
CELEBRAÇÃO DA IMORTALIDADE: CENÁCULO FLUMINENSE DE HISTÓRIA E LETRAS COROA NOVOS MEMBROS E HONRA A JUVENTUDE LITERÁRIA
GRANDES CARNAVAIS EM PORTO VELHO

O cheiro da lança perfume exalava e podíamos sentir aquele aroma a distância dos clubes. O som das bandas musicais com os sopros dos metais também se podia ouvir ao longe. Confetes e serpentinas completavam aqueles ambientes carnavalescos. As fantasias realçavam o glamour dos bailes de carnaval. Tudo era mágico naquelas noites! Após assistir aos desfiles de rua dos blocos e escolas de samba, a pedida era ir aos bailes tradicionais nos Clubes: Bancrevea Clube, Danúbio Azul Bailante Clube, Ypiranga Esporte Clube, Ferroviário Esporte Clube, Flamengo Esporte Clube, Internacional Esporte Clube e Imperial Esporte Clube que ficava ba Rua Jose de Alencar com a Almirante Barroso. O chamado ” Cai N’água ” era um clube que ficava as margens do Rio Madeira e, quase sempre, as confusões e brigas acabavam com os foliões dentro das águas barrentas do rio. Foi nesse local que funcionou muitos anos a sede de Danúbio Azul Bailante Clube, até que o Prefeito Raphael Jayme Castiel mandou construir e doou para o Danúbio Azul a sua nova sede, onde funcionou até seus últimos dias.
Na rua tínhamos o desfiles e competições individuais e de blocos. Entre os individuais concorriam na categoria originalidade Valdemar Cachorro, Priquito e Inácio Campos, grandes foliões de rua. Além desses tínhamos outros como o Fi Fi Canduri e o Moraes do Correio que desde dezembro saía pelas ruas soprando um clarin que abria o Carnaval, tocando sempre o refrão:” O tocador Quer Beber…
O Valdemar Cachorro ( Valdemar Holanda Pinto ) vinha sempre com uma cobra enrolada no pescoço; O Inacio Campos concorria com o Sputinik; o Bloco Infantil era O Triângulo não Morreu comandado pelo Periquito ( Antônio Bispo de Holanda )
O Chicão da Dona Dadá era um folião solitário.
Na década de 70, surgiram vários novos carnavalescos como Asfaltão, Império do Samba, Bloco da Chuva, Bloco do Sol, Seka Buteco, Bloco 812, Bloco da Meia Noite, Bloco do Purgatório, Unidos da Castanheira, Armário Grande e Unidos da Radio Farol.
Ainda num passado mais distante tnhamos também vários outros blocos como o Bloco da Cobra, Bloco das 7 Gêmeas formado pelo Neocide, Gervásio, Coraci Bezerra, Milton e Clemildo, Sabasinho Correia e Pedrinho do Bar do Canto. Outros Carnavalescos e brincantes que não podem ser esquecidos: Abiguar de Miranda e Dona Dedé pelo Ypiranga, Tario de Almeida Café, Norberto pai do colega médico Jason, Tuchaua e família, seu Arlinho e Filhas, Clemildo do Basa ( Presidente do Bancrevea e do Basa )
Reginaldo e Débora ( Souza Cruz ) Geraldo Siqueira ( Imperial Clube )
Dos Reis Momos não podemos esquecer do Emil Gorayeb, Mourão e Ferreirão. O Arauto do Rei era sempre o Ozires Lobo, que lia os Decretos assinados e estipulados pelo Rei.
As batalhas de confete aconteciam sempre na Praça Marechal Rondon, onde se reuniam os foliões que sobreviviam e vinham de vários Clubes, onde disputavam o Júlio César pelo Bancrevea e o Camarão pelo Ypiranga dançando frevo e aplaudidos por todos.
Os desfiles das escolas e blocos aconteciam na Av. Presidente Dutra e o Palanque ficava em frente a Associação Comercial.
Os Clube também formavam seus Blocos. Mas muitos deles se formavam aleatoriamente. Os Metralhas, por exemplo, era um bloco que surgira de forma aleatória. Sempre era acusado de se envolver em grandes confusões nos Clubes.
Lembro-me de uma cena silenciosa mas, de certa forma, constrangedora, que era no final de um baile profano de Carnaval, saindo exausto de uma noite carnavalesca do Ferroviário e, voltando pra casa a pé, deparei-me com um pelotão de recos do exército (5° BEC) com as camisetas enroladas nas mãos, comandados pelo cabo Áureo, que gritava em voz alta: 123 e os recos respondiam uníssonos e ainda mais alto ainda: 456!
E subiam correndo a ladeira do Palácio Getúlio Vargas voltando pela outra rua ( José de Alecar ) pra subir de novo… E o relógio marcava ainda apenas 5 e meia de uma 4a.feira de cinzas!… Mas era muito bom, nunca me sentia exausto e muito menos constrangido! Os recos eram atletas da corporação, eu era atleta do Carnaval.
