Início Site Página 43

DIÁLOGOS

0

Sou uma observadora de diálogos em todos os gêneros.
Gosto de assistir
pessoas interagindo em diversas circunstâncias, tanto em conversas sobre temas relevantes para a sociedade (entrevistas), quanto em um simples bate-papo entre “personagens” de podcasts, (algo que se reproduz
à “velocidade da luz”).

Claro que tudo
é diferente; nos podcasts
a irreverência da linguagem ilustrada com palavrões já incorporados
ao universo linguístico dos jovens, dos menos jovens e até de algumas pessoas
maduras (que cultivam
este modo de falar), além das
palavras abreviadas e das gírias
que se renovam e propagam
rapidamente.

 

 

Podcast (homens):

—E
aí, véio, até que tu veio, né cara?

—Tô aqui, né irmão? Fiquei bolado depois daquela parada sinistra com o Mo…..!

—Caraio,
véio! quando penso nisso, fico arrepiado, falou o que não devia…

— A galera cancelou mesmo ele?

—Cancelou
total, perde tipo 50 mil seguidores por dia.

 

 

Podcast
(mulheres):

Gente, nem
preciso apresentar nossa convidada de hoje: ela é influencer, criadora de conteúdo, atriz
e empresária. Amiga, tu sabe que tu é uma diva,
não sabe?— perguntou
a apresentadora loira.

  Meninas, aceitei vir
aqui por vocês
duas, a correria grande (puxa
o cabelo alongado para
o lado direito), muito trabalho, aff!
disse
a convidada.

 
E essa treta
toda com teu
nome? Tu falou
demais sobre o que tu gosta de fazer
na cama, muita gente viu aquele programa, não foi?
provocou a
apresentadora morena.



Cara7ho! P*P!
Enquanto eu luto pelo empoderamento feminino,
ainda tenho que ouvir esse
tipo de pergunta? —retrucou a convidada, enquanto movia o cabelo
alongado para o lado esquerdo.

 

 

Cito esses exemplos
de podcasts apenas
como referência às formas
de dialogar, no sentido
mais simples e direto da língua que é falada na rua, nos guetos, nas
comunidades, enfim… A crítica não
é o propósito desta reflexão.

Indo de um polo a outro,
gosto da presença do diálogo na literatura. O fazer literário
contemporâneo utiliza bastante este recurso,
em vários formatos. Aliás,
a literatura moderna contemporânea traz
inovações na escrita, na forma de contar a história,
no foco narrativo e na força dos
personagens—claro que estamos falando sobre
romance e conto.

Criar
um personagem significa humanizá-lo, dotá-lo de um passado, torná-lo
vivo, deixar que o leitor
perceba as características de sua personalidade sem utilizar a voz
explicativa—às vezes longa e monótona— do narrador onisciente;
tudo isto pode ser feito através de diálogos. Invenção
da contemporaneidade? Claro
que não. A fonte
desta magia está
onde sempre esteve: nos clássicos, nas obras dos
gigantes da literatura ocidental,
que promovem diálogos excepcionais,
informações importantes, não ditas,
mas percebidas pelo
leitor, através da fala dos
personagens durante o diálogo.

Ernest Hemingway, célebre escritor
norte-americano, em seu conto COLINAS COMO ELEFANTES BRANCOS, demonstra a
grandiosidade de seu talento, explorando toda a potencialidade do diálogo na
escrita literária.

 

CAMADAS DO DIÁLOGO

Robert
Mc Kee, aclamado professor de estrutura narrativa da atualidade, autor
do livro Diálogo: A Arte da Ação Verbal no Papel, no Palco e na Tela, traz importantes considerações sobre este tema, abordando o que ele define como as funções
do diálogo: caracterização, exposição e ação. Através de uma fala,
o personagem consegue “estabelecer” todo o ambiente, isto se constitui em exposição; se o
personagem usa gírias,
o leitor supõe que
ele é jovem, e este
é um dos aspectos da caracterização do
personagem. A terceira
função, a Ação, é descrita pelo autor
como ação mental, ação física e ação social.
“Toda fala é uma ação”.

