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Ideologia Carnavalesca

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Ideologia Carnavalesca - Gente de Opinião

Quando a gente cursava o primeiro ano da faculdade, a palavra ideologia era apresentava ao calouro, com todos os possíveis adereços semânticos, deixando a gente com ânsia de conhecimento, com aquela vontade de saber o verdadeiro significado daquela palavra/instrumento de dominação que age por meio de convencimento, persuasão, e não pela força física, alienando a consciência humana. Naquela época quase todos os jovens eram sonhadores marxistas/comunistas e acreditavam que a ideologia da classe dominante tinha como objetivo manter os mais ricos no controle da sociedade.

O tempo foi passando e a palavrinha foi ampliando seu significado, deixando os universitários convictos do saber e vaidosos com o conhecimento: ideologia fascista, comunista, democrática, capitalista, conservadora, anarquista, nacionalista e, mais recentemente, contrariando tudo que se sabia sobre o conjunto de ideias e princípios que davam origem a uma ideologia, apareceu a ideologia de gênero, mas não é esta a razão de nossa reflexão. No momento basta que saibamos que existem ideologias políticas, religiosas, econômicas e jurídicas e que uma ideologia se distingue de uma ciência porque não tem como fundamento uma metodologia exata, capaz de comprovar as ideias.

Cinquenta anos depois, a ideologia comunista, disseminada na Rússia e em um punhado de outros países, visando a implantação de um sistema de igualdade social, perdeu força, transformando a Rússia num país capitalista, mas um capitalismo diferenciado, onde a eleição, dita democrática, é manipulada pela força, para que o chefe da nação permaneça no poder por um longo tempo. Na prática, a ideologia russa putiana mascara a realidade, adotando um caráter expansionista e autoritário.

A vontade de Putin em ampliar seu poder na Europa e no resto do mundo é tão grande, que ele se jogou numa aventura louca, declarando guerra a um vizinho, simplesmente porque o tal vizinho, a Ucrânia, é mais simpático à ideologia europeia, onde se prega a liberdade de expressão, o estado laico, o livre comércio, enfim uma superestrutura composta por diversas representações que compõem a consciência. A ideologia de Putin, amparada no egocentrismo, nem na China encontrou eco, demonstrando ao resto do mundo que qualquer atitude que Putin venha a tomar, é a atitude de um perdedor, porquanto, no dizer do poeta John Donne, nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo.

De todas as ideologias, a que mais intriga é a ideologia política. No Brasil pode-se dizer que ideologia política e carnavalesca são a mesma coisa. Agora mesmo, enquanto o resto do mundo tenta salvar o povo da Ucrânia, o presidente brasileiro defende a neutralidade carnavalesca. Nem a Suíça conseguiu permanecer neutra.

Em Rondônia, quem poderia imaginar que o coronel Marcos Rocha, do PSL/UNIÃO, e o prefeito Hildon Chaves, do PSDB, vestiriam a mesma fantasia, dançariam no mesmo bloco partidário, na campanha para governador do estado, e que distribuiriam serpentinas e confetes à população estupefata, como se fossem termos de uma ideologia carnavalesca, pela permanência no poder. Parece que eu vi o prefeito cantando Cazuza, a plenos pulmões: “Meu partido é um coração partido…Os meus sonhos foram todos vendidos, tão barato que eu nem acredito. Ideologia, eu quero uma pra viver, meus inimigos estão no poder, aquele garoto que ia mudar o mundo, agora assiste a tudo em cima do muro”.

Resta ao povo esquecer as mortes violentas da guerra do outro lado do mundo, dar os braços à pandemia e sair dançando pelas ruas de Porto Velho, no bloco dos sujos, ignorando a sujeira que rola na ideologia política. Ideologia, eu quero uma pra viver.

A SEMANA DA CRIAÇÃO

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Gesson A. Magalhães

Sobre águas abissais, entre a Terra e os Céus,
Pairava, soberano, o Espírito de Deus.
Escuridão total. A terra inda informe,
De tétrica visão como um monstro que dorme,
Aguardava inconsciente, os eflúvios divinos.
Os olhos divinais, com brilhos diamantinos,
Contemplavam a cena. E vendo, no futuro,
Mesmo através do caos, pelo infinito escuro,
Os mundos aos milhões, num sonho de arquiteto,
Decidiu que o Verbo, o Seu Filho dileto,
Tudo iria criar. E esse sonho perfeito,
Tomou forma, cresceu. Da decisão ao feito
Foi um passo. E o Filho, os braços em cruz,
Contemplou o infinito e bradou: “Haja Luz”!

Num ápice de tempo a luz surgiu, e então,
Os milhares de sóis, em toda a imensidão
Do Universo sem fim, mostraram seu fulgor.
E o Verbo de Deus, numa expressão de Amor,
Os mundos e os sóis resolve organizar,
Cada qual na sua rota, no espaço a girar.
Olhando o Criador para a Terra vazia,
Fez a separação entre a Noite e o Dia.
Contemplou o que fez. Contente e prazenteiro,
Viu que tudo era bom. Foi o dia primeiro.
Cobrindo todo o globo, a água dominava
E o trino Jeová, aquilo contemplava,
Na ânsia de criar e ver tudo perfeito.
À água ordenou e ela, muito a jeito,
Em líquido e vapor, fez a separação
Entre as águas do ar e as águas do chão.
A enorme expansão que nosso globo encerra,
Jeová denominou de Ar e Mar e Terra.
De novo contemplou. E cheio de alegria,
Viu a obra perfeita em seu segundo dia.

Olhando a terra nua a as águas do oceano,
E as fontes e os rios, num ócio rude e insano,
Disse o Verbo Divino: “Apareçam, grandiosas,
A verde relva, a flor e as árvores frondosas,
Que embelezem a Terra e deem nova vida,
E a flor produza fruto e a semente devida.
E a Terra se floriu e ficou verde e linda,
Cheia de grandes matas, de uma beleza infinda.
E o Verbo olhou e viu a obra que fazia,
Tudo perfeito e bom. Foi o terceiro dia.

Deus, porém, percebeu, logo ao amanhecer,
Que a relva e o verdor iriam esmaecer
Se não tivesse, além do orvalho e da argila,
A luz de um grande sol, formando a clorofila,
Além de comandar as várias estações.
E fez o Astro-Rei, o quinto entre os milhões
De outros sóis. Fez a Lua, que iluminando o mundo,
Lindas noites produz. E em Seu poder profundo,
O Excelso Criador, com tal sabedoria,
Contemplou a beleza nesse quarto dia.

Era tudo perfeito. Entretanto, nos ares,
Nenhum ser a voar, e, no fundo dos mares,
Vida alguma se via, por isso, o Senhor,
Ordenou e as águas, à ordem do Criador,
Encheram-se de vida. Logo estavam cheias,
Desde o simples molusco às grande baleias,
E pássaros e aves encheram o ar de cores,
E as matas do gorgeio de suaves cantores.
E o Senhor achou bom. E enquanto tudo ouvia,
No oceano o Sol desceu. Foi esse o quinto dia.

Rompeu o sexto dia. E o Verbo divinal,
Decidiu empreender, antes do seu final,
O epílogo feliz de Sua criação,
Conforme o plano Seu. Com determinação,
Criou os animais em grande quantidade,
O macho e sua fêmea, em tal variedade,
Que a Terra se encheu de a mata criou vida.
Assim, a criação estava definida.

E disse o Criador: “É tudo muito bom,
Mas falta ainda alguém ao qual Eu dê o dom
De tudo dominar daqui para diante,
Alguém que seja aqui, Nosso representante.
Façamos, pois, o homem à Nossa própria imagem,
E sobre os animais possua ele a vantagem
Do arbítrio e da razão. E assim, Deus fabricou
Uma estátua de barro. E quando Ele soprou
O fôlego vital, como uma alma vivente,
Surgiu das mãos de Deus um ser inteligente.
E viu Deus que ele só, não poderia ficar.
Fez, portanto, a mulher e eis o primeiro lar.

E àquele casal Deus entregou o mundo
Que Ele havia criado. E com amor profundo,
Contemplou, comovido, cada coisa boa:
Desde o ser que se arrasta àquele que voa!
 Ao se esconder o sol e vir um novo dia,
O Excelso Criador, Grande em sabedoria,
Resolveu descansar! Mas Deus nunca se cansa!
Ele queria dar, tal qual a uma criança,
A força do exemplo. E aquele frágil ser
Deveria, pra sempre, assim também fazer.
Pra esquecer as fadigas, pra acalmar a mente,
Para louvar a Deus, o Ser onipotente.