PVH, 04/05/24
Samuel Castiel
Membro da Academia de Letras de Rondonia – Alcer.
Academia homenageia Viriato Moura
A Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes (ARL), através da sua revista Karipuna Kult, edição de nº 8, homenageia o médico, escritor e artista plástico Viriato Moura.
A ARL tem como presidente o advogado e professor Diego de Paiva Vasconcelos, e a publicação da revista conta com o apoio cultural do Ministério Público do Estado de Rondônia.
A Karipuna Kult (KK) é editada em papel couchê e impressa com alta qualidade. O seu editor-chefe é o professor William Harvely Martins, também membro da referida academia.
O citado número da KK dedicou 14 páginas às trajetórias médica, literária e científica do homenageado, que é membro de diversas entidades científicas e culturais, entre elas, da própria ARL, da Academia de Letras de Rondônia (Acler), da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames), da Academia Brasileira de Médicos Escritores (Abrames), e recebeu homenagens como as comendas Ary Pinheiro, do Conselho Regional de Medicina do Estado de Rondônia (Cremero), e Moacy Scliar – Medicina, Literatura e Artes, do Conselho Federal de Medicina (CFM). Viriato é também Doutor Honoris Causa, título que lhe fora outorgado, no ano passado, pela Faculdade Instituto Rio de Janeiro.
O conceituado médico, filho de família tradicional de Porto Velho, publicou 22 livros, participou de diversas coletâneas literárias e escreve para vários sites. No âmbito das artes plásticas, tem trabalhos publicados em jornais, revistas, livros e sites. A KK descreve com mais detalhes seu perfil e reproduz diversos textos e quadros da profícua produção do homenageado.
Todas as Mulheres do Mundo
Fico curiosa com o HD de memórias que são inacessíveis à minha consciência. Sei que guardo em mim lembranças das várias fases de minha existência: a menininha que anda com sua boneca, a pré-adolescente, a adolescente problemática, a jovem adulta, a mulher de meia – idade, a mulher mais velha, enfim, um conglomerado de “personagens”, de tudo o que fui até chegar ao que me tornei hoje.
—Você gosta de passear? —Perguntei à criança. Esta então respondeu, os olhinhos brilhando:—Gosto, sim, gosto de passear de carro. — É mesmo? — Mas só tem dois carros na cidade! – Falei. Como você passeia?
—Sabe aquela rural azul e branca? — é do amigo do papai, ele leva a gente pro sítio dele; o que mais gosto de ver lá no sítio são os patinhos no lago, a gente joga farelo de pão pra eles.
E continuou a criança: —Quando eu crescer, vou ter um lago bem grande, cheio de patinhos! Eles são tão bonitinhos… A mãe vai na frente, e os patinhos seguem ela.
Depois de um salto quântico no tempo, tento lembrar-me da adolescente que fora um dia; as lembranças parecem vagas: a mais forte é aos quinze anos de idade, a terrível timidez que me torturava.
Adentro no mais profundo de minha mente e sinto o quão aquele estado de espírito me incomodava. Ficara curiosa com relação à minha persona adolescente. Até que a vejo. Está bem à minha frente.
— A senhora me conhece? — pergunta a adolescente, mascando seu chiclete de bola. —Sim, desde que nasceu; sou amiga de sua mãe—prossigo. São sete irmãs, não é?
Olhando-a melhor, percebo um ar de tristeza em seu olhar. Então, pergunto:— Você tem namorado?
Familiarizada com o impacto da lembrança cruel, olhei-a de cima abaixo: o que vi foi seu rosto harmonioso, seu sorriso bonito, seus cabelos escuros, à altura dos ombros; reparei, sobretudo, em seus grandes olhos cor de mel. Sua figura longilínea, alta e magra, encantaria as pessoas de hoje; porém, o padrão de beleza da época era muito diferente: as mulheres consideradas belas em geral eram “cheinhas”.
A conversa se estendeu um pouco mais: a mocinha falou de seu amor pelos livros e de como sua mãe parecia feliz com esta preferência. Já lera Dom Quixote, Dom Casmurro, Vidas Secas, O Pequeno Príncipe, Senhora, Vinte Mil Léguas Submarinas, Odisseia e Ilīada, e estava finalizando Os Lusíadas. Contou
que, quando era menor, conseguiu decorar quase todos os poemas de Olavo Bilac.
.
Fiquei emocionada e gratificada em saber que aquela adolescente cheia de complexos já encontrara sentido para sua vida, um sentido que permanecerá até o fim de sua existência.
Nos dias subsequentes, as noites foram longas e insones; no fundo sabia por que. Era importante, àquela altura, pelo menos mais um encontro comigo mesma: o que a mulher jovem-adulta que fora em passado remoto teria a me dizer?
Penso nela e lembro-me vagamente que, naquela fase de minha vida, eu já “vencera” alguns complexos.
-— Os médicos alertam sobre os danos que o cigarro causa à saúde. — Falo à moça, preocupada.