Considero as camadas do diálogo, trazidas
pelo autor, fascinantes: a primeira camada é o dito,
isto é, o que na “superfície” da fala dos personagens; o não-
dito
é a segunda camada;
é percebido pelo
leitor através
de indícios deixados pelo autor. O bom diálogo
é aquele em que o não-dito, e a presença
do narrador é



discreta em todo
o processo, permitindo ao leitor chegar
às próprias conclusões. Há também o indizível
(terceira camada),
aquilo que vive recalcado nas profundezas da mente, na escuridão
do inconsciente; situações que afetaram de modo negativo o personagem na infância
e o traumatizaram, interferindo na formação
de sua personalidade. Mesmo que não nos demos conta, o indizível existe em cada um de nós, é parte
importante do que somos.
Mas este é um tema para
a Psicanálise.

 



 

RECOMEÇO

0

 

Na véspera de seu aniversário, enquanto regava as plantas na varanda do apartamento, o marido se aproximou:

—  Anna, decidi vender os móveis da sala de jantar, passei no antiquário, ele virá aqui pra avaliar a mobília e o relógio de pé; devem valer um bom dinheiro. — Disse Sérgio.

—  Você não precisa fazer isso, Sérgio — falou Anna, enquanto pingava gotas de adubo nos vasinhos de violetas.

—Como não preciso? Você nunca gostou dessa mobília, passou anos reclamando dela… — disse Sérgio. — Agora poderá comprar móveis modernos, a seu gosto, será seu presente de aniversário, seu presente de 50 anos.

— Deixe tudo como está, Sérgio, eu não me importo — respondeu Anna, antes de sair da varanda e caminhar em direção à cozinha.

Mais tarde, ao entrar no quarto onde dormia, sozinha, sentou-se diante do espelho antiquado e contemplou seu olhar cansado, as rugas em volta dos olhos claros, e seus cabelos loiros desbotados: reparou que os fios grisalhos se misturaram aos loiros que ainda restavam e como pequenas luzes destacavam-se na mecha que lhe caía sobre a testa.

—Meus cabelos foram tão bonitos…— pensou. — Lembrou-se-se da própria juventude, da mocidade, do arsenal de maquiagem compartilhado com as irmãs em noites festivas, do burburinho das trocas de roupa em frente ao espelho modesto da casa dos pais.

Lembrou- se das paqueras nas festas, da proximidade do corpo masculino enquanto dançavam juntinhos, da perna dele roçando em sua coxa, ao som de um bolero, dos arrepios, dos beijos, do frenesi…

Pensou sobre o tempo e sobre a família que constituiu com Sérgio: dois filhos jovens-adultos, ambos dedicados à construção de suas carreiras; estabilidade financeira — crédito para suas despesas pessoais e da casa.

Apesar disso, sentia-se vazia, sozinha, sem propósitos…

Às vezes achava-se culpada por este vazio que carregava consigo, pelo desamor, por querer estar longe dali. — Se não fosse sua arte com os pincéis e as tintas (apesar do deboche do marido sobre seus quadros), como preencheria a vida, ao longo desses anos? — Pensou. — Vazio de respeito, de cumplicidade, de momentos de paixão, coisas assim… — Por que cedera à insistência de Sérgio e abandonara seu curso de Arte? Os filhos já estavam crescidos…

Levanta-se, abre a janela e olha para o horizonte: um vento suave com cheiro de mar invade o quarto e brinca com seus cabelos loiros.

Ocorre-lhe a ideia de conversar com o filho mais velho, desabafar sobre seus sentimentos, suas frustrações e sobretudo sobre sobre sua vida sem propósito— pensa Anna, enquanto faz a chamada. — Ouve a voz do filho:

—Oi, mãe!

—Mateus, saudades de você, meu filho…

—Tudo bem, por aí?

—Não. Não estou bem.

—Algum problema de saúde com você ou com o pai?

—Não, Mateus, nada disso. Podemos nos encontrar, para conversar, fora daqui, amanhã?

—  Mãe, ando superocupado com a mudança pro escritório novo; o pai tem uma carteira de clientes incrível! Agora que o João vai começar a advogar também, seremos três advogados… vamos ter muito mais clientes e trabalho—disse Mateus, entusiasmado. — Vou dar um jeito de ligar pra você, amanhã, aí a gente marca, ok? Beijo, mãe, te amo.

