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RECORDAÇÕES DO VELHO HOSPITAL SÃO JOSÉ

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O Hospital São José, localizado na rua Irmã Capelli, no centro de Porto Velho, foi o nosocômio referência de nossa população  desde sua inauguração, no dia 7 de setembro de 1929, então de propriedade da Prelazia de Porto Velho, sob o comando de Monsenhor Pedro Massa. Em sua segunda fase, a partir de 1943, o hospital foi adquirido pelo governo do  Território do Guaporé e teve como seu primeiro diretor o Dr. Ary Tupinambá Penna Pinheiro.

Quando ainda pertencia à congregação salesiana, o hospital era administrado pelas freiras, que o mantinham impecavelmente limpo e bem arrumado. Depois que passou para o governo, o aspecto organizacional daquela unidade de saúde perdeu qualidade.

No velho hospital do passado de nossa cidade havia uma figura curiosa – atemorizante para as crianças: serviçal de nome Gilberto, que era porteiro daquela unidade de saúde. Era conhecido como Morcego, apelido que recebeu face sua semelhança com o mamífero hematófago voador. Negro, de baixa estatura,  era dado a “voar” irritado atrás de crianças  que tentavam entrar naquele nosocômio. Morcego  as detestava por galhofarem dele. Elas, por sua vez, tinham-lhe medo . Porém, mesmo assim, não perdiam oportunidade de chamá-lo  pelo epíteto, quando tinham oportunidade. Transtornado com isso, ele sempre retrucava com muitos palavrões.  A propósito, a despeito de não ter sido bem aquinhoado fisicamente, era um incorrigível admirador das beldades de então, em particular de suas belas pernas, que acintosamente fitava. Certa ocasião, uma delas, incomodada pelo olhar voluptuoso de Morcego para sua torneada anatomia, desferiu-lhe um certeiro tapa no rosto.

A rotina médica do hospital começa ao amanhecer. Por volta das 7h os doutores começavam a chegar.  A maioria tomava o café da manhã  lá mesmo. Uma mesa farta, com alva toalha, era o ponto de encontro para uma conversa descontraída no início do expediente dos médicos de então: Hamilton Raulino Gondim, Ary Tupinambá Penna  Pinheiro, Jacob Freitas Atallah, Rachid Jaudy, Carlos Alberto Brasil Fernandes, Rafael Vaz, Noel Bispo de Souza, entre outros mais ocasionais. Após o animado papo, todos se dirigiam a seus setores.

O Hospital São José  funcionou até 12 janeiro de 1983, quando foi inaugurado o  Hospital de Base Ary Pinheiro, construído no governo de Jorge Teixeira. O velho e cansado de guerra Hospital São José e a Maternidade Darcy Vargas davam lugar àquela imponente estrutura de 400 leitos e avançada tecnologia. Nascia assim um novo tempo para a medicina de Rondônia.   


ESCOLA CAIARI : A, S, D, F, G …

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Quem trafegava pela rua Major Guapindáia, no Caiari, nos anos 1960, encontrava –   uma casa antes de chegar à Av. Carlos Gomes – a Escola Caiari, dos datilógrafos-correspondentes (assim se intitulavam) Thales de Paula Souza e  Felicidade Alves de Souza. Anos depois, essa escola de datilografia mudou-se para próximo ao Grupo Escolar Barão de Solimões, na Carlos Gomes.

Se falarmos em maquina de datilografia para um adolescente de hoje, é possível  ele não saiba de que se trata. Por isso não sabem  que, há alguma anos, fazer um curso de datilografia era imperioso para qualquer jovem. Muitos começavam ainda quando crianças. Ao concluírem o curso, recebiam um diploma – alguns o colocavam numa moldura e o perduravam na parede, face a importância que lhe davam. Era uma credencial para que alguém tivesse a mínima chance de se dar bem na vida. Tratava-se de um verdadeiro diferencial na formação pessoal, que hoje chamaríamos de diferencial competitivo. Qualquer um que pleiteasse trabalho burocrático deveria, obrigatoriamente, ser datilógrafo.   Quem tivesse maior agilidade no exercício de sua função certamente teria muito mais chances de conseguir  emprego.