Olhei-a com curiosidade e achei que se tornara uma bela mulher; cabelos muito longos e brilhantes, cílios enormes nos olhos delineados à la “gatinho” e um batom suave, cuja marca deixara na ponta do cigarro. Sua voz firme e agradável refletia sua personalidade forte. Lembrou-me minha mãe. Senti-me gratificada.
Já em minha cama, sorrio para ela meu melhor sorriso, mando–lhe um beijo, viro- me para o lado e procuro dormir. Estou exausta. Sinto que não preciso ouvir mais nada naquele momento; ela aprendeu a se defender e a perseguir seus objetivos. Contudo, creio que poderia ter interagido mais com “elas”.
Faltaram tantas! Uma pena. Enfim, vencida pelo cansaço e pelo sono, penso que carrego nas sombras do inconsciente todas as mulheres do mundo.
Sandra Castiel- professora, escritora, membro efetivo da Academia de Letras de Rondônia.
AFINAL, O QUE É O TEMPO?
Sandra Castiel
Quando eu era nova, otempo não era um tema que eu considerasse instigante. Para mim bastava pensarque a vida é o que é, ou seja, tudo se modifica ao longo das experiências dequem vive. Mas àquela altura eu estava no princípio da minha jornada, focada emplanos e objetivos, não havia vivido o bastante para reflexões filosóficas, o sentimentoque me movia diante das leis da vida era, em outras palavras, manter a inocênciados ignorantes (sem ter noção desta opção).
JUVENTUDE:
Em nossa casa, meu paivivia a repetir uma frase que me marcou pra sempre. Isto acontecia quando recebíamosa notícia da morte de um conhecido ou amigo, um parente ou pessoa próxima: “- É a Vida! …-É a Vida!”
Ao repetir esta frase,sua voz mudava, seu rosto se transfigurava em mágoa, em desolação, em raiva,talvez. Refugiava-se em sua rede, com seu maço de cigarros e com seuspensamentos. Não queria conversas. No dia seguinte, voltava aos seus livros debolso, à leitura das histórias de faroeste americano, mas evitava até sair doquarto. Não conseguia ir a velório, tampouco a sepultamento.
Depois de tantos anos, leioo comportamento de meu pai como o de um homem de meia idade que não aceitava aideia e a concretude da morte, da finitude de tudo o que é vivo; isto lhecausava um profundo sentimento de indignação e, sobretudo, de ressentimentocontra a Vida, contra suas regras, contra a impossibilidade de mudá-las. Ah sepudesse parar o tempo! … Afinal, sabia que as leis da vida são eternas eimutáveis, isto o incomodava profundamente.
Hoje minha leitura da mágoade meu pai diante da finitude tornou-se mais clara. Estar vivo, para ele,significava contemplar e interagir com a natureza, com a simplicidade dascidades minúsculas às margens dos caudalosos rios amazônicos, e com suas filhas,esses eram seu tesouro.
Costumava inventarhistórias sobre a floresta e contá-las com uma interpretação incrível, para asfilhas crianças. Os personagens das histórias pertenciam sempre a esseuniverso, inclusive ele próprio. Creio que encarava a morte como uma “sentença”de privação injusta do que lhe era mais caro, privação eterna imposta pelasleis do universo.
INFÂNCIA:
“Umachoupana à beira do rio Amazonas, chão de terra batida, teto de palha, no meio dafloresta. Um dia, meu pai e seu amigo, cansados de caminhar naquela mata,avistaram a choupana e chegaram até ela. Foram bem recebidos pelo dono dacasinha onde passariam a noite; este era um senhor de certa idade, que alimorava com sua filha, Jara, garotinha de 6 anos de idade, descrita como uma caboclinhade aparência frágil, magrinha e de cabelos longos. A história de Jara eratriste, sua mãe havia morrido por uma picada da terrível cobra pico-de-jaca.
Todosataram suas redes no único cômodo que havia. Meu pai só conseguiu cochilar demadrugada. Acordou quando ouviu o seguinte diálogo:
-Jara!
-Siô, meu pai!
-Sialevanta, minina!
-Jávô, meu pai!
-Vaiperpará um café pru meu cumpade Rafaé e pru amigo dele!
Napenumbra do barraco, à luz de uma antiga lamparina, a menina levantou da rede,pegou uma panela velha pendurada em um prego na parede e saiu, descalça, oslongos cabelos lisos desgrenhados, em direção ao rio. O dia ainda não havianascido completamente, quando Jara desceu o barranco, acocorou-se bem à beira, emergulhou a panela nas água do gigantesco Amazonas.
Eisque um jacaré enorme, nascido e criado naquelas águas barrentas, aproximou-sesilenciosamente… (ainda não havia comido nada àquele dia), abriu sua bocarracheia de dentes pontiagudos e, com um movimento que fez as águas tremerem,atacou a pequena Jara. Da choupana, todos ouviram o grito desesperado damenina.