O sábado é, assim, um dia especial,
Que visa ao nosso bem e ajuda contra o mal.
Por isso, o separou, em santificação,
Como um memorial de Sua criação.
Porto Velho, 1982

E VIVAM OS MARKETEIROS! – Por Lúcio Albuquerque

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Agora temos não mais a “Semana da Pátria”, mas a “Semana do Brasil” que, para quem não sabe, começou nesta terça-feira, dia 1. De saída o termo “da Pátria” para um período de apenas sete dias, que há muito tempo, sabe-se lá por quais motivos, governadores de Rondônia reduziram para três dias, mas por aqui não reverbera tanto primeiro porque a imensa maioria da população foi formada na escola dentro do credo que civismo é sinônimo de militarismo (*), um pecado que levou ao fim de alguns itens como mérito, respeito etc, especialmente em Porto Velho celebrar a Pátria foi aos poucos sendo deixado de lado.

Como disse um velho conhecido meu, ontem, quando conversamos a respeito do assunto. Detalhe é que ele é daquele grupo que, se muito, tem apenas o antigo primário, hoje correspondente à 5ª série: “Semana da Pátria, que agora chamam Semana do Brasil, em realidade deveria ser comemorada o ano todo”.

A mudança de nome para o mesmo período que deve ter iniciada sua comemoração há mais de 100 anos, havendo citações de que data da Independência (ainda não se comemorava a Semana) sob Dom Pedro II, em 1840, todas as capitanias do Império passaram a celebrar. Mas aos poucos, a partir dos anos 1990, essa tradição que nos voltava à importância do que aconteceu em 1822, vem sendo postergada. Até chegar ao período atual que até desestimula alguém a sair de casa para assistir, e há muitos motivos para tal.

Alterar o nome da programação é apenas, em meu entendimento, uma jogada de marketing, mas que deve ter resistências, por exemplo, se houve custos para elaboração da campanha, e isso num momento em que o próprio governo lembra o aperto que está sendo para manter a ajuda emergencial. Não seria melhor que o governo apenas introduzisse as mudanças que pretende sejam a diferença entre a Semana “da Pátria” e a “do Brasil”?

Aqui mesmo entre nós, de saída, é preciso entender que mesmo antes do presidente Getúlio Vargas criar o Território Federal, em 1943, época em que existiam apenas o municípios de Porto Velho e Santo Antonio, já se comemorava a data. Quem visita Santo Antonio pode observar que numa das pedras atrás da igrejinha, tem uma placa comemorativa do centenário da Independência, onde constam os nomes do superintendente (prefeito) e dos intendentes (vereadores). E em Porto Velho, na praça em frente ao Palácio Presidente Vargas há um obelisco, inaugurado a 7 de setembro de 1922, a então adolescente Labibe Aiech – depois Bartolo – declamou um poesia em homenagem à data, na primeira vez que uma mulher participou como oradora numa cerimônia pública em Porto Velho.

Só para lembrar: até bem recentemente a Semana da Pátria era aberta no dia 1 de setembro, chovesse ou fizesse frio ou sol, pelo governador de Rondônia, com cerimônia pública em frente ao Palácio Presidente Vargas, onde milhares de pessoas participavam, com desfile cívico-militar e hasteamento das Bandeiras, do Brasil e todos os estados. Só para encerrar: alegar que não se realiza a cerimônia ali onde estão todos os mastros para todas as bandeiras do estados e do DF, alegando a covid é, em realidade querer enterrar o passado, porque cada mastro que ainda estão lá, fica a uma boa distância dos que estão nas laterais. E bastava realizar a cerimônia, mas pelo visto temos governo que em medo de aparecer em público, ainda que seja um público restrito.

(*) Esse modo de ver as coisas deveria ser extirpado por aqui, porque se houve uma área deste país beneficiada pelos governos militares, foi justamente Rondônia, e isso ninguém, afora os defensores do “politicamente correto”, pode negar.

Lúcio Albuquerque, repórter
[email protected]

USUÁRIO É QUEM TEM MENOS DIREITO NO ESPAÇO ALTERNATIVO

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(Ou uma boa obra que virou uma zona)

 
Uma obra que orgulha qualquer rondoniense e cartão postal da capital, o Espaço Alternativo, pela falta de gestão e segurança, está sendo transformado em mero camelódromo onde a cada novo final de tarde se instalam novas barracas em que se vende de tudo, tomando o espaço destinado aos que pretendem ir ali relaxar ou fazer alguma atividade física, especialmente nas noites de sextas, sábados e domingos – ou feriados.

A obra, já em uso mas oficialmente ainda não entregue por não estar inteiramente concluída – há uma lei estadual (3883-2016) determinando isso, no Espaço Alternativo faltam ainda estacionamento, banheiros, lanchonetes (ou dar outra destinação ao que foram construídas para tal fim), sinalização de trânsito, fiscalização do tráfego, e uma organização que acabe com a loucura gerada pelos barraqueiros de tudo que se imagina possível comercializar, que ocupam áreas destinados à circulação dos usuários.

Na condição em que se encontra, o Espaço Alternativo está literalmente uma “zona”. Dezenas de vendedores de tudo ocupam melhores espaços e praticamente não se pode pensar em ter tranquilidade nos dias e horários citados antes, o que transforma o Espaço num autêntico “farofal” desde o início da área, em frente à vila dos sargentos da Base Aérea (agora chamada oficialmente de “Ala 6”) até depois da praça do Trem, quase 2 quilômetros de balbúrdia.

Mas os problemas não estão centrados apenas nos quiosqueiros. É um enorme risco levar sua criança para andar de patim, velocípede ou de bicicletas nos dois calçadões centrais, porque dezenas de adultos, pilotando suas bicicletas, deslizam a toda velocidade ameaçando atropelar quem esteja pela frente.

Bem cedo, quem se incomoda com o odor fétido dos que fumam usando narguilé, sendo fácil verem-se grupos de jovens e adultos usando aquele instrumento, sem se incomodar com as reclamações de quem esteja no entorno ou, como já acontece comumente: “Os incomodados que se mudem”.

Nos balanços, destinados às crianças, não é difícil ver gente adulta para lá e para cá, enquanto crianças esperam. Nas áreas dos balanços, onde o piso é de terra, cães conduzidos por homens e mulheres defecam ou urinam, o que coloca em risco – outra vez! – a saúde das crianças que rolam pelo chão, brincam de fazer montinhos etc.

Apesar de não concluído, o piso do estacionamento suporta, sem problemas, que centenas de carros estacionem, mas poucos condutores aproveitam a área. A maioria prefere colocar seus veículos na lateral da pista, tumultuando mais ainda o já complicado tráfego no sentido aeroporto/centro/aeroporto, e muitos motoristas fazem o retorno no local onde estão, sem ligar para a possibilidade de um acidente.

A velocidade que muitos motoristas e motociclistas imprimem, é outro problema que só existe porque a fiscalização é inexistente. Policiamento? Uma viatura solitária dando a volta sem atentar para os problemas da desorganização de uso do Espaço, cada vez mais camelódromo do que atendendo sua finalidade.

Oficialmente a responsabilidade do local é do DER, cuja direção bem poderia ter resolvido vários problemas, como banheiros, sinalização, segurança. Uma alegação da desorganização gerada pelo camelódromo – em alguns casos vendedores colocam suas carretas em cima do gramado ou no meio da calçada, é porque isso seria de responsabilidade do setor de Posturas da Prefeitura, órgão cujos funcionários parecem estar, como o Hino Nacional, “Deitado eternamente em berço esplêndido”.

Considere-se dito!   

 

ACLER PERDEU UM MEMBRO – A CULTURA AMAZÔNICA MUITO MAIS

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Lúcio Albuquerque

A cultura amazônica, especialmente a cultura do canal do Rio Madeira, perdeu na tarde de sábado, um dos grandes nomes que a região já pariu, com o falecimento do escritor Raimundo Neves de Araújo, humaitaense da gema, poeta cujas composições sempre foram um hino à Amazônia, amante da natureza e de tudo que tivesse a regionalidade.
Com uma dezena de livros publicados, todos sobre lendas, personagens e fatos amazônicos, mas com ligação ao lago Uirapiara, onde nasceu, e a Humaitá, onde viveu e foi sepultado, ele escreveu seu nome dentre os grandes nomes de sua terra, dentre eles o artista plástico Moacyr Andrade, os governadores Plínio Coelho e Álvaro Botelho Maia – interventor do Amazonas, senador várias vezes pelo Estado, e os escritores Almino Afonso – ex-ministro do Trabalho e ex-vice-governador de São Paulo, Antonio Candido e Joaquim Cercino, os três últimos também membros da ACLER.
Raimundo Neves de Araújo ingressou na ACLER em 2008, na mesma cerimônia em que também ingressei, ele ocupando a cadeira 32, cujo patrono, coincidência ou não, é justamente o Comendador Monteiro – José Francisco Monteiro, que no final do Século XIX criou a cidade de Humaitá e a seguir o primeiro jornal impresso na região do Alto Madeira, o “Humaythaense”.
Logo no dia de sua posse  o novo imortal deu mostras de seu nativismo, fazendo uma oração sobre árvores e bichos da região. E nas seguintes sessões da Academia sempre apresentava partes de seu trabalho, com a temática regional, evocando as figuras, as lendas, os costumes e as coisas da região.
Indicado pelo presidente Francisco – Chagoso – das Chagas, com aval do acadêmico José Marini, com os quais fui ao sepultamento, tive a honra de falar, em nome da ACLER, sobre a figura de Raimundo Neves de Almeida.

