurasse a trabalhar naquelalonginqua região. Quando voltava para São Paulo, sofreu um ataque cardíaco noaeroporto  do Belmont, hoje JorgeTeixeira, em Porto Velho-RO., foi socorrido e transportado pelo SAMU, porém foia óbito durante o percurso, tenho chegado morto na unidade de emergência doPronto Socorro João Paulo II. Constatado o óbito o médico plantonista assinou oAtestado de Óbito e, como de praxe, pediu que levassem o corpo para onecrotério até que os familiares o procurassem. Era um sábado a noite e omovimento muito intenso naquela unidade hospitalar. Baleados, esfaqueados,motoqueiros quebrados, vitimas do enlouquecido trânsito. O tempo foi passando,e aquela rotina avançou noite adentro! Já era tarde quando um amigo e colega dogeólogo falecido chegou ao Pronto Socorro acompanhado de outro homem que seidentificou como gerente e representante da empresa multinacional e empregadorado pesquisador falecido. Procurado o médico que assinou o atestado de óbito,este explicou que infelizmente o infarto foi fulminante, tendo o paciente dadoentrada já morto naquele Hospital. Nada podemos fazer! –disse o médico ao gerenteda mineradora.
— E onde está o corpo doutor ?–perguntou o amigo do geólogo. Temos que providenciar o preparo do corpo, bemcomo o embalsamamento e o seu transporte para São Paulo, de onde seguirá para aArgentina, onde mora sua família.
— Pois não, vocês podem ir até onecrotério que o corpo lá se encontra. Já assinei o atestado de óbito.
   Mas ao chegar ao necrotério, pra surpresa dos dois homens, lá não havianenhum corpo! As três mesas de pedra  estavam frias e vazias!… Já nervosos, voltaram aoatarefado médico que ficou incrédulo ao saber que o cadáver tinha sumido!Chamou a enfermeira-chefe e, juntos, foram as pressas ao necrotério,constatando o que já sabiam: o corpo do geólogo havia sumido! Sem saber o quedizer nem como explicar aos amigos do morto o sumiço de um cadáver de dentro dohospital,  o médico e a enfermeira ficaramainda mais atabalhoados:
— Não sabemos ainda ao certo o queaconteceu!…Vou pedir a instalação de uma comissão para apurar esse fatolamentável! –disse o médico sem muita convicção!
–Doutor, o senhor me desculpe, masnem o senhor nem comissão alguma vão apurar nada! Vou agora mesmo registrar umaocorrência policial. Isso que aconteceu é inadmissível! – disse o representanteda mineradora já quase aos gritos dentro do hospital. Ao sair, juntamente com oamigo do geólogo morto, falando alto e reclamando muito, o gerente damineradora foi abordado por outro homem, já no estacionamento do hospital:
–Moço, por favor, tô vendo que osenhor tá muito aborrecido, e com razão! Sumiram com o corpo do seu amigo! Euacompanhei e ouvi  tudo de longe. Sei oque aconteceu.
   O gerente que já estava quase entrando no seu carro, parou.
–O que você tá dizendo home?
–Isso mesmo que o senhor ouviu. Eusei o que aconteceu e também sei onde está no corpo do seu amigo.
–E quem é você?
–Sou funcionário de uma funerária,vulgarmente chamado de “papa-defunto”. Mas odeio esse nome, e prefiro que mechamem de Agente Funerário. O que aconteceu foi uma tremenda atitude antiética edesrespeitosa. Sou Agente Funerário a 15 anos e nunca tinha visto isso acontecer!  Eu acompanhei o seu amigo desde o aeroporto, quando ele passou mal efoi transportado pelo SAMU. Depois que foi declarado morto e mandado para onecrotério, fiquei a espera de algum familiar dele para que pudesse tratar dofuneral. Mas quando o senhor chegou e foi até ao necrotério,  um outro “papa-defunto” játinha removido o corpo e saído por traz do hospital. Creio que o vigilante dohospital deve ser cúmplice desse vagabundo! Fui atras e chequei tudo: o corpodo seu amigo está em uma terceira  funerária concorrente. Ouvi falar que teriasido negociada sua transferência para  uma terceira funerária por um bom preço. Agora, que o senhor sabe detudo, é por sua conta!
–O gerente da mineradora, furioso,agarrou o “papa-defunto” pelo colarinho:
–Vocês são todos iguais! Verdadeiros abutres! Nãorespeitam nem os mortos nem suas famílias! E tem mais, você vem comigo agora!Vamos até a delegacia mais próxima registrar essa ocorrência e você é a minha testemunha ocular viva!  E tem sorte de ainda ser “viva”!…
–Como já lhe disse, meu senhor,acho isso uma terrível falta de ética profissional. Mas, nos dias de hoje, essemercado tá cada vez mais disputado. Quem chegar primeiro leva!…
   Na delegacia, depois do fato narrado ao delegado plantonista, o escrivãodigitou os necessários depoimentos, lavrou o Boletim de Ocorrência ( B.O.)., e na sequência solicitou quea viatura policial, juntamente com uma patrulha da PM e o “papa-defunto”delator,  fossem até a funerária e trouxessempresos os responsáveis. Quando a equipe já entrava na viatura pra cumprir amissão, o delegado chamou o seu agente policial e ordenou:
–Carlão, traga TODOS os  responsáveispresos! Inclusive o corpo desse cidadão portenho!  Onde já se viu um  cadáver estrangeiro  perambulando pelas ruas de Porto Velho, defunerária em funerária,  sábado a noite,como se fosse um cão sem dono! Isso pode até gerar inclusive um mal-estar diplomático! Que plantão agitado nesse sábado, hem? Vou lhe contar!… Edirigindo a palavra para o gerente da mineradora que, bufando de raiva, quase apoplético,  tentava acalmar-se, perguntou-lhe:
–Enquanto o senhor espera, aceitaum copo d’agua ou um cafezinho?…

“O FORNOVO” – Informativo eletrônico do IHGGS e da AHIMTB/SP

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“O FORNOVO” – Informativo eletrônico do IHGGS e daAHIMTB/SP

ANO: III (2015) — MARÇO N.º 13

 


 

 