Lembro-me, como se fosse hoje, das tardes que frequentei a escola citada. Para evitar que os alunos olhassem para o teclado da máquina, sobre ele era colocado um dispositivo de madeira, como se fosse um banquinho. E tome a, s, d, f, g, c, l, k, h, j, a, s, d, f…   e assim por diante. Repetia-se esse dedilhar à exaustão. Quando os professores Thales e  Felicidade flagravam um espertinho tentando olhar para o telhado, admoestavam-no: um  datilógrafo de verdade não deve cometer essa falha.
Atualmente, frequentar um curso nesses moldes é quase impensável para jovens que, desde crianças, têm  habilidade digital que humilha a maioria dos adultos.

Em nossas saudosas recordações  de um tempo em que Porto Velho era como uma grande família, ainda é possível sentir, quando passamos pela calçada da velho endereço da saudosa escola, o ruído do teclado das máquinas de escrever (que à época não eram elétricas), onde aprendemos nossa primeira aptidão laboral e onde nasceram boas amizades e amores de nossa infância e juventude.

NASCIMENTO DE RONDÔNIA

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Esron Menezes, escritor, historiador, jornalista, membro da Academia de Letras de Rondônia (falecido)

O Estado de Rondônia pode se dizer nasceu com a consecução de dois fatores: o estendimento da linha do telégrafo aéreo, pelo ínclito Marechal Cândido Rondon, em 1906, e a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré pela empreiteira americana May, Jekill and Randolph, em 1907.

Como as terras que constituem o Estado são fruto do desmembramento de áreas dos Estados do Amazonas e de Mato Grosso, unindo os dois municípios mais antigos, sofreram união xifópaga de Santo Antônio do Rio Madeira, que teve sua origem nas missões jesuíticas do século XVII, e Porto Velho, com o tratado de Petrópolis, celebrado em 1903, entre o Brasil, representado pelo Barão do Rio Branco, e a Bolívia, representada pelo Ministro Fernando E Guachala.

A II Grande Guerra, com a necessidade do produto elástico para suprir o armamento motorizado que ocasionou o encontro dos Presidentes Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Vargas, em Natal, fez com que Getúlio, por curiosidade, viesse a Porto Velho, em outubro de 1940, para observar “de vista” o desenrolar da Batalha da Borracha na Região Norte, onde essa batalha se desenvolvia com mais intensidade e onde também estavam acantonados os maiores contingentes de nordestinos, os destemidos soldados da. borracha em operação.

Dessa observação do Presidente do Brasil, nasceu a criação do Território Federal do Guaporé, que absorveu a maior parte dos seringueiros ao fim da Guerra. Outros Territórios foram criados: Rio Branco, hoje Roraima, no Amazonas; Amapá, no Pará; Ponta Porã, no Mato Grosso, e Iguaçu, no Paraná e Santa Catarina (os Territórios Federais, Marisejo de Alencar Benevides).

Verificando-se a pouca expressão que representava o nome Guaporé, rio que nasce na Serra dos Parecis e na sua caminhada forma o Mamoré e o Madeira, o Congresso, para dar um cunho mais realístico, e aproveitando a denominação da magistral obra de Roquette Pinto, com a Lei nº 2.731, de 17 de fevereiro de 1936, o Presidente Juscelino Kubistcheck, mudou o nome de Guaporé para Rondônia.

Quando foi criado o Território do Guaporé, a sua população não ia além de 26.000 habitantes, constituída de nordestinos (seringueiros e proprietários de seringais, paraenses e nativos).

A economia da Região estava assentada na borracha, principalmente, e em outros produtos elásticos; castanha (brasilian outs); ervas medicinais e peles silvestres.

Descoberta a incidência de veios diamantíferos no rio Machado, afluente da margem direita do Rio Madeira, causou um panorama diferente na economia e transtorno na sociedade com a repentina mudança nos costumes da população aumentada, era mais de 400%, em um ano.