– Meu pai! Me ajuda, meu pai!
Aosentir que a filha estava em perigo, o velho pai de Jara teve um passamento(como se falava à época nesta região) e foi amparado pelo amigo de meu pai. Naquelemomento, meu pai correu até o rio com sua espingarda, mirou bem e apertou comforça o gatilho.
Otiro certeiro ecoou na mata como uma explosão, espantando os pássaros, quevoaram em bandos pra longe: BUM!!!!!!!!
Aságuas do rio ficaram vermelha do sangue do jacaré, que ainda mantinha a meninapresa em sua enorme boca. Os cabelos negros de Jara boiavam sobre as águasiluminadas pelos primeiros raios de sol. Os três homens arrastaram o bicho pra fora d´aguae com cuidado retiraram a pobre menina. Ela não se mexia, não respirava. Jaraestava morta!”
Esta história, uma dasmuitas inventadas por meu pai para encantar a imaginação das filhas, vem-me à memóriacomo a mais linda lembrança de minha infância (apesar de Jara ter morrido nofinal; acho que a psicologia explica essa morte). É difícil ter que aceitar queaquele tempo está morto, é inútil revisitar lugares para tentar reencontrá-lo,voltando presencialmente aos cenários do passado; nada mais é igual, nem cenáriose nem personagens. O tempo leva tudo, como dizia Rubem Braga. Não volte aopassado buscando encontrá-lo, guarde consigo as memórias.
No fundo acredito que otempo seja linear, isto é apenas uma intuição, não sou filósofa. Gosto depensar sobre o tempo e imaginar como estará o mundo daqui a cinquenta anos.Algo me diz que já terão inventado uma máquinado tempo, espécie de nave que nos possibilite visitar de verdade o passado,já pensou?!
Uma pena eu não estarmais aqui daqui a cinquenta anos: o tempo já terá aberto sua bocarra cheia dedentes afiados e … É a Vida!
Professora, escritora, membro da Academia deLetras de Rondônia
EDITAL DE CONVOCAÇÃO PARA AS ELEIÇÕES DA ACLER 2024
EDITAL No 002/2024, DE 11 de novembro de 2024
Chamamento e orientação de inscrição de Chapas para a eleição da Diretoria — Biênio 2025/2026.
Artigos 12 e 13 do Estatuto
Portarias: 008/2024, de 07/11/2024
009/2024, de 07/11/2024
010/2024, de 08/11/2024
Da composição das Chapas:
● Presidente;
● Vice-Presidente;
● Secretário;
● Tesoureiro;
● Três Conselheiros Fiscais Titulares;
● Um Conselheiro Fiscal Suplente
Da representação e inscrição das Chapas
● Representará a chapa perante a Comissão Eleitoral o membro candidato ao cargo
de Presidente o qual deverá formalizar a devida inscrição na forma abaixo:
● Modo: Virtual por meio do preenchimento de Formulários virtual do Google Form
○ Link do Formulário: https://forms.gle/uaZRmLnjNJZgcXtp6
○ Pessoa autorizada: O Representante da Chapa (Presidente)
○ Confirmação de inscrição será consignada pela Comissão Eleitoral,
antecipadamente, por solicitação do representante da chapa, ou no dia
25/11/2023, de ofício.
● Período: de 0h do dia 13/11/2024 a 23h 59min 59s do dia 22/11/2024
● Público alvo: Membros Efetivos da ACLER:
○ Em pleno gozo de seus direitos acadêmicos
○ Que não sejam membros da Comissão Eleitoral
● A eleição da Diretoria da ACLER para o biênio 2024-2025 ocorrerá sob
convocação e orientação de Edital Específico a ser expedido após o período
O QUARTO DE MINHA MÃE
Sandra Castiel
Ela não era fumante, nunca foi, ese casou com meu pai, que fumava desde a meninice. Ela passava mal com o cheiroforte do cigarro impregnado nos lençóis e nas cortinas do quarto na casaantiga. Até que um dia ele resolveu semudar para outro quarto mais espaçoso onde podia fumar, alternar o sono entre acama e sua inseparável rede.
Lembro-me dele deitado em suarede, fumando, rodeado pelos livros de bolso que costumava ler, espalhadossobre o chão de taco encerado: histórias de faroeste, dos tiroteios entre oxerife e os bandidos que atacavam as diligências e assaltavam o banco das cidades.Assim era meu pai, amante das pequenas distrações da vida.
O Quarto Dela
O quarto dela não era grande, masera um espaço mágico, pelo menos para sua quinta filha: cor neutra nas cortinasde seda que cobriam a parede da janela, de onde se podia ver uma parte doquintal, ouvir o som de um pequeno olho d’agua, rodeado de samambaias no chão;tudo sob a sombra de uma mangueira, morada de dezenas de passarinhos.
A cama era delicada: brocados em veludo verde, e arabescosentalhados em madeira compunham a cabeceira; o colchão era forrado com tecidonobre e discreto pois a dona do quarto era avessa a babados.