Desliga o telefone. Por uns instantes, ouve o silêncio. Apesar do calmante noturno, Anna demora a adormecer.

Àquela madrugada, durante o sono, um ruído forte no interior do ouvido direito desperta-lhe a consciência; letárgica, tenta abrir os olhos para compreender o que estava acontecendo: não consegue abri-los. E o ruído, semelhante ao do relógio da sala de jantar, torna-se ensurdecedor. Tenta levar a mão direita ao ouvido… em vão; tenta gritar, pedir ajuda ao marido no quarto ao lado, mas não consegue emitir som algum; falta-lhe o ar, sente o coração acelerado, enquanto seu corpo está paralisado: tem alucinações, vê imagens distorcidas do seu rosto sobre as telas

que pinta, vê seus olhos, opacos, dois borrões negros a contemplar folhas secas e violetas mortas.

Quando amanhece, Anna já está de pé: retira do armário uma pequena mala, onde cabem algumas roupas, seus pincéis, suas tintas, e deixa o apartamento.

Sem olhar pra trás, parte em busca de um recomeço.

 

 

Sandra Castiel

[email protected]

LITERATURA MINIMALISTA

0

Viriato Moura*

SOBRE HAICAIS

Haicai é um pequeno poema de dezessete sílabas, originário do Japão, a partir de manifestações poéticas chinesas antigas, composto por três versos, sendo dois de cinco sílabas – o primeiro e o último – e um de sete, sem rima e sem título. No Brasil, os de cinco sílabas são conhecidos por redondilhas menores, e, os de sete, por redondilhas maiores, originárias na poesia da Galícia (Europa Central), a partir do século XVI, e muito usadas por Luís Vaz de Camões (1524-1580), o maior representante do Classicismo português.
Diversas grafias já foram utilizadas (hai-kai, haikai, haiku – a última, em outros países, exceto o Brasil) para denominar esse tipo de terceto. Entretanto, após a supressão da letra k, pela reforma ortográfica de 1943, os dicionários de língua portuguesa passaram a registrar a forma aportuguesada haicai, cuja origem provém dos vocábulos japoneses hai, que significa brincadeira, e kay, harmonia.
 
A época precisa do surgimento dessa forma concisa de poesia ainda é controversa. Sabe-se, entretanto, que sua popularização se deu no século XVII, principalmente através da produção de Jinskikiro Matsuo Bashô (1644-1694), simbolista inspirado nas expressões da natureza (sobretudo, nas paisagísticas) e adepto do zen. Há quem afirme, todavia, que Bashô foi ultrapassado, tanto em popularidade quanto em inspiração, por um poeta do século seguinte, Yataro Kobayashi, conhecido como Issa (1763-1827).

O haicai, em sua concepção original de conteúdo, caracteriza-se por tal objetividade e simplicidade de exposição das ideias que dispensa a obrigatoriedade de elaborações imagísticas mais do que qualquer outra expressão poética. Aquele que escreve haicais (haijin), à maneira tradicional, a partir da contemplação da natureza, descreve a fugacidade do momento, sem explicações e sem memória. É o que se pode chamar de uma “fotografia” literária, visto que congela o instante.

Em 1908, o haicai chegou ao Brasil com os primeiros imigrantes japoneses, que desembarcaram no Porto de Santos. Somente em 1919, passou a ser produzido no país, sendo seu precursor o poeta Afrânio Peixoto (1875-1947). Desde então, vem passando por modificações polêmicas que levaram à classificação dos haicaístas em tradicionais, aqueles obedecem rigorosamente a construção japonesa, com linguagem simples, com métrica, sem rima e sem título; em seguidores da produção de Guilherme de Almeida (1890-1969), que propõe que o haicai tenha título, métrica rígida e rima, e em uma terceira corrente, representada por muitos autores contemporâneos, que incorpora a esse gênero de produção literária tradições brasileiras, desobrigando-o de referências às estações do ano (kigô) e da métrica, além de permitir temática irrestrita. Quanto à pontuação, de acordo com Reichhlod (2002), não sendo o haicai uma sentença, seria desnecessária; entretanto, isso não foi aceito consensualmente pelos haicaistas ocidentais: uns usam-na como num texto qualquer; outros, ocasionalmente, e outros ainda a suprimem completamente. 