Depois foi descoberto um veio de cassiterita na mesma região percorrida pelo rio Machado, entre os paralelos 8 e 10, que, como o diamante, com outro tipo de pessoas e de trabalho, deu nova revolução na vida do Território de Rondônia, já com a sua população aumentada para pouco acima de 800.000 habitantes diversificada entre brasileiros de todos os quadrantes, muitos latino-americanos, raros africanos e asiáticos, que deu um novo matiz à economia, nos costumes e até nos lazeres.

Todas essas mudanças fizeram expandir os centros povoados em 52 municípios e conseqüentemente foi criado o Estado de Rondônia, com a Lei Complementar 41/81, já com uma população de mais de 1.500.000, e uma mudança radical nos costumes. Essa população tão heterogênica ocasionada pela condição anterior de provincianismo transformou-se com todas as suas mazelas e benesses os citadinos, com uma economia em grande parte dependente de afago federal, uma população dependente de identidade própria, um transito infernal, segurança pública desarrumada, como também a saúde e educação.

RUY CINATTI – CENTENÁRIO DO NASCIMENTO

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Galeria de Arte

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Meandros Inconscientes (Viriato Moura)
Meandros Inconscientes (Viriato Moura)

 

E agora o que qu’eu faço doutô?

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  Ele era mau e batia nela. Tinha dado graças a Deus o dia que se enrabichou por uma piriguete e foi embora morar com ela na cidade. Não tinha filhos. Vivia sozinha naquele sítio distante, cuidando da roça. Trabalhava de sol a sol, tinha as mãos calejadas. Mas, com o passar do tempo, a solidão doendo, começou a sentir falta do companheiro, do aconchego, e dos carinhos da cama que não tinha mais. As insônias eram frequentes, ficava rolando na cama com o travesseiro entre as coxas. Via o dia clarear. Ainda era jovem, apesar de maltratada. Os dias se passaram, meses e anos. Já estava até conformada, aceitando a solidão. Afinal, pensava, estava bem melhor assim, pois não tinha que aturar os desaforos e as surras que deixavam seu corpo cheio de dor e hematomas. Nesse dia, tinha chegado da roça e se preparava para o jantar quando, ao olhar pela janela, viu entrando na porteira do seu sítio, montado a cavalo, aquela fi gura que muito conhecia. Sim, não tinha dúvida, era ele, o Valadão. Aproximou-se, desceu da montaria e amarrou a corda do cabresto na arvore mais próxima. Estava sujo, com a barba por fazer a dias, e usava um chapéu amarrotado, de abas grandes. Entrou e foi logo pedindo desculpas, estava arrependido. Aquela vagabunda da piriguete não era a mulher que ele pensava. Maria ficou assustada e desconfiada com aquela mudança e arrependimento. Disse a Maria que agora ele seria outra pessoa. Iria ajudá-la na roça e até nos serviços da casa. E afinal, carente e cheia de tanta solidão, acabou aceitando de volta o Valadão. No início até que cumpriu sua palavra, ajudando-a na roça. Mas, aos poucos, voltou a beber e passava os dias deitado na rede armada na varanda e bebendo cachaça. Maria já estava amargamente arrependida de ter aceito de volta aquele traste, principalmente porque tudo voltou a ser como antes. Voltou também a bater nela. Quando não queria ou não podia ir para cama com ele era mais um estupro e mais uma surra que levava. Às vezes ficava tão machucada que não conseguia levantar-se no dia seguinte para ir trabalhar na roça. Não sabia mais o que fazer!… Nesse dia estava bem machucada e cheia de hematomas, mas mesmo assim conseguiu levantar-se para trabalhar na roça, de sol a sol. Já era quase noite quando voltou para casa. Mal chegou e o Valadão foi logo gritando:

— Ô infeliz, vê se apressa logo esse jantar que estou morrendo de fome!         Ou quer levar outra surra? —Já vou preparar tudo, Valadão! Tenha um pouco de paciência, home! Ele estava visivelmente bêbado. E quando fi cava assim, tornava-se mais agressivo e violento. Calada e tremendo de medo, foi para a cozinha. Esquentou rapidamente uma sopa de carne com legumes que já estava pronta.