Havia ainda no quarto uma pequenamesa de cabeceira com um abajur para garantir luz baixa durante o sono, e umacômoda com espelho onde ficavam as roupas.
Certa tarde ao entrar na casa epassar em frente àquele cômodo, vi uma mulher penteando-se diante do espelho dacômoda de minha mãe, de costas para mim; ela era morena e tinha os cabelosescuros e longos; falei com ela, achando que fosse minha irmã Mariza. Ela nãorespondeu e saiu pela outra porta do quarto, que se comunicava com o quarto domeu pai. Eu a segui, mas ela havia sumido. Só então percebi que não havianinguém em casa. Senti arrepios, seria uma aparição?
Aquele quarto guardava “tesouros”não materiais, inimagináveis, certamente trancados na escrivaninha do início doséculo XX, que minha mãe adorava. Pequenina, a escrivaninha era uma peça linda,rara e preciosa: antiguidade francesa, madeira maciça, com trabalho emmarchetaria e abertura sanfonada.
Sempre que eu estava triste eangustiada, dava um jeito de ir até o quarto de minha mãe, deitar-me em sua cama,ouvir o barulho da água corrente e o canto dos passarinhos. Saía dali renovada poraquela energia cheia de magia.
A propósito: apequena escrivaninha francesa continua intacta, em minha casa; guardo-a commuito carinho.
VIRIATO MOURA: DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES

DISCURSO DE POSSE
NA ACADEMIA BRASILEIRA
DE MÉDICOS ESCRITORES
VIRIATO MOURA
RIODE JANEIRO, 27 DE SETEMBRO DE2024
Ilustríssima Senhora Presidente da Academia Brasileira de
Médicos Escritores, Doutora Fátima Darcinete de Almeida Ribeiro, na pessoa
de quem saúdo as confreiras e os confrades aqui presentes.
Senhoras e senhores,
É com grande honra que tomo posse na Academia Brasileira de
Médicos Escritores (Abrames), formada por nomes maiúsculos da medicina e da
literatura brasileiras.
Ao ocupar a cadeira nº 14 deste sodalício, começo recordando
e reverenciando meus antecessores.
O patrono, Adão Manoel Pereira Nunes, nascido em
Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, em 21 de janeiro de 1909 e falecido em
13 de abril de 1985, foi médico-cirurgião, político, jornalista, romancista e
memorialista.
O fundador, Paulo Celso Uchôa Cavalcante,
pernambucano, nascido em 3 de fevereiro de 1909, graduou-se pela Faculdade de
Medicina da Universidade do Rio de Janeiro, em 1931. Foi chefe do Serviço de
Clínica Médica do Hospital Miguel Couto e o segundo presidente da Sociedade
Brasileira de Geriatria e Gerontologia, de 1965 a 1968. Traduziu diversas obras
médicas importantes e foi coautor do tratado Clínica Geriátrica (1975).
Fundou, em 26 de maio de 1989, a cadeira que passo a ocupar a partir de hoje.
O segundo ocupante, Hugo Miyahira, nasceu em 25 de
setembro de 1943, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Formou-se na Faculdade
de Medicina do Rio de Janeiro, em 1968. Especialista em ginecologia e
obstetrícia, fez mestrado e exerceu a docência até alcançar a função de professor
titular em sua especialidade. É membro efetivo de várias entidades médicas,
escreveu capítulos de livros de medicina, publicou diversos artigos científicos
e obras de literatura não médica, tendo recebido honrarias de grande
significância. Domiciliou-se em Porto Velho, onde resido, e exerceu a medicina
com reconhecida competência entre 1971 e 1976.
Os dados biográficos citados me foram gentilmente cedidos
pelo doutor Hélio Begliomini, memorialista de nomeada e membro desta Academia.
A literatura, arte da linguagem verbal, expressão do
intelecto por meio da palavra, desempenha papel fundamental na construção do
homem como sujeito e cidadão. Agrega apreciável e dignificante importância
àqueles que, como os membros desta Academia, além de contumazes leitores,
também são escritores — dedicados à prosa narrativa ou à poesia.
Tamanha é a relevância da literatura que, desde o Egito
Antigo, as bibliotecas eram chamadas de “casas de vida”. O faraó
Ramsés II, que reinou entre 1279 e 1213 a.C., mandou inscrever no frontispício
de sua biblioteca: “Remédios para a alma.” Johann Goethe, polímata e
estadista alemão, destacou que o declínio da literatura indica o declínio de
uma nação. Louis Aragon, poeta, romancista e ensaísta francês, reitera essa
assertiva ao escrever: “A literatura é um assunto sério para um país, pois
é, afinal de contas, o seu rosto.”
Ao mesclar conhecimentos e prática médica ao estudo e às
produções que demandam imaginação criativa — no meu caso, literatura e artes
plásticas —, é possível penetrar em recônditos da natureza humana, tão rica e
complexa que precisam ser mais bem esmiuçados pelo médico, para que ele obtenha
os melhores resultados de sua atuação profissional.