Lembrei que, como muitos outros, ele se colocou literariamente e como cidadão, muito acima da média. Mais ainda porque, Raimundo, em sua simplicidade com a qual pretendia ocultar o imenso conhecimento amazônico, era uma cultura muito além do que se espera de uma pessoa nascida, criada e, a vida toda, voltada a fazer o que o grande escritor russo León Tolstói propunha, “Antes de pintar o mundo, pinte primeiro a sua aldeia”.

E foi por “pintar sua aldeia”, como guardião da cultura nossa que viveu, deixando, acima de tudo, o grande exemplo de amor pela terra onde nasceu e que, como ele disse, em uma poesia lida por um dos seus filhos durante o velório, queria ser sepultado, e teve o desejo atendido.

Ao amigo que se foi e que, em momentos importantes quando presidi a ACLER foi um forte esteio que encontrei, o pedido, ao Pai, que ele esteja em um bom lugar – quem sabe? – próximo a Nossa Senhora da Conceição, do qual era fiel devoto.

EM MEMÓRIA: JACOB FREITAS ATALLAH

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Quando um amigo parte para o Mundo Maior, um pouco de nósparte também. O amigo completa nossa existência, alimenta nosso cotidiano. Écom ele que dividimos nossos encantos e desencantos. Não existe medida maiorpara a grandeza de um caráter do que o poder de saber fazer amigos. É por issotudo que nesta data, 4 de janeiro de 2018, lembro-me com emoção do médico,intelectual, político e antes de tudo, amigo, Jacob Freitas Atallah – 30 dias desua partida para o Mundo Espiritual. O fiel amigo de seus amigos, a quem todosconquistava pela firmeza de seu caráter, humanidade médica e postura como homempúblico, com sua inteligência vibrante e expansiva superava o próprio tempo,colocando-o no plano de igualdade e perfeita identidade de ideais com os jovensque na eleição de 1986, votaram nele, para governador do estado. Porto Velho,Guajará-Mirim, cidades tradicionais e Ariquemes o consagraram governador. Se acampanha houvesse demorado mais alguns meses, certamente atingiria outrosmunicípios. O poder que tinha de se dar, de se entregar e de se pronunciar eramarcante. Jacob eleito, o destino de Rondônia teria sido mais promissor.

Homem da Amazônia, em tudo e por tudo, nele vivia umrondoniense que amou profundamente sua terra maltratada culturalmente pelosdesígnios dos maus políticos. No seu ativismo espontâneo pela nossasobrevivência histórica, sua administração na Secretaria de Educação doTerritório Federal de Rondônia (1979/1980), apesar de muito curta, foi diferenciada.A título de exemplo, citamos sua assessoria na área do Patrimônio Histórico,época em que iniciamos o resgate histórico da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré;foi elaborado o primeiro Calendário Escolar e Cultural (1980), tendo umamensagem de Atallah que em um dos trechos ressalta: “Nosso objetivo é o de divulgar para cada escola do Território, umreferencial teórico de orientação, onde estão englobados temas os maisdiversos, proporcionando um instrumento de racionalização dos educadores”.Mais adiante prossegue: “Os temas aquiexpostos não só dizem respeito a datas e fatos históricos, divulgando entre ajuventude os eventos passados para uma melhor compreensão do mundo atual, comotambém se reportam a assuntos culturais, levando a juventude a pensar eentender o seu mundo real, a se interessar pelas expressões representativas dacultura brasileira”. O primeiro plano da política cultural foi iniciado,esforço encetado no sentido de ordenar o desenvolvimento cultural de Rondônia ea preservação do seu patrimônio histórico material e imaterial. Jacob Atallahafirmou no curso propiciado “Fundamentos da Cultura Rondoniense”: “A política partidária divide ainda mais quea política econômica. A cultural é a que conjuga. Em torno das criações doespírito e da inteligência trabalhada pelo estudo sério, as criaturas se unem,porque enfim se entendem. Ninguém, se normal, impugna a cultura”.

Permitimo-nos recordar, no tocante a política partidária,Jacob Freitas Atallah foi uma presença determinante como deputado constituinte,uma presença renovadora, um homem de ação, além de grande homem de estudo,participante até de conflitos da sua época, através de atitudes incisivas ecorajosas, ligadas às suas maneiras de pensar, seus modos de agir. Suadignidade e independência, de sabedoria e justiça, realçou-lhe o laborconstrutivo, transparente em seus discursos equilibrados, constatando-se aagudeza, seu espírito crítico e a linguagem adequada, reivindicandomelhoramentos para a solução dos interesses econômicos, sociais e culturaispara seu povo. Sua palavra desdobrava-se em imagens, comparações, citaçõeshistóricas e culturais. Era a época dos grandes oradores, eufóricos eeloquentes, além de Jacob Freitas Atallah, os deputados Amizael Gomes da Silva,Cloter Mota, José Abreu Bianco, Tomás Correia e Amir Lando.

Membro fundador do Instituto Histórico e Geográfico deRondônia (seu primeiro presidente), lembro-me de que em uma das reuniões dainstituição, indaguei-lhe porque não escrevia livros, respondeu com muito bomhumor: “Autor de livro é como cantador,só presta bom”. O senso de responsabilidade e o escrúpulo exagerado otornaram exigente com seus trabalhos. Lamentamos sua teimosia em não publicarum livro, atendendo às solicitações que lhe eram feitas. Muitas vezes aoencontrá-lo, comentava: “Jacob, lembre-sedo livro que você deve à Rondônia”. Mas Jacob não atendeu a reivindicação.Pouco escreveu, em relação ao muito que sabia. Hoje entendo a ausência do seulivro. É que o culto Jacob Atallah, criado nas barrancas do Madeira, não tinhatemperamento de se comprometer longo tempo com páginas escritas. Seu espíritoera livre, como livre é a cultura e a liberdade tinha para ele o sabor dafelicidade suprema.

Outro traço característico de Jacob Atallah: médicohumanitário, cumpria pontualmente os deveres compatíveis com a profissão,aliada a bondade, a fraternidade e a solidariedade com os humildes.

Como rondoniense que sou, sinto-me envaidecida pelotrabalho realizado pelo conterrâneo que acompanhou com dedicação e carinho meupai, seu grande amigo, Ary Tupinambá Penna Pinheiro, à época da doença quedeterminou sua partida. A amizade fraternal que os unia, encantava-me. Meu pai,quando Jacob foi candidato a prefeito de Porto Velho, se encontrava com a visãodeficiente, mas foi dar o seu voto com entusiasmo. Como não prestigiar o amigocandidato? Fez campanha, afirmando: “Acreditona sua honestidade e competência, recomendo que votem em Jacob”.

Por isso tudo, pela dívida de amizade, pela gratidão e oconvívio de muitos anos com Jacob Atallah, autorizo-me a escrever a expressão: “Foi uma vida fecunda, absorvida no bem e noestudo”.

 

*Yêdda Pinheiro Borzacov, da Academia de Letras de Rondônia, do Instituto Históricoe Geográfico de Rondônia, vice-presidente do Memorial Jorge Teixeira, daAcademia Histórica Militar Príncipe da Beira e colunista do site Gente deOpinião.

Livros para conhecer a História do Amazonas e de Manaus

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A quantidade de livros sobre a História do Estado do Amazonas e de sua capital, Manaus, é vasta. Desde pelo menos 1884, com a publicação do Almanach administrativo, histórico, estatístico e mercantil da Província do Amazonas, escritores apresentam obras de síntese, ensaios e pesquisas acadêmicas sobre a História da região. Nesse texto, listei 21 livros (que fazem partes de minhas leituras) que considero essenciais para conhecer a História do Amazonas e a História de Manaus. Alguns ainda estão disponíveis em livrarias. Outros, no entanto, dada a antiguidade e raridade, podem ser encontrados em sebos ou já se encontram esgotados.
HISTÓRIA DO AMAZONAS:
À margem da História (1909) – Euclides da Cunha foi um dos primeiros intelectuais que buscaram interpretar a Amazônia histórica e socialmente. À margem da História é o resultado de inúmeros ensaios produzidos por Euclides durante sua participação na expedição de reconhecimento do Alto Purus. A grandiosidade da natureza impressionou o escritor fluminense, que passara a compreender aquele mundo natural como estando em processo de “gestação”, o qual tinha por habitante o “intruso”, o homem amazônico. O escritor mostrou-se ser um pesquisador arrojado, utilizando para a produção de seus ensaios os relatos de viajantes, estudos geográficos, etnográficos e sociológicos. A tese de Euclides combinava a Amazônia e o intruso, a natureza e o homem. Em outras palavras, era de determinismo geográfico. Para o autor, a natureza “infernal” amansava, isolava e dominava a vida do amazônida, processo de controle acrescido do sistema de trabalho semi-escravo da extração do látex. É a primeira vez que a Amazônia e seus habitantes foram pensados, não de forma poética ou saudosista, mas sob o prisma de uma crítica a sua realidade.