 

 

 

COMBATENTESCONSTITUCIONALISTAS

PORTUGUÊSESNA REVOLUÇÃO DE 1932 EM SÃO PAULO

 

Rui Santos Vargas ([1])([2]) 

 

 Quando em 1930 o Presidenteda República do Brasil Washington Luís rompe com a “política do café com leite”([3])e nomeia o governador de São Paulo Júlio Prestes como seu sucessor, que venceas eleições, estava longe de pensar nas consequências que essa sua açãoacarretaria. Como consequência da manutenção de um representante paulista napresidência da república, as oligarquias mineiras promovem um golpe de estadoque, articulado com os estados do Rio Grande do Sul e da Paraíba, colocamGetúlio Vargas no poder. Getúlio tem uma ideia de modernização do país, maspretende fazê-la de forma autoritária, sem consultas eleitorais. O novopresidente fecha o Congresso Nacional, anula a Constituição de 1891 e depõegovernadores de diversos Estados, passando a nomear interventores. Estasmedidas desagradaram profundamente às elites paulistas tradicionais, que exigema criação de uma carta magna que regesse a legislação do país, o que Getúliovai adiando “sine die”. Com o passar do tempo, as tensões foram-se agudizando eas posições dos grupos apoiantes e de oposição ao governoforam-se extremando. No dia 23 de maio de 1932, forças tenentistas([4])e as forças de oposição acabam por se confrontar nas ruas de São Paulo, o queresultou na morte de alguns estudantes em praça pública, que ficaram famososcomo MMDC (sigla das iniciais dos quatro jovens mortos: Martins, Miragaia,Dráusio e Camargo. Mais tarde, adicionou-se a letra A, de Alvarenga, ao finalda sigla, de outro jovem que acabou por morrer por causa de ferimentos obtidosnesse conflito. Essas mortes foram a faísca deflagradora da RevoluçãoConstitucionalista que teve início no dia 9 de julho de 1932. Com a ajuda dosmeios de comunicação em massa, o movimento ganha apoio popular e mobiliza 35mil homens pelo lado dos paulistas, contra 100 mil soldados do governo deVargas. À falta do envolvimento e do apoio esperado de outros Estados na ação,o governo do Estado de São Paulo fica isolado contra o governo central.Seguiram-se quase três meses de batalhas sangrentas, encerradas em 2 de outubrodaquele mesmo ano, com a derrota militar dos constitucionalistas.

 

Os Portugueses

 

Tal como outra comunidadesestrangeiras em São Paulo, a colônia portuguesa não ficou indiferente ao climaparticipativo e solidário da Revolta Constitucionalista, contribuindo com somasem dinheiro, mercadorias e intervenção direta. Logo no terceiro dia da eclosãodo movimento armado, ou seja, a 11 de julho de 1932, a comunidade portuguesacongregou-se para prestar todo o auxilio possível aos Paulistas, permanecendoos principiais dirigentes das suas associações em reunião permanente. No Clubeportuguês instalou-se a grande Comissão de Assistência da Colônia Portuguesa deSão Paulo, presidida pelo Sr. Jaime Loureiro. Entre os mais valiosos donativosque essa Comissão ofereceu às autoridades paulistas, figurou o do Sr. MartinsCosta, encaminhado por ofício ao Dr. J. A. Magalhães, cônsul de Portugal.Também as senhoras portuguesas se organizaram espontânea e abnegadamente,prestando consideráveis serviços quer no setor da costura como em vários setoresassistenciais. Porém, a mais significativa dádiva foi a que fizeram osportugueses constitucionalistas António Amaro e António Augusto, que queremosaqui homenagear. Ambos foram vitimas do conflito armado, e efetuaram a mais pura e generosa oferta em benefício dessa causa queabraçaram e consideravam justa deram a vida.

 

António Amaro

 

Nasceu em Castelo Velho(5), Portugal, a 24 de abrilde 1891, filho de Eduardo Amaro e de Anna Amaro. Era casado com ChristinaMartins Amaro e tinha a profissão de comerciante, sendo proprietário em Tanabu.Naturalizou-se brasileiro e desempenhou em Tanaby cargos públicos. Há muitotempo que António Amaro se tinha integrado na sociedade, conhecendo a cidade eo sertão. Iniciada a Revolução, fez parte da comissão local do M.M.D.C.. Porém,não totalmente satisfeito com o valioso auxílio que aí prestava, quis fazermais. E fez! Conhecedor da regiçao do porto do Taboado, tornou-se guia dastropas comandadas pelo Capitão José Teixeira Pinto (1.º Batalhão de Rio Preto).A 12 de agosto, ia António Amaro à frente da tropa, próxima do córrego do JacúQueimado, quando ao frontear a residência do Sr. João Wenceslau, uma forçaadversária atacou de surpresa. António Amaro foi o primeiro a cair, com umferimento na cabeça, morrendo nesse mesmo instante. O seu corpo foi atirado aorio Paraná pelas forças governamentais.

5 É possível que se trate do lugar de CasteloVelho, na freguesia da Areosa, concelho e distrito de Viana do Castelo.

 

António Augusto


Nasceu em Portugal a 12 deabril de 1908, filho de José Varanda e de Maria Madalena. Era casado comSylvina Amélia e deixou uma filha Amélia Augusto. António Augusto trabalhava naEstrada de Ferro Sorocabana, como fogueiro, quando despoletou a Revolução,tendo os seus serviços sido requisitados. Apesar da sua condição deestrangeiro, pôs-se de imediato ao serviço da causa que São Paulo defendia. Efoi no seu posto que no dia 8 de agosto de 1932, entre as estações de Muniz deSouza e Engenheiro Maia, foi ferido numa perna por múltiplas balas. Foitransportado para o Hospital de Sorocaba, tendo aí falecido alguns dias depois.António Augusto foi sepultado em Itapetininga.