Feito esse introito, é premente que eu cumpra meu dever de
gratidão àqueles que, durante minha extensa jornada, ajudaram-me a chegar até
onde cheguei.
Jean de La Bruyère, moralista francês, escreveu, em seu
livro Os Personagens ou Costumes deste Século, publicado em 1688, a
poética frase: “Não há no mundo exagero mais belo que a gratidão.”
Neste momento, é justamente esse sentimento que clama por
expressão em mim. Para fazê-lo, valho-me da cronologia da minha trajetória, na
tentativa de ser justo com as pessoas, os lugares e as instituições que dela
fizeram parte até agora. Como essas pessoas são muitas, desde já peço desculpas
por não nomear todas.
Tive a ventura de ter ascendentes que me transmitiram genes
de aptidões artístico-literárias: minha mãe, Maria de Lourdes, esmerada artesã;
meu pai, Adelino Moura, estudioso da língua portuguesa, autor de quatro livros
e premiado pintor em estilo acadêmico; meus avós, José Moura e Maria Silva,
leitores habituais; e meu bisavô materno, Hilário Silva, inspirado poeta. A
todos eles, gratidão e saudade.
Embora tenha vivido pouco tempo em Xapuri, no Estado do
Acre, não poderia deixar, numa ocasião como esta, de manifestar meu apreço e
orgulho por ter vindo ao mundo naquele pequeno município dos confins do Brasil.
À guisa de homenagear meus conterrâneos que fizeram meu
berço mais conhecido e enaltecido mundo afora, cito alguns que se tornaram
personalidades exponenciais da nossa história: Chico Mendes,
seringueiro, sindicalista e ativista político, que lutou pela preservação da
maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, e pelos direitos de seu povo —
luta pela qual pagou com a própria vida; e Adib Jatene, médico,
professor doutor, inventor e ministro da Saúde em dois governos.
Quando eu tinha apenas dois anos e meio de idade, minha
família mudou-se para Porto Velho, capital do então Território Federal do
Guaporé, atual Estado de Rondônia, cujo nome homenageia o Marechal Cândido
Mariano da Silva Rondon — engenheiro militar e sertanista brasileiro, famoso
por sua exploração da Amazônia, principalmente por instalar a rede de
telégrafos em regiões interioranas do Brasil e por seu apoio vitalício às
populações indígenas, entre tantos outros feitos que o alçaram ao pódio dos
maiores heróis da nossa pátria.
Rondônia é um estado que, em seus primórdios, de 1907 a
1912, foi palco da maior epopeia do século XX: a construção da lendária Estrada
de Ferro Madeira–Mamoré, hercúlea empreitada que reuniu trabalhadores de
mais de cinquenta nacionalidades, muitos dos quais pereceram diante das
intempéries impostas pelas inóspitas condições da floresta: clima extremamente
quente e úmido, doenças tropicais — principalmente a malária, que foi a maior
causa de mortes —, ataques de indígenas e animais selvagens, entre outras
adversidades.
Foi nesse longínquo pedaço do Norte brasileiro, terra de
destemidos pioneiros, que iniciei minha busca de conhecimentos.
Tomado por afetivas recordações, manifesto meus
agradecimentos àqueles que muito contribuíram com minha formação intelectual e
cidadã: às minhas primeiras professoras, Noêmia e Osvaldina; aos padres
salesianos do Colégio Dom Bosco, de Porto Velho; aos irmãos maristas do Colégio
Nazaré, em Belém do Pará; e aos professores da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal do Pará.
Quanto à especialização médica, cultivo boas lembranças dos
dias profícuos que vivenciei nesta encantadora cidade do Rio de Janeiro, quando
aqui fiz internato e residência médica em ortopedia, no Hospital de
Traumato-Ortopedia (HTO), de 1974 a 1976.
Nessa unidade de referência em minha especialidade, fui
escolhido por meus colegas, com endosso da direção do hospital, para ser Chefe
dos Médicos Residentes. No HTO — hoje denominado Instituto Nacional de
Traumatologia e Ortopedia (INTO) —, tive a oportunidade de promover, em 1976,
com apoio dos preceptores daquele nosocômio, a 1ª Jornada de Médicos
Residentes em Ortopedia do Rio de Janeiro.
No HTO, convivi com mestres que me prepararam para o
enfrentamento dos obstáculos que adviriam ao longo das muitas décadas em que
atuei como ortopedista e como administrador na área de saúde, em hospitais
públicos e privados. Em nome do professor doutor Oscar Rudge, diretor-geral do
referido hospital, expresso meu reconhecimento e estima a toda a sua equipe.
Ainda aqui no Rio, aproveitei o período noturno para me
especializar em Medicina Esportiva, na Universidade Federal do Rio de
Janeiro, e em Medicina do Trabalho, na Universidade Gama Filho.
Por tudo isso, muito obrigado, Rio de Janeiro.