A ocidentalização do haicai, portanto, alterou de modo importante suas estética e temática a ponto de interferir sobre as reações sensoriais que pode provocar, desconstruindo-o, assim, quase que em sua totalidade – os puristas, adeptos dos haicais tradicionais, preferem considerá-los apenas poemetos. No que refere a seu conteúdo, o haicai passou também a incitar mentes, ao invés de acalmá-las – o que lhe agrega novos valores literários – chegando, em alguns casos, a expressar conceitos filosóficos. Nesse contexto, apenas a inspiração não se sustenta se não contar com o auxílio da lógica acrescida de aguçada sensibilidade para encontrar, como quem degusta um vinho, seus gosto e retrogosto.

Os que consideram o haicai como uma das várias práticas zen, encontrarão nos exemplos aqui citados apenas resquícios esporádicos dessa acepção. Tanto que, alguns deles, mais que simples modificações estético-temáticas, apresentam-se como verdadeiras mutações. Isso porque não pretendem, a priori, o que preconiza o zen-budismo, escola filosófica (alguns o consideram também religião) nascida na China, no século VI d.C., que busca o estado extático de iluminação pessoal (satori), equivalente a um rompimento deliberado com o pensamento lógico, alcançado por práticas de meditação sobre o vazio, ou a reflexões que visam a absortos paradoxos e enigmas insolúveis (koans).

Os haicais deste autor se enquadram, portanto, na corrente mais contemporânea, por isso, mais libertária, que promove sua desconstrução conceitual radicular, preservando-lhe apenas a concisão dos tercetos. A rima lhe é acrescida como um condimento lírico e rítmico, que os emoldura, ainda que prescindível à poesia, como entenderam, por séculos na Antiguidade, poetas gregos e romanos. Mas valoriza – e muito! – a metáfora, fundamental coluna de sustentação das investidas poéticas.
No que se refere aos títulos, tendem a evitar explicitudes que guiariam à compreensão imediatista do leitor, pretendem apenas intuir reverberações psíquicas que façam sentido a seu universo vivencial, dando-lhe oportunidade a uma leitura identitária que o faça apropriar-se de seus substratos.
CONQUISTA

A força que talha
O guerreiro capaz
Nasce em batalha.

PRESENÇA
A ausência
Vive fora
De onde mora.

INFANTIL
Brincar de viver
Mais risco
De se perder.

INSPIRAÇÃO
Uma formiga
Sobre a folha que cai
Tapete de haicai.
 
PRIMAVERA

Um cadáver ao relento
Recebeu uma flor
Soprada pelo vento.

TRAUMA
Ao olhar
Pelo retrovisor da vida
Vê-se uma criança ferida.

MOTIVO
Compulsivo apego
Alimenta
Desassossego

SIGNIFICADO
Metáfora
Sua meta
Está fora.

*Viriato Moura é médico, jornalista, artista plástico, cartunista, chargista, autor de 20 livros (prosa e verso), 3 opúsculos e participou de 9 coletâneas literárias. Recebeu diversas condecorações a nível municipal, estadual e nacional, sendo a mais recente delas a Comenda Moacyr Scliar – Medicina, Literatura e Arte, que lhe fora outorgada pelo Conselho Federal de Medicina. É membro da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes, da Academia de Letras de Rondônia e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.

ALDRAVIA: O VERSO MÍNIMO

0

Viriato Moura

 