História do Amazonas (1931) – Arthur Cezar Ferreira Reis (1906-1994) pode ser considerado o maior historiador que o Amazonas já teve. Foram mais de quatro décadas dedicadas à pesquisa e à escrita, que resultaram em nada mais nada menos que 38 obras publicadas tanto no Amazonas quanto em outros países. Homem de estado, governador durante o Regime Militar, suas obras são caracterizadas pela presença da perspectiva política nos desdobramentos da evolução histórica do Amazonas. Em 1931, com 25 anos de idade, Arthur Cezar publica História do Amazonas, trabalho de grandes proporções e assentado em farta documentação. Arthur Reis aplica, nessa obra, o rigor histórico da pesquisa documental, construindo uma narrativa fluida, rica e viva, bem ordenada, tecendo uma interpretação político social do Amazonas, fruto das ações do Estado português e depois do Estado Republicano.

Topônimos amazonenses: Nomes das cidades amazonenses, sua origem e significação (1967) – Muitos de nós já se perguntaram quais as origens dos nomes dos municípios que formam nosso Estado, nomes curiosos como Barreirinha, Urucurituba e Carauari. O juiz Municipal e de Direito Octaviano Mello produziu, em 1940, um trabalho sobre a Geografia, a História e a Etimologia de cidades como as anteriormente citadas. Apenas em 1967, de forma póstuma, o Governo do Estado do Amazonas publicou essa obra, intitulada Topônimos amazonenses: Nomes das cidades amazonenses, sua origem e significação. Por mais que atuasse na área do Direito, em outros trabalhos Octaviano mostrou-se grande especialista e erudito em Geografia, História, Etnografia e linguística. Nesse livro o autor não se prende apenas à descrição dos elementos naturais, dedicando boa parte de suas análises aos elementos humanos e etimológicos da região.
Dicionário amazonense de biografias (1969) – A biografia é um campo com muitas possibilidades em nosso Estado, pois ainda se desconhecem as trajetórias de muitas de nossas personalidades. Inúmeros estabelecimentos escolares, logradouros e ruas possuem nomes em sua maioria desconhecidos pela população. Partindo dessas ideias, Agnello Bittencourt, o lendário professor do Colégio Dom Pedro II (digo isso sem exageros, pois foram 52 anos dedicados ao ensino), publicou em 1969, após anos de pesquisa, o Dicionário amazonense de biografias – vultos do passado. Nesse dicionário são encontradas as biografias de figuras como Lobo D´ Almada, Leonardo Malcher e Luiz Antony.
A expressão Amazonense (1978) – O sociólogo Márcio Souza encerra uma linha de elogios e exaltação da cultura burguesa da economia gomífera em 1978, com a publicação de A Expressão Amazonense: do colonialismo ao neocolonialismo. Para o autor, durante o apogeu da borracha, o Amazonas esteve bastante alienado, com sua capital sendo “a única cidade brasileira a mergulhar de corpo e alma na franca camaradagem dispendiosa da belle époque”. Acrescenta ainda que ela não era “verdadeiramente uma cidade, mas decoração do sonho e do delírio, microcosmo das doenças do espírito burguês com toques de selvageria e grossura”, cujo novo estilo de vida contrastava com sua linhagem portuguesa, a tornando um verdadeiro cenário para o colonialismo.
O Amazonas na época imperial (1989-90) – Livro denso de mais de 300 páginas, O Amazonas na época imperial, do escritor Antônio Loureiro, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, cobre o período que vai de 1852 até o advento da República. Como fontes, Loureiro utilizou relatórios, falas e exposições dos presidentes e vice-presidentes desse período, de forma que a narrativa é constituída da visão desses homens que serviram ao Império no Amazonas. O conteúdo é rico em dados estatísticos das atividades comerciais e administrativas do Amazonas nessa época, sendo a obra de fundamental importância para os estudos que lhe sucederam.
Breve História da Amazônia (1994) – O livro Breve História da Amazônia, do sociólogo Márcio Souza, surgiu da necessidade que este encontrou na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, em encontrar livros síntese sobre a região para seus alunos do curso de Imagens da Amazônia, do Departamento de Espanhol e Português. Márcio Souza idealizou um livro para aqueles que necessitavam de uma introdução geral sobre a região. O grande pioneirismo e diferencial dessa obra é que o autor abarcou, sem a pretensão de preencher a lacuna existe, a Amazônia de uma forma geral, tanto a brasileira quanto aquela formada por outros países da América do Sul, a Amazônia plural onde são falados, além do português, o espanhol, o inglês, o holandês e línguas nativas. É uma ótima leitura para aqueles que pretendem se familiarizar com a História da região antes de se aprofundarem em obras mais densas.
Ribeiro Junior – Redentor do Amazonas (Memórias) (1997) – O período Tenentista no Amazonas ainda é pouco estudado. Eneida Ramos Ribeiro, filha de Ribeiro Júnior, líder do movimento que instalou o governo tenentista no Amazonas em 1924, é a autora desse livro de memórias. Além de suas memórias familiares e das memórias de amigos de seu pai, Eneida utilizou jornais, revistas e outros livros para compor seu trabalho. A obra tem uma das narrativas mais interessantes, com um ritmo mais acelerado, como se Eneida não tivesse vontade de parar de escrever. A partir de cada capítulo, que sempre parte dos depoimentos familiares para os mais gerais, temos as peças de um quebra cabeça que nos permite compreender as motivações daquela personagem que encabeçou um movimento tão importante mas ao mesmo tempo tão desconhecido em nosso Estado.
A Grande Crise (2008) – Antônio Loureiro, em A Grande Crise, com um grande arsenal de dados estatísticos e bibliográficos, analisa a derrocada da borracha em uma perspectiva nacional. O Brasil, para o autor, sentiu os efeitos da crise, pois dependia da Amazônia para a obtenção das libras esterlinas, necessárias para o pagamento da dívida externa, para equilibrar o preço do café e urbanizar a capital federal; mas continuava alheio à região. As críticas, em sua maioria, são feitas à omissão da União, que tardiamente tomou medidas que se mostraram ineficazes ao combate da crise; outras são feitas aos empresários e outros trabalhadores que enviavam altas somas de dinheiro para suas terras de origem, descapitalizando a região.
O fim do silêncio: presença negra na Amazônia (2011) – Patrícia Melo Sampaio, professora do Departamento de História da UFAM e reconhecida como uma das maiores historiadoras da região, põe fim a um grande silêncio presente em nossa historiografia clássica: a presença de negros na região amazônica. Por muito tempo, a presença dessas personagens foi abafada na historiografia clássica, que as tratava de forma estatística, afirmando uma presença ínfima, e sedimentando suas culturas. O trabalho, organizado por Patrícia Sampaio, conta com artigos de alunos pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia, nos quais são abordadas temáticas variadas, que vão desde cartas de alforria, fugas de escravos, festas religiosas a elementos contemporâneos como o hip-hop. A obra reflete a temática da presença negra em nossa região e dá visibilidade a personagens que fazem parte de nossa trajetória em sociedade.
Os samurais das selvas: A presença japonesa no Amazonas (2012) – Aguinaldo Nascimento Figueiredo, professor da rede pública e membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, escreveu Os samurais das selvas: A presença japonesa no Amazonas, para que ficasse registrada a trajetória dos imigrantes nipônicos que para cá vieram em diferentes momentos. A imigração de japoneses para Amazonas teve grande influência em Maués, Parintins, Manacupuru e Manaus. A vinda dessas pessoas é contextualizada aos momentos mais sensíveis de nossa Estado, quando este ainda sofria os efeitos da crise, e políticas econômicas como a do cultivo da juta e do guaraná, e de colonização, eram implantadas para tentar reverter esse quadro de estagnação. Esse é mais um dos trabalhos de Aguinaldo Figueiredo marcado pela escrita simples, acessível a todos os públicos, e pelo cuidado no trato das fontes.
HISTÓRIA DE MANAUS:
Um olhar pelo passado (1897) – Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, jornalista filho de João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, o primeiro presidente da Província do Amazonas, produziu esse livro em homenagem ao governador Fileto Pires Ferreira. Nessa obra, Bento de Figueiredo mescla tanto a pesquisa em arquivos públicos da capital, de Barcelos, de Itacoatiara e de Tefé, quanto sua própria vivência, seus testemunhos oculares da cidade que viu durante o período provincial. Boa parte do livro é constituída de informações da Geografia antiga da capital, da evolução das vias públicas e de suas nomenclaturas.
Fundação de Manaus (1948) – Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004) foi sem dúvidas um dos maiores escritores de nossa cidade. Seus ensaios histórico-culturais são de uma qualidade ímpar, sendo reconhecidos nacional e internacionalmente. Em Fundação de Manaus, Mário Ypiranga se propõe a produzir uma obra que, naquele período, suprisse a carência de informações históricas sobre a cidade. O livro parte da fundação da Fortaleza de São José da Barra e vai até a década de 50 do século XIX. Por ser um ensaio, o livro possui muitas ideias e reflexões sobre o que é a cidade, seus habitantes, sua cultura. Para Mário Ypiranga, Manaus é produto da falta de organização e planejamento de seus fundadores, o que não lhe possibilitou ter uma “adolescência”, pois a urbe passa de um estado acanhado, encerrada por seus limites naturais, para uma evolução jamais vista a partir do final do século XIX.
Roteiro Histórico e Sentimental da Cidade do Rio Negro (1969) – Num primeiro momento, o livro de Luiz de Miranda Corrêa pode parecer um guia turístico. São abordados festivais folclóricos, lugares para fazer compras, hotéis etc. Mas, com uma leitura mais aprofundada, logo vemos que trata-se de um elogio saudosista ao período da borracha, à influência europeia e à ação das elites. Manaus se transformava, com obras monumentais e serviços públicos de qualidade. “Uma sociedade inteira passava de um estágio primitivo para os requintes da civilização europeia”. A descrição dos palacetes, bares, hotéis e bordéis são vívidas. As elites elogiadas são aquelas formadas com o nascimento da República, enquanto que “as famílias mais antigas do Amazonas, o pequeno número de privilegiados do Império, […] ou se adaptavam às novas condições de vida da região ou seriam, como vários o foram, tragados pelo redemoinho dos interesses da borracha”.
Roteiro Histórico de Manaus (1969) – Mais uma vez um livro de Mário Ypiranga Monteiro. Dessa vez, o autor escreveu um denso roteiro, dividido em dois livros, de logradouros, construções e ruas da cidade, abordando as origens de suas nomenclaturas. Não são privilegiados lugares apenas do Centro, como tradicionalmente ocorre, mas também logradouros de outros bairros. É um clássico para os que procuram conhecer as ruas de Manaus.
Manaus – História e Arquitetura (1852-1910) (1997) – Otoni Moreira Mesquita, professor aposentado da Universidade Federal do Amazonas, publicou, em 1997, em forma de livro, sua tese de mestrado, Manaus – História e Arquitetura (1852-1900). A história da cidade é vista a partir da arquitetura e do urbanismo. Com um recorte histórico que parte do período provincial até a década de 10 do século XX, Otoni Mesquita contextualiza as transformações urbanísticas pelas quais a capital foi passando, com seu apogeu de construções durante o “boom” da economia gomífera. Cada construção analisada é minuciosamente descrita em seus aspectos arquitetônicos. Na tese de Otoni, compreende-se que essas transformações fazem parte de um “rito de passagem”, com a inserção da Amazônia ao mundo que se apresentava como moderno, obedecendo aos padrões vindos da Europa. Toda uma sociedade provinciana, cujo ritmo era ditado pela natureza e pelas limitações a ela impostas, sofre mudanças marcantes.
A ilusão do Fausto – Manaus 1890-1920 (1999) – O ensaio de Edinea Mascarenhas Dias, A Ilusão do Fausto – Manaus 1890-1920 (1999), é um estudo que, ao mesmo tempo em que é esmiuçado o processo de transformação e desenvolvimento da cidade e de suas políticas públicas, são apresentadas as contradições do espaço urbano pensado pelas elites e pelo poder público, que criou mecanismos que, ao mesmo tempo em que ordenavam a urbe, segregavam pobres, prostitutas, analfabetos e desocupados. Tem influências de Edward Thompson, com sua crítica ao marxismo estruturalista; e de Max Weber, com seu conceito de estratificação social. O livro é dividido em duas partes: A cidade do Fausto e A falácia do Fausto.
Manaus: Praça, café, colégio e cinema nos anos 50 e 60 (2002) – O livro de José Vicente de Souza Aguiar, professor da Universidade do Estado do Amazonas, é sobre a vida cultural da cidade entre as décadas de 1950 e 1960, tendo como centro irradiador a Praça da Polícia em conjunto com o Cine Guarany, o Café do Pina e o Colégio Dom Pedro II, espaços que marcaram várias gerações na capital. Reconhecendo as dificuldades em encontrar uma quantidade significativa de fontes escritas, José Vicente recorrer ao auxílio da memória, entrevistando pessoas que praticamente dedicaram metade de suas vidas a esses espaços públicos. Além da oralidade, foram utilizados periódicos (jornais e revistas) e documentos oficiais. O ponto de partida de sua pesquisa é a fundação do Clube da Madrugada, em 1954, movimento que marcou as artes e a literatura local; e vai até o final dos anos 1960, quando a instalação da Zona Franca instaurou uma nova dinâmica na vivência nesses espaços urbanos.