— Maria, filha d’uma égua! Cadê a porra dessa comida? Acho que tu tá querendo levar outra peia, né?

— Doutô Delegado, eu juro pro senhor que quando eu levei o prato de sopa ele tava sentado na cama e eu tremia mais que vara verde. Mandou que eu puxasse suas botas sujas de barro, o que eu fiz prontamente. A seguir dei seu prato de sopa bem quentinha. Ele tomou umas duas colheradas, cuspiu pro lado e atirou o prato na parede espatifando e derramando tudo! — Sua filha da puta! Isso é comida que tu sirva pro teu macho? Trata de trazer outra comida pra mim agora senão tu vai apanhar de cinturão, sua vagabunda!

— Calma, Valadão, eu vou trazer outra comida em outro prato. — Eu juro pro senhor, Seu Delegado, quando eu voltei com o outro prato, ele tava deitado na cama de peito pra cima, dormindo, roncando alto e espumando pelo canto da boca de tão bêbado! Aí então, peguei a minha trouxinha de roupa e piquei a mula, andei a noite inteirinha sem parar pra chegar até aqui. Tenho certeza que se ele acordasse, dessa vez ia me matar. E agora, o que qu’eu faço doutô?

A VINGANÇA DO PADRE

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Sua igreja era pequenina, mas muito bem organizada. As beatas cuidavam para que tudo estivesse sempre impecavelmente limpo. O altar, as hóstias, o vinho do padre, a taça  e o lenço de linho branco puro  e engomado. Nada a perturbar a sua cabeça, a não ser aquele sacristão que sua paróquia herdara de outros tempos que não eram seus. Chamava-se Astrobelo, mas os devotos o conheciam como Beleza. Com a rotina das missas e outros eventos religiosos, o Padre Salviano não tinha muito tempo para as coisas domésticas da igreja. Mas certo dia chegou no frigobar do altar e encontrou sua garrafa de vinho quase vazia. Chamou o Beleza e o questionou pelo seu vinho que estava quase no final.

–Não sei de nada não Seu Padre. Minha função aqui é tocar o sino e ajudar o senhor na missa.

O tempo foi  passando e cada vez mais o Padre Salviano estava desconfiado daquele sacristão. Nas festas da igreja, muitas beatas traziam vinho como presente para ele. Guardava tudo no armário que ficava em sua residência, num compartimento anexo a igreja. Ganhava também doces e chocolates. Tudo ia sumindo aos poucos sem que ele tivesse consumido. Chamou novamente o sacristão:

–Não sei de nada não Seu padre. Acho que o senhor deveria se preocupar com os ratos que sempre vejo se escondendo por baixo daquele armário.

Mas o Padre Salviano ficava cada vez mais desconfiado. Até que um dia, ao ir buscar seu vinho para a missa de domingo, a garrafa do vinho que abrira naquela semana, estava quase vazia. Ficou a pensar como poderia desmascarar aquele sacristão. Pensou primeiro leva-lo ao confessionário e dar o cheque-mate.  Mas isso não seria aceitável de sua parte. Também não seria religiosamente correto, além de que a mentira poderia ser a defesa daquele larápio. Pensou, pensou até que chegou a uma conclusão. Ouvira falar de uma medicação chamada GUTALAX.
Era um poderoso laxante  usado para limpeza intestinal. Seu efeito era bem rápido e não tinha efeitos colaterais. Podia comprar nas farmácias sem receita médica. Foi o que fez: comprou 3 unidades em gotas. Pegou e abriu uma garrafa de vinho, despejando ali todo  o conteúdo dos 3 vidros do GUTALAX. Deixou no mesmo lugar de sempre. Como já era sábado a noite, tudo iria acontecer na missa das oito no domingo..
Não deu outra: a missa começou e lá estava o sacristão esperando o momento de ajudar o padre a distribuir as hóstias, de boca-em-boca. O Padre Salviano começou a ficar decepcionado com sua estratégia, ou então ele não bebera o vinho. Fez o sermão, ouviu os louvores dos cânticos, benzeu as hóstias e foi até aos fiéis que estavam postados ajoelhados, de olhos fechados e com bocas abertas. O Padre Salviano ainda conseguiu entregar a primeira hóstia com a ajuda do sacristão, mas quando olhou para o lado, viu o sacristão parado, pálido e com as pernas cruzadas,sem conseguir andar.