Concluído esse ciclo de aprendizado, retornei a Porto Velho,
onde fui instado a conviver, por muitos anos, com limitações de meios para
prestar adequada assistência médico-hospitalar, principalmente nas
especialidades que exigiam estruturas mais complexas, como a minha.
Essas condições adversas somente começaram a mudar com a
inauguração, em janeiro de 1983, do Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, que nos
proporcionou uma estrutura qualificada, um corpo clínico com maior número de
especialistas, além de uma equipe mais diversificada de profissionais da saúde.
Naquele histórico momento, fui escolhido pelo saudoso
governador Jorge Teixeira de Oliveira, construtor do HBAP, para ser o primeiro
diretor-geral daquele gigantesco complexo hospitalar, então com quase 400
leitos e 1.200 funcionários.
Por isso, agradeço ao estimado Teixeirão por ter-me
concedido a oportunidade de participar de sua equipe e daquele período de
progresso na medicina rondoniense.
Até hoje e, certamente, para sempre, o povo de Rondônia
reverenciará a memória desse eminente homem público, que beneficiou os cidadãos
do nosso estado com a instalação de um hospital à altura de prestar atendimento
com eficácia e recursos apropriados.
Como docente, lecionei na Fundação Centro de Ensino Superior
de Rondônia (Fundacentro), uma extensão da Universidade Federal do Pará, em
Porto Velho — semente que originou a Universidade Federal de Rondônia (Unir).
Ministrei, no curso de Licenciatura em Educação Física — naquele tempo, ainda
não havia faculdade de medicina em Rondônia —, aulas de anatomia, fisiologia e
cinesiologia.
Minha gratidão aos alunos da primeira turma do referido
curso, pela escolha do meu nome como patrono. Meu reconhecimento também ao
professor Euro Tourinho Filho, pelo que fez pela instalação do ensino superior
em Rondônia, quando presidiu a Fundacentro e, em seguida, como primeiro reitor
da Unir.
Sou grato ao acadêmico Samuel Moisés Castiel Júnior,
ocupante da cadeira nº 23 nesta Academia, dileto amigo, parceiro em embates
classistas e em produções literárias — publicamos três livros juntos —, pela
sugestão e pelo incentivo para que eu concorresse a uma vaga nesta Academia.
Agradeço, finalmente, ao Conselho Regional de Medicina do
Estado de Rondônia (Cremero), por me conceder sua mais elevada honraria, a Comenda
Dr. Ary Tupinambá Pena Pinheiro, em 2018; ao Conselho Federal de Medicina
(CFM), pela outorga da Comenda Moacyr Scliar — Medicina, Literatura e Artes,
em 2023 — a mais expressiva homenagem prestada pela instituição a médicos
escritores e artistas —; e à Faculdade Instituto Rio de Janeiro, pela outorga,
em 2024, do título de Doutor Honoris Causa.
As honrarias que tenho recebido premiam a afeição e a
dedicação que tenho devotado à medicina, à literatura e às artes. Foram meus
pendores literários e artísticos que validaram em mim a antológica frase de
Albert Einstein, escrita em seu livro Sobre a Religião Cósmica e Outras
Opiniões e Aforismos:
“A imaginação é mais importante que o conhecimento, porque o
conhecimento é limitado, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro.”
Um dos principais nomes da literatura lusófona, Fernando
Pessoa, acrescentou a essa dedução a via sensorial das percepções humanas:
“A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são
sentidas, como se sente que são.”
Spinoza, filósofo racionalista holandês, um dos meus
favoritos, escreveu que:
“Existe um mundo de coisas perceptíveis pelos sentidos e um
mundo delas inferido pelo pensamento.”
É oportuno reiterar que muitas descobertas científicas foram
intuídas pela imaginação — e as obras de ficção científica reforçam ainda mais
essa ideia. O poeta americano Ezra Pound escreveu que os artistas — categoria
na qual se incluem os escritores — são “a antena da raça”, porque parecem
possuir uma habilidade intuitiva que extrapola os caminhos convencionais de
produção do conhecimento e fazem conjecturas da realidade sem amarras nem
pressões.
Desde os tempos de Hipócrates, era comum chamar a prática da
medicina de “arte médica”. Arte que o pragmatismo dos avanços
científicos transformou no binômio indissolúvel: “ciência e arte” —
ciência que busca dar sustentação lógica a seus saberes teóricos e práticos, e
arte que requer sensibilidade para perscrutar os anseios mais íntimos de um ser
humano que sofre.
Em todas as épocas, especialmente nas mais turbulentas, como
a que ora vivenciamos, é justo afirmar que a dedicação de médicos à produção
literária os coloca num patamar diferenciado como formadores de opinião. Como
médicos, por dever de ofício, orientam seus pacientes nas questões de saúde;
contudo, sendo também escritores, magnificam essa responsabilidade coletiva ao
tentarem conscientizar — com fundamentos éticos e positivos exemplos pessoais —
premissas que devem ser divulgadas, defendidas e praticadas para a construção
de um mundo melhor.