 Grupo de poetas de Mariana, uma das cidades históricas de Minas Gerais, empreendeu um movimento literário que ganhou fôlego a partir do jornal Aldrava Cultural, lançado em novembro de 2000. Seus autores propunham uma forma poética que denominaram de aldravia, tipo minimalista de poesia que se expressa através da palavra-verso ou verso vocabular. A denominação se originou de termo “aldrava”, peça em bronze ou latão, utilizada desde a Idade Média, que é fixada em portas de entrada de casas para anunciar alguém que nela bate. Esse neologismo, criado por Andreia Donadon Leal para denominar essa forma poética elaborada por Gabriel Bicallho, sugere pedir que as portas da capacidade interpretativa do leitor se abram para que ele interaja vivamente com esses sintéticos poemas.
     Uma aldravia é constituída por seis palavras na condição de versos (exceção feita aos nomes próprios duplos e substantivos ou formas pronominais unidas por hífen, que passam a ser considerados como único vocábulo), dispostas uma por linha, sem título (alguns preferem numerá-las) nem uso de letras maiúsculas (exceção aos nomes próprios, para os quais vale a opção do autor) e pontuação (permitem-se apenas os pontos de interrogação ou exclamação).
 Em face à sua concisão, as aldravias pretendem mais do que exprimir, visam sugerir. É a poeticidade com simplicidade. Sua incompletude, que provoca o leitor à interpretação pessoal e ao uso deliberado da metonímia, onde partes constitutivas de algo podem representar seu todo no mundo das significações, são colunas de sustentação de seu conteúdo. A simplicidade do texto deve ser observada para que seu entendimento não se torne confuso, incômodo ao leitor. Isso, entretanto, não deve ser confundido com obviedade, que lança a obra na vala comum das produções carentes de valores literários.
Essa modalidade poética, como tantas outras desde a Antiguidade, também dispensa métrica e rima. Não estabelece limitações temáticas como acontece com os haicais tradicionais. Entretanto — eis a sua característica mais marcante —, a palavra, uma única palavra, por ganhar a força de um verso, é valorizada ao extremo, agiganta-se, diversifica-se semanticamente. Seu uso, ao agregar tamanha importância, requer, além de inspiração e atenção agudas do autor, sensibilidade aguçada do leitor para as dimensões de seus significados.
Num mundo globalizado onde os meios de comunicação, em destaque a internet, disponibilizam um número contínuo e infindável de informações, a síntese se impõe para que achemos, o mais rapidamente possível, o verdadeiro sentido das coisas de modo a captarmos o máximo que pudermos delas em menor tempo possível.
Como todas as modalidades poéticas, a aldravia sorve na fonte dos sentidos para alimentar seus desígnios essenciais de emocionar.

 longe                   praia           algodão            não        pelos
estavas                palmeiras        doce           quero    seus
aqui                      vassalas       doces       nada        pedaços
mais            abanam       nuvens       além        reencontrou
que                        sensações        céu           tudo        seu
presente        estivais        infantil       querido    caminho

O CADILLAC RABO-DE- PEIXE

0

Ano de 2021. Terceiro dia de chuva fina e constante naquele inverno carioca. Da rua, é possível ver um rosto de mulher na janela de seu apartamento no segundo andar; prédio antigo. O rosto parece colado ao vidro molhado; dali, a mulher observa o movimento da rua onde mora, das ruas próximas, dos outros prédios e das pessoas. Àquela manhã havia algo diferente (pensa a observadora consigo mesma): as mulheres passam vestidas com elegantíssimas capas de chuva e guarda-chuvas abertos; os homens, quase todos, usam terno e grande sobretudo preto (casacos longos).

Um dos figurinos femininos despertou a curiosidade da observadora: era uma jovem passante, segurando um sombrinha preta de bolinhas brancas, combinando com um elegante vestido estampado em Petit pois, e luvas pretas e curtas. A encantadora jovem caminhava com bastante desenvoltura pelas calçadas de Copacabana, apesar dos saltos altíssimos de seus sapatos, o chamado salto Luiz XV, observou a curiosa. Este sapato fora criado na França, por encomenda do próprio rei Luiz XV, que devia ser baixinho. Séculos depois, o tal sapato foi ressuscitado, repaginado, virou febre no mundo da moda, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. E no Brasil?

Bem, estamos nos reportando a um cenário dos anos de 1950-1960 Como à época, esse tipo de coisa só se via nos cinemas e não havia cinema  em  grande  parte  das  cidades  brasileiras,  novidades  como  esta chegavam através das revistas oriundas das grandes cidades, como Rio de Janeiro, capital do país, e São Paulo, por exemplo.
 