— Vamos lá Beleza! Os fiéis estão esperando.

Mas não deu tempo pra mais nada! O Beleza deixou cair no chão  a vasilha dourada das hóstias, virou-se para o altar e saiu em desabalada carreira, deixando um rastro de fezes líquidas que saía escorrendo pelas pernas de suas calças. O Padre Salviano ficou perplexo e suspendeu a sessão das hóstias. Ligou urgente para o SAMU que não demorou a chegar.

— O que aconteceu Padre?

O sacristão passou mal. Acho que deve ter comido ou bebido alguma coisa estragada!

— Vamos urgente leva-lo para UPA.
— Concordo —Disse o Padre Salviano. Mas se possível, dá primeiro  um banho frio  nesse vagabundo.

Os paramédicos se entreolharam mas não entenderam porque o Padre Salviano estava com tanta raiva daquele pobre sacristão.

ACADÊMICO PAULO SALDANHA LANÇA NOVO LIVRO EM NOITE DE AUTÓGRAFOS

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Na última segunda-feira, 15/12/25, o auditório da Biblioteca Francisco Meireles foi palco do lançamento do mais novo livro do Acadêmico Paulo Saldanha, reunindo expressivos nomes da sociedade literária e intelectual. A noite de autógrafos celebrou a obra Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus, recebida com entusiasmo pelo público presente.

No romance, o autor estabelece um instigante contraponto à expressão “A Ferrovia do Diabo”, considerada por ele uma denominação injusta diante das realizações progressistas e dos benefícios proporcionados pela Estrada de Ferro Madeira-Mamoré às comunidades ao longo de nossa fronteira e também ao país vizinho, a Bolívia. Com sensibilidade histórica e narrativa envolvente, a obra revisita esse legado sob uma nova perspectiva.

Trata-se de mais uma preciosidade literária de nosso confrade e membro ativo desta Academia, cuja leitura certamente merece destaque.

A seguir, alguns registros fotográficos da noite que marcou esse importante lançamento:

LITERATURA: UM ESPELHO DA COMPLEXIDADE HUMANA

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“…nosapegamos aos últimos prazeres, como a árvore se apega às últimas folhas”.

Gosto de escrever. Expressar sentimentos, desejos,frustrações, alegria, amor, enfim, coisas que fazem parte da subjetividade evêm à tona com certa facilidade, pelo menos para esta que ora vos fala.

Algumas vezes penso que esgotei meu acervo nesse sentido.Mero engano: E a memória que está recalcada na escuridão do inconsciente?Dezenas de experiências traumáticas, talvez, desde a infância, façam parte deminha persona, sem que eu me dê conta.

O ato de mergulhar em uma obra literáriapode causar um elo, uma conexão, entre o consciente e o inconsciente? Quem sabea cada análise de personagem, escapesorrateiramente uma ou duas referências (que eu não conhecia) de minha própria história?

Deleitar com leituras deliciosas uma alma cansada detormentas; esta é a forma que encontrode fazer uma espécie de literatura comparada e pensar nos grandesautores de todo o mundo e de diferentes séculos.

Vejo-os agora, de mãos dadas em uma roda infinita, que giraem torno do planeta, uma rede humana de conexão –connection of writes from allplaces and all eras. Nada de teorias, tudo por puro prazer, deleite de umaleitora apaixonada.