Evocação de Manaus: como eu a vi ou sonhei (2002) – Memórias, memórias de tempos mais amenos. Nesse livro, de caráter saudosista, publicado em 2002, o senador Jefferson Péres (1932-2008) nos transporta, através de uma narrativa vívida, para a Manaus dos anos 40 e 50. O autor faz descrições minuciosas da vida familiar, dos costumes, da vida material e dos acontecimentos políticos do período, como a presença e as atividades dos norte-americanos na cidade durante a Segunda Guerra. Jefferson Péres nos descreve uma cidade de pouco mais de 100 mil habitantes, anestesiada pelos efeitos da crise econômica, que começava a ditar sua vida em um ritmo mais lento, que conservava valores tradicionais e prezava pela ordem.
Manaus, entre o passado e o presente (2009) – O empresário Durango Duarte não é historiador, mas um grande entusiasta desse campo. Manaus, entre o passado e o presente, é organizado por Durango mas produzido por uma grande equipe de pesquisadores de centros culturais, institutos históricos e universidades, munida de farta documentação, o que torna o resultado final da obra de grande valor. A obra é bem estruturada e ilustrada, com capítulos para as praças, os portos, as igrejas, os cinemas, as bibliotecas etc, mostrando como esses lugares foram se transformando até o presente. Para aqueles que desejam uma leitura prática mas com qualidade, essa é uma boa escolha.
Monumentos públicos do Centro Histórico de Manaus (2012) – Maria Evany Nascimento, professora da Universidade do Estado do Amazonas, fez um levantamento dos monumentos erguidos na cidade entre 1882 e 1995. O objetivo maior era efetuar o mapeamento desse acervo de obras artísticas dos logradouros públicos do Centro Histórico de Manaus. Outro objetivo, mais ambicioso, era contribuir, de alguma forma, para a preservação desses marcos e obras artísticas, bem como a memória e a história de cada uma delas que fazem parte do patrimônio cultural da cidade, o que implica ainda no resguardo da cultura visual do Centro Histórico. Cada um dos monumentos levantados é analisado, chamando a atenção do leitor o cuidado que a autora teve com os mínimos detalhes, buscando esmiuçar toda a simbologia por trás dessas obras.
CRÉDITO DAS IMAGENS:
Estante Virtual
Skoob
Blog do Coronel Roberto
Livraria Cultura
Livraria Valer

Acervo pessoal

A DATA DE ALUÍZIO PINHEIRO FERREIRA

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Hoje, 12 de maio de 2017, se vivo fosse, o Nacionalizadorda Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e artífice da criação do Território Federaldo Guaporé (atual estado de Rondônia), o oficial do exército brasileiro,Aluízio Pinheiro Ferreira, completaria 120 anos.

E quando esta data ocorre, quanta saudade dele assoma ànossa mente, impregnando-se em nossa alma, na certeza de que sua imagem, seuexemplo e sua obra continuam perenes, como provas de uma lição de existência profícuae profunda.

O jovem tenente Aluízio Pinheiro Ferreira chegou a terrashoje pertencentes ao estado de Rondônia, em 1925, após participação narevolução de 1924, contra o governo do presidente Artur Bernardes. Para escaparda prisão (que lhe seria inevitável), preferiu refugiar-se no vale do Guaporéem um seringal da empresa Leal & Figueiredo, em seguida transferindo-separa o seringal de Américo Casara, no rio Corumbiara, convivendo com os índiosMacurape, no alto Rio Branco, o São Simão de alguns mapas. Pesquisou e estudoua cultura material e imaginária da tribo, escrevendo um memorial: “Em Prol doGuaporé”.