 

Em Jeito de Conclusão

 

A RevoluçãoConstitucionalista de 1932 é por definição uma contrarrevolução. Não sepretendia fazer letra morta da Lei e alterar os destinos do Brasildiscricionariamente. Antes pelo contrário, pretendia-se o regresso à ordemconstitucional que Getúlio Vargas teimava em não aceitar. A RevoluçãoConstitucionalista de 1932 teve o mérito, entre outros, de ser um apelo àDemocracia em contra-corrente ao que se verificava no mundo ocidental, ondeproliferaram regimes ditatoriais, fascistas e nacional-socialista. É esseespírito democrático que se ressalta. Se o movimento constitucionalista ficouconhecido pela sigla MMDC, à qual se adicionou posteriormente num ato dejustiça o A, talvez a participação portuguesa no movimento se possa doravantereconhecer nesta última letra: A de António Amaro e António Augusto.


                      

 



[1] Membro daFederação das Academias de História Militar Terrestre do Brasil (cadeiraespecial D. José Luís de Castro, 2.º Conde de Resende e 13.º Vice-Rei doBrasil) e seu Delegado em Portugal.

[2] É de inteira justiça agradecer a prestimosacolaboração do Sr. Silvio Luiz da Rocha Presidente do 14.º Núcleo deCorrespondência “Marianos das Trincheiras” da Sociedade de Veteranos de 32 –MMDC.

[3] Aliançarotativista entre os Estados mais ricos e influentes do país na época, SãoPaulo e Minas Gerais, cujos representantes se alternavam no posto dapresidência da república.

[4] Os tenentistaseram militares e civis que apoiavam as ações do governo.

 

ASSOMBRAÇÃO DE OSSOS

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  Samuel Castiel Jr.


“A mente humana é a única criadora de seus próprios fantasmas” –  Samuel Castiel Jr. 
Ele estavano interior a serviço, num vilarejo que ficava a margem de um rio caudaloso emuito largo. Com poucos habitantes, o silêncio era sepulcral durante todo odia, quebrado apenas pelo chamado triste e distante da inambu. Não havia maisque dois ou três carros em toda a cidade, que trafegavam esporadicamente poraquelas paragens a beira do rio. A quietude era total a qualquer hora do dia e,a noite, ficava ainda maior! Desde que chegara aquele vilarejo para realizarserviços de topografia onde seria construído um cemitério municipal, sua únicadistração e lazer resumia-se em pescar nas horas de folga, postado sobre um pierque entrava rio a dentro. Naquele dia estava ali desde as 17:00 horas e já seaproximava das 18:00 horas quando avistou ao longe uma canoa com um remadorapenas, e que descia rio abaixo, vindo em sua direção. Ficou esperando oviajante solitário mas a canoa virou e encostou na margem do rio bem antes depassar por ele e seu único ocupante desceu. Como já estava escurecendo, nolusco-fusco, não dava pra distinguir quase nada, apenas que era um homemgrande, só de calção. A linha da pescaria continuava bamba, nenhum peixemordia! Foi então que ouviu um barulho muito alto, como se fosse um fasfalharde folhas, vindo em direção ao pier. Amarrou sua linha de pesca na madeira dopier e foi até a rua para ver que barulho era esse! Viu então uma figura monstruosa,da altura de um dinossauro rex, o qual, quando o viu, transformou-se em umamontanha de ossos que começaram a cair em cascata, ao mesmo tempo que avançavamna rua em sua direção. Espavorido, juntou as poucas forças que ainda lherestavam e saiu em desabalada carreira, rumo aquela pousada  onde sehospedara. Ao chegar, já com o coração a sair-lhe pela boca, a dona da pousadaao vê-lo tão assustado, suado, pálido e com os cabelos em pé, perguntou-lhe:
–O quehouve com você? Parece que viu alma d’outro mundo? Tome um bom banho e depoisde se refrescar tem uma sopa quentinha pra você em cima do fogão.
Ele seguiuo conselho daquela senhora. Tomou um banho e se refrescou! Achou que estavatrabalhando muito ultimamente e começando a ver coisas estranhas…Foi entãoque se lembrou da linha de pesca, amarrada lá no pier. Correu para lá e, comuma lanterna, viu que sua linha estava tensa. Provavelmente um peixe mordera aisca! Mas ao pegar na linha achou estranho, pois ela não puxava nem balançavacomo se prendesse um peixe. Poderia estar apenas presa em algum galho submerso!Mas logo descartou essa possibilidade pois, ao puxar a linha, apesar de estarpesada, não oferecia resistência!…Puxou, puxou até que apareceu preso aoanzol um fêmur! O susto foi tamanho que quase o derrubou no rio! Largou pratraz a linha, o anzol e o fêmur e saiu em desabalada carreira voltando para apousada. Dessa vez, porém, antes de chegar teve o cuidado de se recompor erespirar melhor para, de novo, não chamar atenção da curiosa dona da pousada.Já estava deitado quando se lembrou da sopa quentinha que o esperava em cima dofogão! Vestiu um roupão de banho surrado que encontrou pendurado atras da portado banheiro, e que mal chegava até seus joelhos, e foi para a cozinha. Aquelasenhora realmente não estava blefando: lá estava a panela de sopa quentinha,cheirando e ainda fumegante sobre o fogão. Pegou um prato fundo e a concha aolado e levantou a tampa da panela. A fumaça teve que se dissipar um pouco paraque ele pudesse ver apenas ossos, muitos ossos que foram se multiplicando, estalando ecaindo pra fora da panela, em sua direção.
                 Quando ele deu conta de siestava na rodoviária tentando se justificar com o motorista do ônibus porquetinha que embarcar e viajar vestido naquele ridículo roupão de banho!…

50 anos Da Instituição da Medalha MARECHAL RONDON

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O Tenente Coronel José Manuel Lutz da Cunha e Menezes, então Governador do Território Federal de Rondônia, expediu o Decreto n.º 435 de 14 de abril de 1965, instituindo a Medalha Mérito Marechal Rondon, em homenagem ao grande soldado, ao grande sertanista e grande desbravador do espaço geográfico limitado pelo Estado de Rondônia, o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, a ser outorgada pelo governo aos cidadãos, em cumprimento do seu dever de reconhecer  e oficialmente proclamar os seus relevantes serviços prestados e que prestam à Rondônia, ao país.