Com o rosto colado na vidraça da janela, a moradora do apto 201 estava deslumbrada! Pensou em vestir-se adequadamente, para enfrentar a chuva fina e persistente, e descer, para ver melhor aquele cenário maravilhoso; assim, da calçada de seu prédio, poderia interagir com aquelas pessoas que pareciam saídas das telas do cinema.

E assim o fez Protegida por uma sombrinha, põe-se a olhar mais de perto os transeuntes; notou que o penteado dos homens parecia unanimidade: um topete alto e cabelos muito curtos.

Tão entretida estava a observar a elegância dos homens, com seus ternos e sobretudos impecáveis, que por pouco não esbarrou no que acreditou ser uma miragem: uma loura platinada com cabelos curtos penteados em forma de bobs, com saltos muito altos, e um deslumbrante vestido de veludo colado ao corpo perfeito, passou por ela e sorriu: Marylin Monroe teria saído de Hollywood, para transitar pelo Rio de Janeiro? E a outra mulher que a acompanhava? Cabelos escuros, muito alta e magra, belíssima, com um coque perfeito no alto da cabeça: seria Andrey Hepburn, a famosa “bonequinha de luxo?”
Assim, ainda perplexa, contemplou um clássico Mercedes Benz que passava pela rua transversal, seguido por um modelo incrível, de cor vermelha, sem capota; reconheceu de pronto: era um Cadillac Rabo-de- Peixe!

Não conhecia os nomes dos carros preferidos dos ricos – pensou que precisava ler sobre isto, afinal, gostava de estar sempre atualizada.

Naquele momento sentiu a mão do zelador do prédio onde morava, em seu braço, conduzindo-a ao interior do edifício, para a mesmice de sempre: a chata da cuidadora, a chata da cozinheira, a chata da enfermeira; esta última já estava apreensiva, porque ela descera sozinha do apartamento, sem que ninguém percebesse.
De volta ao seu quarto, um sentimento de acolhimento invadiu –lhe a alma; tão bom! Vestiu o pijama e deitou-se na cama confortável, limpinha e arrumada; então veio-lhe à mente a cena que presenciara há pouco: um fusquinha verde passando em alta velocidade pela rua principal; seria verde, seria amarelo, ou azul? Não conseguia se lembrar. Que pena. Queria ter visto mesmo era um cadillac vermelho rabo-de-peixe.

Cansada, resolveu que não pensaria mais nisto. Puxou o cobertor de lã e aconchegou-se sob ele; amanhã voltaria à janela para ver as novidades.
 
.

Sandra Castiel: professora, escritora, membro efetivo da Academia de Letras de Rondônia

UM POUCO DA HISTÓRIA POLÍTICA DE RONDÔNIA (0)

0

Lúcio Albuquerque

A história política do que hoje é Rondônia pode ser dita como iniciada quando os portugueses assinaram o Tratado de Tordesilhas e, a seguir, demandaram rumo aos rios Mamoré e Guaporé, levando a que a terra chamada Brasil ampliasse suas fronteiras ao que é hoje.

“No voto”, mesmo, e ainda assim a inscrição de eleitores foi engessada pela legislação de então – até 1946 só alfabetizados, maiores de 21 anos podiam ser eleitores, e o voto feminino, com muitas restrições, só começa na década de 1930, a primeira eleição foi em 1914, em Santo Antônio do Madeira, quando foram eleitos vereadores (foto da ata da sessão de instalação do ano legislativo, grafia da época), todos filiados ao Partido Conservador. O superintendente (prefeito) continuou nomeado pelo governador (1)

Em Porto Velho a primeira eleição acontece no final de 1916, um ano após a instalação do município, eleitos o prefeito e vereadores (2). Em todos os casos os filiados eram do PRC – Partido Republicano Conservador, assim como em 1919, na eleição para presidente da República, todos os 59 votos em Santo Antônio foram para Epitácio Pessoa, que ganhou o pleito.
Ainda bem incipiente, a vida política local começou com ares pesados. Em 1912 o major José Jorge Braga Vieira era eleito presidente do primeiro diretório organizado, em Santo Antônio e depois, em 1915, seria o vice-presidente do Partido Republicano Conservador, em Porto Velho.