Concluo declarando — e assinando embaixo — que, ao ocupar a
cadeira nº 14 desta insigne instituição literária, faço-o movido pela
determinação de contribuir, da melhor forma que puder, para que os objetivos da
Abrames sejam alcançados.
Pela atenção, muito obrigado.
RECOMEÇO
Na véspera de seu aniversário, enquanto regava as plantas na varanda do apartamento, o marido se aproximou:
— Anna, decidi vender os móveis da sala de jantar, passei no antiquário, ele virá aqui pra avaliar a mobília e o relógio de pé; devem valer um bom dinheiro. — Disse Sérgio.
— Você não precisa fazer isso, Sérgio — falou Anna, enquanto pingava gotas de adubo nos vasinhos de violetas.
—Como não preciso? Você nunca gostou dessa mobília, passou anos reclamando dela… — disse Sérgio. — Agora poderá comprar móveis modernos, a seu gosto, será seu presente de aniversário, seu presente de 50 anos.
— Deixe tudo como está, Sérgio, eu não me importo — respondeu Anna, antes de sair da varanda e caminhar em direção à cozinha.
Mais tarde, ao entrar no quarto onde dormia, sozinha, sentou-se diante do espelho antiquado e contemplou seu olhar cansado, as rugas em volta dos olhos claros, e seus cabelos loiros desbotados: reparou que os fios grisalhos se misturaram aos loiros que ainda restavam e como pequenas luzes destacavam-se na mecha que lhe caía sobre a testa.
—Meus cabelos foram tão bonitos…— pensou. — Lembrou-se-se da própria juventude, da mocidade, do arsenal de maquiagem compartilhado com as irmãs em noites festivas, do burburinho das trocas de roupa em frente ao espelho modesto da casa dos pais.
Lembrou- se das paqueras nas festas, da proximidade do corpo masculino enquanto dançavam juntinhos, da perna dele roçando em sua coxa, ao som de um bolero, dos arrepios, dos beijos, do frenesi…
Pensou sobre o tempo e sobre a família que constituiu com Sérgio: dois filhos jovens-adultos, ambos dedicados à construção de suas carreiras; estabilidade financeira — crédito para suas despesas pessoais e da casa.
Apesar disso, sentia-se vazia, sozinha, sem propósitos…
Às vezes achava-se culpada por este vazio que carregava consigo, pelo desamor, por querer estar longe dali. — Se não fosse sua arte com os pincéis e as tintas (apesar do deboche do marido sobre seus quadros), como preencheria a vida, ao longo desses anos? — Pensou. — Vazio de respeito, de cumplicidade, de momentos de paixão, coisas assim… — Por que cedera à insistência de Sérgio e abandonara seu curso de Arte? Os filhos já estavam crescidos…
Levanta-se, abre a janela e olha para o horizonte: um vento suave com cheiro de mar invade o quarto e brinca com seus cabelos loiros.
Ocorre-lhe a ideia de conversar com o filho mais velho, desabafar sobre seus sentimentos, suas frustrações e sobretudo sobre sobre sua vida sem propósito— pensa Anna, enquanto faz a chamada. — Ouve a voz do filho:
—Oi, mãe!
—Mateus, saudades de você, meu filho…
—Tudo bem, por aí?
—Não. Não estou bem.
—Algum problema de saúde com você ou com o pai?
—Não, Mateus, nada disso. Podemos nos encontrar, para conversar, fora daqui, amanhã?
— Mãe, ando superocupado com a mudança pro escritório novo; o pai tem uma carteira de clientes incrível! Agora que o João vai começar a advogar também, seremos três advogados… vamos ter muito mais clientes e trabalho—disse Mateus, entusiasmado. — Vou dar um jeito de ligar pra você, amanhã, aí a gente marca, ok? Beijo, mãe, te amo.
Desliga o telefone. Por uns instantes, ouve o silêncio. Apesar do calmante noturno, Anna demora a adormecer.
Àquela madrugada, durante o sono, um ruído forte no interior do ouvido direito desperta-lhe a consciência; letárgica, tenta abrir os olhos para compreender o que estava acontecendo: não consegue abri-los. E o ruído, semelhante ao do relógio da sala de jantar, torna-se ensurdecedor. Tenta levar a mão direita ao ouvido… em vão; tenta gritar, pedir ajuda ao marido no quarto ao lado, mas não consegue emitir som algum; falta-lhe o ar, sente o coração acelerado, enquanto seu corpo está paralisado: tem alucinações, vê imagens distorcidas do seu rosto sobre as telas
que pinta, vê seus olhos, opacos, dois borrões negros a contemplar folhas secas e violetas mortas.
Quando amanhece, Anna já está de pé: retira do armário uma pequena mala, onde cabem algumas roupas, seus pincéis, suas tintas, e deixa o apartamento.
Sem olhar pra trás, parte em busca de um recomeço.
Sandra Castiel