Prémio em reconhecimento ao espirito pioneiro, à coragem abnegação e o patriotismo daqueles que sublimaram o seu sacrifício permanecendo neste espaço de florestas, rios caudalosos e endêmicos, com denodado esforço e fé, argamassaram as remotas origens política do que é hoje Rondônia.

No dia 17 do corrente mês, em sessão solene presidida pelo Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de Rondônia Confúcio Aires de Moura, assessorado pelo Conselho da Ordem do Mérito Marechal Rondon, assistida pelos convidados, os quais lotaram o Teatro Guaporé, foi com as devidas formalidades, condecorados com as medalhas dos respectivos graus, os vinte e nove agraciados de todos segmentos sociais, por mérito e distinção servindo à Rondônia, em qualquer tempo e campo de atividade humana.
Congratulações aos agraciados com a distinção de ostentarem a mais elevada comenda outorgada pelo governo do Estado, instituída a cinquenta anos. (1965/2015).

Abnael  Machado  de  Lima       

17 DE NOVEMBRO TRATADO DE PETROPOLIS 1903

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O TRARADO DE PETRÓPOLIS, firmado entre a República da Bolívia e a República dos Estados Unidos do Brasil, na cidade de Petrópolis, no dia 17 de novembro de 1903, assinado pelo Ministro de Estado das Relações Exteriores José Maria da Silva Paranhos – Barão do Rio Branco e Joaquim Francisco de Assis Brasil, Ministro Plenipotenciário do Brasil nos Estados Unidos da América do Norte, representantes do Brasil. Os Ministros Plenipotenciários Fernando E. Guachalla e Cláudio Pinella, representante da Bolívia. Um ato diplomático da maior relevância geopolítica não só para os signatários, os quais sanaram o conflito bélico travado entre os seringueiros acrianos e as forças armadas bolivianas e definiram seus limites fronteiriços, mais principalmente em relação a America do Sul ao sustar em definitivo a instalação do Bolivian Syndicate no Acre, um consorcio inglês, norte-americano instrumento do imperialismo  neocolonial das grandes potencias econômicas, cujo domínio expansionista era realizado por intermédio das organizações comerciais/industriais, as chartered company, conquistando e dominando grandes espaços coloniais na África e na Ásia. Deste modo a instalação do Bolivian Syndicate na Amazônia, com amplos poderes, inclusive o de manutenção de forças armadas lhe outorgados pela Bolívia no contrato de arrecadamento do Acre, comprometia a segurança e a integridade territorial dos países sul-americanos.

Ressalta-se sua máxima importância para a ocupação do vale do Alto Rio Madeira em vista seu artigo VII assim dispor: “Os Estado Unidos do Brasil obrigam-se a construir em território brasileiro, por si ou por empresa particular, uma ferrovia desde o porto de Santo Antônio, no Rio Madeira, até Guajará Mirim no Mamoré, com um ramal que, passando por Vila Murtinho ou outro ponto próximo (Estado do Mato Grosso) chegue a Vila Bela (Bolívia), na confluência do Beni e do Mamoré. Dessa ferrovia, que o Brasil se esforçará por concluir no prazo de quatro anos, usarão ambos  países com direito as mesmas franquezas e tarifas”.
O cumprimento do Tratado deu origem a Porto Velho e a Guajará Mirim, consequentemente ao Estado de Rondônia.

Por ocasião de um evento realizado pela Assembleia Legislativa, de consulta popular, relativa a escolha do Dia da cidade de Porto Velho, sugeriu que esse fosse 17 de novembro, data da assinatura do Tratado de Petrópolis. Pelas razões expostas.
Porto Velho, 17 de novembro de 2015.
Abnael  Machado  de  Lima

UIRAPURU DO RIO MADEIRA

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Destinos Cruzados

Rememorar como episódio integrante dos cem anos de História de Porto Velho sobre a cientista alemã Drª Emília Snethiage quando estudante na Universidade de Cambridge na Inglaterra conheceu a brasileira Diana, paraense da cidade de Cametá, no Rio Tocantins, filha de um rico empresário, proprietário de extensos castanhais (castanha brasileira).

Tornaram-se amigas, residindo no mesmo apartamento, Diana ensinou português a Emília e com essa aprendeu alemão. Contava-lhe como era a floresta equatorial constituída de árvores gigantescas entrelaçadas de lianas, produtoras de frutas alimentícias, óleos, látex, farmacológicos e outros, por palmeiras de magnificas belezas, por campos de diversos gramíneas, formando clareiras na selva. Nas margens dos rios formavam-se as matas de igapós periodicamente alagadas, os pântanos e lagoas com vegetação aquática florida de todas as cores, destacando-se a Vitória Régia, a qual muda de cores no decorrer das horas do dia.

Esta encantadora e ao mesmo tempo misteriosa selva, biota habitat de variada fauna composta por mamíferos, repteis, ofídios, insetos, aves de variados tipos e coloridos, inclusive do homem, os nativos indígenas.

Descrevia os caudalosos rios de águas verdes uns, outros de águas amareladas, todos piscosos, abundantes em quilônios, em gigantescos ofídios cobras grandes (sucuris) e audaciosos jacarés, alguns com mais de seis metros.

Obstaculizando seus cursos surgem espetaculares cachoeiras e corredeiras.

A Emília ficava deslumbrada, entusiasmada com o que ouvia, incluindo as lendas e os mitos relacionados à floresta, aos rios e aos seus habitantes.

Concluídos seus respectivos cursos superiores, Emília regressou à Alemanha, e Diana para o Brasil na região tocantina, nos castanhais de seus pais. Mantendo correspondência com a amiga.

A Drª Emília Snethiage ornitóloga especialista em zoologia avifaunistica, havia se dedicado a análise dos relatórios e das pesquisas realizados por cientistas sobre as aves da Amazônia. Veio ao Brasil, para Belém-do-Pará, a convite de Emílio Goeldi, naturalista suíço, diretor do Museu Paraense, o qual lhe encarregou de organizar um “Catálogo das aves da Amazônia”.