Hoje, trago-lhes referências de um célebre conto daescritora neozelandesa Katherine Mansfield, que viveu entre os anos de 1888 e1923. Como um clássico, sua obra permanece atual, pois a autora, através desituações do cotidiano, propicia ao leitor deliciosas e dramáticas descobertasque desvelam os mais ocultos dos sentimentos humanos. Brevíssimo mergulho noconto em questão:

  

TÍTULO:A MOSCA

CENÁRIO: Londres do sec. XIX, Centro Histórico PERSONAGENS:


Sr.Woodifield: Velho senhor, cuja maior alegria é visitar o ex-chefe na empresa emque trabalhara a vida inteira. Aposentado, depois de sofrer um AVC, vive aoscuidados da esposa e das duas filhas. Sai esporadicamente; banho tomado,cabelos penteados, roupas limpas, além de devidamente perfumado com a colôniadas filhas; tudo isso supervisionado, apenas para visitar a empresa, mais propriamente o gabinete do Chefe, um ambiente que encanta o velho senhor, pelo luxo queostenta. Admira o modo como vive o Chefe, homem rico, que o recebe com certa cortesia.

O CHEFE: Homem forte, apesar daidade avançada, cuida de sua empresa com punho de ferro. Tolera as visitas deWoodifield, porque, de certa maneira, se diverte com o deslumbramentoindisfarçável do ex-funcionário (já caquético), diante do ambiente luxuoso deseu gabinete recém reformado: poltronas de couro, assentos forrados em ricoveludo, cortinas de seda, luminárias italianas e obras de arte nas paredes. Nofundo, o Chefe alimenta o próprioego, diante da fragilidade física e mental, das inconveniências de Woodifield.

O FILHO MORTO DO CHEFE: Estepersonagem será trazido à conversa entre os dois homens,por Woodfield, claro,e provocará todo o dramada história. Filho único, jovem amável,querido por todos,aluno brilhante, preparava-se para, no futuro, assumir aempresa do pai, que fora criada especialmente para ele. O filho do chefe tevemorte súbita há seis anos.

Antes de término da visita, Woodifield comenta alegrementea ida de uma de suas filhas ao cemitério, descrevendo o quão bem cuidado estavao túmulo do filho do Chefe. Tal comentário caiu como um raio e provocou aabertura de uma cratera sob os pés daquele pai; o silêncio sobre o assunto eraimperativo para sua própria sobrevivência. Dilacerado pela dor reacendida pelas palavras de Woodifield, o Chefe tratoude encerrar a visita.

Trancado em seu gabinete, sentado em sua mesa de trabalho,o homem de ferro tenta chorar como no passado, buscando certo alívio após fortecrise de choro; desta vez, sequer lhe cai uma lágrima. Tudo perde o sentido.Resta-lhe apenas o coração dilacerado. Quanta dor!

Naquele momento, o Chefe observa que uma mosca caíra dentrodo tinteiro grande que havia sobre a mesa e, desesperada, tentava sobreviver,nadando para fora do tinteiro. Em vão.


O homem, então, com uma caneta, retirou a mosca do tinteiroe a jogou sobre uma folha de papel mata-borrão. Isto fez com que o insetotentasse se recompor, chacoalhando seu minúsculo corpo várias vezes pararetirar o excesso de tinta sobre as asas caídas. Depois de um esforço hercúleo,quando a Mosca se preparava para voar, o homem novamente esvaziou a canetasobre ela, trazendo de volta aquela realidade desesperadora e angustiante.Perplexo, o leitor acompanha uma verdadeira sucessão de horrores, até a morte da mosca.

     Impactada, trago-lhes algumas questões sobre o comportamento cruel do CHEFE:

     *Por quetamanha perversidade para com um inseto?

     * Estaria o chefe projetando na Mosca opróprio Woodfield, que reacendeu em sua alma o sofrimento pela morte dofilho?  

    * A sucessão de torturas sofridas pelaMosca seria uma metáfora criada pela autora, para demonstrar a forma como aangústia martiriza continuamente o ser humano após a perda de um filho? 

NOTA: Após essas ou outrasreflexões sobre os acontecimentos que antecedem o final do conto, tenho adizer-lhes que este deve ter sido surpreendente para os leitores da época. Masnão para mim, leitora do séc. XXI, tempo em que essas dores terríveis convergempara um final já conhecido. 