Em 1928, após anos de exílio, premido pelas saudades dafamília, Aluízio decidiu apresentar-se às autoridades militares do Comando da8ª Região Militar, em Belém. É detido prisioneiro no 26º BC, sob acusação dedeserção, relacionada ainda ao movimento de 1924. É absolvido por unanimidadepelo Conselho Militar de Justiça da 8ª Região Militar, entretanto, houveapelação ao Superior Tribunal Militar e a sentença de absolvição foitransformada em pena de prisão de sete meses, cumprida no quartel do 26º BC, emBelém.

No dia 18 de fevereiro de 1929, Aluízio envia ao generalRondon, o Memorial “Em Prol do Guaporé”, recebendo pelo Serviço do Rádio doExército um radiograma do grande sertanista, datado de 21 de fevereiro de 1929,acusando o recebimento do documento e o convidando para, quando fosse ao Rio deJaneiro, ir visitá-lo no QG.

Aluízio, cumprida a pena, viajou para o Rio e, ao visitaro general Rondon, prestou um depoimento completo sobre o vale do Guaporé,região que o acolheu numa fase difícil de sua vida.

Rondon, profundamente interessado e percebendo deimediato o valor e o idealismo patriótico de Aluízio Pinheiro Ferreira,convidou-o para integrar a Comissão por ele dirigida. Aceitando o convite,Aluízio regressou a Porto Velho e apresentou-se ao Chefe do 3º DistritoTelegráfico de Mato Grosso, em Santo Antônio, a famosa Zona Norte, cuja chefiaacabara de assumir o major Emanuel Silvestre Amarante, genro de Rondon.

Segundo Aluízio Ferreira, a Zona Norte “era repartição de má fama”, com o pagamentodo pessoal atrasado em um ano; funcionários nomeados em Comissão sem o mínimode garantia de estabilidade; estações em ruínas e desaparelhadas; posteação elinhas em frangalhos; sertão despoliciado e agressivo, valhacouto de marginais,onde o cangaceirismo imperava; dívidas aos fornecedores ultrapassando 800contos de réis, moeda da época.

A primeira viagem ao sertão foi organizada e realizada emmuares, resultando em lamentável tragédia: no dia seguinte à chegada daComissão à Cachoeira de Samuel, no rio Jamari, o major Amarante adoecegravemente, atacado por infecção tífica, obrigando a Comissão a regressar aPorto Velho, por água, até o hospital da Candelária, onde o major faleceu doisdias mais tarde.

Os restos mortais do major Amarante foram enterrados noCemitério dos Inocentes, em Porto Velho.

De ordem do general Rondon, assume a chefia da Comissão,cuja sede é transferida de Santo Antônio para Porto Velho, o tenente Aluízio PinheiroFerreira.

Enfrentando corajosamente as imensas responsabilidadesque o esperavam, Aluízio Ferreira realizou um trabalho digno e vitorioso; em1930 reconstituiu a linha telegráfica, de Vilhena a Porto Velho, economizandono seu trajeto 50 km, entre Cachoeira de Samuel e Caritianas (curva de SãoPedro). Nesse mesmo ano, foram instaladas as estações de Vilhena, PresidentePena e Cachoeira de Samuel e realizadas as manutenções das estações de Três Buritis,Barão de Melgaço, Pimenta Bueno, Presidente Hermes, Caritianas, Jaru,Ariquemes, Porto Velho, Jacy-Paraná, Mutum-Paraná, Abunã, Vila Murtinho eGuajará-Mirim. Foi realizada, ainda, a viagem de exploração e reconhecimentoaos rios Tanaru e Apidiá (Pimenta Bueno), na barra do Corumbiara, afluente doGuaporé. Aluízio, ao fazer seu relatório, enfatiza que o levantamento éimperfeito devido à total ausência de instrumento de qualquer natureza. O seutrabalho constitui valiosa referência e contribuição para a geografia daregião.

Aluízio costumava contar que naquela época “poucas pessoas se atreviam a penetrar pelalinha telegráfica, pois salteadores e ladrões campeavam de Porto Velho aVilhena”. Recebendo ordens superiores para acabar essas violências, Aluízio,às margens do rio Jaru, estabeleceu o seu posto de comando, de onde destacavaindivíduos adestrados na missão específica de aprisionar ou pôr em fuga osmalfeitores da área. E a receita aos males sociais da inóspita região que aprática de vida lhe inspirou foi aplicar um processo de justiça sumária,aplicando-a segundo métodos costumeiros, ajustados ao maior ou menor grau depericulosidade do criminoso. Conseguiu através desse procedimento impor ajustiça no sertão.

Aluízio Ferreira, quando em 1980, no Rio de Janeiro, diasantes de falecer, entregou-me seu arquivo particular (tive esse privilégio),contou-me: “foram duros e árduos os anosde 1928, 1929 e 1930. Moralizei os serviços, paguei as contas; obtive para ostelegrafistas e inspetores, num concurso especialíssimo, aprovação econsequente nomeação para cargos efetivos; reconstruí a linha-tronco e o ramalde Guajará-Mirim, consertando os fios e posteação”.

Rondon deu-lhe apoio irrestrito e integral confiança, quese consolidou definitivamente em 1930, quando Aluízio e o grande sertanista seencontraram, em Santo Antônio do Madeira. Rondon realizava mais uma das suasciclópicas inspeções de fronteira: Trombetas, Rio Negro, Cucuí, Tabatinga,Javari, Acre, Abunã. A madrugada já o encontrava em plena mata virgem e, aomesmo tempo, almoço às 5h; lombo de burro, banco de canoa ou marcha a pé o diatodo, ao sol ou à chuva, até às 17h, quando parava a tropa para comer e dormir.Não era permitida fraqueza.

E, Aluízio escreve em crônica intitulada “Rondon”: “Foi assim que, naquele março de 1930,entregou-me, em Santo Antônio, 40 muares carregados e marcou encontro em PortoAmarante, no planalto de Vilhena; ele seguiria por Guajará-Mirim, Mamoré,Guaporé e Cabixi; eu seguiria pelo picadão da linha telegráfica com o comboio,atravessando a nado os rios transbordantes e arrebanhando os Nhambiquaras queencontrasse pelo caminho”.

Aluízio compreendeu de imediato o teste a que Rondon osubmetia e iniciou a viagem. Ao chegar a Porto Amarante antes de Rondon,construiu uma jangada e desceu o Cabixi e foi aguardar Rondon numa curva dorio. Surpreendido, o sertanista certamente aprovou Aluízio no teste.

Em todas as histórias e fatos que contava, Aluízio semprenarrava algo divertido e que fazia rir.

Eis um deles: ao regressar a Porto Amarante, Aluízioentregou a Rondon um grupo de Nhambiquara e o tuxaua Lacundê e suas novemulheres, uma das quais tentava convencer Aluízio a trocar pela sua lanterna depilha.

Sua passagem pela Comissão Rondon é pontuada por umasérie de trabalhos relevantes e que, com o passar do tempo, ganharam aindamaior amplitude e dimensões nacionais.

Em cumprimento às instruções determinadas pelo generalRondon, Aluízio Ferreira iniciou no dia 9 de junho de 1930 uma viagem dereconhecimento aos rios formadores do Ji-Paraná, em motor de popa, cedido pelaInspetoria de Fronteiras à Zona Norte do 3º Distrito Telegráfico de MatoGrosso. Partiu da barra do Corumbiara, afluente da margem direita do Guaporé, eem seu relatório enfatiza: “O Corumbiaranão é propriamente um rio; é, antes sangradouro do pantanal vastíssimo quedemora cerca de 80 km da barra (dois dias a motor). Aí termina ele a partenavegável, estirando-se em igapós, campos alagados, baías e buritizais a perderde vista, no labirinto onde fracassam os mais decididos exploradores que nãodispunham de mateiro. São os lugares conhecidos por Buritizal, Molunga eSucuri”.

A expedição passou pela Ilha do Bom Destino, BarrancoAlto, rios Tanaru, Trincheiras e Pequeno Igarapé, afluente do rio Verde. Passarampela aldeia do Capitão Timão, porém a mesma se encontrava deserta. Guiadospelos índios intérpretes, tomaram uma trilha e foram deparar com a nova aldeiada tribo Mapimó, que estava em festa, comemorando a visita do capitão Ariúma, opoderoso e afamado capixanã daquelas plagas. Aluízio contava que assistiu a umjogo interessantíssimo entre os índios, consistindo no lançamento para dentrode duas varas dispostas como as traves de um “goal” de futebol, grupo contragrupo, uma bola macia de borracha, empregando somente rápidos movimentos decabeça. Esse jogo, ressalta Aluízio, além da diversão que proporcionava, tinhafim utilitário: as partidas eram apostadas a flechas e hastes de taboqui, umaou mais para os jogadores de cada grupo.

Os índios receberam a expedição com grandes demonstraçõesde amizade e alegria e Aluízio batizou o igarapé, afluente do Verde, ondepassaram aquela noite, de igarapé Timão.