Iniciou seus trabalhos examinando as coleções do Dr. Emílio Goeldi e de outros pesquisadores e colecionadores ingleses, franceses e austríacos. Na coleção do professor Johan Natterer encontrou um pequenino pássaro por ele descoberto e classificado, encontrado no Rio Madeira nos arredores da cidade de Borba, empolgando os meios científicos por se tratar de verdadeiro Uirapuru. Resolveu percorrer a Amazônia para descobrir o modelo ornitológico comprovando o descoberto pelo professor Johan Natterer.

Drª Emília conta que em Tocantins ao chegar em Cametá, tomou conhecimento da tragédia ocorrida com sua dileta amiga, que tanto esperava reencontra-la, os índios haviam trucidado todos os membros de sua família, porém seu corpo não foi encontrado, deduzindo-se que tinha sido levada prisioneira. Ela ficou emocionalmente abalada. Mesmo assim deu continuidade as suas pesquisas. Em uma de suas excursões, perdeu-se na floresta. Após alguns dias de exaustivas peregrinações cansada e faminta, desiludida de salvação, sentou-se junto ao tronco de uma árvore, nele se recostando aguardando a morte por inanição fechou os olhos sonolentos, quando surpresa ouviu o canto de um galo. Pensou estar delirando, mas o canto se repetiu, levantou-se seguindo em sua direção, deparando-se com uma taba indígena com várias ocas. Não acreditava no que estava vendo, entre as índias que curiosas e desconfiadas lhe miravam, esta Diana com seus longos cabelos louros, despida da cintura para cima, usando uma tanga. Ao lhe reconhecer destacou-se do grupo, emocionadas rindo e chorando se abraçaram. Diana conduziu-a acompanhada por um cortejo de índias e crianças para sua habitação, uma ampla e bem cuidada maloca.

Apresentou-a ao seu marido tuxaua da tribo dos Gaviões e seus cinco filhos. Contou-lhe que ao regressar ao Brasil foi residir na fazenda de seus pais próxima a cidade de Cametá, no Rio Tocantins, casou com jovem proprietário de castanhais. Um dos seus coletores de castanha os preveniu de que havia um índio apaixonado por mim, querendo me raptar. Tomamos todas as precauções, reforçamos o número dos homens de segurança.

Numa tarde descíamos o Rio Tocantins em uma lancha juntamente com meus pais, irmãos e empregados com destino à fazenda desses, ao chegarmos em uma cachoeira, na qual obrigatoriamente tínhamos de desembarcar, a fim de facilitar a travessia da embarcação puxada na sirga, fomos atacados por todos os lados, pelos índios que estavam emboscados, me prenderam levando para sua retaguarda, chacinaram todos os nossos familiares e empregados, o barco naufragou, arrebentando-se nos rochedos.

Quando eles se certificaram que não havia sobreviventes iniciaram o retorno para a taba, longa caminhada pela floresta. Fui isolada numa oca sob permanente vigilância e os cuidados de uma velha índia, quanto alimentação, asseio (banho de rio), aprendizagem do idioma e preparativo para o casamento com o raptor, filho do tuxaua. Fui submetida a dolorosa provação, gradativamente me resignando a minha desventura.

Drª Emília passou vários meses morando com os indígenas, ela não sabe precisar quantos, por não dispor de calendário. O Tuxaua a pedido de sua amiga Diana mandou para as proximidades de Cametá para qual se dirigiu. Ficou sabendo que após dois meses de buscas na floresta, foi declarada desaparecida, ocorrência publicada nos jornais do Pará e da Alemanha.

Regressando à Belém, retornou seus trabalhos, voltado ao Rio Tocantins, agora acompanha de um guia Manoel Cavalcante Umbuzeiro e seus auxiliares designados pelo Museu Paraense. Subiu o Rio Xingu e desse por terra percorrendo mais de trezentos quilômetros, chegaram ao Rio Tapajós, deste subindo o Rio Amazonas chegaram ao Rio Madeira o percorrendo de sua foz até Santo Antônio.

Escolheu Porto Velho como base de suas explorações hospedou-se no Hotel Brasil. Realizou suas pesquisas no espaço entre Porto velho e Borba. Com maior intensidade na floresta no entorno de Borba, onde esperava encontrar o verdadeiro uirapuru. Estando em plena atividade profissional provavelmente, próxima de redescobrir o famoso pássaro, foi encontrada morta no seu apartamento no Hotel Brasil. O médico Antônio Pimenta Magalhães, diretor do hospital da Candelária atestou como “causa mortis”, colapso, ocorrido no mês de agosto de 1929, faziam 29 anos trabalhando no Museu Paraense, destacando-se entre outras produções de projeção internacionais as seguintes obras:

1 – Catálogo das “Aves da Amazônia”;
2 – Roteiros e Informações dos espaços percorridos;
3 – Coleta e registro de 95% das classificações das Aves Brasileiras;
4 – Nature and Main Easter Pará, Brazil (livro);
5 – In The Geographic Review (livro);
6 – Journal of Ornithology (livro);
7 – Uber Vogal Xingu – Tapajós (livro).

É patronesse de uma das cadeiras da Academia de Letras de Rondônia.

Foi sepultada no Cemitério dos Inocentes, em Porto Velho. Porém por relaxamento, falta de sensibilidade cultural, é desconhecido o local de sua sepultura, na qual repousam os seus restos mortais.

Drª Emília Snethiage é uma personalidade de História de Rondônia e da Amazônia, pelo que foi e por tudo que fez prestamos-lhe reverenciosas homenagens.

Abnael Machado de Lima,

1. – informações com maiores detalhes, encontram-se no livro “Os Igaraunas” de autoria do escritor Raimundo Morais

12 de Outubro

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Dia que mudou o mundo ocidental, dedicado como o “Dia da Raça” e o “Dia da Criança” e festejado com solenidades na Espanha e nos estados hispânicos do México ao Norte, da América Central e da América do Sul, rememorando o feio de Cristóvão Colombo.

Os episódios:

Às duas horas da manhã do dia 12 de outubro de 1492, a luz tênue do luar, o marinheiro Rodrigues de Triana avistou da gave do alto mastro da nau “Pinta” o formato alongado de umas das ilhas caribenhas americanas, surpreso e eufórico brada com todas as forças:

– Terra, terra.