Na cidade que sediava a administração da ferrovia Madeira-Mamoré, como em Santo Antônio, a política veio bem no início e em 1917, para se contrapor à administração municipal, um grupo político comprou o jornal “O Município” e lançou um nome que durou um século: o Alto Madeira.

Apesar de àquela época as duas cidades ainda serem bem pequenas – Guajará-Mirim só seria município em 1928, o embate político já era duro, com panfletagem, violência e até tiroteios, como narra Júlio Olivar em “A Cidade que não existe mais”.
Com a revolução de 1930 o funcionamento da política partidária, como em todo o país, entrou em recesso, mas a questão voltaria à tona quando Getúlio Vargas decidiu criar o Território Federal do Guaporé e a região pode eleger seu primeiro e único, então, deputado federal – veja no número 3 da série.

(1)    Francisco Matias em “Pioneiros – Ocupação Humana e Trajetória Política de Rondônia”
(2)    https://www.tjro.jus.br/resp-doc-historica/cdh-acervo-publicacoes/artigo-heranca-politica-rondonia
(3)    Antônio Cantanhede, “Achegas para a História de Porto Velho”.

YARAS DO RIO MADEIRA

0

Abnael Machado – 1932/2019 (*)
______________
A Yara e a Sereia possuidoras de idênticas magias, encantos, poderes e seduções, fisicamente são totalmente diferentes. A sereia é mulher da cintura para cima, com todos órgãos anatômicos femininos, e da cintura para baixo é peixe. Habita os oceanos e mares.

Homero, poeta grego cego, em suas composições líricas Ilíada e Odisseia narra que Ulisses e seus companheiros vindos da guerra de Troia, vagaram durante dez anos pelos mares, entre esses, o das sereias no qual Ulisses ordenou que o amarrasse no mastro do navio a fim de não ser arrebatado para as profundezas das águas, seduzido pelo mavioso canto das sereias.
A Yara é uma belíssima mulher de corpo sedutor, abundante cabeleira variando de loura, ruiva e negra, olhos também variando de azuis, verde, castanhos e negros. Seios firmes de tamanhos proporcionais ao busto, coxas e pernas perfeitamente torneadas, habitam os rios, lagos, igarapés e lagoas dos quais nas horas silenciosas do dia e nas noites de plenilúnio emerge e senta-se nas suas margens, penteando seus longos e sedosos cabelos, mirando-se no espelho líquido aos seus pés, vaidosa de sua beleza, nesses momentos canta com sua voz doce embriagadora e melodiosa de poder mágico de atrair e paralisar os homens, e os levar para o seu reino nos fundos das águas, no qual passarão a serem seduzidos como seus amantes e seus escravos.

No Rio Madeira tem-se notícias do aparecimento de Yaras na ex-cachoeira de Santo Antônio, imputando-lhes os desaparecimentos de vários banhistas e incautos pescadores. Contava um caribenho, residente em Santo Antônio, que numa noite pescava na cachoeira, a viu emergindo do rio, sentando-se em uma das rochas, começando cantar. O som da melodia o estonteava. Juntou seu petrecho recolheu-se a sua barraca, porém não conseguiu dormir.
Na foz do Rio Jamari contam pescadores, terem visto duas Yaras. Uma acompanhada por um círculo de botos rodeando-a, executando um balé  o que a divertia. A outra a costuma aparecer sentada num dos galhos das árvores das margens do rio. À noite são iluminadas por multicolorida luz.

Em Carapanatuba (médio Madeira), num poção de águas límpidas, mora uma Yara diferente das outras, por sua cabeleira ser branca. Diverte-se toldando as águas, impedindo as lavagens de roupas pelas lavadeiras, como também apavorando os homens quando no final do dia veem se banhar, emergindo inesperadamente, os pondo a correr meios vestidos uns e nus outros.
Os curandeiros pajés para libertarem seus clientes das magias da Yara, os benzem, os banham com infusão de folhas de arruda e cidreira, flores de manjericão e mucuracaá. Os banhos dados na beira do rio em três luas cheias. Recomendação à família mantê-los vigiados, resguardando-os a não mergulharem em rio em busca da Yara, até ficarem plenamente curados.
-( Nota do autor, a Yara habita os rios da Amazônia).
(*) Professor, historiador, Doutor Honoris  Causa/UNIR, historiador, jornalista, escritor, membro da academia d Letras de Rondônia e da Academia Guajaramirense de Letras.

