Sou uma observadora de diálogos em todos os gêneros.
Gosto de assistir
pessoas interagindo em diversas circunstâncias, tanto em conversas sobre temas relevantes para a sociedade (entrevistas), quanto em um simples bate-papo entre “personagens” de podcasts, (algo que se reproduz
à “velocidade da luz”).
Claro que tudo
é diferente; nos podcasts
há a irreverência da linguagem ilustrada com palavrões já incorporados
ao universo linguístico dos jovens, dos menos jovens e até de algumas pessoas
maduras (que cultivam
este modo de falar), além das
palavras abreviadas e das gírias
que se renovam e propagam
rapidamente.
Podcast (homens):
—E
aí, véio, até que tu veio, né cara?
—Tô aqui, né irmão? Fiquei bolado depois daquela parada sinistra com o Mo…..!
—Caraio,
véio! quando penso nisso, fico arrepiado, falou o que não devia…
— A galera cancelou mesmo ele?
—Cancelou
total, perde tipo 50 mil seguidores por dia.
Podcast
(mulheres):
— Gente, nem
preciso apresentar nossa convidada de hoje: ela é influencer, criadora de conteúdo, atriz
e empresária. — Amiga, tu sabe que tu é uma diva,
não sabe?— perguntou
a apresentadora loira.
— Meninas, só aceitei vir
aqui por vocês
duas, a correria tá grande (puxa
o cabelo alongado para
o lado direito), muito trabalho, aff! — disse
a convidada.
—
E essa treta
toda com teu
nome? Tu falou
demais sobre o que tu gosta de fazer
na cama, muita gente viu aquele programa, não foi? — provocou a
apresentadora morena.
— Cara7ho! P*P!
Enquanto eu luto pelo empoderamento feminino,
ainda tenho que ouvir esse
tipo de pergunta? —retrucou a convidada, enquanto movia o cabelo
alongado para o lado esquerdo.
Cito esses exemplos
de podcasts apenas
como referência às formas
de dialogar, no sentido
mais simples e direto da língua que é falada na rua, nos guetos, nas
comunidades, enfim… A crítica não
é o propósito desta reflexão.
Indo de um polo a outro,
gosto da presença do diálogo na literatura. O fazer literário
contemporâneo utiliza bastante este recurso,
em vários formatos. Aliás,
a literatura moderna contemporânea traz
inovações na escrita, na forma de contar a história,
no foco narrativo e na força dos
personagens—claro que estamos falando sobre
romance e conto.
Criar
um personagem significa humanizá-lo, dotá-lo de um passado, torná-lo
vivo, deixar que o leitor
perceba as características de sua personalidade sem utilizar a voz
explicativa—às vezes longa e monótona— do narrador onisciente;
tudo isto pode ser feito através de diálogos. Invenção
da contemporaneidade? Claro
que não. A fonte
desta magia está
onde sempre esteve: nos clássicos, nas obras dos
gigantes da literatura ocidental,
que promovem diálogos excepcionais,
informações importantes, não ditas,
mas percebidas pelo
leitor, através da fala dos
personagens durante o diálogo.
Ernest Hemingway, célebre escritor
norte-americano, em seu conto COLINAS COMO ELEFANTES BRANCOS, demonstra a
grandiosidade de seu talento, explorando toda a potencialidade do diálogo na
escrita literária.
CAMADAS DO DIÁLOGO
Robert
Mc Kee, aclamado professor de estrutura narrativa da atualidade, autor
do livro Diálogo: A Arte da Ação Verbal no Papel, no Palco e na Tela, traz importantes considerações sobre este tema, abordando o que ele define como as funções
do diálogo: caracterização, exposição e ação. Através de uma fala,
o personagem consegue “estabelecer” todo o ambiente, isto já se constitui em exposição; se o
personagem usa gírias,
o leitor supõe que
ele é jovem, e este
é um dos aspectos da caracterização do
personagem. A terceira
função, a Ação, é descrita pelo autor
como ação mental, ação física e ação social.
“Toda fala é uma ação”.
Considero as camadas do diálogo, trazidas
pelo autor, fascinantes: a primeira camada é o dito,
isto é, o que há na “superfície” da fala dos personagens; o não-
dito é a segunda camada;
é percebido pelo
leitor através
de indícios deixados pelo autor. O bom diálogo
é aquele em que há o não-dito, e a presença
do narrador é
discreta em todo
o processo, permitindo ao leitor chegar
às próprias conclusões. Há também o indizível
(terceira camada), aquilo que vive recalcado nas profundezas da mente, na escuridão
do inconsciente; situações que afetaram de modo negativo o personagem na infância
e o traumatizaram, interferindo na formação
de sua personalidade. Mesmo que não nos demos conta, o indizível existe em cada um de nós, é parte
importante do que somos.
Mas este é um tema para
a Psicanálise.