O seu brado fez estremecerem as pontes das caravelas com as manifestações de alegria de seus tripulantes e o estrondo do tiro de canhão repercutindo sobre as águas litorâneas, saudando o Novo Continente, tido como parte da Índia.

Estava salva do fracasso a expedição, no dia anterior (11), Colombo sob o ultimato dos capitães das três caravelas do imediato retorno à Europa, solicitou a concessão de dois dias ao fim dos quais retornaria.

Quando ao amanhecer do dia 12, o sol se ergueu sobre o mar revela ante aos olhos deslumbrados dos europeus um trecho de um exuberante paraíso. Todos rendem graças a Deus. Colombo acompanhado pelos capitães descem de seus navios, na praia o comandante em Chefe, ajoelha-se e beija a areia, desdobram a bandeira do reino de Castela. Os nativos acompanhavam de certa distância, os movimentos daqueles seres de vestes reluzentes refletindo os raios solares os considerando enviados dos deuses.

Colombo em nome dos reis da Espanha tomou posse da ilha na qual desembarcou, consagrando-a a Deus, nominando-a São Salvador.

Gomara cronista da conquista escrevia a Carlos V da Espanha, “Depois da criação do mundo, do nascimento e da morte do Criador, a descoberta das Índias Ocidentais foi sem qualquer dúvida o maior acontecimento”.

Afirmativa realmente procedente, na história não houve data mais importante que essa de 12 de outubro de 1492, quando o Ocidente se engrandeceu com um continente, o Americano. E o da Espanha o início do seu magnifico apogeu econômico, político, militar e expansionista, acumulando um rico tesouro jamais visto.

Ao contrário, essa data é aziaga para os povos nativos americanos marco do início de suas desditas, declínio e desaparecimento de seus impérios, tais como:

O Inca ocupando vasto espaço territorial compreendido entre a linha do Equador ao Norte e o Trópico de Capricórnio ao Sul, do Oceano Pacífico ao oeste, a floresta Amazônica ao Leste, a planície do Chaco ao Sudeste. Abrangendo os altiplanos e as montanhas das Cordilheiras dos Andes. Conquistado e aniquilado por Pizarro a partir de 1532;

O Maia situava-se na península de Iucatã e no espaço dos atuais países da América Central Continental, invadido por Fernão Cortez a partir de 1519;

O Asteca  situado no espaço ocupado pelo México atual na América do Norte, teve a mesma desdita dos dois supramencionados, Fernão Cortez, o conquistou a partir de 1519.

As demais nações dos povos americanos situadas no espaço continental compreendido entre o circulo polar ártico e o antártico, entre os oceanos Pacífico e Atlântico, foram destruídas e seus habitantes escravizados, obrigados a serem súditos ou cidadãos, devotos de Deus entidade lhe desconhecida, aceita após a devida lavagem cerebral. Só lhes restando deplorar haver, Colombo, ter conseguido com suas caravelas chegar a América.

 

Abnael Machado de Lima 

KAFKA revisitado

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Foi o pedido de meu filho, desejoso de ler a “A Metamorfose”, que me levou a uma revisita ao escritor tcheco Franz Kafka. No afã da leitura pareceu-lhe que o meio mais fácil de ter o livro seria buscá-lo n’alguma de minhas prateleiras! Assim, recebi um telefonema seu – habitamos casas distintas – em que me perguntou: ”Vc tem livros do Kafka?” À minha resposta positiva, disse-me: “Passo com vc ao final da semana para pegá-los!”. Presumindo que com ele viriam indagações a respeito do escritor e de seus livros, separei as duas únicas obras de Kafka que li e que, por sorte, ainda permaneciam na minha estante – “A Metamorfose” e “O Processo” – e dispus-me a iniciar uma re-leitura, começando por “O Processo”, o que só conclui às vésperas da visita do Victor Hugo.

Essa re-leitura lembrou-me os primeiros contatos que tive com a obra de Franz Kafka:

O meu primeiro encontro com o escritor aconteceu há muitos anos. Fui a ele apresentado, à primeira vez, ao início dos anos setenta, quando ainda estudava no Rio de Janeiro. Ali tinha um amigo de “república” – o Zé Roberto – que estava a ler “A Metamorfose” e era, ao todo, só empolgação com a leitura. Quando ao terminá-la, flagrante a minha curiosidade, emprestou-me a obra que li de um só fôlego. Daquela leitura restou-me, desde logo, a certeza da genialidade de Franz Kafka. 

No segundo encontro com Kafka eu já tinha regressado a Porto Velho e foi-me proporcionado por uma amiga – a Eunice – que a encontrei, num dia de domingo, “perambulando” pelas ruas centrais de nossa cidade. Sentamo-nos num banco de praça qualquer e nos detivemos, numa prosa agradável, sem cerimônias, em que nos ocupamos de assuntos variados – bem demorada! Como a conversa estava a estender-se para além do meio-dia convidei-a a almoçar e buscamos o restaurante mais próximo: o ALMANARA. No almoço comemos “espeto de filé c/arroz e feijão” e “filé c/charutos”, que fizemos acompanhar de uma porção de “batatas fritas” e dois refrigerantes, o que me custou cento e vinte e cinco cruzeiros, a moeda da época. O dia desse encontro foi: 22 de Outubro de 1978.

Terminado o almoço pedi a conta das despesas que ao ser-me entregue pareceu causar certo desconforto a minha amiga, embora a minha pronta disposição de “arcar com o prejuízo”. Enquanto esperávamos pelo troco, ela abriu sua bolsa, tomou de um livro e mostrou-me, dizendo: “Olha o que eu acabo de ler!” O livro era “O Processo” que ela, em seguida, decidiu presentear-me. Fiquei a suspeitar que o presente fora – quem sabe? – em paga às tantas horas de conversa ou ao almoço que, convenhamos, estava uma delícia. A nota fiscal, que discriminava o consumo e seus respectivos valores, acompanhou o troco que me cabia e eu, que já iniciara a leitura do livro, fiz dela um “marcador de páginas”, para o fim de sinalizar onde eu interrompera a leitura e de onde deveria recomeçá-la. Por ocasião da re-leitura encontrei a velha nota que ainda estava ali entre páginas, numa demorada permanência prestes a completar trinta e sete anos. Daí os pormenores!