NANOCONTOS (7)

0


FRONTEIRA
A um passo da eternidade, parou.

PODER
Bania temporais com sopros de esperanças ensolaradas.

JUSTIÇADO
Foram salvos por pouco: afinal, ele perdeu a cabeça.

PERMANENTE
Embarcou, sentou ao lado dela, e nunca mais se levantou.

ESCURO
A luz que tanto almejava, apagou-o.

APOIO
A infância se fora, mas ele não largou sua mão.

SOLVÊNCIA
Ofendido até não poder mais, não pôde mais.

PROVEITO
Ele chegou tarde demais, mas ainda deu tempo.

CHÃO
Ao contemplar, do nono andar, a beleza da cidade, foi sugado por ela.

PARTIDA
O marido perdeu o avião; ela, a vida.

FRÊMITO
Os passos que tanto ouvia no sótão, eram dele.

BLEFE

Ao tirar a carta da manga, a mão veio junto.

CULPADA
Ela era linda de morrer, eis a causa mortis dele.

QUIETAÇÃO

Seu tiro de silêncio matou todos os barulhos.

NANOCONTOS (6)

0

PRAZER

“Não morra, se você morrer, eu te mato!”, disse-lhe a amante em êxtase.

CÓSMICO

Saltava de planeta em planeta até cair num buraco negro.

GOZADOR

Fazia seus fantasmas morrerem de rir.

PRECAVIDO

Vendia esperanças a qualquer preço, mas sem garantia de entrega.

ENFIM

No velório da noiva, colocou uma aliança de casamento nela e outra nele, e foi para a lua de mel.

ASAS

Sobreviveu à queda de muitos abismos, todos por ela criados.

EXCITADO

“Conte-me tudo em detalhes”, disse o padre confessor à sensual pecadora.

MOTIVAÇÃO

Visitava o cemitério para pensar na vida.

LÚDICO

As pipas continuam empinando sua velhice.

DISPNEIA

Morreu sufocado pelo sonho de viver.

QUEDA

Sua mania de olhar para o passado, fê-lo tropeçar no futuro.

AZO

Ao retornar de Las Vegas, dita a Cidade do Pecado, arrependeu-se de lá não ter cometido pecado algum.

DISCRETO

Ele não saiu do armário, saiu do cofre.

FRIO

Seu último ato foi queimar toda a poesia do seu mundo.

FOCO

Ela colecionava olhares: todos suspeitos.

MIRA

Seus tiros acidentais sempre acertaram o alvo.

DISSECÇÃO

Não tirou a roupa dela, tirou-lhe a pele.

DECLARAÇÃO

A dedicatória da coroa funerária recebida no velório de sua mulher, matou a reputação de ambos.

NANOCONTOS (4)

0

 
IMPACIENTE
De conversas vazias, retirava-se cheio.
 
INDAGAÇÃO
Ao lado do corpo, um bilhete do morto dizia: “Ninguém teve culpa, por
quê?”.
 
SERVENTIA
Saber, ele sabia muito; porém não sabia o que fazer com o que sabia.
 
DEMOROU
Quando a tão esperada chuva caiu, tudo havia florescido.
 
BLOQUEADA
Odiava a velhice, por isso a matou antes de ela chegar.
 

LIGADO
Aprendeu a correr mais rápido quando perdeu suas
duas pernas.
 
EFICIENTE
Venceu porque, entre os concorrentes, ninguém
via mais do que ele no escuro.
 
INESPERADO
Usava colete salva-vidas, sabia nadar, porém
afogou-se num mar de rosas.
 
ILUSIONISTA
Transformava mentiras em verdade num passe de
mágica.
 
VERSÃO
Achou impossível estar vivo, por isso passou
a viver como se morto estivesse.
 
APODÍCTICO
Quando perdeu toda razão, tornou-se razoável.
 
BULLYING
Logo após matar o marido, a gorda comeu um
bolo de chocolate inteiro.
 
DNA
Se tivesse deixado de fumar, não teria sido
incriminado.
 
SALVO
A falta de meios evitou seu fim.