Nas proximidades desse igarapé, depararam com a picada deKoeller & Cia., que partia do rio Verde, entroncando com a empresa Casara,formando via comum até às margens do rio Tanaru. Por um convênio entre as duas empresas,a exploração das terras desse rio estava dividida: margem esquerda, Koeller;margem direita, Casara. Nessa época a exploração da borracha já estavacompletamente abandonada, em consequência da sua desvalorização.

Prosseguindo, a expedição marginou o rio Verde, indo atéo ponto onde este se bifurca em dois braços, conhecido, o do nascente, porigarapé de Pedra. Aluízio assinalou, três quilômetros além do igarapé de Pedra,o divisor das águas que correm para o Corumbiara e para o Tanaru, marcando, aformão, em um cumaruzeiro da margem esquerda da picada a passagem da expedição.Vinte anos mais tarde, D. Francisco Xavier Rey, bispo de Guajará-Mirim,encontrou as gravações na casca das árvores.

Atravessando seringais, cauchais e aldeias indígenas, aexpedição, na tarde de 25 de junho de 1930, chegou ao rio Pimenta Bueno(Apidiá, na língua tupi), defrontando com barracas abandonadas de caucheiros que,tendo penetrado pelo Corumbiara, aí trabalharam em 1927 e 1928, sem saberem aocerto onde estavam localizados. Foi o caucho fabricado por essa gente que a empresaCasara, numa aventura justificada pela necessidade de poupar fretes, fez descer90 toneladas em junho de 1920, sem saber onde iria aportar. Foram felizes osaventureiros, só perdendo 25 toneladas nas cachoeiras do percurso e após doismeses de esforços e sacrifícios, avistaram a estação telegráfica de PimentaBueno. Aluízio os encontrou na primeira viagem de inspeção à linha-tronco, emsetembro de 1930, exaustos e desanimados de concluir o trecho que faltava paradesembocar no Madeira. A Comissão os socorreu com alimentos e pessoal e, se nãofossem esses recursos, aquela avultada partida de goma elástica, que descia embalsas, teria sido dispersada nas inúmeras cachoeiras do Ji-Paraná.

A expedição prosseguia, aportando à jusante de umacachoeira, logo reconhecida como impossível de transpor. Novamente, na margemdireita de Alto Barranco, em um cumaruzeiro, a expedição assinalou com formão asua passagem.

Navegaram o rio Pimenta Bueno até a cachoeira 15 deNovembro e situaram no mapa as decantadas minas de Urucumacuan – o que originouem 1941 a organização da Comissão Dequech. Reconheceram os córregos Castanha eCachoeiras, este último correndo sobre pedras basálticas pretas.

No dia 26 a expedição visitou a aldeia dos Massacá,situada à margem direita do Apidiá, e constatou que alguns indivíduosapresentavam particularidades fisionômicas peculiares à raça branca: peleclara, nariz ligeiramente aquilino, cabelos castanhos. Indubitavelmente estavaclaro que houve o cruzamento dos Massacá com o branco.

Aluízio registrou que os Massacá eram amigos e negociavamcom os Mapimó. Realizavam frequentes visitas e casavam numa e noutra tribo.Embora com dialetos diferentes, seus usos e costumes eram semelhantes, sendo degrande significação o valor que davam ao sal.

Valioso trabalho Aluízio escreveu sobre as tribos quecontatou. Sem ter formação antropológica, soube registrar e analisar os usos ecostumes dos índios. Fez amizades com os tuxauas e destacou que dentre osprodutos de suas lavouras, pela qualidade e tamanho invulgar, uma variedade deamendoim chamava atenção. Os tuxauas tinham os nomes de Mocoaré, Baxaté,Massacá, Matinan, Cocorô, Oadi, Matiô, Purá, Aroí e Nundê.

Oadi, de todos, é o que apresentava características maisfortes da raça branca. Confrontou o dialeto dos Massacá com o dos Palmela,índios brancos citados por João Severiano da Fonseca na “Viagem ao redor doBrasil”, para verificar possíveis ligações entre eles. Foi infrutífera ainvestigação, tudo completamente diferente.

Deixando o Apidiá, ultrapassaram suas corredeiras ecachoeiras, sendo necessário abrir picada para varar a carga por terra.

No dia 1º de julho, transposta a cachoeira Primavera,chegaram à estação telegráfica de Pimenta Bueno. Infelizmente, devido à péssimaqualidade do material fotográfico, a expedição perdeu as 136 chapas batidas,valiosíssimas para a nossa História, porém, os relatórios comprovam o trabalhorealizado, sendo que alguns setores do nosso corpo social. Escreve ohistoriador Emanuel Pontes Pinto: “… odiscriminaram e a outros pioneiros, como marginais da História, por acharemmelhor esquecê-los. Muitos sabem o que eles fizeram, mas deixaram de recordarestes fatos por considerarem conveniente a si a omissão. Não encontramos, pormais que nos empenhemos em procurar, nenhuma razão para justificar oprocedimento de quem, sobre este assunto, mantém ainda a mente trancada sem sedar conta do tempo. Já saímos do passado em que essas pessoas ainda seencontram, sem sentirem o reflexo do presente”.

Aluízio Ferreira, ao escrever crônica sobre Rondon,afirmava ser o “último dos seuslegionários do sertão. Mas, sem falsa modéstia, reconheço e proclamo que mealistei na falange construtora da sua glória, em contraste à posição dos queexploravam a fama do seu merecimento cívico, alguns usando indevidamente e atéabusando do nome do grande brasileiro”.

A amizade que Aluízio devotava a Rondon era recíproca eAluízio retribuiu a confiança e o apreço que Rondon lhe devotava, impedindo comsuas credenciais de revolucionário histórico que o Ministério de Viação e ObrasPúblicas, após a vitória do movimento de 1930, num ato mesquinho e ignorando oque representava para o Brasil a ciclópica epopeia da Comissão Rondon, mandasseenrolar os fios e derrubar os postes da linha telegráfica Cuiabá/PortoVelho/Guajará-Mirim. O tenente Juarez Távora chegou a acusar publicamenteRondon de “dilapidador dos cofrespúblicos por distribuir pelo sertão bruto linhas telegráficas aos índios, paralhes servir de brinquedo e, por isto, em qualquer país civilizado ou policiado,aquele general estaria preso”.

Aluízio Ferreira imediatamente assumiu a defesa do velhogeneral, revidando as infundadas acusações e proclamando serem os agressores “Felizes cidadãos fardados, regiamenteinstalados nas capitais, traçando mapas fantásticos, fazendo relatóriosincríveis, gastando dinheiro a rodo, descrevendo o sertão desbravado por Rondon,homiziando índios antropófagos, cobras grandes e mapinguaris hediondos”.

O ministro José Américo de Almeida, admirando econcordando com a posição firme de Aluízio Ferreira ao defender seu antigochefe, convidou-o a substituir Rondon na chefia do já então 3º DistritoTelegráfico de Mato Grosso. O último legionário de Rondon costumava dizer quenão substituiu, apenas sucedeu o grande Rondon.


 

*Yêdda Pinheiro Borzacov, da Academia de Letras de Rondônia, do Instituto Históricoe Geográfico de Rondônia, vice-presidente do Memorial Jorge Teixeira, daAcademia Histórica Militar Príncipe da Beira, colunista do site Gente deOpinião e do jornal Alto Madeira.



Os Centenários de Porto Velho no decurso dos anos de (2000/2017 os de maiores relevos).

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I – Reinicio da construção da ferrovia Madeira Mamoré, em 04 de julho de 1907, pela Construtora May Jekyll Randolph, contratada pelo empresário norte-americano Percival Farquhar, presidente da empresa Madeira-Mamoré Railway Co. Ltda, após as diversas tentativas frustradas no século XIX por diversas empresas inglesas, norte americanas e pelo governo imperial brasileiro. A May Jekyll contrariando  a determinação do Tratado de Petrópolis, transferiu de Santo Antônio do Rio Madeira, para o Ponto Velho também conhecido como Porto do Velho, distante sete quilômetros jusante do primeiro, para tanto grilaram o terreno do seringal Crespo, de propriedade do empresário Coronel José da costa Crespo.

II – Simultâneo a construção das instalações do ponto inicial da ferrovia, começou a surgir um povoado constituído por gente de diversificadas origens, sem vinculo com a Madeira-Mamoré, habitando em um desordenado aglomerado de barracas por eles construídos em terras devolutas do município de Humaitá do Estado do Amazonas, vivendo em constante litigio com os administradores da ferrovia os quais pretendiam expulsa-los de suas proximidades, alegando serem inconvenientes invasores de espaço territorial lhe pertencente. Confronto que perdurou até 1931, quando o governo federal brasileiro assumiu a administração da Madeira-Mamoré. O Porto Velho dos americanos foi gradativamente, absorvido pelo Porto Velho dos brasileiros, como eram denominados.