O escritor Carlos Heitor Cony declarou em entrevista, certa vez, que costuma praticar a releitura dos livros que gosta e, nessa prática, percebe que a experiência adquirida – aos anos que permeiam uma e outra leitura – dá-lhe uma visão mais contemplativa da obra. Assim, o conteúdo do livro já não lhe parece ser o mesmo. O prazer de sua leitura é outro. E suas conclusões vão mais além das chegadas na leitura anterior.

Essa foi, também, a sensação que tive em relação à obra de Kafka:          

Quando li “O Processo” à primeira vez – 1978 – o fiz com os olhos de leitor aprendiz, embora já conhecesse o prazer da leitura e contasse, a meu favor, a experiência adquirida nos anos – 1972 a 1975 – vividos na “cidade grande”. Lá, os veículos de comunicação, por serem múltiplos, deram-me uma visão panorâmica da situação política vigente. E foi assim, cônscio do estado de exceção em vigor, que acompanhei o recrudescimento do regime adotado a partir da “revolução redentora” e a supressão “gradativa” das garantias constitucionais que, pouco a pouco, eram suprimidas de nossa Carta Magna. Nesse ínterim, foram muitos os relatos que ouvi de prisões arbitrárias e de “opositores” que, ao serem “convidados” a prestar “esclarecimentos” aos órgãos da repressão, desapareciam. Assim, a história de Joseph K. – à maneira como se dá – primeiro, tendo seu domicílio invadido; depois, a surpresa da informação de que estava preso – e, quando ao indagar a seu algoz sobre as razões de sua prisão, ser informado: “Não me cabe explicar isso … ”; a sua condenação; e, o cumprimento da pena, me pareceram demasiado familiar. A obra de Kafka causou-me, já à primeira leitura, muita indignação!

A leitura de “O Processo”, em segunda vista, o fiz sob outro ângulo! Presente, ainda, a indignação dos tempos da primeira leitura, saltou-me aos olhos – lendo o infortúnio de Joseph K. – o quanto avançamos em relação aos direitos e garantias individuais, a par dos princípios insertos em nossa Carta Cidadã. A violação do domicílio e a falta da ordem de prisão passada por autoridade competente; a ausência de uma nota de culpa e a recusa injustificável de dizer-lhe da acusação que lhe pesava; além de um trâmite processual sem a observância do “due processo of law” – conduzido por um Poder Judiciário leniente –  nos termos denunciados na obra de Kafka, não prosperariam à luz das regras contidas no arcabouço jurídico vigente no direito pátrio. O romance de escritor tcheco está a nos mostrar, de modo insofismável, a face negra do arbítrio cometido por agentes de governos totalitários, como a condenação do personagem a exemplificar a prática de um casuísmo praticado com vistas a se alcançar um resultado pré-estabelecido. Foram-se os tempos em que prisões como a de Joseph K. eram freqüentes em nosso país!

Quando vejo, nas chamadas redes sociais, alguns ignóbeis pedindo a volta do estado de exceção, sob a esdrúxula alegação de que somente com o retorno ao um “regime ditatorial” poderá ser estancada a desmedida corrupção “nunca antes vista na história deste país”, faço uma indagação: “Será que esses ‘aloprados’ têm consciência do que estão pedindo?

MIKÉLITON, PROFISSÃO: PINTOR

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Como bom nordestino, egresso da Paraíba, Mikéliton é de corpo e alma um artista. Artista da forma, das cores, que com suas pinceladas rápidas retrata o mundo colorido que habita em sua mente e em seu gesto talentosos.

Ele tinha 18 anos como foi tomado pelo encantamento da arte de pintar. Logo foi premiado num concurso de sua escola. Seu quadro, “Pão nosso de cada dia”, tanto impressionou o secretário de Educação de sua terra natal, que ele mandou transformar 30 obras do jovem artista em catálogo com mil exemplares.

De 1999 a 2004, Mikéliton foi diretor de arte e criação de uma agência de publicidade. Isso lhe tomava muito de seu tempo. Pintava apenas nas poucas horas vagas. E pintar foi sempre seu querer dominante. Tudo que não fosse pintar parecia trabalho que não lhe cabia. Corajoso como convém a um cabra da peste, largou a segurança de um trabalho formal, com carteira assinada e tudo, e resolveu ganhar o mundo, viajar e viver de suas pinturas.

Mesmo com espírito aventureiro  e a poética dos  artistas, ele se lançou neste salto sem rede sabendo que poderia cair e se arrebentar no duro solo da realidade. Viver de arte no Brasil certamente que é objetivo alcançado por poucos. Em particular da arte pictórica, onde esse obstáculo por vezes se afigura como quase intransponível. Mas Mikéliton acreditava em si, em sua capacidade de assimilar os revezes que, tinha certeza, viriam. Mas nada foi suficiente para fazê-lo desistir de ser o que mais queria ser: um pintor de verdade.

Em mais uma decisão libertária, ele passou a olhar para sua terra natal pelo retrovisor. A medida que dela se afastava, vislumbrava novas possibilidades. Em 2004 foi para Fortaleza (CE); logo depois, em 2005, para São Luiz (MA). Sempre pintando e pintando para sobreviver. Até que deu um salto maior, largou seu Nordeste e veio para o Norte. Em 2006 já fazia sua primeira exposição em Boa Vista (RR). Sucesso. Mas não parou. Mikéliton, esse cavaleiro andante da arte de pintar, tal como um Dom Quixote, municiado de pinceis, tintas e paleta transformava a realidade que via e sentia na suprarrealidade reproduzida em suas obras.

Indo e indo sem parar, o cavaleiro das belas obras encantava a todos que as contemplavam. Até que chegou pela primeira vez a Porto Velho, esse pedaço iluminado das terras de Rondon. Em 2007 promoveu a exposição “Cores de Porto Velho”. Mas foi em frente, então para Rio Branco (AC), onde expôs “Cores de Rio Branco”. De lá, em 2008, foi para Palmas(TO),  com “Cores de Palmas”. Em 2009 retornou a Porto Velho, quando foi convidado pela Santo Antônio Energia para produzir a coleção “Rio Madeira, O Gigante da Floresta, composta por 35 obras  que mostram a realidade do povo ribeirinho, vivenciada pelo artista durante dois anos.  Em 2010, sua exposição no Museu Nacional de Brasília durou 20 dias. Mais um sucesso.