             Belíssima escrita, enredomaravilhosamente intrigante, estilo único. Este foi mais um conto de KatherineMansfield, a escritora que expõe as dores humanas, através de situações docotidiano. 

 

 

FIM

 

 

Bibliografia:Mansfield, Katherine, 1889-1923 Felicidade e outros contos- Rio de Janeiro:Revan, 1991


 


 

ACLER – 39 ANOS

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O acadêmico Samuel Castiel Jr. foi o responsável pelo discurso do evento.

Na década de 80, Rondonia passou por fortes transformações no setor cultural. E, nesse contexto, nascia a Academia de Letras de Rondônia- Acler, exatamente no dia 10 de junho de 1.986.

Dos eventos culturais que eclodiram daquela época,  podemos citar a criação da Universidade Federal de Rondonia – Unir e a criação do Conselho Estadual de Cultura, criação do Museu Ferroviário.
Surge então a Academia de Letras de Rondônia-Acler graças ao idealismo e ao sonho de uma plêiade de historiadores, poetas, escritores ou ensaísta que se reuniam nas casas de um ou de outros, na Biblioteca Emanuel Pontes Pinto ou mesmo até em banco de praça Aluísio Ferreira.

Foi assim que há 39 anos nasceu triunfalmente esta Academia. E, nesse período,  vem cumprindo seu papel no âmbito cultural, reunindo intelectuais das mais variadas modalidades e artes.

Claro que numa noite comemorativa como esta, jamais poderíamos deixar de mencionar o nome dos fundadores desta Academia, já libertos pela Lei da Morte, para repetir Camões:

– Raymundo Nonato Castro
– Vitor Hugo
– José Calixto Medeiros
-Ary Tupinambá Penna Pinheiro
– Esron Penha de Menezes
– Paulo Saldanha Sobrinho
– Bolívia Marcelino
– Paulo Nunes Leal
– Amizael Gomes da Silva
– Luiz Antônio de Araújo
– Edson Jorge Badra
– Emmanuel Pontes Pinto
– Helio Fonseca
– Almino Álvares Afonso

Além desses ilustres confrades fundadores, não podemos deixar de nos orgulhar e lembrar de nomes como os Acadêmicos
Abnael Machado de Lima
Yeda Pinheiro Borzakov ( Honoris Causa da Unir )
Gesson Álvares Magalhães
Claudio Feitosa
Sandra Castiel Fernandes
Jogo Evangelista
Hanz Holand Jakobi
Gerido Alves da Silva Filho
Matias Mendes
João Correia
Jose Monteiro
Viriato Moura ( Honoris Causa pela Universidade do Rio de Janeiro )
Dante Ribeiro da Fonseca
Lucio Albuquerque
Marco Antônio Domingues Teixeira
José Valdir Pereira
Eunice Bueno
Antonio Serafim da Silva
Raimundo Neves de Almeida
Zelite Andrade Carneiro
Dimas Ribeiro da Fonseca
Pedro Albino de Aguiar
Adaides Batista
Aparício Carvalho
Arlete Gorayeb
Jose Detoni
Antônio Cândido
Joao Teixeira de Souza
Homero Scheidt
João Teixeira de Souza
Átila Ybañes França
Francisco Chagas da Silva (Chagoso) atual Presidente
Samuel Castiel Jr. – que vos fala
Célio Leabdro
Moises Selva Santiago
Evaldo Swaubach
José Marini
Carminda Nogueira
Euro Tourinho
Ciro Pinheiro
Cesar Romero Albuquerque
Prof. Antônio zjise de Araujo – USA
José Carlos Sá – SC
Juçara Valverde RJ
Ana Maria Tourinho- RJ
Angela Guerra – RJ

 
    Com as escusas pelo lapso do nome de algum ilustre confrade ou confreira, que me tenha escapado sorrateiramente da memória.
     Finalizamos parabenizando a todos os presentes nesta noite comemorativa, dizendo que apesar de “Imotais” nós todos somos efêmeros e seremos libertos pela Lei da Morte. O que ficam são nossas obras e nossas Academias.
Um abraço Acadêmico a todos!

Obrigado!