Assim em 04 de julho de 2007, ocorreu o centenário do reinicio da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, vitoriosamente concluida em 1912. E o centenário do surgimento da cidade de Porto Velho, realizado por audácia e persistência de anônimos desbravadores.
III – Em 26 de julho de 2010, Centenário dos Correios e Telégrafos, instalado no povoado de Porto Velho nas condições de Agência Postal, em 26 de julho de 1910, chefiada pelo agente Felinto Costa. Em 1940, então como Correios e Telégrafos teve a inauguração do prédio sua sede até o presente, pelo Presidente da República, Dr. Getúlio Dornelles Vargas, em visita a Porto Velho (11 a 13 de outubro).

IV – Poder Judiciário de Rondônia atingiu o seu centenário em 13 de outubro de 2013, criado inicialmente na condição de Termo Judiciário de Porto Velho, instalado no povoado deste mesmo nome em 30 de janeiro de 1914. Foram nomeados para administra-lo Dr. Natanael de Albuquerque (juiz); Joaquim Raulino Sampaio, José Braga Vieira e Felinto Costa (suplente de juiz); Francisco Fernandes da Rocha (adjunto de Promotor) e José Vieira  Souza (escrivão e tabelião). Em 31 de agosto de 1917, por intermédio da Lei n.º 900, foi criada a Comarca de Porto Velho, tendo como Juiz de Direito Dr. Joventino L. Themudo e o Promotor de Público Jorge Severino Ribeiro.

V – A 02 de outubro de 2014, ocorreu o Centenário do município de Porto Velho, criado nesse dia e mês de 1914 pela Lei n.º 757sancionada pelo governador do Estado do Amazonas, Dr. Jonathas de Freitas Pedrosa, com sede no povoado do mesmo nome situado na margem direita do Rio Alto Madeira. Sendo instalado no dia 24 de janeiro, em sessão solene, realizada na residência do Intendente Manoel Felix de Campos, situado na Rua dos Portugueses (atual Barão do Rio Branco). Com inicio as nove horas da manhã, presidida pelo Superintendente major reformado do exercito Fernando Guapindaia de Souza Brejense, nomeado para o desempenho desse cargo (prefeito municipal), por intermédio do Decreto s/n, de 24 de dezembro de 1914, expedido pelo governador do estado do Amazonas.
VI – A policia Civil completou o seu centenário, em 1º de dezembro de 2015, criada nesse dia e mês em 1915. Tendo como Delegado de policia o 1º Tenente da Policia do estado do Amazonas Aristides Leite.

Em 1º de março de 2015, ocorreu o centenário da criação da primeira escola de pública municipal, denominada Jonathas Pedrosa(Lei Municipal n.º 05) de 1º de março de 1915, tendo como diretora e docente, a professora Tevelinda Guapindaia.
VII – Em 1º de dezembro de 2016, completou o centenário de primeira eleição municipal ocorrida nesse dia e mês do ano de 1916, para os cargos de Superintendente (prefeito), Intendentes e Suplentes (vereadores) componentes do Conselho Municipal (Câmara de Vereadores). Eleitos pelo Partido Republicano Conservador-PRC, Dr. Joaquim Augusto Tanajura (Superintendente), Luzitano Correa Barreto, José Camargo, Álvaro Dantas Paraguassu, Antônio Sampaio e Otávio Reis (Intendentes); Álvaro de Oliveira Rosas, Bernardino de Almeida Lima, Júlio Coelho Carvalho e Faustino Lopes de Souza (Suplentes de intendente).

VIII – A Loja Maçônica União e Perseverança comemorou o seu centenário no dia 14 de julho de 2016. Foi fundada neste dia e mês do ano de 1916, na Vila de Presidente Marques-MT, atual Abunã por iniciativa do maçom José Pordeus Alencar. Ficando deliberada nessa primeira sessão, sua transferência para o povoado de Porto Velho/AM.
Antes desse evento, em 1909 os maçons de diversas nacionalidades, empregados da empresa Madeira-Mamoré, reuniram-se em assembleia num dos acampamentos e fundaram a Loja Maçônica dos Temporários. Esta funcionou uma única vez conforme relata o engenheiro norte-americano Frank W. Kravingny em seu livro de memorias.

IX – JORNAL ALTO MADEIRA/EURO TOURINHO
15 DE ABRIL DE 2017
O Jornal Alto Madeira fundado pelo competente e dinâmico homem público Dr. Joaquim Augusto Tanajura, em cujo vasto curriculum de profícuos serviços prestados à comunidade, encontram-se os de médico da Comissão Rondon na construção da Linha Telegráfica Estratégica Mato Grosso/Amazonas, os de primeiro prefeito do Município de Santo Antônio do Rio Madeira (1912/1914), os de primeiro Superintendente eleito de Porto Velho (1916). Na primeira edição do Jornal  Alto Madeira, publicada no dia 15 de abril de 1917, no editorial definia o compromisso de “ser uma tribuna em defesa dos interesses sociais, inspiradora de ideais sãs e profícuas”. Compromisso mantido e cumprido na integra por seus sucessores no decorrer destes cem anos de atividades jornalísticas. Os citamos homenageando-os e tendo por objetivo perenizar suas memorias nos anais do patrimônio histórico de Rondônia.
São estas as personalidades:
Dr. Joaquim Augusto Tanajura – fundador diretor proprietário; Sr. Cicinato Elias Ferreira – Diretor proprietário;
Dr. Assis Chateaubriand – proprietário (Diários Associados);
Professor Carlos Augusto de Mendonça – Diretor;
Jornalista Oderlo Beleza Serpa – Secretário;
Sr. José Matheus Gomes – Redator;
Sr. Ignácio Castro Silva – Diretor;
Sr. Arnaldo Fernandes Costa – Diretor;
Empresário Euro e Luís Tourinho – proprietários (Empresa Alto Madeira Ltda.). Tendo como slogan “Para frente em busca do Futuro” .
O Alto Madeira chega aos 100 (cem) anos neste 15 de abril de 2017, vigoroso, produtivo e moderno, núcleo propagador do saber e da cultura, por uma plêiade de competentes profissionais liderados por seu diretor o sempre jovem intelectual EURO TOURINHO. E mais uma seleta escol de colaboradores e correspondentes assegurando-lhe elevado padrão de qualidade e a conquista de sua credibilidade. Não é um simples veículo noticioso, mas algo que o transcende, sendo elemento participativo na formação intelectual e cultural da população constituindo-se em inseparável simbiose com Porto Velho. Surgiram praticamente ao mesmo tempo, cresceram juntos registrando o Alta Madeira os fatos, os episódios da trajetória de nossa atual Rondônia, fazendo a história, sendo ele a própria história.
Jubilamo-nos por termos um jornal do mais elevado quilate, funcionando ininterruptamente, em cem anos sendo uns dos antigos do Brasil.
As nossas congratulações ao Acadêmico honorário da Academia de Letras de Rondônia seu Diretor, EURO TOURINHO.
Mantenha-se: “PARA FRENTE EM BUSCA DO FUTURO”.

Abnael Machado de Lima
Membro efetivo fundador da Academia de Letras de Rondônia

Fonte- Publicações no Jornal Alto Madeira e maiores detalhes no– livro “De Guapindaia a Roberto Sobrinho.

       
  
 
          
 

EURO TOURINHO IDOLO DE RONDÔNIA

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Hoje dia 17 de janeiro de 2017, comemora com merecido jubilo, 95 anos de idade, vividos proveitosamente empenhados na promoção do bem estar social como cidadão integro, amigo leal, condutor dos seus familiares as quais assumiu a criação dos seus irmãos em decorrência do falecimento de seu pai, por ser ele o primogênito. Destemido, com denodo superava os obstáculos surgidos em suas trajetórias, prosseguindo em sua jornada visando o alcance de seus objetivos. Coragem não lhe faltava. Comprovada na compra do jornal Alto Madeira no dia 27 de maio de 1975 de Assis Chateaubriand, o qual alegando dificuldades em mantê-lo, optou por sua extinção. Assim devemos a audaciosa transação de risco empreendida, nos ufanarmos por Rondônia ter um jornal, o qual no dia 17 de abril próximo completa cem anos de ininterrupta edição, sendo um dos mais antigos do país.

Nos seus 95 anos o Euro faz historia e é a história de Rondônia se complementam por sua participação em todos os segmentos da estrutura social, com destaque o cultural.

Afirmam os árabes, para homem alcançar sua plenitude, deve ter um filho homem, plantar uma árvore e escrever um livro. O Euro teve oito filhos, plantou muitas árvores e suas produções jornalísticas coletadas dariam vários livros. Ele é um ser pleno de profícuas realizações em prol do bem estar social.

Rondônia, hoje 17 de janeiro, todos os dias e sempre lhe homenageará em reconhecimento ao seu valoroso empreendorismo proporcionador do seu desenvolvimento social, politico, econômico e cultural.

PARABENS

ABNAEL M. LIMA

Acadêmico/ACLER