Mikeliton, que não para de viajar e pintar, só foi contido temporariamente em 2012 para ensinar sua arte aos povos da floresta, que habitam as margens do rio Madeira, também patrocinado pela Santo Antônio Energia. Isso resultou numa exposição no Porto Velho Shopping.

Em 2014, a pedido do Sesi Rondônia, produziu uma série de 20 quadros, intitulada “Jogos do Sesi”. Breve serão expostos.

Atualmente Mikéliton promove a exposição “Porto Velho, A Estrela do Madeira”, cuja a proposta é mostrar empresas e instituições de sucesso da cidade, homenageando-as pela contribuição que dão ao crescimento e desenvolvimento da capital de Rondônia.

Mikeliton, o pintor que não para de produzir, tem em mente muitos outros projetos, que pretende viabilizar mostrando sua arte mundo afora. É mesmo um cavaleiro nômade que não tem paragem certa, que vai e vai, desde que seja para trazer à lume a beleza que o mundo precisa ver no mundo. Seu pincel, que com toques fugazes na tela plasma as emoções plásticas que a emolduram, vê em cada horizonte a utopia de fazê-los todos auroras e crepúsculos vespertinos de inebriante encantamento.

Eis aí um pintor como deve ser.

UM POETA NO MADEIRA

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Um dia, em 1917, um barco grande, novo e bonito foi subindo o rio Madeira. Dentro dele havia um grupo de gente. No meio dessa gente havia um homem gentil, de fala mansa e olhar doce. Era o poeta maranhense Vespasiano Ramos.

Ele estava fazendo uma excursão pelo vale do Madeira. Queria conhecê-lo, pretendia ver de perto as belezas do vale para escrever um livro sobre ele.

Vespasiano Ramos estava deslumbrado com tanta beleza junta, quando, de repente, o barco rodeou uma ilha e entrou num remanso, exatamente no lugar onde estavam as palmeiras de açaí, que haviam nascido naquele lugar aberto, ensolarado! Ao fundo estava a floresta. À sua frente, as areias amareladas que cercavam as águas do Madeira que passavam.

O vento balançava as folhas das palmeiras pra lá e pra cá… Era como uma música suave que ninava como embalo de braço ou de rede… Dava até para dormir… Volta e meia os pássaros de várias cores e tamanhos passavam por ali. E continuavam ou paravam… Parecia que as palmeiras ficavam cheias de flores que voavam…

Às vezes a chuva lavava todas as palmeiras e os pingos caiam pelas “franjas” de suas folhas fazendo um barulhinho ritmado: tic… tic… tic…

Quando o sol se refletia nestas folhas lavadas, elas pareciam esmeraldas… As palmeiras em três tempos.

O poeta ao vê-las, se apaixonou por elas e comentou com os outros passageiros que esses vegetais tinham perfeição, suavidade, encanto!

Algumas pessoas apanharam um monte de coquinhos da palmeira e fizeram vinho roxo de açaí, e o poeta tomou com farinha d’água e gostou demais! O vinho do açaí contém muito ferro e é muito nutritivo.

Ele quis ficar naquele lugar lindo o resto do dia… toda a noite… e a próxima manhã… E assim aconteceu.

O poeta do Maranhão teve a satisfação de contemplar três espetáculos de rara e estonteante beleza: um pôr do sol; uma noite de lua cheia e um amanhecer, no vale madeirense.

Vespasiano Ramos observou que com o pôr do sol, a floresta se tornou uma massa escura… O sol, com seus raios amarelos, alaranjados e vermelhos, tingia a copa das árvores e se refletia nas areias e águas do rio.

O desenho foi se formando e o inesperado aconteceu! Mas… aconteceu… o que?

Aconteceu o seguinte:

O sol projetava a sombra da palmeira do açaí nas águas do rio… e, bem destacado, o seu desenho aparecia em detalhes na parte clara do céu que ficava atrás dela… com o seu tronco e amontoados de folhas se abrindo lá do alto… Então, no mesmo tempo, ela estava ali, na terra, na água e no céu!

O poeta não perdeu tempo e fotografou o quadro que o Criador pintara e que seria um dos temas para o seu livro.

À noite, a lua cheia apareceu no céu estrelado… derramava um banho de prata sobre a floresta, o rio e as palmeiras! Uma brisa suave tocava gentilmente suas folhas prateadas…

No céu, estavam a lua cheia e milhões de estrelas… O rio espelhava em suas águas o céu e as palmeiras… Elas estavam ali, no centro de tamanha maravilha! O poeta, emocionado, sentou-se e registrou este cenário com sua arte, usando seus olhos, sua sensibilidade, sua mão, papel e caneta.

Era o segundo quadro que o Criador pintara!

Pela manhã, houve o amanhecer! O sol vagarosamente surgindo atrás da floresta… tingindo o céu de cores deslumbrantes… tornando mais claras as águas barrentas do rio… fazendo as palmeiras visíveis em toda a sua primitiva beleza!

Elas estavam ali como rainhas! O poeta de tão encantado, nem falou… só fotografou mais este quadro que o Criador criara!

Se o poeta Vespasiano Ramos, autor do livro “Coisa Alguma”, não tivesse falecido dias depois, ao chegar a Porto Velho, teríamos certamente um livro muito bom sobre o vale do Madeira, com destaque especial para a palmeira alta, esguia e linda, cujo tronco redondo, fino e reto subia em direção ao céu e folhas verdes, cheias de “franjas” se espalhando lá no alto, como um espanador e flores como buquês firmes ao redor do seu tronco. Seus frutos, em pencas, ocupavam o lugar das flores, quando elas murchavam e caiam.

A palmeira açaí é, sem dúvida alguma, uma das mais bonitas da floresta amazônica.

 

 

* Yêdda Pinheiro Borzacov, professora, autora de oito livros e dezesseis coautorias. Membro da Academia de Letras de Rondônia e do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia.